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domingo, 18 de junho de 2017

Por que a Globo quer a saída de Temer?


Em toda essa luta intestina pelo poder, travada entre representantes dos diversos poderes: políticos, jurídicos, mediáticos, empresariais etc., a faceta mais enigmática é a determinação resoluta das organizações Globo em retirar Michel Temer do poder. Considerando-se ter sido esse grupo mediático o carro-chefe do processo de impeachment, junto com juízes e procuradores-estrela da Lava Jato, e ainda o fato evidente de ele apoiar integralmente todas as “reformas” em curso, resta muito pouco para explicar este engajamento pela continuidade do “primeiro a gente tira Dilma e depois o resto”.

O fato de o mandatário da república ter sido flagrado em uma conversa com indícios de crimes graves chega a ser ridículo como este “pouco” para esclarecer o empenho dos Marinho. Não nos esqueçamos: a conversa gravada entre Joesley e Temer não foi espontânea, e sim fruto de uma ação orquestrada para produzir provas, confirmando o já anunciado nas conversas e tratativas do empresário com procuradores e juízes. Parafraseando Sérgio Machado, é impossível a Globo não saber “dos esquemas do Temer”, antes mesmo da campanha contra Dilma: tratou-se apenas do timing certo para retirar um dos pés de apoio do agora acusado como chefe da pior quadrilha criminosa do Brasil.

Considerando ser a fragilidade do governo federal um grande empecilho para não apenas a celeridade, mas até mesmo à própria aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, o empenho político da Globo seria contraditório. Inicialmente, esse paradoxo seria desfeito ao se assumir sua intenção de trocar Michel temer por alguém do PSDB, mas não é de hoje que os principais nomes do partido estão gravemente atingidos por denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Faria pouco sentido armar toda esta a ação combativa com o propósito de catapultar João Dória ao Palácio do Planalto, considerando sua pouca experiência administrativa, ausência de fatos capazes de engrandecer sua imagem, pouquíssimo carisma popular, baixíssima representatividade eleitoral no nordeste etc.

Em suma: falta algum elemento propositivo a compensar a instabilidade política e a deslegitimação de um governo até agora completamente orientado a cumprir os objetivos do grande empresariado, cujo principal porta-voz são as organizações Globo.

A única resposta viável me parece ser o desejo de apoiar Jair Bolsonaro à presidência da república. A história política, pelo menos desde o início do século XX, tem exemplos fartos de a extrema direita ser tomada como “solução” pseudo-política das massas em situação de desesperança, anomia, instabilidade econômica e institucional. Em vez de lutar pela construção de mecanismos inclusivos e de distribuição das oportunidades de trabalho, favorecendo a distribuição de renda e o alargamento da participação democrática nas decisões, tem-se exatamente o inverso: uma regressão político-democrática, tomando o sacrifício individual como preço por uma ordem e estabilidade impostas desde cima pela mão suficientemente forte, cujo autoritarismo se coaduna perfeitamente com a “condição de desamparo”, tão bem estudada por Freud. Aquele defensor dos governos ditatoriais e dos mecanismos de tortura se presta especialmente bem a esse papel. Ao contrário de João Dória, sua inexperiência administrativa lhe é favorável, pois o regime imaginário a ser mobilizado em sua propaganda mediática espontânea é exatamente a atuação extra-institucional, não-política, agindo como um rolo compressor sobre não apenas a desordem, mas fundamentalmente sobre as diferenças, sobre as heterogeneidades das demandas. Em vez do esforço de construção de uma sociedade igualitária, tem-se o princípio regressivo de achatamento das diferenças por imposição de cima para baixo.

O Brasil sempre foi uma sociedade autoritária, golpista e avessa ao espírito democrático, tendo experimentado breves momentos de estabilidade para a construção do espírito de cidadania. O projeto político favorecido pelas organizações Globo é uma reação forte e radical ao que os governos de Lula e Dilma representaram como construção democrática. Quanto maior a percepção de instabilidade das instituições políticas, quanto maior a descrença e a desesperança em soluções “políticas”, mais se pavimenta a via do autoritarismo. Esperamos que o Brasil não siga este caminho.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dicas de redação - 3


Trago mais uma série de 12 recomendações para confecção de textos, principalmente teóricos, além das outras duas (links: primeira - segunda).

1.            Quando se escreve com base em concepções de outros autores — e isso constitui quase a totalidade dos trabalhos acadêmicos de monografia, dissertação e tese —, é preciso considerar que a função, a validade, o significado e a importância das formações conceituais lidas nos textos de referência não são simplesmente “transpostos” para a análise e o comentário. Muitas ideias no texto clássico podem ser paradoxais e obscuras, mas adquirem legitimidade por seu posicionamento na argumentação geral do autor. Na medida em que escrevemos um texto próprio, é necessário produzir uma nova legitimação para tais ideias, quase como se elas fossem nossas próprias. Em suma: não é porque uma formulação incompreensível ou equivocada está no texto original que ela possa ser “duplicada” em uma tese sem uma fundamentação de seu valor teórico.

2.            Ao se comentar um texto clássico, não é uma boa estratégia “narrar” o que é dito nele, dizendo: “inicialmente, o autor fala do conceito X”; “logo em seguida, o autor passa à temática Y”; “depois de falar sobre o núcleo de seu texto, o autor inicia a abordagem...”, pois isso confere a nosso texto a feição de um fichamento ou material de estudo. Há momentos em que esse tipo de exposição é legítimo e necessário, mas é preferível tecer um comentário com uma exposição conceitual própria, sem “contar o que acontece” no texto de referência.

3.            No uso de citações diretas (com aspas ou em bloco de texto recuado), é preciso ter atenção para não repetir o que a passagem citada diz. Uma vez que já se explicitou a ideia original, o comentário necessariamente deve ir além dela, pois caso contrário não se justifica usar o recurso da citação, cuja razão de ser reside precisamente no fato de a ideia ter sido expressa de forma concisa e enfática na respectiva passagem do texto original. — Eu tenho por regra restringir a um mínimo possível as citações diretas, por considerar uma tarefa precípua do trabalho interpretativo a colocação em perspectiva, a crítica, o debate das ideias dos textos clássicos, e não apenas sua exposição ou apresentação.

4.            Algumas palavras funcionam como “coringas” na escrita, aparentando dizerem alguma coisa, quando na verdade falam mais e mais, tornando o texto prolixo e, no limite, sem conteúdo. É o caso de “elementos”, “relações”, “aspectos”, “fatores”, “condições”, “circunstâncias”, que em grande parte poderiam ser simplesmente eliminadas sem acarretar perda alguma no argumento.

5.            No afã de demonstrar certeza e atitude propositiva, muitas vezes sobrecarrega-se o texto com palavras modalizadoras desnecessárias, como “todo”, “todos”, “sempre”. Não constitui diferença substantiva dizer, por exemplo, “Todos os seres humanos possuem a capacidade de linguagem”, pois “Os seres humanos possuem a capacidade de linguagem” já abarca a totalidade de nossa espécie. Trata-se de um desejo de reforço retórico que, na verdade, muitas vezes apenas dissimula falta de conteúdo.

6.            Embora esteja presente em textos acadêmicos bem conceituados, deve-se evitar o emprego frequente de “alguns comentadores dizem que...”, “muitos autores concordam com...”, “a maioria dos intérpretes diria que...”. Tais expressões devem ser preferencialmente seguidas de exemplos de pessoas que efetivamente atestam o que foi dito, pois senão tendem — com seu excesso — a configurar um “blefe”, uma afirmação vaga para dar suporte à própria argumentação que frequentemente não é comprovada.

7.            Deve-se evitar o excesso de expressões que denotem convicção, como “certamente”, “sem dúvida”, “seguramente”, por dois motivos: primeiro, porque tais partículas na verdade significam dúvida, incerteza; comparando as frases: “meu carro está no estacionamento” e “certamente meu carro está no estacionamento”, vemos que na segunda não há um saber pleno do fato, pois a partícula inicial coloca todo o peso cognitivo no sujeito, em seu estado de consciência, e não no vínculo com o objeto; outro motivo é que, devido exatamente a esse caráter paradoxal de tais vocábulos, eles demonstram a necessidade de auto-afirmação, de reforço das convicções, colocando em dúvida o quanto se possui, de fato, clareza da validade dos argumentos.

8.            Deve-se evitar a reafirmação do objeto ou pessoa em orações diferentes em uma mesma frase, principalmente com o uso de “o mesmo” ou “a mesma”; exemplo: em vez de “Uma vez que a ação dos políticos diz respeito ao bem comum, a mesma [ou: ela] não tem valor independente da opinião pública”, é preferível: “Uma vez que diz respeito ao bem comum, a ação dos políticos não tem valor independente da opinião pública”.

9.            É recomendável economizar ao máximo expressões que denotem quantidade indefinida como “vários”, “diversos”, “alguns”. Em boa parte das ocorrências, não acrescentam informação alguma, pois se limitam a estipular que a afirmação tem como objeto uma parte do universo dos referentes, o que frequentemente já está subentendido; em vez de: “Essa teoria contradiz diversas práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”, é preferível: “Essa teoria contradiz práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”. Além disso, elas tendem, com seu excesso, a indicar certa hesitação quanto à validade do que se diz.

10.        Outro acréscimo desnecessário porque também supérfluo são as palavras “possível” ou “possíveis”. Em alguns momentos, são úteis por indicarem viabilidade, mas, em geral, não acrescentam nada ao discurso. Exemplo: “Dentre as alternativas possíveis para o agente moral...”: se alguém decide segundo princípios morais, logo as alternativas já são possíveis, de modo que a frase não perde nada sem esse vocábulo: “Dentre as alternativas para o agente moral...”.

11.        Deve-se manter ao máximo a linearidade do texto, sem interpolar verbos com regências diferentes e outras formas prejudiciais ao fluxo de leitura. O exemplo mais claro é quando se interrompe a continuidade da frase com verbos ou adjetivos que solicitam preposições distintas: em vez de “A vida em sociedade tem origem na, e ao mesmo tempo depende da, observância das leis”, deve-se usar “A vida em sociedade tem origem na observância das leis e depende dela”;

12.        Embora não haja, em princípio, impedimento ao uso de expressões coloquiais em textos teóricos, elas não são recomendáveis, e seu excesso deve ser totalmente evitado. Uma vez que tais textos, particularmente no âmbito da filosofia e das ciências humanas, lidam com a articulação de vários temas parciais em um complexo geral, muitas vezes surge a necessidade de dizer que um/a autor/a “chama a atenção” para determinado aspecto de um problema. Essa é uma expressão por demais coloquial, e deveria ser substituída por “ressalta”, “enfatiza”, “salienta” ou “focaliza”.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dicas de redação - 2


Em uma postagem anterior, listei doze dicas que considero muito úteis na confecção de um texto, principalmente teórico, e agora acrescento outras doze.

1. Deve-se evitar a pressa em concluir, que se evidencia por uma grande quantidade de conjunções como “portanto”, “assim”, “desse modo”. Muitas vezes, uma ideia mal foi colocada em uma primeira frase e a seguinte já se inicia com uma partícula conclusiva, o que se agrava com a inserção de outras nas orações seguintes, chegando ao paroxismo de se iniciar um parágrafo com um sonoro “portanto”! Toda vez que se cogite usar tais conjunções, deve-se questionar se a frase em questão é de fato uma consequência da anterior, pois frequentemente ela apenas acrescenta uma nova formulação do problema.

2. Em um texto teórico, deve-se evitar o excesso de anúncios de que se passará a um determinado tema ou assunto, como expresso pelas expressões típicas: “outro tópico de interesse é...”, “agora abordaremos o tema da...”, “passemos à temática do...”. Quando em quantidade excessiva, tais falas tendem a caracterizar o texto como um fichamento ou resumo, pois se perdem a fluência e a continuidade argumentativa.

3. Evite o excesso de substantivação de verbos: “a realização”, “a consumação”. Eles conferem ao texto um tom mais intelectual, mas quando em excesso tornam-no um tanto pedante e rebuscado. Em vez de “A televisão proporciona a deturpação das mensagens”, use “A televisão deturpa as mensagens”; em vez de “Essa medida provoca a redução de prejuízos”, use “Essa medida reduz prejuízos”. Como se vê nesses exemplos, a substantivação do verbo tende a escamotear a ausência de conteúdo, substituindo-o por uma formulação pretensamente mais sofisticada. Em alguns textos, quando se trocam todos os substantivos pelos verbos dos quais derivam, revela-se um discurso trivial, sem qualquer substância argumentativa.

4. Não cite palavras estrangeiras sem ter conhecimento do idioma, a não ser que tenha plena certeza de seu significado e de sua grafia. Uma vez que a indicação do termo original tem como sentido auxiliar a precisão da leitura, é contraproducente citar uma palavra que apresente incorreções de grafia e não corresponda à proposta de tradução. — Um caso muito comum em que se desmascara imediatamente a ausência de conhecimento do idioma original é a citação de substantivos alemães sem inicial maiúscula, pois, ao contrário de todas as outras línguas ocidentais, em alemão não só os nomes próprios têm inicial maiúscula, mas qualquer substantivo;

5. Não se devem começar frases (e muito menos parágrafos) com as expressões “ou seja” e “isto é”, pois elas somente fazem sentido para conectar uma explicação a uma ideia imediatamente anterior, em um fluxo de argumentação incompatível com a separação de frases; além disso, deve-se evitar seu excesso, pois muitas vezes a frase iniciada com essas locuções não explica a anterior, mas sim acrescenta outra ideia.

6. Evite o que podemos chamar de “explicativismo”, o excesso de elementos elucidativos. No afã de tornar claro um conceito teórico considerado um tanto difícil, colocam-se muitos apostos e especificações desnecessários. No limite, esse didatismo soa até mesmo ofensivo, dando a ideia de que a/o leitor não é capaz de apreender a ideia com apenas um elemento explicativo.

7. Em uma grande quantidade de vezes as palavras “pessoas”, “indivíduo” ou “sujeito” são totalmente dispensáveis, constituindo redundâncias. Quando se diz, por exemplo: “a recepção da indústria cultural pelas pessoas é muito influenciada por valores de classe”, a expressão “pelas pessoas” é dispensável, pois é genérica e somente indica o que já se sabe: não há recepção de indústria cultural a não ser por “pessoas”!

8. Sobrecarrega o texto empregar muitas vezes seguidas a preposição “de” entre palavras; isso ocorre quando se quer adensar uma formulação teórica, mas a escrita tende a ficar confusa. Exemplo: em vez de “A exigência da consideração da incerteza das condições históricas do objeto leva-nos...”, deve-se usar: “O fato de sermos exigidos a considerar a incerteza das condições históricas do objeto leva-nos...”.

9. Somente se devem indicar termos de língua estrangeira do texto estudado quando a tradução apresentar alguma dificuldade, momento em que o conhecimento do termo original tem valor; fora desses casos, configura uma inadequação, podendo ser visto como esnobismo.

10. Deve-se ter cautela com o uso de palavras que denotem intensidade ou ênfase diante de adjetivos, particularmente os que já exprimem uma intensificação; exemplos: “muito claro”, “bastante evidente”, “extremamente enfático”; cada um desses adjetivos já acentua a noção contida na palavra seguinte, não carecendo de qualquer reforçador na maioria das vezes.

11. Procure manter coerência entre os sentidos de prejuízo e de favorecimento entre verbos e seus objetos. Exemplos: “alcançar” tem implícito o sentido de conseguir algo bom, de modo que se insere certa dissonância cognitiva ao se dizer “Esse projeto alcançou grande fracasso nas avaliações da firma”, ao passo que “isento de” tende a se referir a algum ruim, de modo que “Essa perspectiva está isenta de vários aspectos positivos” deve ser alterada para “Essa perspectiva está desprovida de vários aspectos positivos”.

12. Embora seja um item de menor importância, em alguns casos contribui para a fluência da leitura: tendo falado de duas pessoas, e em seguida se quer referir a ambas com as palavras “a primeira” e “a última”, é recomendável que a designada como “primeira” tenha vivido anteriormente, quando for o caso. Exemplo: “Descartes tem uma filosofia tipicamente racionalista, enquanto Nietzsche se coloca no extremo oposto; enquanto o primeiro tem uma preocupação cognitiva, o último se esforça por refletir sobre os valores”.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A política e os afetos


O que o contexto de crise institucional vivido desde 2013 nos ensina sobre a consciência política em nosso país?

·      Desde os protestos de 2013, nós assistimos a um crescimento expressivo da insatisfação popular com a representatividade política, com os modos com que nossa vontade é representada no plano geral da sociedade. Mesmo que haja um reconhecimento da validade de determinadas propostas políticas, a percepção é de certa insuficiência no progresso, de lentidão nos avanços sócio-econômicos, particularmente sob a ótica das classes médias, que foram aquelas que efetivamente saíram às ruas naquele ano. A mediação das instituições políticas foi colocada em xeque e continua, sistematicamente, a ser posta contra a parede a cada nova denúncia de corrupção. Há que se ressaltar que, embora grande parte dos movimentos de 2013 tenha sido realmente espontânea, toda essa percepção de precariedade da representação política é não apenas induzida, quanto mantida e aumentada pela lente dos meios de comunicação em massa. Como aqueles protestos não tiveram um direcionamento e uma pauta específica, ficou-se à espera de um relato, de uma narrativa que fornecesse, a posteriori, retrospectivamente, esses fundamentos, e então os meios de comunicação em massa puderam construir uma narrativa que fosse favorável aos interesses representados por eles. Disso tudo ficou muito claro que movimentos de massa sem uma consciência específica de seu significado podem ser facilmente arregimentados, absorvidos e direcionados para satisfazer interesses alheios e mesmo contrários a todos aqueles que se manifestam.

Muitos analistas políticos dizem que a classe média costuma ser o “fiel da balança” nas eleições, sendo um polo decisivo. Que características essenciais desse estrato social poderiam ser ressaltadas nesse seu papel?

·      Diferente das classes baixas e altas, os estratos médios da população caracterizam-se por uma mobilidade simbólica em sua autoconsciência, na percepção do que lhe é possível alcançar, do que significa seu progresso já atingido, do que é legítimo cobrar dos governantes etc. Ao contrário das classes baixas e altas, as médias vivem essencialmente de aparências, de signos de status e de colocação social. Elas cultivam incessantemente uma narrativa sobre si fundamentalmente deslocada em relação ao que cada pessoa vive concretamente: viver bem e sentir-se bem com a própria vida não só podem entrar em conflito, quanto sempre estão em desajuste. Em virtude disso, existe uma dificuldade sui generis em agradar este estrato social, pois ele, paradoxalmente, pode até mesmo ser prejudicado financeiramente, mas se sentir satisfeito caso haja certa inflação de um prazer meramente simbólico, de imagens, em sua perspectiva de mundo. Uma vez que existe uma espécie de universalização da mentalidade de classe média, pelo menos como tendência, esse estado de coisas tende a se tornar cada vez mais importante.

A sociedade contemporânea é dita, tanto por filósofos quanto sociólogos, como uma sociedade individualista. Que repercussão isso tem no plano da participação política?

·      Como a política é essencialmente marcada pelo engajamento em causas que afetam milhões de pessoas, uma concepção individualista de si mesmo é sempre problemática. Isso se dá não apenas pelo fato de dificultar determinados projetos políticos, mas por favorecer alguns que são essencialmente reacionários, concentradores de renda, prejudiciais àquelas camadas da população que mais precisam de uma esfera política robusta e consistente. Ausência da vida política, influenciada por esse individualismo, gera um efeito de bola de neve, precisamente pelo fato de que quanto menos engajamento da população nas questões políticas, mais motivos ela terá para se ausentar desse mesmo espaço, pois delega, neste mesmo passo, as decisões àquela parte da sociedade que já possui poder em todos os âmbitos decisórios.

No contexto de uma sociedade concorrencial como a nossa, muito das atitudes políticas é determinado pelo medo, seja de perder o emprego, seja de ser excluído de determinado círculo social, seja de perder direitos já assegurados. Em que medida o medo é um afeto importante no envolvimento político das pessoas?

·      O medo é, de fato, um dos afetos mais mobilizados quando se pretende fazer as pessoas darem adesão a uma idéia que possa ser prejudicial a elas mesmas. Trata-se de um sentimento que nos constrange a eliminar toda a preocupação com as mediações de nossas atitudes, posto que somos instados a decidir com base na idéia de necessidade, e em filosofia desenvolve-se muito a idéia de que liberdade é inversamente proporcional à necessidade. Em vários momentos decisivos da história o medo de um inimigo externo propiciou a imposição hegemônica de um determinado programa político, patrocinado pela ótica da necessidade de sobrevivência: "é preciso deixar de lado nossas diferenças para combater o inimigo", sendo que "deixar de lado nossas diferenças" no mais das vezes significa abdicar de vantagens e direitos por parte dos mais fracos. O conceito de crise também pode ser ligado a esse afeto, pois normalmente vincula-se a uma propaganda da iminência da perda de estabilidade econômica, aumento do desemprego, inflação em etc.

Algumas produções cinematográficas de Hollywood usam o patriotismo como elemento de sua narrativa. No Brasil de hoje esse sentimento ainda é relevante no imaginário popular?

·      As sociedades podem ser faladas como organismos hiper complexos, que se desenvolvem agregando diversas correntes de valores, enquanto abandonam a outras, gerando uma totalidade contraditória em diversos aspectos. Embora vivamos em uma sociedade individualista, como já comentamos, o patriotismo, que caminha na direção oposta, ainda encontra ressonância nas camadas médias da população. Podemos dizer que o individualismo exagerado produz um caldo de consciência culpada que precisa ser elaborado, resolvido, satisfeito simbolicamente. Perceber o espaço público como uma enorme casa, como um lar coletivo que precisa ser defendido da invasão e da violência proveniente do exterior, sempre será um dos componentes da mentalidade complexa e contraditória da classe média. Independente das propostas concretas relativas ao chamamento para ser patriota, a mera idéia de grandiosidade da defesa desse lar coletivo pode ser insuficiente para angariar a adesão.

Sabemos que o olhar da população para seu país é ambígua: ao mesmo tempo em que o considera uma nação acolhedora e pacífica, lamenta-se de seu atraso, vê-se como inferiorizada perante outras nações, ou seja, pratica o famoso “vira-latismo”. Qual o significado dessa ambiguidade?

·      O Brasil sempre se percebeu, pelo menos desde a consolidação da república no início do século XX, como um país contraditório, ambíguo, ambivalente: ao mesmo tempo em que possui dimensões continentais e grande riqueza de recursos naturais, percebe-se como atrasado em seus valores, dramaticamente perpassado por corrupções de toda ordem. Em virtude disso, é bastante compreensível que sejamos chamados a realizar tudo o que nosso potencial nos diz, ao mesmo tempo em que nos resignamos com a impunidade, por exemplo, invocando a idéia de que, afinal de contas, somos um país de terceiro mundo, e que "brasileiro é isso", "brasileiro é aquilo". Oscilamos facilmente entre uma visão romântica de algo a se realizar e a resignação de nada podermos fazer.

No contexto da ampla repercussão do trabalho jurídico da operação Lava Jato, a corrupção tornou-se um tema recorrente e preponderante nos debates. O que dizer da mobilização dessa consciência de indignação? O quanto ela é legítima ou não? Possui algum aspecto negativo?

·      O grande problema relativo à corrupção é o fato de haver muito pouca consciência crítica sobre o que significa a evidência dos crimes expostos nos meios de comunicação em massa. A mentalidade que nós chamamos em filosofia de realismo ingênuo, ou seja, que aquilo que eu vejo é o real, é extremamente danosa para a avaliação do que significa os desvios de dinheiro público. O que é visto nos meios de comunicação em massa já é tomado como sendo o verdadeiro, e, paradoxalmente, causa mais indignação perceber atos corruptos sendo investigados e punidos, do que a impunidade. Uma enorme parte da classe média acaba dando um valor, objetivamente incompreensível, àqueles que têm a habilidade de se evadir do aparato judicial, mesmo que sobre eles pese uma tonelada de acusações e processos por corrupção.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Oposição irresponsável


Em sua coluna na Folha de SP (20/10/16), Patrícia Mello diz: “Ao admitir a derrota para Barack Obama na eleição de 2008, o senador republicano John McCain começou seu discurso com as seguintes palavras: ‘O povo americano falou de forma clara. Há poucos instantes, eu tive a honra de ligar para o senador Obama para parabenizá-lo. Parabenizá-lo por ter sido eleito o próximo presidente do país que nós dois amamos.’

Diante de vaias de seus apoiadores, Mc Cain pediu respeito: ‘Por favor’. E continuou: ‘O senador Obama e eu tivemos nossas divergências e ele prevaleceu. Muitas dessas divergências permanecem. São tempos difíceis para o nosso país. E eu prometo a Obama fazer tudo o que eu puder para ajudá-lo a nos liderar e enfrentar os desafios que temos pela frente. Eu exorto todos os americanos que me apoiaram não apenas a parabenizar Obama, mas a oferecer ao nosso próximo presidente nossa boa vontade e esforços sinceros para achar maneiras de superar nossas diferenças’.

O senador republicano encerrou: ‘Essa campanha foi e sempre será a grande honra da minha vida, e estou muito grato ao povo americano por ter me ouvido de forma justa antes de decidir que o senador Obama e meu velho amigo senador Joe Biden deveriam ter a honra de nos liderar nos próximos quatro anos’."

Agora imaginem se Aécio Neves tivesse dito algo parecido. A situação do país seria outra complemente distinta, como distinta foi sua fala, no sentido de assumir a postura de sabotador contumaz da candidatura vencedora. Não se tratou apenas, claro está, de divergência ideológico-partidária, relativa a programa de governo ou algo que apontasse para o conteúdo político em jogo. O mote foi a ânsia pelo poder, que perdurou na suspeição dos resultados das urnas, na ação no TSE contra a chapa Dilma-Temer, na proposta indecorosa de renúncia e finalmente na contratação da redação da peça de impeachment pela Janaína Paschoal, relatada no Senado por Antonio Anastasia, do PSDB.

Vemos dois modelos substancialmente distintos de conduta, de McCain e de Aécio, que nos indicam o quanto a divergência idológico-partidária não precisa ser afogada no redemoinho e na voracidade da luta pelo poder. No caso do senador tucano, tratou-se de produzir a derrota alheia não apenas em termos formais com o impeachment, mas de conteúdo, ao participar dos movimentos absolutamente vergonhosos ao redor das “pautas-bomba” que paralisaram terrivelmente o país quando da “regência” de Eduardo Cunha, eleito com o voto maciço dos tucanos, apesar de toda a evidenciação de seus mandos e desmandos pregressos.

Depois de corroer e implodir a governabilidade, desde o resultado nas urnas até a votação de um relatório no Senado feito por quem praticou em muito maior quantidade os mesmos atos imputados a Dilma, o PSDB sistematicamente mobiliza suas vozes desprovidas de qualquer senso republicano para jogar toda e qualquer culpa pela situação do país em quem foi sabotado. Quando mobilizamos tais argumentos, ainda temos que ouvir a acusação de vitimismo, como se o mais fraco na luta político-social nunca pudesse argumentar servindo-se da disparidade de forças como ponto de apoio. Vigora, e de fato milenarmente, a percepção de que o supremo erro é não impor sua verdade pela força. Mesmo tendo franca minoria no Congresso Nacional, apelar para o senso republicano da oposição e cobrar dela a responsabilidade pela condução do país fez de Dilma aos olhos de todos uma vitimista, uma governante que teria, além de toda possibilidade real, que fazer valer sua força como chefe do executivo. Esquece-se, propositalmente, o quanto o executivo não governa sozinho, o quanto dezenas de medidas urgentes somente são aprovadas se a oposição se dispõe a colaborar.

Como, porém, o quarto poder, a imprensa, jogou todos os holofotes em quem ocupou a cadeira presidencial, deixando na sombra a corrosão quase criminosa da governabilidade pela oposição capitaneada por Cunha e Aécio, o impeachment tornou-se o prêmio para a ação radicalmente anti-republicana de ambos.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Estofo pseudo-moral


Prenderam o Corruptor-Geral da República, o homem-mal do golpe, a sujeira da política encarnada em uma figura só, ou seja, Eduardo Cunha. Sendo uma prisão procedida antes do julgamento definitivo, apesar das justificativas elencadas, tem uma legitimidade questionável, tal como de outras figuras públicas anteriores. A grande diferença, agora, está em que qualquer teor de arbitrariedade que possamos localizar nela é dissolvido por um conteúdo moral-moralista da opinião pública. É precisamente isto que a operação lava jato quer: angariar estofo moral mínimo para realizar outra prisão, cuja arbitrariedade, sendo infinitamente maior, deixaria de ter esse demérito. Não é difícil saber qual é essa outra prisão: de Luiz Inácio Lula da Silva.

Tal como outra instância do Tribunal Regional Federal reconheceu, diversas ações da Lava Jato são marcadas por ilegalidades, ou seja, são arbitrárias. Isso, entretanto, mesmo sendo reconhecido como uma exceção ao estado de direito, foi tomado como legítimo precisamente por um conteúdo político-social, o bem comum, o interesse da República. Ora, a prisão de Cunha é uma espécie de materialização epifânica da justiça realizada contra os poderes-do-mal, servindo, assim, como uma espécie de enorme bottom, chancela e ata lavrada no cartório da consciência jurídica do país: de que aquela legitimação da arbitrariedade que afronta a lei, de fato está justificada.

Este ato de pseudo-justiçamento que enche os olhos vorazes da opinião pública, praticado em meio ao instituto da delação premiada, adquire um frisson inigualável. A ameaça de que o detento “abrirá o bico”, disparando uma metralhadora giratória contra tudo e contra todos (dentre os quais se cogitou incluir o próprio Sérgio Moro), confere um sabor mais especial àquele estofo moralizante dessa ação, a saber, a coragem de prender um homem-bomba de denúncias.

Tudo isso se soma, ainda, a algo menor, a anuência de Gilmar Mendes ao prosseguimento da investigação contra Aécio Neves, bem como outras denúncias contra membros próximos a Michel Temer. Tudo isso forma um caldo efervescente da consciência ao mesmo tempo hiper-moral e arbitrária da população, de forma a gerar uma percepção de nivelamento de todos os potenciais-criminosos e atuais-presos, que se convertem automaticamente em já-condenados, quando submetidos ao holofote e às lentes poderosas da grande mídia.

Lido sob a ótica de um conceito filosófico relevante, tem-se a promoção contínua e reiterada da má-consciência, ou seja, da incerteza de motivações morais, de modo que as ações são propelidas, não pelas convicções específicas do que deve ser feito, mas pelo açodamento de uma multiplicidade de motivações muitas vezes espúrias, parcialmente formadas, oscilantes e instáveis. Trata-se de um exercício de instigar a irresponsabilidade moral da população, seu imediatismo como resultado continuamente vivido de um complexo motivacional e afetivo em que reina a conexão em curto-circuito do fulgor e brilho das imagens de julgamentos, encarceramentos e prisões.

Em vez de caminhar no sentido de uma elucidação e discernimento racional acerca da relação entre lei, julgamento e condenação, a cumplicidade entre judiciário e meios de comunicação trabalha, particularmente na operação Lava Jato, no sentido exatamente inverso, ou seja, na produção de uma miscelânea de motivos, desde os mais bestiais até os mais refinados da lei, produzindo esta pseudo-substância capaz de entrar no lugar da sobriedade de nossa consciência de justiça. — Cabe a todos com o suficiente discernimento denunciar tal estratégia, de modo a manter nossa consciência crítica da arbitrariedade injustificável de qualquer decisão de decretar a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, a qual não constitui, de forma alguma, um interesse público, mas sim o mais mesquinho dos interesses de uma luta política absurdamente desigual.


Dicas de redação


Uma boa escrita de texto teórico contém vários elementos que devem ser bem manejados, desde estratégias expositivas de conceitos complexos, até o uso de vírgulas, passando por divisão de tópicos, concatenação de frases etc. A seguir compilei diversos elementos que me parecem muito úteis para confeccionar uma boa monografia, dissertação ou tese, bem como projetos de pesquisa, principalmente em filosofia e ciências humanas. Nenhum deve ser tomado como regra absoluta, pois todos dependem sempre dos casos específicos, do estilo de cada pessoa etc. Eles partem de minha experiência com orientação de pesquisas, e como parecerista de artigos e projetos, apontando erros e inadequações frequentes que encontro.

1. Todo texto é fruto de uma estratégia de persuasão. Embora saibamos perfeitamente que não está em jogo “dizer uma verdade”, o horizonte da concordância do leitor precisa estar presente como ponto de fuga. Em virtude disso, toda a argumentação necessita de escalonamento, do passo-a-passo, de tal forma que cada ideia, conceito e afirmação operem como apoios sucessivos para os anteriores, a fim de almejar a convicção final do leitor de que o texto é válido. O foco de atenção principal deve ser a diferença entre os argumentos fortalecerem uns aos outros ou apenas se justaporem como se fossem verbetes em um dicionário;

2. Embora escrevamos de forma intuitiva, mesclando várias ideias, é preciso ter clareza se X é uma afirmação ou um argumento que serve de fundamento a uma afirmação. Nem sempre é possível ou necessário distinguir, mas em vários momentos é muito inadequado deixar de fazê-lo, pois expor uma ideia e argumentar (justificar, embasar) têm valores diferentes no texto. Muitas vezes alguém afirma X como se isso fornecesse base, sustentação a uma ideia, quando, na verdade, não passa de mais uma afirmação, que precisa ser defendida; a “economia” de ‘afirmar’ versus ‘argumentar’ é um fator importante na qualidade do texto;

3. Outra ‘economia’ (ou seja, relação entre quantidades e qualidades) do texto é da presença e profundidade de conceitos. Muita gente acrescenta conceitos e temas para “enriquecer” a argumentação, quando na verdade pode empobrecê-la, pois a profusão de pontos teóricos tende a tornar cada um deles por demais ‘rasos’ e confusos. ‘Riqueza’ conceitual tem mais a ver com o aprofundamento reflexivo do que com quantidade de conceitos; como, porém, a profundidade é alcançada, entre outras coisas, pela mobilização de ideias, logo é preciso cultivar um senso especial para responder à questão: ‘esse conceito ajuda a aprofundar a ideia X ou é mais uma que disputa espaço com ela?’;

4. Um texto de mais de 5 ou 6 páginas deve conter divisões de itens temáticos; um único texto de 10 páginas para o qual não se encontrou nenhuma divisão tende a ser excessivamente “monolítico”, pois, tal como se divide um argumento em parágrafos, e estes em frases, o texto deve ser, preferencialmente, dividido em itens, para demonstrar ao leitor que se tem clareza dos passos argumentativos seguidos. Naturalmente, trata-se de uma regra geral que admite exceções, pois em alguns casos, ao se analisar um conto, por exemplo, os assuntos se sucedem de forma muito próxima, prescindindo da divisão de tópicos;

5. Ao longo da monografia, dissertação ou tese, deve-se evitar o retorno a um mesmo tema, a não ser que seja abordado sob outro viés ou perspectiva (quando então se justifica totalmente) ou quando é mais aprofundado; o erro mais comum é tratar o mesmo tópico com menor profundidade, o que não é adequado; quanto mais repetição, mais é a aparência de incerteza do que se diz;

6. Devem-se economizar radicalmente os elogios ao autor e teoria estudados; frases como “aqui a argumentação de Marx é primorosa” ou “Nietzsche foi um gênio da filosofia que refletiu de forma contundente sobre seu tempo” podem dar a clara impressão de que se quer conferir relevância ao próprio texto, fazendo a apologia do estudado;

7. Não se deve indicar com muita frequência que se está falando a partir de uma determinada teoria, dizendo “segundo Kant”, “de acordo com o filósofo de Kögnisberg”, “tal como pensa Kant” etc., pois, uma vez que já se sabe que o próprio texto é uma interpretação e uma leitura da obra X, deve-se apenas pontuar a referência a ela em alguns momentos, seja porque se trocou o texto-base, seja para não deixar a escrita “flutuando”;

8. Por outro lado, é necessário informar quando um argumento ou ideia não pertence ao autor estudado, sendo uma extrapolação. Claro que em vários momentos se fazem interpretações um tanto livres, mas ainda baseadas no texto original, mas há aquelas afirmações que precisam ser demarcadas como não presentes na obra de referência. Considerando o contexto de interpretação, de leitura de uma obra clássica, tem-se a expectativa de que tudo — salvo aviso prévio — constitui uma elucidação, uma exegese, e assim é necessário demonstrar que tanto o mérito quanto o demérito de uma afirmação são nossos, e não do autor estudado;

9. Devem-se economizar expressões que denotem dúvida ou incerteza, como “parece que”, “talvez”, “de alguma forma”, pois indicam insegurança excessiva. Uma vez que se trate de um texto teórico, subentende-se que tudo se dá no regime de uma discussão, de avaliação do leitor. As expressões acima devem ser usadas apenas quando a dúvida quanto à validade do exposto é expressiva, necessita ser considerada;

10. Devem-se retirar ao máximo os “que é”, “que são”, “que somos” etc., pois em quase todas as vezes são desnecessários e sobrecarregam o texto. Exemplo: em vez de “os conceitos que são empregados nessa análise”, use: “os conceitos empregados nessa análise”; em vez de “o autor que é muito referido por Nietzsche”, use: “o autor muito referido por Nietzsche”;

11. Frases não devem ser nem longas demais, nem curtas demais. No primeiro caso, costuma-se alterar o sujeito da frase de uma oração a outra, o que gera o efeito “em cascata”, como “aninhamento” das referências sujeito-predicado, o que torna o raciocínio tortuoso; no segundo, o resultado é a aparência de um fichamento, de um escrito feito meramente para estudo próprio, ao passo que se devem conectar mais as frases, fornecendo mais fluxo argumentativo, mais linearidade na concatenação das ideias, impedindo que fiquem como “blocos” um ao lado do outro;

12. Há um vício muito comum de usar a palavra “processo” de forma totalmente supérflua. Dizer, por exemplo, “processo de formação” é uma redundância em grande parte dos casos, pois “formação” já indica processo. Trata-se do desejo, nesses casos, de acentuar a processualidade, o decurso, e não o resultado, mas se isso se repete muito, torna-se um cacoete, um preciosismo, que, mais uma vez, sobrecarrega o texto.