Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 30 de abril de 2011

O turista como empregado do turismo

Estou no Canadá, e no mês passado fiz um passeio de uma semana na cidade de Toronto, e então me lembrei de uma idéia de Jean Baudrillard, que ele expõe em seu livro A sociedade de consumo. (Este, aliás, é um livro excelente sobre a sociedade contemporânea. Apesar de ser uma leitura bastante difícil, eu recomendo vivamente.)
Segundo o autor francês, o sentido mais próprio do turismo não é o do prazer. Em termos sociais, o turista, na verdade, trabalha para toda a engrenagem da indústria do turismo. Vejamos como.
O discurso turístico constrói uma espécie de imagem mítica da atração, quando suas qualidades são radicalmente realçadas nos cartazes das agências de turismo, nas imagens deslumbrantes de filmes, e em todas as outras formas de propaganda. Cada lugar “maravilhoso” contém aspectos que são o extremo oposto da vida cotidiana, prometendo uma fuga do stress do trabalho, da tensão das cidades grandes, da poluição etc.
Diante de um apelo tão grande, o/a turista se desloca por longas distâncias, e, chegando lá, obedece a horários estabelecidos para pegar ônibus de excursão, visita um número razoável de atrações todos os dias, e, se compra passaportes com direito a várias atrações, tem seu roteiro previamente estabelecido, mesmo que não tenha comprado os famosos pacotes turísticos. Esse processo se assemelha bastante à própria rotina de trabalho, e demonstra que o/a turista, na verdade, produz valores para o turismo. Ele/a precisa confirmar o tempo todo aquilo que o discurso publicitário e das agências de turismo já dizia para ele, ou seja, que aquela cidade ou atração turística é linda, deslumbrante etc. E nesse processo, o fato de que o/a turista típico/a quase que apenas tira foto dos lugares aonde vai, em vez de simplesmente apreciar os lugares, mostra que ele/a exerce a função de legitimar os valores vendidos pela indústria do turismo. Isso fica claro, quando ele/a retorna e vai relatar tudo o que viu, tornando-se mais um meio de promoção das atrações turísticas, ou seja, ele/a contribui para construir a mesma imagem mítica que o/a levou a viajar.
Naturalmente, nem toda viagem a passeio se submete a essa lógica. E nem mesmo viagens estruturadas turisticamente têm seu sentido esgotado nela, mas se não prestamos atenção nessa perspectiva crítica, o fato é que tal lógica pode acabar sendo o que dá o sentido de toda a viagem, retirando desta muito do que a própria pessoa gostaria, ou seja, sentir prazer concreto em estar em um lugar bonito, agradável, repousante etc.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um jeito capitalista de viver

Nas ciências humanas e na filosofia, particularmente em teorias ligadas a correntes marxistas, vemos vários autores criticarem o sistema capitalista em virtude de vários fatores, como as relações altamente problemáticas e injustas entre os grandes empresários e os trabalhadores, a agressividade com que a indústria explora o meio ambiente, a ganância por acumulação de riquezas e por aí vai. É interessante notar, por outro lado, que tais características e princípios de ação não são apenas localizáveis nas atividades econômicas, incluindo o próprio consumo. O princípio geral do capitalismo, a saber, investir em uma atividade para gerar valores suficientes para ter lucro, dissemina-se, alastra-se, por vários âmbitos e modos de vida.

Uma idéia que parece mais do que verdadeira, a do desejo de melhorar a nós mesmos e o mundo ao nosso redor, se transforma em algo muito próximo do espírito capitalista. A recusa de uma atitude conformista e resignada, favorecendo um modo ativo de transformar a nós mesmos e tudo mais que está a nosso alcance, acaba por valorizar apenas o que poderia ser melhor do que é concretamente. Nesse sentido, podemos ao longo do tempo sempre julgar o valor de nossas ações quase que exclusivamente pela eficiência com que é capaz de contribuir para melhorar a vida, e não propriamente para fazer com que apreciemos aquilo que já existe.

Se o princípio do capitalismo é o de gerar mais e mais riqueza, desconsiderando o simples valor que não é agregado e multiplicado, podemos perceber o quanto isso vale, por exemplo, na educação familiar. Os pais inundam seus filhos pequenos com uma enxurrada de atividades que supostamente só podem fazer bem, pois contribuirão para o enriquecimento cultural, humano, social e, por que não, econômico deles. Nesse sentido, a infância, um momento inestimável para criar uma memória duradoura de felicidade e de prazer descompromissado, acaba se afogando na necessidade — que eu diria capitalista — de “investir agora para gerar dividendos no futuro”. As crianças passam, então, a aprender inglês, francês, música, natação, balé, judô, e tudo mais que a mente dos pais imagina necessário para satisfazer seu próprio narcisismo de alguém plenamente realizado.

Em termos mais gerais ainda, tal como os autores da assim chamada escola de Frankfurt mostraram, a vida capitalista consiste em considerar as coisas como meios de se alcançar fins que não se sabe bem ao certo como podem ser usufruídos, nem mesmo qual é seu sentido. No limite, toda a vida tende a ser vivida como mero instrumento para gerar valores que não necessariamente favorecem a ela mesma.

Nós e os outros

Hoje quero comentar um vídeo muito visto e comentado nas últimas semanas, em que Casey Hines, um garoto de 16 anos anossofre uma afronta de Ritchard Gale, de 12 anos, e acaba reagindo. Eis o vídeo:

 

Eu creio que o primeiro sentimento que esse vídeo inspira é o de uma vingança plenamente merecida. Casey, não sabendo se defender da afronta inicial, acaba reunindo forças e coragem suficientes para dar uma lição definitiva em Ritchard. A sensação mais clara me parece a de uma punição totalmente merecida.
Do meu ponto de vista, Casey foi duplamente covarde. Ele o foi no primeiro momento, em que, apesar de quatro anos mais velho, mais alto e mais forte fisicamente, não teve força moral para enfrentar seu agressor. Fica claro que ele teve medo de reagir à agressão, ficando acuado perante uma afronta humilhante. Tendo, finalmente, tido coragem para enfrentar a agressão, o fez também de modo covarde, nesse sentido em que dizemos que há covardia quando alguém muito mais forte bate em alguém indefeso. Não estou querendo dizer que Casey esteja simplesmente errado, pois ele se defendeu do modo como lhe era possível emocionalmente. O que me chama a atenção, entretanto, é a desproporção do emprego da força física, que, junto com a posição de retraimento no início, mostra que ele não soube se defender em nenhum momento.
Quem não tem autoridade, precisa ser autoritário; quem não se afirma por respeito, acaba se impondo através do medo. Essa típica situação de constrangimentos e perseguições no âmbito escolar é um índice claro de que a força de uma pessoa consiste propriamente em sua personalidade, no modo como ela se coloca perante os outros. Esse posicionamento produz o modo como as pessoas vão nos tratar.
Eu gosto de pensar que ninguém é anjo nem demônio, pelo menos em princípio, de tal maneira que é necessário que nós ensinemos às outras pessoas o modo como queremos ser tratados. Se, desde que começamos o convívio com alguém, damos indícios claros de determinados limites que queremos que sejam observados, podemos criar um convívio bastante prazeroso, ao passo que se essa postura não é tomada, podemos deixar de gostar de uma pessoa a quem não soubemos ensinar como nos tratar. Nesse sentido, eu digo que não se deve nunca deixar por conta das pessoas a tarefa de conhecer nossos limites, nossos valores, nossos gostos em relação à convivência. O modo como as pessoas nos tratam é, de certa forma, um produto nosso. 
Uma conseqüência disso é a idéia de que, em vez de se magoar com o que alguém faz conosco, é preciso, antes de qualquer outra atitude, mostrar com clareza nossas expectativas, recusas e valores. Ao longo do relacionamento, seja com uma pessoa, ou com um grupo, uma pergunta bastante interessante, diante de uma atitude que reprovamos, é a seguinte: “Em que medida eu contribuí para que esse tipo de atitude tenha sido possível?”; independente de quem esteja certo ou errado, a resposta a esta questão pode ser bastante útil não apenas para essa, quanto várias relações do mesmo tipo.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Formas de opressão

Como esse espaço dos blogs na Internet é um exemplo do novo espírito de liberdade de comunicação entre as pessoas, o primeiro assunto que gostaria de comentar é uma lei francesa recente que proíbe o uso da burca e do niqab, que são aquelas vestes islâmicas que cobrem quase totalmente o corpo das mulheres, deixando aparecer apenas os olhos e as mãos, no caso do niqab, e escondendo até mesmo estes com uma pequena tela, no caso da burca.
É uma lei polêmica, e um de seus argumentos – que é o que eu gostaria de abordar – é o de que essas roupas são um atentado à dignidade das mulheres, uma forma de opressão.
Um editorial da Folha de São Paulo e o texto de uma coluna nesse mesmo jornal do filósofo Vladimir Safatle (26/04/11) argumentam no sentido de que se a mulher decide por conta própria usar tais roupas, então o caráter opressivo seria da própria lei. Safatle chega a dizer que a opressão somente é enunciada pelo próprio sujeito, e não em segunda pessoa, ou seja, só faria sentido a própria pessoa dizer: “eu sou oprimida”, e não “Você é oprimida, mesmo que não reconheça isso”.
De um ponto de vista filosófico influenciado pela psicanálise, eu diria que há valores sociais opressivos, que devem ser discutidos e criticados abertamente. Um exemplo que me parece muito claro é o ideal de feminilidade praticado em algumas regiões orientais, particularmente na China, em que se pensa que quanto menor o pé, mais feminina é uma mulher, e portanto mais atraente para o homem. Em virtude desse ideal, várias mulheres passam por rituais dolorosos, como calçar sapatos muito apertados, enfaixar os pés a ponto de comprimi-los fortemente etc.
Embora o conceito de liberdade política e jurídica esteja sujeito a diversas influências, de um ponto de vista filosófico e psicanalítico, eu diria que existem, sim, formas de opressão praticadas através de valores, que tendem a afunilar bastante a percepção das possibilidades de realização individual das pessoas. Naturalmente, este é um tema que pode levar a discussão a bastante longe, pois sempre é possível perguntar: quem decide quais são os melhores valores? Qual o critério a ser usado para medi-los?
Eu creio que não haja uma resposta universal para isso, mas sim a necessidade de pensar particularmente os casos em que determinados valores devam ou não ser questionados em sua legitimidade social. No caso dessas roupas islâmicas, creio que seja realmente o caso de proibi-las, pois os valores que as sustentam me parecem claramente opressivos. Em termos sociais, creio que o prejuízo da autonomia de cada mulher que usa a burca por conta própria será ampla- e sobejamente compensado pelo benefício daquelas várias que não mais poderão ser obrigadas a isso por seus maridos.



Início...

Começa aqui o meu blog.
Decidi participar desse veículo, em virtude de ser um canal interessante para conversar com muita gente sobre muitos assuntos, sendo que dificilmente haveria espaço para tais temas em publicações como artigos de filosofia e psicanálise. Além disso, creio que também vários deles ficam melhores ao serem escritos do que em uma conversa, pois aqui é possível desenvolver argumentos de uma maneira diferente.
 Os assuntos que tenho em mente são bastante variados, desde temas filosóficos e psicanalíticos, ambos teóricos, até comentários da vida cotidiana, passando, naturalmente, por comentários de filmes.
 Creio que a frequência das postagens será bastante irregular, em virtude de que às vezes tenho muitas ocupações acadêmicas na UFMG. Penso, entretanto, que pelo menos toda semana haverá uma postagem nova, embora a média deva ser mais do que isso.
 Comentários, críticas e sugestões são muito bem-vindos, seguindo o espírito do universo dos blogs.