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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Nós e os outros

Hoje quero comentar um vídeo muito visto e comentado nas últimas semanas, em que Casey Hines, um garoto de 16 anos anossofre uma afronta de Ritchard Gale, de 12 anos, e acaba reagindo. Eis o vídeo:

 

Eu creio que o primeiro sentimento que esse vídeo inspira é o de uma vingança plenamente merecida. Casey, não sabendo se defender da afronta inicial, acaba reunindo forças e coragem suficientes para dar uma lição definitiva em Ritchard. A sensação mais clara me parece a de uma punição totalmente merecida.
Do meu ponto de vista, Casey foi duplamente covarde. Ele o foi no primeiro momento, em que, apesar de quatro anos mais velho, mais alto e mais forte fisicamente, não teve força moral para enfrentar seu agressor. Fica claro que ele teve medo de reagir à agressão, ficando acuado perante uma afronta humilhante. Tendo, finalmente, tido coragem para enfrentar a agressão, o fez também de modo covarde, nesse sentido em que dizemos que há covardia quando alguém muito mais forte bate em alguém indefeso. Não estou querendo dizer que Casey esteja simplesmente errado, pois ele se defendeu do modo como lhe era possível emocionalmente. O que me chama a atenção, entretanto, é a desproporção do emprego da força física, que, junto com a posição de retraimento no início, mostra que ele não soube se defender em nenhum momento.
Quem não tem autoridade, precisa ser autoritário; quem não se afirma por respeito, acaba se impondo através do medo. Essa típica situação de constrangimentos e perseguições no âmbito escolar é um índice claro de que a força de uma pessoa consiste propriamente em sua personalidade, no modo como ela se coloca perante os outros. Esse posicionamento produz o modo como as pessoas vão nos tratar.
Eu gosto de pensar que ninguém é anjo nem demônio, pelo menos em princípio, de tal maneira que é necessário que nós ensinemos às outras pessoas o modo como queremos ser tratados. Se, desde que começamos o convívio com alguém, damos indícios claros de determinados limites que queremos que sejam observados, podemos criar um convívio bastante prazeroso, ao passo que se essa postura não é tomada, podemos deixar de gostar de uma pessoa a quem não soubemos ensinar como nos tratar. Nesse sentido, eu digo que não se deve nunca deixar por conta das pessoas a tarefa de conhecer nossos limites, nossos valores, nossos gostos em relação à convivência. O modo como as pessoas nos tratam é, de certa forma, um produto nosso. 
Uma conseqüência disso é a idéia de que, em vez de se magoar com o que alguém faz conosco, é preciso, antes de qualquer outra atitude, mostrar com clareza nossas expectativas, recusas e valores. Ao longo do relacionamento, seja com uma pessoa, ou com um grupo, uma pergunta bastante interessante, diante de uma atitude que reprovamos, é a seguinte: “Em que medida eu contribuí para que esse tipo de atitude tenha sido possível?”; independente de quem esteja certo ou errado, a resposta a esta questão pode ser bastante útil não apenas para essa, quanto várias relações do mesmo tipo.


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