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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Narcisismo e auto-análise

Quando dou aula introdutória sobre Freud, algumas pessoas me perguntam se é possível fazer auto-análise, ou seja, aplicar a teoria psicanalítica a si mesmo. Já existe farta literatura técnica a respeito, sendo que aqui vou apenas expor um pouco de minha perspectiva.
Creio que haja duas ordens de problemas ao se responder essa questão. A primeira delas diz respeito à percepção que cada pessoa tem de si mesma — e é sobre ela que vou comentar hoje. A outra se liga ao papel fundamental que o olhar e a escuta do outro tem para o processo analítico, envolvendo o modo como as questões e respostas são colocadas, a recusa de aconselhamento, a dimensão afetiva, de transferência, e uma série de outros aspectos.
A auto-imagem, a auto-concepção, é um grande obstáculo para a aplicação de conceitos psicanalíticos em si mesmo, devido ao fato de que pode se passar do plano da autodefesa, do auto-engrandecimento, para o da autopunição, auto-agressão, sem se colocar propriamente no âmbito de uma crítica por assim dizer “objetiva”.
No primeiro caso, é fácil perceber em ação um princípio já clássico na psicanálise, a saber, o narcisismo, caracterizado pelo investimento afetivo no próprio eu. Trata-se de uma sistemática e no mais das vezes inconsciente tendência de se defender de idéias que ferem por demais a grandiosidade pretendida de si.
É interessante notar, entretanto, que também no último caso — da consciência culpada, do arrependimento que insiste em ocorrer muitas vezes sem motivação suficiente —, vemos em ação outra face do narcisismo, que é um investimento por assim dizer negativo, de agressividade dirigida ao próprio eu. “Sentir culpa” tem algo em comum com o auto-engrandecimento, na medida em que ambos são uma forma de repetição, que apenas reafirma um quadro, uma imagem estabelecida de si mesmo, seja como pecador, sórdido, medíocre etc., seja como alguém de bom coração, de boa intenção, digno pelas características A, B e C. Em ambos os casos, o sentimento, a disposição subjetiva, volta a se repetir de forma bastante independente da especificidade de cada caso, de cada atitude que deveria ser analisada, criticada.
O que eu digo é que a autopunição é uma forma de “resolver” no palco montado pelo próprio eu alguma coisa que precisaria de outra dimensão, um novo foco na perspectiva sobre o que deve ser analisado. Em função dessa necessidade de ultrapassar esse “cenário” narcisista, um olhar que eu qualificaria como propriamente autocrítico tende a ser bem mais difícil de assumir do que o sentimento de culpa. A autopunição, por mais paradoxal que seja, exprime sempre, em alguma medida, uma recusa de pensar a si mesmo como definido pelo desejo, pela vontade e disposição de agir de determinada forma em cada caso.
Em relação a algum tipo de inibição ou fraqueza, como, por exemplo, a incapacidade de falar em público, é muito característico o fato de que conviver com o sofrimento se mostra bem mais fácil e do que tomar a atitude crítica de se perguntar pelas reais motivações desse auto-impedimento no contato com o outro. A descarga afetiva do sintoma, o redemoinho de afetos e imagens que ele evoca, substitui uma determinação percebida como, por assim dizer, “fria”, que demanda um posicionamento dirigido e estabelecido de forma consistente e continuada. Isso significa, entre outras coisas, que o sofrimento neurótico não é apenas dor, não é apenas sofrimento: ele nos “dispensa” ilusoriamente da tarefa de uma reflexão crítica em relação ao que somos e desejamos.

domingo, 22 de maio de 2011

Esse múltiplo objeto de desejo

 Hoje farei um comentário desse comercial do carro Mini Countryman:



Todo produto tem sempre sua quota de decepção para o consumidor, e então Baudrillard diz, seguindo Lacan, que isso explica o fato de muito produto oferecer sempre um “algo a mais”: 15% grátis, “compre um e ganhe outro”, brindes, sorteios, etc. No caso desse comercial, isso é acentuado, no sentido de gerar a percepção de que não se comprará “só um” carro, mas um múltiplo. Nas sociedades contemporâneas, particularmente nas grandes metrópoles, a unicidade e singularidade do objeto de desejo possuem, em alguma medida, uma dimensão claustrofóbica. A impossibilidade de um único objeto satisfazer plenamente o desejo, que podemos conectar psicanaliticamente a todo ser humano — na medida em que falamos de uma inesgotabilidade do próprio desejar —, adquire um sentido social específico na multiplicação em torvelinho dos olhares sobre os objetos. Tal como diz Baudrillard, a hiper-concentração populacional, por si, é fascinante, e se traduz, entre outras coisas, por uma espécie de déficit sistemático nos objetos a serem apropriados em função da multiplicação de demandas dos sujeitos em suas relações recíprocas. Das inumeráveis conseqüências desse processo, uma pode ser vista como princípio estruturante da mensagem publicitária, que precisa ramificar indefinidamente os extratos de significação dos objetos de consumo.
Esse comercial vende, também, a percepção de ocupação generalizada do espaço público, em contraste com o isolamento real de todo motorista. Tal como o objeto se multiplica, também com ele seu proprietário. Trata-se de um esforço de afirmar uma fantasia, ao mesmo tempo em negar, com a mesma ênfase, a realidade (e também a própria fantasia, embora isso seja um assunto por demais complexo para tratar agora). Tal como toda fantasia possui um germe inalienável do excesso, do transbordante, temos no filme o excesso dos carros voando, que remete à famosa cena do filme ET, de Steven Spielberg, em que os garotos voam de bicicleta para escapar de uma perseguição.
Somando e condensando tudo até agora, o princípio do comercial é de ultrapassagem lúdica e pueril do aprisionamento unitário aos veículos nas cidades, tomados como objeto de desejo que espelham como em um caleidoscópio sua insuficiência constitutiva.
No final temos a ambiguidade “picante” de perda de identidade com tanta multiplicação — índice de uma certa dose de senso de realidade, que confere um sabor irônico à mensagem de que o bom senso dos consumidores será um dos ingredientes a serem comprados por eles ao refletirem que, afinal de contas, trata-se apenas de uma fantasia. Mas essa ambigüidade assumidamente cínica é resolvida com a última cena, que desmultiplica na unidade plácida de uma barca; essa unidade final faz remeter à que é real, mas transposta para a fantasia onírica de um rio calmo, em franco contraste com o turbilhão das ruas das metrópoles.

sábado, 14 de maio de 2011

Doses diárias de transgressão

Não é preciso um conjunto sofisticado de conceitos psicanalíticos ou filosóficos para perceber que a transgressão por si, independente do objeto a que se refira, pode ser atraente, ou seja, que o simples fato de algo ser proibido pode conferir-lhe um forte apelo. Não quero aqui investigar a origem e o sentido mais profundo dessa característica emocional, mas sim tão-somente fazer um uso dela que me parece muito interessante.
Quem precisa se concentrar diariamente durante muito tempo para estudar, seja como aluno, professor ou candidato a algum concurso, sempre se defronta com a dificuldade de concentração. A cada instante temos a idéia de fazer qualquer outra coisa, como olhar os e-mails, telefonar para alguém, arrumar livros na estante e uma infinidade de outras coisas – grandes ou pequenas. A pergunta que precisa ser respondida é: de onde vem a atratividade tão forte dessas distrações? Porque elas são tão sedutoras? A minha resposta é: porque são um índice, um modo, um veículo para transgressões. Seus objetos, em boa parte dos casos, são irrelevantes naquele momento, mas passam a ser altamente sedutores devido ao fato de que rompem a norma e a determinação auto-imposta de concentrar no estudo. Por mais diferentes que sejam esses objetos de ação, eles passam a ter o mesmo apelo, pois todos, na verdade, significam a “mesma” coisa, a saber, a oportunidade de transgredir uma norma, um princípio, um valor. Pode-se tentar uma maneira de confirmar essa idéia, na medida em que se percebe que cada uma dessas atividades, se fossem realizadas em um momento específico para elas, não teriam quase nada de seu apelo, mostrando-se algo insosso, não produzindo nenhum prazer mais significativo.
Uma estratégia para driblar esse apelo — por assim dizer neurótico — pode ser o hábito de manter um papel e uma caneta bem próximos para anotar tudo o que se pensa em fazer durante o tempo de estudo. Chega a ser até mesmo engraçado perceber que, algumas vezes, várias das coisas que foram anotadas nem mesmo serão feitas, em virtude do fato de que, em seu momento apropriado, mostram sua verdadeira face, a saber, algo desprovido de significado por si, mas que durante o estudo tornou-se muito “apetitoso”, porque propiciava mais uma das nossas doses diárias de transgressão.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A legitimidade do não

Entre as várias tarefas na educação dos filhos, uma delas se sobressai devido não só à sua importância, quanto também dificuldade e frequência com que é demandada uma resposta pelas ações dos filhos. Trata-se da necessidade de dizer não, de impor limites aos desejos que parecem se dirigir a uma quantidade infinita de objetos, e de forma desmesurada.
Embora pareça evidente, eu digo que todo limite estabelecido às crianças deve vir sempre acompanhado de algum processo de legitimação. É preciso fazer com que a criança perceba que a recusa de um determinado objeto está justificada, tem sua razão de ser, ou seja, não se trata apenas de fruto do desejo dos pais. O grande problema é que as situações em que isso é demandado ocorrem várias vezes ao dia, ao longo de vários anos, de modo que pode ficar facilmente cansativo ter que “explicar” os motivos pelos quais uma ação não deva ser realizada. Embora eu não tenha tido a experiência de educar um filho, penso que quanto mais os pais “economizam” o trabalho da legitimação discursiva e racional dos limites impostos, mais “ganharão” o trabalho de punir as transgressões.
Nesse contexto, presencio freqüentemente um tipo de atitude que considero claramente um vício dos pais — e altamente prejudicial. Refiro-me à tendência de ameaçar o filho com uma punição qualquer caso ele não fique quieto, continue fazendo barulho, não faça o dever de casa etc. É evidente que se trata apenas de uma intimidação, de uma ameaça que muitas vezes é evidente que não será cumprida, ou seja, que é um blefe. Uma conseqüência imediata dessa atitude é o fato de a ameaça ter de ser aumentada, elevando a punição, muitas vezes até mesmo antecipando-a concretamente. A outra parte dessa estratégia é prometer algum tipo de recompensa, igualmente irreal, meramente intimidadora.
O que está em jogo nesse procedimento totalmente equivocado é a troca do trabalho de gerar respeito ao valor racional, ético, humano, das ações, pela solução mais imediata de fazer-se obedecer por medo. A coerção intimidadora, tal como a vemos na ética kantiana, sempre se vincula a uma motivação particular, circunstanciada, relativa ao condicionamento emocional do agente. O respeito, por outro lado, relaciona-se ao reconhecimento da validade de um princípio, substancialmente independente de quem o enuncia. Nesse sentido, Kant diz que o respeito dos filhos não se dá propriamente em relação à pessoa do pai e da mãe, mas sim ao valor, à lei, à norma, que eles proferem, sendo estes tão-somente seu veículo.
Dos diversos aspectos envolvidos nessa questão, não deixa de ser interessante notar que quanto mais o pai e mãe insistem nessa perspectiva do respeito pela lei, mais eles “desaparecem” — pelo menos em um primeiro momento — como objeto do sentimento dos filhos, pois passam a ser meros porta-vozes de um valor que os ultrapassa como pessoas. A imposição do medo e a oferta de recompensa, por outro lado, conferem um ganho estranhamente narcisista, uma vez que em ambos os casos é a pessoa do pai e da mãe que é “objeto direto” do afeto gerado nos filhos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O medo e o fascínio da morte

Montaigne dizia que a morte, em si, não é um problema, mas sim o medo em relação a ela. Realmente, podemos concordar que a inevitabilidade da morte deveria ser assimilada através do que Freud chamou de princípio de realidade. Trata-se de um ponto final em nossas existências cuja inevitabilidade deveria convergir na perspectiva de que nos cabe preencher a vida com o sentido que nos é possível querer e realizar, de acordo com as diversas condições, tanto subjetivas quanto objetivas. Se, entretanto, percebemos uma insistência no medo de morrer, se nos ligamos afetivamente a esse fato de um modo que tende, a cada vez, diminuir o sentido “positivo” com que usufruímos da vida, então esse sentimento deve mesmo ser “explicado”. Ele estaria na base de toda forma de religião – como já se tornou clássico nos estudos críticos desse fenômeno (cf., por exemplo, Freud e seu O futuro de uma ilusão) –, na medida em que a crença na vida após a morte seria uma forma de negar o ponto final “definitivo” da existência.
Esse é um assunto extremamente complexo, e nesse curto espaço é impossível uma abordagem minimamente significativa em termos de abrangência dos fatores envolvidos, de modo que deverei voltar a esse tema em outras ocasiões. O que gostaria de enfocar hoje é a ambigüidade em afetiva em relação à morte, sem me aprofundar minimamente. Esse post deve ser visto apenas como o começo de uma conversa...
No sábado vi pela internet um vídeo que mostra um carro de corrida envolvido em um acidente “espetacular” – como se diz –, que sofreu várias capotagens, efetuando giros de 360º no ar como se fosse uma folha de papel. Felizmente, o piloto saiu andando do carro e não sofreu ferimentos graves. A cada novo acidente, com ou sem vítimas (fatais ou não), firma-se em mim a convicção de que em todos esses esportes ditos “radicais”, a possibilidade da morte, sua proximidade, é um componente fundamental. O desperdício de vidas humanas, como diz Baudrillard, é um dos grandes espetáculos da sociedade de consumo. Eu diria, entretanto, que tal espetáculo somente existe devido a um fascínio pela anulação radical de si mesmo/a, tanto mais quanto associada a uma violência arrasadora. A investigar, entretanto, seria a origem desse fascínio, o que, entretanto, não tenho como fazer agora nesse espaço. Quero somente dizer que a atratividade dos esportes perigosos torna pelo menos possível afirmar a existência do fascínio (explícito, consciente, ou não) pela morte. Naturalmente, nem todas as pessoas gostam, seja de praticar, seja de assistir tais competições, mas é inegável que seu público é expressivo. Além disso, é muito evidente a “curiosidade” por notícias de desastres e a de muita gente ao passar por um acidente de carro. Em várias ocasiões em que enfrentei um engarrafamento devido a um acidente, a lentidão era muito mais, ou apenas, devida ao fato de que todos os motoristas diminuíam a velocidade para “ver o que aconteceu”.
Seguindo uma perspectiva psicanalítica – que, aliás, sempre ocorrerá em meu blog –, dizemos que tanto o medo quanto a atração, curiosidade e fascínio são formas de investimento afetivo em um objeto. São formas de nos ligarmos afetivamente a algo, de respondermos a uma demanda subjetiva. De forma análoga a como o ódio, o ressentimento e a raiva que surgem após o rompimento de uma relação amorosa podem ser vistos como prolongamento do mesmo vínculo afetivo que havia antes, a insistência na perspectiva “negativa”, de recusa, da morte seria o “outro lado da moeda” em relação a esse objeto. Em outras palavras, o medo da morte só é tão difícil de enfrentar para muitos de nós, devido a uma atratividade altamente incompreensível em relação a ela. – Por que, entretanto, haveria esse fascínio e em que ele consiste propriamente, bom, isso deverá ficar para outros posts...

domingo, 1 de maio de 2011

Ação e sentimento

Em sua ética plenamente racional e extremamente rigorosa, Kant dizia que o sentimento de compaixão, de dó em relação ao semelhante, não é um elemento moral significativo. Para ele, o único sentimento propriamente ligado aos valores morais é o do respeito pela lei. Em vez de sentir compaixão, para ele seria necessário tratar bem, agir. 
Quase um século depois, Nietzsche, com sua ética, também rigorosa, favorecia plenamente uma moral voltada para a afirmação da força, em vez da interiorização, cujo índice maior seria o ressentimento. 
Tomando um pouco de cada uma dessas duas posições, e da moral de Schopenhauer, que fala em graus em que a compaixão se exprime, desde um mero sentimento privado até o efetivo esforço para a eliminação do sofrimento alheio, creio que podemos formar uma idéia que me parece bastante interessante de uma relação geral entre ação e sentimento.
Antes, porém, de dizer qual é minha posição, quero deixar claro que não estou defendendo um princípio válido em 100% dos casos, nem independente de valores morais específicos das diversas formas de cultura. Penso apenas que tenha validade no âmbito de nossa cultura ocidental, particularmente nas grandes metrópoles.
A minha idéia é de que configura uma espécie de vício trocar ações por sentimentos. Em vários contextos, dos quais vou falar alguns exemplos, em vez de interferir concretamente em nosso meio, constituído pelos objetos e pelas pessoas, tendemos a “resolver”, “digerir”, algo no âmbito das emoções, cultivando algum sentimento diretamente ligado à realidade externa.
Vamos aos casos típicos, e a um que pode ser polêmico.
O mais evidente é o da compaixão. Em vez de propriamente ajudar, de agir concretamente de modo a transformar a vida do outro, passa-se a nutrir um sentimento de dó, de consternação pela infelicidade alheia que, como diz Kant, só aumenta o sofrimento no mundo.
Em relação às obrigações, em vez de fazer o que é necessário, fica-se preocupado com o tempo que ainda resta para cumprir uma tarefa. Nesse momento, a procrastinação, ou seja, o hábito de deixar as coisas para a última hora, é a conseqüência imediata desse vício. Como se diz por aí, em vez de se ocupar com as coisas, passa-se a se preocupar com elas.
Em tempos em que o bullying é muito comentado, a ideia de Nietzsche acima ganha especial evidência. No lugar de propriamente responder a uma ofensa, de mostrar indignação, de dizer claramente que não se gostou de algo etc., passa-se a nutrir toda espécie de sentimentos, fantasias e imagens que tendem a montar um cenário privado para digerir no âmbito emocional o que deveria ter sido resolvido, ou pelo menos tentado, na relação concreta com as pessoas.
Diante de uma situação problemática, em que um aparelho deixa de funcionar bem, algo não acontece como programado ou oferece resistência a nossa ação etc., em vez de pesquisar as causas do problema de forma tranqüila, o que se tem é irritação, raiva, enfim, alguma espécie de desarranjo emocional. Na maioria das vezes, esse destempero somente tende a piorar mais ainda a situação e dificultar o raciocínio capaz de levar a uma resposta satisfatória.
A aplicação mais polêmica, entretanto, é a que vejo no vínculo entre carinho (que aqui designa qualquer ação no sentido de demonstrar afeto) e amor. O caráter polêmico vem do fato de que é evidente que qualquer ação de carinho somente parece ter sentido se está vinculada a alguma afeição, pois, caso contrário, poderia ser tachada de falsidade, hipocrisia etc. O que me chama a atenção, entretanto, é que em vez de se procurar aprender concretamente o que o outro demanda de mim em termos de minha ação, de minhas palavras e gestos; em vez de agir concretamente para fazer com que a outra pessoa se sinta bem e se satisfaça em alguma medida com a minha relação com ela, pode-se se contentar com o fato de que “gostamos” dessa pessoa. Eu diria que a certeza ou a consciência íntima do sentimento acabam substituindo a necessidade de entender concretamente o que o outro precisa de mim em termos de demonstração de afeto.
Mesclando o primeiro exemplo, da relação entre a ajuda e compaixão, e esse último, eu diria, de modo também um tanto polêmico, que ao outro somente interessa nossos sentimentos na medida em que a eles corresponde algum tipo de ação. Desconectado dessa última, eu diria que sentimento somente “interessa” a quem o tem, e muitas vezes, como procurei mostrar, nem mesmo à própria pessoa.