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domingo, 31 de dezembro de 2017

A onda e o surfista, ou: Sobre o golpismo de Temer


Diante das necessárias articulações políticas para as eleições presidenciais de 2018, fala-se com insistência, e na verdade já há algum tempo, do caráter supostamente absurdo de uma candidatura de esquerda, como a de Lula, em aceitar apoio de parcela da direita como do grupo de Renan Calheiros. Diante da verdadeira desgraça que significou o golpe jurídico-parlamentar-mediático contra Dilma Rousseff, parece fazer muito pouco sentido “aliar-se aos golpistas”. Em muitos comentários, lemos que não se deve reeditar o que causou a tragédia política que sofremos na pele.

Tentarei ser o mais abrangente e sintético possível, propondo uma resposta clara e, no meu entender, convincente o bastante sobre o que, no golpe, representaram as alianças com parte das forças políticas que se beneficiaram com o impeachment presidencial.

Não resta dúvida que Michel Temer é um golpista, bem como a maioria dos membros de seu partido, o atual MDB. A questão a ser enfrentada diretamente, porém, deve se dirigir ao princípio motor de seu golpismo, a seus fatores condicionantes e aos gatilhos que dispararam suas ações decisivas.

Embora não se possa dizer que as manifestações de junho de 2013 façam parte do golpe, ali se iniciou um movimento marítimo de proporções assustadoras. As reivindicações locais da capital paulista contra o aumento das tarifas de transporte público produziram uma mobilização popular difusa cujo sentido acabou sendo dado a posteriori pela narrativa mediática, quando vários editoriais jornalísticos plantavam diariamente a imagem de que todas as manifestações difundidas pelo país se dirigiam contra o governo federal.

Nesse caldo político caótico e explosivo, movimentos reacionários como o MBL, Revoltados Online e atuações de falsários na internet ajudaram em muito a construir uma perspectiva de crítica corrosiva ao que representavam os programas políticos construtivos de Lula e Dilma.

Em meio a esta enorme metralhadora giratória, a atuação da Lava Jato, francamente partidarizada a partir de alguns meses, ajudou a acirrar sobremaneira os ânimos, fornecendo o apoio institucional à pressão sobre o governo federal. Se a grande imprensa já seria capaz de forjar a imagem de uma crise constante — manipulando e torturando os números até eles confessarem qualquer coisa capaz de mostrar que o governo estava indo mal e o país se encaminhava para o buraco negro da economia —, com o suporte das delações premiadas e seus vazamentos seletivos, todos aqueles descontentes com a ascensão sócio-econômica das classes baixas puderam bater suas panelas como se celebrassem o advento de uma nova era.

No âmbito político propriamente, a recusa direta, enfática e agressiva de Aécio Neves em reconhecer a legitimidade do resultado eleitoral consistiu no aproveitamento de toda esta onda reacionária e lhe concedeu um ímpeto mais forte e cada vez mais decisivo.

Quando a atuação de Eduardo Cunha já estava prestes a detonar a avalanche, quando tudo e todos já estavam armados até os dentes de ódio, insatisfação e espírito reacionário, sentindo-se fortalecidos pela mentalidade de manada e pelas narrativas legitimadoras do judiciário e da mídia, o STF ainda poderia, caso fizesse jus ao título de defensor máximo da justiça, impedir o disparo final. O ministro Teori Zavascki, porém, demorou infindáveis meses até acolher o pedido da Procuradoria-Geral da República para afastar o presidente da Câmara. Mesmo diante das acusações e indícios gravíssimos — verdadeira afronta ao nosso senso de civilidade republicana —, aquele magistrado somente atuou quando o pedido de impeachment, totalmente descabido, fora acatado em função da recusa do PT em proteger Eduardo Cunha.

Eu pergunto: quem é Michel Temer em toda esta história? Em que consiste seu “golpismo”? Certamente ele atuou nos bastidores para arregimentar os votos suficientes para a aprovação do pedido de impeachment, tendo não apenas aceitado o papel que lhe coube, como investido ferozmente em sua consecução. Ocorre que todas as suas ações somente se aproveitaram de toda a enorme onda que se iniciou em junho de 2013, alastrou-se e foi impulsionada por diversos atores de diferentes planos em todo o cenário nacional, não excluindo redes corporativas neoliberais (como a Atlas Network) que propagandeiam acintosamente suas ideias reacionárias por meio de investimentos milionários em Think Thanks. O “golpe” foi um movimento pluri-partidário (PSDB, DEM, PP, PMDB), multi-mediático (Organizações Globo, Folha de São Paulo, Editora Abril, Jornal Estado de São Paulo), poli-judiciário (da primeira à última instância, mais Ministério Público), trans-popular (MBL, Revoltados Online, paneleiros, internautas), bi-nacional (EUA e Brasil). Quando o PMDB pôde mostrar a que veio no golpe, todos os outros atores já haviam se engajado com unhas, dentes, ossos, músculos, mente e dinheiro. Temer foi um surfista que manejou muito bem a prancha que Eduardo Cunha lhe deu, mas não criou a onda.

Caso Michel Temer tivesse se recusado a atuar a favor do movimento golpista, fatalmente o julgamento da impugnação da chapa Dilma-Temer teria outro resultado, pois jamais possuiria a mínima força para frear o movimento golpista. Ele apenas sucumbiria sob as mesmas águas tempestuosas. Se tivesse tomado posse, sendo contrário às forças golpistas, seria impedido tal como Dilma, pois assinou os mesmos decretos que ela (tal como qualquer outra pessoa assinaria, pois as “pedaladas fiscais” nunca foram consideradas crime de responsabilidade e continuaram a não o ser). “A solução mais fácil era botar o Michel”: isso mesmo, a mais fácil, e não a única, pois a impugnação da chapa também estava à mão, embora mais complexa em termos de legislação eleitoral.

Diante de todos esses pontos, creio não haver dúvida de que o estado calamitoso vivido em função do golpe não foi causado pela “aliança com os golpistas”. Sem aquele maremoto que começou em junho de 2013, toda a ampla parte do PMDB que apoiou o golpe teria continuado tal como sempre, com seu fisiologismo, sua eterna sede de barganhas, seu desejo de ocupação dos cargos públicos etc., mas não passaria disso. Temer continuaria no lusco-fusco de uma vice-presidência decorativa, sem participar nem mesmo de eventos diplomáticos relevantes. Em vez do surfista oportunista, quedaria apenas flutuando em meio aos demais objetos na superfície do oceano.

domingo, 12 de novembro de 2017

O jornalismo canalha deve morrer


O colunista da revista IstoÉ, Mario Vitor Rodrigues, escreveu um artigo em seu blog intitulado “Lula deve morrer”. Tanto nas frases quanto nos parágrafos seguintes esta ideia estapafúrdia é repetida, e justificada por meio de todos os clichês que a grande imprensa usa para demonizar o PT como organização criminosa. Tal como em todas as outras vezes, tudo é falado como verdade absoluta, negligenciando completamente o quanto toda essa percepção é francamente manipulada pela indignação seletiva e pelas verdades parciais traduzidas à tona de forma imediatista — sem contar o apoio absurdo nas atitudes partidarizadas do judiciário.

Somente depois de a expressão “Lula deve morrer” ser empregada diversas vezes é que vemos que se trata de uma metáfora: a morte deve ser política. Um recurso cínico, canalha e desonesto do ponto de vista de um jornalismo responsável. Excita-se, estimula-se, provoca-se a leitura literal de que se trata da morte do indivíduo, tanto no título quanto no resumo do texto, para então, somente depois de municiar o ódio com esta abertura escandalosa de incitação a uma agressão ao ser humano, dizer que se trata tão-somente de uma figura de linguagem.

Este artigo reproduz em seu interior, de uma vez só, a velha e abjeta estratégia de toda a grande imprensa: noticiar de forma espalhafatosa com manchetes de primeira página uma acusação gravíssima contra seus opositores políticos para, alguns dias ou semanas depois, escrever um “erramos” no rodapé da página 5, mostrando o quanto o conteúdo da notícia original não procede, precisa ser relativizado, apresenta vários outros dados etc. Somos jogados de um fato ao outro, de uma expressão linguística a outra, de uma imagem a outra, e nessa medida os afetos políticos são exaltados, reprimidos, deslocados, retirando de cena toda a busca pela objetividade, todo o exercício em uma atitude sóbria de valoração das propostas políticas, das atitudes de nossos representantes. Pior até mesmo do que essas verdades parciais e as honras que são demolidas sob o império das manchetes de primeira página e das capas de revistas sensacionalistas é a incitação continua de nos movermos pelo afeto imediato, pelo apoio inconsequente de nossas ações e julgamentos no que nos é servido de bandeja nesses drops de notícias, opiniões e flashes televisivos.

Este jornalismo precisa morrer. Ele precisa ser posto sob a ótica da busca da objetividade. Este colunista da revista IstoÉ merece todo o nosso repúdio, toda a nossa indignação. Merece ser execrado publicamente como exemplo paradigmático de como não se deve transformar um adversário político em um inimigo de guerra. O cinismo com que excita o desejo de morte a seu adversário mereceria ser a certidão de óbito de sua atuação profissional como jornalista, a não ser sob a condição de se retratar clara e explicitamente. A manipulação hedionda que vimos agora, por si, seria suficiente para colocar sob suspeição qualquer outra linha a ser escrita por ele. 

Caso esta revista tenha algum brio, preze por algum orgulho de circular pelas bancas, consultórios e bibliotecas do país, deve despedir imediatamente esta figura, a bem do nosso jornalismo, que merece viver enquanto sustente um mínimo de respeito à dignidade humana, ao adversário como o diferente que merece e precisa existir para que continuemos a chamar o nosso espaço em comum de democracia, mais: de humanidade.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O mimetismo antijornalístico


A Folha de São Paulo subiu mais um degrau em seu cinismo, e dessa vez bem alto. Um dia depois de revelar uma pesquisa em que Lula aparece com 35% das intenções de votos, apresenta outra mostrando que a maioria da população quer Lula preso. — Naturalmente, esse veículo de comunicação precisava de um antídoto para o impressionante crescimento eleitoral de Lula, apesar da metralhadora político-judicial apontada para ele todo dia, mas não se esperava que este remédio fosse tão baixo, tão mesquinho e tão anti-jornalístico.

Se sempre houve pesquisa de “intenções de voto”, agora a Folha de São Paulo produziu uma de “intenções de prender”. Ora, a prisão de qualquer pessoa somente pode ser concebida a partir da objetividade dos fatos, da processualidade penal, da observância estrita da lei e sua complexidade, com seus recursos, apresentação do contraditório etc. É um absurdo sem tamanho esse jornal anunciar para todo o país uma pesquisa com as “opiniões” de milhões de pessoas que não são incumbidas da análise concreta dos indícios de acusação e defesa. Isso significou conferir uma objetividade social a um “achismo” dos mais baixos, pois claramente insuflado pela propaganda contrária a Lula, uma verdadeira avalanche midiática que não passa um dia sem ser exercida ferozmente. Montou-se uma espécie de “tribunal popular” como se fosse algo simples, passível de exposição corriqueira como se objeto de “opinião” fosse a troca do comando da seleção brasileira de futebol.

Este procedimento demarca de forma exemplar o quanto a cultura de massa se serve de relações miméticas, de imitação, de relação especular entre imagem e mentalidade, entre espetáculo e vida real, pois as opiniões populares refletem a animosidade dos donos do poder a Lula e agora a Folha de São Paulo mimetiza como notícia o que a mentalidade pública mimetizou de seus discursos. Não é difícil perceber a força deste círculo vicioso que tende a se reforçar continuamente, pois todas e todos fazem parte de um grande mecanismo de legitimação recíproca, retro-alimentada, em que ninguém se sente sozinho, mas pelo contrário: o preconceito mais mesquinho, o achismo mais tosco deixará aquele canto sombrio da mente e ganhará a luminosidade de uma manchete de primeira página daquele que já foi tomado como “o jornal mais respeitado do país”.

A pergunta que resta é: a Folha de São Paulo chegou ao fundo do poço ético em seu empreendimento de aniquilar Lula politicamente? Ou ainda escavará mais?

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Qual inimigo queremos?


O preceito bíblico de amar ao inimigo, segundo Nietzsche, é efetivamente praticado — e na verdade segundo uma lógica pré- ou extra-moral — por aquelas e aqueles que são fortes, que possuem a suficiente nobreza de caráter e a robustez emocional de saber do mundo como campo de forças. Nesse palco de várias atrizes e vários atores, fazer valer seus princípios valorativos e sua vontade consiste em reconhecer a força e a verdade alheias em uma disputa eternamente não resolvida de forma final, derradeira. Quem é forte se rejubila com este enfrentamento na exata medida em que as jogadoras e os jogadores se enfrentam no campo aberto das possibilidades de equacionamento dos quereres.

Outro é o caso das pessoas fracas, cuja marca distintiva é a dissimulação, os subterfúgios, as espertezas traiçoeiras e, sobretudo, a baixeza de espírito, o apego às mesquinharias, tudo isto resultando na tentativa de obter uma vitória moral-moralista sobre o outro. Nesse momento, a objetividade do enfrentamento político das verdades cede lugar a uma espécie de esgrima de artifícios retóricos não apenas morais, mas moralistas.

Com base neste panorama conceitual pode-se avaliar o quão pequena e politicamente abjeta é a comemoração ufanista, pseudo-patriótica do prefeito João Dória para com a condenação explicitamente sem provas materiais de Luiz Inácio Lula da Silva. Ignorando completamente o quanto o juiz Sérgio Moro precisou se defender longamente de ser um juiz partidário, pois frequentou largamente eventos promovidos pelo próprio prefeito; desconsiderando o fato de toda a peça sentencial se basear apenas em delações obtidas com base em atenuações de pena radicais, Dória estende bandeiras do Brasil como se a condenação de seu adversário político fosse um troféu para este nacionalismo mais do que abjeto.

É bom ter adversárias e adversários, é imperioso medir a própria verdade com a alheia, é salutar sair de seu próprio umbigo e atravessar a incerteza que significa ter de se haver com o outro, mas causa nojo e até náuseas confrontar-se com uma postura tão mesquinha, baixa- e politicamente moralizante quanto a de João Dória. Essa qualificação não é levantada apenas em virtude das ações em si, mas também pelo modo como ela fomenta o mesmo tipo de atitude nas mentes de todas e de todos que aguardam apenas tais exemplos para dar vazão a uma atitude anti-política, regressiva em termos éticos e falsa como princípio humano para lidar com a diferença. Tudo o que nós queremos são adversárias/os e mesmo inimigas/os honestas/os, que saibam celebrar a luta como uma busca por uma verdade comum, e não como quem esgrima uma verdade moralista subterrânea para atingir a quem se expõe no palco das diferenças públicas e políticas.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Injustiça perfeita


A injustiça no Brasil não seria perfeita se apenas absolvesse grandes empresários e políticos poderosos flagrados em conversas altamente comprometedoras e com indícios claros de atos ilegais. Ela jamais se daria por satisfeita com a impunidade à luz do dia, servida de bandeja e temperada com elogios rasgados a quem ameaça matar delatores. Nesse mundo de uma injustiça que a cada dia se afirma soberana, é necessário, ainda, que as decisões e sentenças contra adversários políticos do sistema sejam baseadas apenas em convicções e delações obtidas sob uma pressão semelhante a tortura.

Nesse mundo, todo o sistema jurídico vai se transformando em um instrumento radicalmente iníquo da política: seu braço direito, que, junto com o dos meios de comunicação, tende a esmagar a possibilidade de um mundo melhor.

Nenhum político foi tão radicalmente investigado, e por tanto tempo, quanto Luiz Inácio Lula da Silva, e não por acaso isso se liga ao fato de ter saído de seu segundo mandato presidencial com quase 90% de aprovação popular. Como já se disse à exaustão, este é o verdadeiro “crime” deste grande estadista. Sentenciá-lo significa a celebração da lei do mais forte, da auto-afirmação de um sistema que já não precisa esconder sua predileção por A ou por B. — Não bastaria aparecer aos sorrisos com Aécio Neves, nem participar de festas e eventos promovidos por membros do PSDB: Sérgio Moro precisava condenar sem provas materiais o inimigo político número 1 daquele grupo com o qual se confraternizou abertamente tantas vezes.

Somente quando um sistema jurídico não precisa mais justificar de forma cabal suas sentenças, podendo prescindir da materialidade das provas e se basear tão-somente em delações não comprovadas, somente aí é que esta máquina se sente convicta o bastante para ser um tentáculo das forças políticas que tentam estrangular as forças progressistas.

Claro está, porém, que o objetivo não é propriamente prender Lula, pois Sérgio Moro sabe perfeitamente de sua inocência, tal como todas e todos votantes a favor do impeachment de Dilma também atestavam sua honestidade. O texto final poderia ser apenas este: “condeno Lula a não se candidatar à presidência”. De forma análoga a como as senadoras e os senadores mantiveram os direitos políticos de Dilma, pois a única coisa que interessava era tirá-la do poder, da mesma forma Sérgio Moro poderia dizer que não condena Lula à prisão: trata-se de imputar uma “culpa” apenas até onde interessa ao braço jurídico do sistema político da direita brasileira.

Por fim, a injustiça em nosso país não seria perfeita se não cumprisse um ritual perverso, condenando Lula um dia após condenar todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores assalariados no Brasil a uma perda radical de seus direitos: essa é a trajetória de nossa (in)justiça, esse é o percurso de um mundo neoliberal, que cassa direitos, que “libera” a todas e todos da base da pirâmide social a serem objeto do mais aviltante arbítrio e exploração predatória sistemática.

sábado, 1 de julho de 2017

Liberalismo medieval


O “liberal” no Brasil, como aponta o sociólogo Jessé Souza, é na verdade um “conservador”. Ele quer “liberar” ao grande empresariado industrial e principalmente financeiro as trilhas à exploração predatória não apenas de nossos recursos naturais, da telecomunicação, dos transportes etc., mas também da saúde, da educação e, agora estamos vendo, da aposentadoria e dos direitos trabalhistas. Trata-se não apenas de “conservadorismo”, mas de “reacionarismo”, pois se reage contrariando toda medida de progresso social.

Quem defende o “liberalismo” no Brasil, apoia com todas as letras o “aprisionamento” da classe trabalhadora aos meios cada vez mais restritos de seu puro trabalho sem direitos, sem perspectiva de amparo estatal, sem a garantia de se aposentar de forma digna, sem poder contar com educação e saúde públicas. O “liberalismo”, isso está claro, somente quer um estado mínimo para evitar o atendimento à classe trabalhadora no que ultrapasse o ganho monetário estritamente ligado à hora trabalhada. Tudo além disso deverá ser drenado para o bolso e os cofres do grande empresariado.

Outra — e radicalmente distinta — é a concepção do “máximo” e “mínimo” concernente  à disponibilidade financeira e política do Estado para socorrer bancos e empresas em dificuldade para cumprir seus contratos. O PROER de FHC, que despejou bilhões de reais para salvar bancos falidos, antecipou o mesmo tipo de atitude tomada pelo governo de Barack Obama na crise imobiliária e financeira de 2008: o Estado é e sempre continuará “máximo” no acolhimento, suporte e favorecimento dessas demandas absurdamente iníquas. Enquanto um programa de distribuição de renda como o Bolsa Família oferece às pessoas extremamente pobres um mínimo necessário para uma existência um pouco menos sofrida e é atacado vorazmente como “compra oficial de voto” e “sustento de vagabundas/os”, aqueles presidentes desperdiçaram dezenas de bilhões (mais de um trilhão, no caso dos EUA) para cobrir prejuízos sociais com atitudes criminosas de grandes capitalistas, mas usam como justificativa a necessidade de estabilidade do sistema.

O liberalismo regressivo de nossos tempos, o neoliberalismo, em suma, é o canto-presságio do fim da política: é a rapsódia que declama o sonho de transformar o mundo em células de trabalho geridas por capatazes que as colocam e mantêm nos trilhos. O Estado se restringiria à incumbência de robustecer o sistema ferroviário dessa malha de escoamento da riqueza para cima. Em vez de primar pela orquestração de um sistema de correção horizontal dos acordos, o núcleo central — que nem mais poderia ser chamado de “político” na acepção histórica do termo — se consumiria como avalista e fiador dos poderosos donos desses novos feudos, que voltam a ter seus servos atrelados às suas porções diminutas do que restou da partilha voraz dos grandes senhores.

Diferente do medievo, porém, esse novo feudalismo distribui não apenas migalhas, mas um poder imaginário a quem se submete a ele: mastiga-se a identificação com o núcleo de poder enquanto se engole a própria saliva, ruminando um chicle multi-colorido de valores sem substância, mas que alegram. Nessa toada de eterna planificação que nada mais faz do que lubrificar o caos das relações entre capital e trabalho a favor do primeiro, restará sempre o abrigo eterno da transcendência, vocalizado pelos emissários divinos que cobrarão sua quota financeira e de representatividade, dirigida explicitamente aos interesses do andar de cima. Colocadas/os nas fogueiras da inquisição do preconceito público elevado a norma das escolas, dos partidos e das organizações estatais estarão todas e todos que desviam dos valores pétreos e consagrados nos códigos pseudo-naturais, pseudo-divinos, abertamente cínicos.

domingo, 18 de junho de 2017

Por que a Globo quer a saída de Temer?


Em toda essa luta intestina pelo poder, travada entre representantes dos diversos poderes: políticos, jurídicos, mediáticos, empresariais etc., a faceta mais enigmática é a determinação resoluta das organizações Globo em retirar Michel Temer do poder. Considerando-se ter sido esse grupo mediático o carro-chefe do processo de impeachment, junto com juízes e procuradores-estrela da Lava Jato, e ainda o fato evidente de ele apoiar integralmente todas as “reformas” em curso, resta muito pouco para explicar este engajamento pela continuidade do “primeiro a gente tira Dilma e depois o resto”.

O fato de o mandatário da república ter sido flagrado em uma conversa com indícios de crimes graves chega a ser ridículo como este “pouco” para esclarecer o empenho dos Marinho. Não nos esqueçamos: a conversa gravada entre Joesley e Temer não foi espontânea, e sim fruto de uma ação orquestrada para produzir provas, confirmando o já anunciado nas conversas e tratativas do empresário com procuradores e juízes. Parafraseando Sérgio Machado, é impossível a Globo não saber “dos esquemas do Temer”, antes mesmo da campanha contra Dilma: tratou-se apenas do timing certo para retirar um dos pés de apoio do agora acusado como chefe da pior quadrilha criminosa do Brasil.

Considerando ser a fragilidade do governo federal um grande empecilho para não apenas a celeridade, mas até mesmo à própria aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, o empenho político da Globo seria contraditório. Inicialmente, esse paradoxo seria desfeito ao se assumir sua intenção de trocar Michel temer por alguém do PSDB, mas não é de hoje que os principais nomes do partido estão gravemente atingidos por denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Faria pouco sentido armar toda esta a ação combativa com o propósito de catapultar João Dória ao Palácio do Planalto, considerando sua pouca experiência administrativa, ausência de fatos capazes de engrandecer sua imagem, pouquíssimo carisma popular, baixíssima representatividade eleitoral no nordeste etc.

Em suma: falta algum elemento propositivo a compensar a instabilidade política e a deslegitimação de um governo até agora completamente orientado a cumprir os objetivos do grande empresariado, cujo principal porta-voz são as organizações Globo.

A única resposta viável me parece ser o desejo de apoiar Jair Bolsonaro à presidência da república. A história política, pelo menos desde o início do século XX, tem exemplos fartos de a extrema direita ser tomada como “solução” pseudo-política das massas em situação de desesperança, anomia, instabilidade econômica e institucional. Em vez de lutar pela construção de mecanismos inclusivos e de distribuição das oportunidades de trabalho, favorecendo a distribuição de renda e o alargamento da participação democrática nas decisões, tem-se exatamente o inverso: uma regressão político-democrática, tomando o sacrifício individual como preço por uma ordem e estabilidade impostas desde cima pela mão suficientemente forte, cujo autoritarismo se coaduna perfeitamente com a “condição de desamparo”, tão bem estudada por Freud. Aquele defensor dos governos ditatoriais e dos mecanismos de tortura se presta especialmente bem a esse papel. Ao contrário de João Dória, sua inexperiência administrativa lhe é favorável, pois o regime imaginário a ser mobilizado em sua propaganda mediática espontânea é exatamente a atuação extra-institucional, não-política, agindo como um rolo compressor sobre não apenas a desordem, mas fundamentalmente sobre as diferenças, sobre as heterogeneidades das demandas. Em vez do esforço de construção de uma sociedade igualitária, tem-se o princípio regressivo de achatamento das diferenças por imposição de cima para baixo.

O Brasil sempre foi uma sociedade autoritária, golpista e avessa ao espírito democrático, tendo experimentado breves momentos de estabilidade para a construção do espírito de cidadania. O projeto político favorecido pelas organizações Globo é uma reação forte e radical ao que os governos de Lula e Dilma representaram como construção democrática. Quanto maior a percepção de instabilidade das instituições políticas, quanto maior a descrença e a desesperança em soluções “políticas”, mais se pavimenta a via do autoritarismo. Esperamos que o Brasil não siga este caminho.