O que
caracteriza o progresso civilizatório no âmbito ético-moral? O que podemos
tomar como parâmetro para dizer o quanto as relações interpessoais avançam ou
retrocedem? — Parece-me muito claro que um componente fundamental de tal progresso
reside na disposição para conviver com escolhas e modos de ser alheios, mesmo que eu os considere
ridículos, pervertidos, narcisistas, excêntricos, e uma série de outras
características que apontam para uma idiossincrasia
no modo de vida. Ao mesmo tempo, é evidente que todas essas
diferenças somente devem ser toleradas na medida em que respeitem o espaço de
afirmação de mim mesmo. Essa correlação entre o direito à diferença e a
necessidade de convivência pode ser pensada de inúmeras maneiras, apontando
para uma problemática extremamente complexa, ao redor da qual a ciência
jurídica, por exemplo, se constrói. Infinitos são os casos em que é difícil
estabelecer com clareza até onde se pode legitimar a diferença individual e
quando começa a entrar em conflito com os interesses coletivos.
Essa
análise, entretanto, também possui uma dificuldade de princípio, de um
fundamento geral, anterior à problemática da consideração dos casos em suas
especificidades. Trata-se da exigência de evitar uma perspectiva moralista,
em que o emprego de parâmetros valorativos tende a desconsiderar as
vicissitudes da disposição subjetiva para se adequar ou não a eles. Nesse
sentido, por mais estranho que seja, uma análise do progresso moral necessita
firmar-se em fundamentos amorais, que pretendam focar elementos da
constituição subjetiva cuja legitimidade não é dedutível de seu valor ético, ou
seja, de adequação a valores reconhecidos concretamente em uma sociedade. Meu
objetivo aqui não é estabelecer uma conceituação metodológica geral deste
amoralismo da crítica cultural, mas apenas fazer uma aplicação sua a dois casos
que tiveram alguma repercussão nos meios de comunicação de massa no começo de
maio desse ano. Refiro-me à divulgação das fotos que revelam a intimidade da
atriz Carolina Dieckmann e de um vídeo apresentando uma cirurgia para retirada
de um peixe do ânus de um rapaz. — Não me interessa aqui analisar propriamente
a atitude de quem divulgou os materiais, mas sim o impacto midiático deles. Em relação a Dieckmann, está muito claro que houve ação criminosa de invasão de seu computador pessoal, de modo que há um crime que deve ser apurado, e seus autores devidamente punidos com o rigor da lei.
Em
ambos os casos há uma exposição pública não autorizada de um material que expõe
cenas da intimidade de uma pessoa de forma bastante constrangedora. No caso das
fotos, temos imagens provavelmente sem nenhuma edição ou tratamento digital, e,
levando em conta que se trata de uma atriz famosa, é evidente o contraste com o
material pornográfico de revistas masculinas, em que (quase) todas as fotos
demonstram um glamour totalmente polido. O vídeo apresenta uma situação
bastante mais constrangedora, em virtude de seu caráter invasivo, uma vez que
não se trata apenas da intimidade de certo exibicionismo sexual, mas sim do
próprio corpo, que nos revela muito provavelmente uma atitude sexual
pervertida, estranha e inusitada.
Temos
dois “espetáculos” de exposição da vida íntima, bem ao sabor dos reality-shows,
mas agora de forma bem mais crua e cujo caráter de transgressão salta
aos olhos. Para além do consumo pornográfico da vida alheia, esses dois casos
contêm um ingrediente do qual se pode tecer algumas considerações sobre a
demanda do olhar alheio como ao mesmo tempo voyeurista, censuradora e expressão
de um conflito de forças subjetivas e sociais. Em contraste com a atitude de
jogo, em que prevalece a astúcia e a montagem de estratégias inteligentes para
ganhar o prêmio de um reality-show, temos agora, na verdade, o resultado de uma
insensatez, descuido, negligência com a própria segurança e privacidade. Ambas
as pessoas nesse caso são alvo do olhar faminto dos espectadores não apenas por
conta de terem sua intimidade devassada, mas pelo fato de, ao mesmo tempo,
terem agido de forma muito pouco “inteligente”. Temos, então, uma mistura
bastante explosiva: uma atitude narcisista/exibicionista e outra
pervertida/excêntrica mescladas a insensatez/inabilidade/negligência.
Diversos
discursos psicanalíticos sempre insistem na idéia de que a agressividade,
desrespeito e violência em relação ao outro demonstram a incapacidade de lidar
com impulsos que a própria pessoa experimenta. Assim, a atitude homofóbica
demonstraria, já em seu caráter de desrespeito ao outro, a incapacidade de
assimilar substratos homossexuais presentes em si. Dentre os inumeráveis
fatores que se agregam a essa idéia básica, que tomamos como verdadeira, um que
é pouco falado é o fato de estes estratos mais regressivos de nossa
subjetividade não são simplesmente algo que se deva aceitar sem mais. Em larga
medida sua negação, quando feita de forma reflexivamente mediada, é índice de
saúde psíquica. Existem formas, por assim dizer, inteligentes, progressistas e
ao mesmo tempo proveitosas individual e coletivamente de vivenciar prazeres,
emoções e fantasias regressivos/infantis/pervertidas, e outras muito pouco
proveitosas. — Ao ler tal colocação, alguém pode facilmente se perguntar: “Qual
critério você usa para dizer o que é progressivo ou não no modo como
vivenciamos o infantilismo de nossos desejos?”. A resposta, embora soe bastante
evasiva, parece-me válida: o conceito de sensatez e inteligência na vivência de
tais prazeres não depende do estabelecimento de critérios objetivos e
universalmente aceitos, uma vez que estes podem ser perfeitamente empregados no
âmbito de sociedades e grupos maiores ou menores em determinada época, sem que
simplesmente deixem de ter sentido porque são superados por outros parâmetros
em épocas e sociedades diferentes.
A
partir de tal ponto de vista, esses dois espetáculos de exposição violenta da
intimidade demonstram, de forma negativa, uma cobrança que, a bem dizer, subjaz
inevitavelmente na mentalidade burguesa ocidental: seja inteligente/sensato no
modo como você vivencia prazeres/fantasias/aventuras que contrariam a dimensão
reconhecidamente construtiva e unificadora da cultura. Embora esta cobrança,
situada no âmbito social, seja extremamente afetada pela injustiça e acidez do
modo como milhões de pessoas quererão gozar sadicamente pela quebra dessa
regra, entretanto não é absolutamente desprovida de validade quando a
transpomos para o âmbito meramente individual. A imbricação dos planos de
realidade da fantasia e da vida concreta aponta para um princípio esclarecedor
de toda condição neurótica, e, portanto, de cada um de nós, de alguma forma e
em alguma medida. Grande, mas grande parte mesmo, do sofrimento neurótico se dá
em virtude da incapacidade de “negociar” a legitimidade da força de fantasias
inconscientes em contraste com a necessidade imperiosa de manter um diálogo com
a objetividade socialmente estabelecida do curso de nossas vidas. Reina um
equilíbrio altamente instável, e facilmente sujeito a rupturas drásticas, entre
as diversas formas de satisfazer as forças que se digladiam de ambos os lados
no modo como, ao mesmo tempo, buscamos e evitamos satisfações na vida. Colocado
em termos do par verdade/falsidade, podemos dizer que há muito de verdadeiro e
muito de falso, tanto no que concerne à raiz mais profunda da regressividade de
nossos desejos e fantasias, bem como no caráter solar/luminoso/construtivo dos
grandes ideais da cultura. O modo como nos situamos nos planos altamente
movediços de contato dessas duas regiões exige, verdadeiramente, não apenas uma
robustez de caráter, mas também inteligência.
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