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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Formas de opressão

Como esse espaço dos blogs na Internet é um exemplo do novo espírito de liberdade de comunicação entre as pessoas, o primeiro assunto que gostaria de comentar é uma lei francesa recente que proíbe o uso da burca e do niqab, que são aquelas vestes islâmicas que cobrem quase totalmente o corpo das mulheres, deixando aparecer apenas os olhos e as mãos, no caso do niqab, e escondendo até mesmo estes com uma pequena tela, no caso da burca.
É uma lei polêmica, e um de seus argumentos – que é o que eu gostaria de abordar – é o de que essas roupas são um atentado à dignidade das mulheres, uma forma de opressão.
Um editorial da Folha de São Paulo e o texto de uma coluna nesse mesmo jornal do filósofo Vladimir Safatle (26/04/11) argumentam no sentido de que se a mulher decide por conta própria usar tais roupas, então o caráter opressivo seria da própria lei. Safatle chega a dizer que a opressão somente é enunciada pelo próprio sujeito, e não em segunda pessoa, ou seja, só faria sentido a própria pessoa dizer: “eu sou oprimida”, e não “Você é oprimida, mesmo que não reconheça isso”.
De um ponto de vista filosófico influenciado pela psicanálise, eu diria que há valores sociais opressivos, que devem ser discutidos e criticados abertamente. Um exemplo que me parece muito claro é o ideal de feminilidade praticado em algumas regiões orientais, particularmente na China, em que se pensa que quanto menor o pé, mais feminina é uma mulher, e portanto mais atraente para o homem. Em virtude desse ideal, várias mulheres passam por rituais dolorosos, como calçar sapatos muito apertados, enfaixar os pés a ponto de comprimi-los fortemente etc.
Embora o conceito de liberdade política e jurídica esteja sujeito a diversas influências, de um ponto de vista filosófico e psicanalítico, eu diria que existem, sim, formas de opressão praticadas através de valores, que tendem a afunilar bastante a percepção das possibilidades de realização individual das pessoas. Naturalmente, este é um tema que pode levar a discussão a bastante longe, pois sempre é possível perguntar: quem decide quais são os melhores valores? Qual o critério a ser usado para medi-los?
Eu creio que não haja uma resposta universal para isso, mas sim a necessidade de pensar particularmente os casos em que determinados valores devam ou não ser questionados em sua legitimidade social. No caso dessas roupas islâmicas, creio que seja realmente o caso de proibi-las, pois os valores que as sustentam me parecem claramente opressivos. Em termos sociais, creio que o prejuízo da autonomia de cada mulher que usa a burca por conta própria será ampla- e sobejamente compensado pelo benefício daquelas várias que não mais poderão ser obrigadas a isso por seus maridos.



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