Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um jeito capitalista de viver

Nas ciências humanas e na filosofia, particularmente em teorias ligadas a correntes marxistas, vemos vários autores criticarem o sistema capitalista em virtude de vários fatores, como as relações altamente problemáticas e injustas entre os grandes empresários e os trabalhadores, a agressividade com que a indústria explora o meio ambiente, a ganância por acumulação de riquezas e por aí vai. É interessante notar, por outro lado, que tais características e princípios de ação não são apenas localizáveis nas atividades econômicas, incluindo o próprio consumo. O princípio geral do capitalismo, a saber, investir em uma atividade para gerar valores suficientes para ter lucro, dissemina-se, alastra-se, por vários âmbitos e modos de vida.

Uma idéia que parece mais do que verdadeira, a do desejo de melhorar a nós mesmos e o mundo ao nosso redor, se transforma em algo muito próximo do espírito capitalista. A recusa de uma atitude conformista e resignada, favorecendo um modo ativo de transformar a nós mesmos e tudo mais que está a nosso alcance, acaba por valorizar apenas o que poderia ser melhor do que é concretamente. Nesse sentido, podemos ao longo do tempo sempre julgar o valor de nossas ações quase que exclusivamente pela eficiência com que é capaz de contribuir para melhorar a vida, e não propriamente para fazer com que apreciemos aquilo que já existe.

Se o princípio do capitalismo é o de gerar mais e mais riqueza, desconsiderando o simples valor que não é agregado e multiplicado, podemos perceber o quanto isso vale, por exemplo, na educação familiar. Os pais inundam seus filhos pequenos com uma enxurrada de atividades que supostamente só podem fazer bem, pois contribuirão para o enriquecimento cultural, humano, social e, por que não, econômico deles. Nesse sentido, a infância, um momento inestimável para criar uma memória duradoura de felicidade e de prazer descompromissado, acaba se afogando na necessidade — que eu diria capitalista — de “investir agora para gerar dividendos no futuro”. As crianças passam, então, a aprender inglês, francês, música, natação, balé, judô, e tudo mais que a mente dos pais imagina necessário para satisfazer seu próprio narcisismo de alguém plenamente realizado.

Em termos mais gerais ainda, tal como os autores da assim chamada escola de Frankfurt mostraram, a vida capitalista consiste em considerar as coisas como meios de se alcançar fins que não se sabe bem ao certo como podem ser usufruídos, nem mesmo qual é seu sentido. No limite, toda a vida tende a ser vivida como mero instrumento para gerar valores que não necessariamente favorecem a ela mesma.

2 comentários:

Jungle disse...

Bacana essa observação do lucro, e nas crianças a relação deste com o narcisismo dos pais.

Débora Ceron disse...

Achei muito interessante esta ideia me ajudou no trabalho sobre capitalismo. Eu só acho que deveria conter mais explicaçoes em como viver num pais capitalista. mas fora isto esta muito legal!