Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A legitimidade do não

Entre as várias tarefas na educação dos filhos, uma delas se sobressai devido não só à sua importância, quanto também dificuldade e frequência com que é demandada uma resposta pelas ações dos filhos. Trata-se da necessidade de dizer não, de impor limites aos desejos que parecem se dirigir a uma quantidade infinita de objetos, e de forma desmesurada.
Embora pareça evidente, eu digo que todo limite estabelecido às crianças deve vir sempre acompanhado de algum processo de legitimação. É preciso fazer com que a criança perceba que a recusa de um determinado objeto está justificada, tem sua razão de ser, ou seja, não se trata apenas de fruto do desejo dos pais. O grande problema é que as situações em que isso é demandado ocorrem várias vezes ao dia, ao longo de vários anos, de modo que pode ficar facilmente cansativo ter que “explicar” os motivos pelos quais uma ação não deva ser realizada. Embora eu não tenha tido a experiência de educar um filho, penso que quanto mais os pais “economizam” o trabalho da legitimação discursiva e racional dos limites impostos, mais “ganharão” o trabalho de punir as transgressões.
Nesse contexto, presencio freqüentemente um tipo de atitude que considero claramente um vício dos pais — e altamente prejudicial. Refiro-me à tendência de ameaçar o filho com uma punição qualquer caso ele não fique quieto, continue fazendo barulho, não faça o dever de casa etc. É evidente que se trata apenas de uma intimidação, de uma ameaça que muitas vezes é evidente que não será cumprida, ou seja, que é um blefe. Uma conseqüência imediata dessa atitude é o fato de a ameaça ter de ser aumentada, elevando a punição, muitas vezes até mesmo antecipando-a concretamente. A outra parte dessa estratégia é prometer algum tipo de recompensa, igualmente irreal, meramente intimidadora.
O que está em jogo nesse procedimento totalmente equivocado é a troca do trabalho de gerar respeito ao valor racional, ético, humano, das ações, pela solução mais imediata de fazer-se obedecer por medo. A coerção intimidadora, tal como a vemos na ética kantiana, sempre se vincula a uma motivação particular, circunstanciada, relativa ao condicionamento emocional do agente. O respeito, por outro lado, relaciona-se ao reconhecimento da validade de um princípio, substancialmente independente de quem o enuncia. Nesse sentido, Kant diz que o respeito dos filhos não se dá propriamente em relação à pessoa do pai e da mãe, mas sim ao valor, à lei, à norma, que eles proferem, sendo estes tão-somente seu veículo.
Dos diversos aspectos envolvidos nessa questão, não deixa de ser interessante notar que quanto mais o pai e mãe insistem nessa perspectiva do respeito pela lei, mais eles “desaparecem” — pelo menos em um primeiro momento — como objeto do sentimento dos filhos, pois passam a ser meros porta-vozes de um valor que os ultrapassa como pessoas. A imposição do medo e a oferta de recompensa, por outro lado, conferem um ganho estranhamente narcisista, uma vez que em ambos os casos é a pessoa do pai e da mãe que é “objeto direto” do afeto gerado nos filhos.

Nenhum comentário: