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quarta-feira, 4 de maio de 2011

O medo e o fascínio da morte

Montaigne dizia que a morte, em si, não é um problema, mas sim o medo em relação a ela. Realmente, podemos concordar que a inevitabilidade da morte deveria ser assimilada através do que Freud chamou de princípio de realidade. Trata-se de um ponto final em nossas existências cuja inevitabilidade deveria convergir na perspectiva de que nos cabe preencher a vida com o sentido que nos é possível querer e realizar, de acordo com as diversas condições, tanto subjetivas quanto objetivas. Se, entretanto, percebemos uma insistência no medo de morrer, se nos ligamos afetivamente a esse fato de um modo que tende, a cada vez, diminuir o sentido “positivo” com que usufruímos da vida, então esse sentimento deve mesmo ser “explicado”. Ele estaria na base de toda forma de religião – como já se tornou clássico nos estudos críticos desse fenômeno (cf., por exemplo, Freud e seu O futuro de uma ilusão) –, na medida em que a crença na vida após a morte seria uma forma de negar o ponto final “definitivo” da existência.
Esse é um assunto extremamente complexo, e nesse curto espaço é impossível uma abordagem minimamente significativa em termos de abrangência dos fatores envolvidos, de modo que deverei voltar a esse tema em outras ocasiões. O que gostaria de enfocar hoje é a ambigüidade em afetiva em relação à morte, sem me aprofundar minimamente. Esse post deve ser visto apenas como o começo de uma conversa...
No sábado vi pela internet um vídeo que mostra um carro de corrida envolvido em um acidente “espetacular” – como se diz –, que sofreu várias capotagens, efetuando giros de 360º no ar como se fosse uma folha de papel. Felizmente, o piloto saiu andando do carro e não sofreu ferimentos graves. A cada novo acidente, com ou sem vítimas (fatais ou não), firma-se em mim a convicção de que em todos esses esportes ditos “radicais”, a possibilidade da morte, sua proximidade, é um componente fundamental. O desperdício de vidas humanas, como diz Baudrillard, é um dos grandes espetáculos da sociedade de consumo. Eu diria, entretanto, que tal espetáculo somente existe devido a um fascínio pela anulação radical de si mesmo/a, tanto mais quanto associada a uma violência arrasadora. A investigar, entretanto, seria a origem desse fascínio, o que, entretanto, não tenho como fazer agora nesse espaço. Quero somente dizer que a atratividade dos esportes perigosos torna pelo menos possível afirmar a existência do fascínio (explícito, consciente, ou não) pela morte. Naturalmente, nem todas as pessoas gostam, seja de praticar, seja de assistir tais competições, mas é inegável que seu público é expressivo. Além disso, é muito evidente a “curiosidade” por notícias de desastres e a de muita gente ao passar por um acidente de carro. Em várias ocasiões em que enfrentei um engarrafamento devido a um acidente, a lentidão era muito mais, ou apenas, devida ao fato de que todos os motoristas diminuíam a velocidade para “ver o que aconteceu”.
Seguindo uma perspectiva psicanalítica – que, aliás, sempre ocorrerá em meu blog –, dizemos que tanto o medo quanto a atração, curiosidade e fascínio são formas de investimento afetivo em um objeto. São formas de nos ligarmos afetivamente a algo, de respondermos a uma demanda subjetiva. De forma análoga a como o ódio, o ressentimento e a raiva que surgem após o rompimento de uma relação amorosa podem ser vistos como prolongamento do mesmo vínculo afetivo que havia antes, a insistência na perspectiva “negativa”, de recusa, da morte seria o “outro lado da moeda” em relação a esse objeto. Em outras palavras, o medo da morte só é tão difícil de enfrentar para muitos de nós, devido a uma atratividade altamente incompreensível em relação a ela. – Por que, entretanto, haveria esse fascínio e em que ele consiste propriamente, bom, isso deverá ficar para outros posts...

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