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sábado, 14 de maio de 2011

Doses diárias de transgressão

Não é preciso um conjunto sofisticado de conceitos psicanalíticos ou filosóficos para perceber que a transgressão por si, independente do objeto a que se refira, pode ser atraente, ou seja, que o simples fato de algo ser proibido pode conferir-lhe um forte apelo. Não quero aqui investigar a origem e o sentido mais profundo dessa característica emocional, mas sim tão-somente fazer um uso dela que me parece muito interessante.
Quem precisa se concentrar diariamente durante muito tempo para estudar, seja como aluno, professor ou candidato a algum concurso, sempre se defronta com a dificuldade de concentração. A cada instante temos a idéia de fazer qualquer outra coisa, como olhar os e-mails, telefonar para alguém, arrumar livros na estante e uma infinidade de outras coisas – grandes ou pequenas. A pergunta que precisa ser respondida é: de onde vem a atratividade tão forte dessas distrações? Porque elas são tão sedutoras? A minha resposta é: porque são um índice, um modo, um veículo para transgressões. Seus objetos, em boa parte dos casos, são irrelevantes naquele momento, mas passam a ser altamente sedutores devido ao fato de que rompem a norma e a determinação auto-imposta de concentrar no estudo. Por mais diferentes que sejam esses objetos de ação, eles passam a ter o mesmo apelo, pois todos, na verdade, significam a “mesma” coisa, a saber, a oportunidade de transgredir uma norma, um princípio, um valor. Pode-se tentar uma maneira de confirmar essa idéia, na medida em que se percebe que cada uma dessas atividades, se fossem realizadas em um momento específico para elas, não teriam quase nada de seu apelo, mostrando-se algo insosso, não produzindo nenhum prazer mais significativo.
Uma estratégia para driblar esse apelo — por assim dizer neurótico — pode ser o hábito de manter um papel e uma caneta bem próximos para anotar tudo o que se pensa em fazer durante o tempo de estudo. Chega a ser até mesmo engraçado perceber que, algumas vezes, várias das coisas que foram anotadas nem mesmo serão feitas, em virtude do fato de que, em seu momento apropriado, mostram sua verdadeira face, a saber, algo desprovido de significado por si, mas que durante o estudo tornou-se muito “apetitoso”, porque propiciava mais uma das nossas doses diárias de transgressão.

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