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domingo, 22 de maio de 2011

Esse múltiplo objeto de desejo

 Hoje farei um comentário desse comercial do carro Mini Countryman:



Todo produto tem sempre sua quota de decepção para o consumidor, e então Baudrillard diz, seguindo Lacan, que isso explica o fato de muito produto oferecer sempre um “algo a mais”: 15% grátis, “compre um e ganhe outro”, brindes, sorteios, etc. No caso desse comercial, isso é acentuado, no sentido de gerar a percepção de que não se comprará “só um” carro, mas um múltiplo. Nas sociedades contemporâneas, particularmente nas grandes metrópoles, a unicidade e singularidade do objeto de desejo possuem, em alguma medida, uma dimensão claustrofóbica. A impossibilidade de um único objeto satisfazer plenamente o desejo, que podemos conectar psicanaliticamente a todo ser humano — na medida em que falamos de uma inesgotabilidade do próprio desejar —, adquire um sentido social específico na multiplicação em torvelinho dos olhares sobre os objetos. Tal como diz Baudrillard, a hiper-concentração populacional, por si, é fascinante, e se traduz, entre outras coisas, por uma espécie de déficit sistemático nos objetos a serem apropriados em função da multiplicação de demandas dos sujeitos em suas relações recíprocas. Das inumeráveis conseqüências desse processo, uma pode ser vista como princípio estruturante da mensagem publicitária, que precisa ramificar indefinidamente os extratos de significação dos objetos de consumo.
Esse comercial vende, também, a percepção de ocupação generalizada do espaço público, em contraste com o isolamento real de todo motorista. Tal como o objeto se multiplica, também com ele seu proprietário. Trata-se de um esforço de afirmar uma fantasia, ao mesmo tempo em negar, com a mesma ênfase, a realidade (e também a própria fantasia, embora isso seja um assunto por demais complexo para tratar agora). Tal como toda fantasia possui um germe inalienável do excesso, do transbordante, temos no filme o excesso dos carros voando, que remete à famosa cena do filme ET, de Steven Spielberg, em que os garotos voam de bicicleta para escapar de uma perseguição.
Somando e condensando tudo até agora, o princípio do comercial é de ultrapassagem lúdica e pueril do aprisionamento unitário aos veículos nas cidades, tomados como objeto de desejo que espelham como em um caleidoscópio sua insuficiência constitutiva.
No final temos a ambiguidade “picante” de perda de identidade com tanta multiplicação — índice de uma certa dose de senso de realidade, que confere um sabor irônico à mensagem de que o bom senso dos consumidores será um dos ingredientes a serem comprados por eles ao refletirem que, afinal de contas, trata-se apenas de uma fantasia. Mas essa ambigüidade assumidamente cínica é resolvida com a última cena, que desmultiplica na unidade plácida de uma barca; essa unidade final faz remeter à que é real, mas transposta para a fantasia onírica de um rio calmo, em franco contraste com o turbilhão das ruas das metrópoles.

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