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domingo, 1 de maio de 2011

Ação e sentimento

Em sua ética plenamente racional e extremamente rigorosa, Kant dizia que o sentimento de compaixão, de dó em relação ao semelhante, não é um elemento moral significativo. Para ele, o único sentimento propriamente ligado aos valores morais é o do respeito pela lei. Em vez de sentir compaixão, para ele seria necessário tratar bem, agir. 
Quase um século depois, Nietzsche, com sua ética, também rigorosa, favorecia plenamente uma moral voltada para a afirmação da força, em vez da interiorização, cujo índice maior seria o ressentimento. 
Tomando um pouco de cada uma dessas duas posições, e da moral de Schopenhauer, que fala em graus em que a compaixão se exprime, desde um mero sentimento privado até o efetivo esforço para a eliminação do sofrimento alheio, creio que podemos formar uma idéia que me parece bastante interessante de uma relação geral entre ação e sentimento.
Antes, porém, de dizer qual é minha posição, quero deixar claro que não estou defendendo um princípio válido em 100% dos casos, nem independente de valores morais específicos das diversas formas de cultura. Penso apenas que tenha validade no âmbito de nossa cultura ocidental, particularmente nas grandes metrópoles.
A minha idéia é de que configura uma espécie de vício trocar ações por sentimentos. Em vários contextos, dos quais vou falar alguns exemplos, em vez de interferir concretamente em nosso meio, constituído pelos objetos e pelas pessoas, tendemos a “resolver”, “digerir”, algo no âmbito das emoções, cultivando algum sentimento diretamente ligado à realidade externa.
Vamos aos casos típicos, e a um que pode ser polêmico.
O mais evidente é o da compaixão. Em vez de propriamente ajudar, de agir concretamente de modo a transformar a vida do outro, passa-se a nutrir um sentimento de dó, de consternação pela infelicidade alheia que, como diz Kant, só aumenta o sofrimento no mundo.
Em relação às obrigações, em vez de fazer o que é necessário, fica-se preocupado com o tempo que ainda resta para cumprir uma tarefa. Nesse momento, a procrastinação, ou seja, o hábito de deixar as coisas para a última hora, é a conseqüência imediata desse vício. Como se diz por aí, em vez de se ocupar com as coisas, passa-se a se preocupar com elas.
Em tempos em que o bullying é muito comentado, a ideia de Nietzsche acima ganha especial evidência. No lugar de propriamente responder a uma ofensa, de mostrar indignação, de dizer claramente que não se gostou de algo etc., passa-se a nutrir toda espécie de sentimentos, fantasias e imagens que tendem a montar um cenário privado para digerir no âmbito emocional o que deveria ter sido resolvido, ou pelo menos tentado, na relação concreta com as pessoas.
Diante de uma situação problemática, em que um aparelho deixa de funcionar bem, algo não acontece como programado ou oferece resistência a nossa ação etc., em vez de pesquisar as causas do problema de forma tranqüila, o que se tem é irritação, raiva, enfim, alguma espécie de desarranjo emocional. Na maioria das vezes, esse destempero somente tende a piorar mais ainda a situação e dificultar o raciocínio capaz de levar a uma resposta satisfatória.
A aplicação mais polêmica, entretanto, é a que vejo no vínculo entre carinho (que aqui designa qualquer ação no sentido de demonstrar afeto) e amor. O caráter polêmico vem do fato de que é evidente que qualquer ação de carinho somente parece ter sentido se está vinculada a alguma afeição, pois, caso contrário, poderia ser tachada de falsidade, hipocrisia etc. O que me chama a atenção, entretanto, é que em vez de se procurar aprender concretamente o que o outro demanda de mim em termos de minha ação, de minhas palavras e gestos; em vez de agir concretamente para fazer com que a outra pessoa se sinta bem e se satisfaça em alguma medida com a minha relação com ela, pode-se se contentar com o fato de que “gostamos” dessa pessoa. Eu diria que a certeza ou a consciência íntima do sentimento acabam substituindo a necessidade de entender concretamente o que o outro precisa de mim em termos de demonstração de afeto.
Mesclando o primeiro exemplo, da relação entre a ajuda e compaixão, e esse último, eu diria, de modo também um tanto polêmico, que ao outro somente interessa nossos sentimentos na medida em que a eles corresponde algum tipo de ação. Desconectado dessa última, eu diria que sentimento somente “interessa” a quem o tem, e muitas vezes, como procurei mostrar, nem mesmo à própria pessoa.

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