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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma questão de escolha

Certa vez, em um programa de televisão que entrevistava psicólogos e psicanalistas, uma telespectadora participou através de e-mail, dizendo que estava casada há dez anos, e que, embora ainda fosse jovem e tivesse forte desejo sexual, sua relação com o marido há algum tempo havia deixado de ser "entre homem e mulher", passando a ser muito mais uma relação de amizade. Eu não me lembro da resposta do psicólogo, mas a analista respondeu: “É uma opção”, e explicou dizendo que pode ser uma escolha essa convivência em que o desejo sexual propriamente dito dá lugar ao compartilhamento de diversos modos de vida, interesses, deveres, vida social etc. Continuou dizendo que nenhuma forma de vida deve ser pensada como predeterminada, mas sim como fruto de nossas próprias opções.
Não pretendo aqui discutir a adequação dessa resposta ao caso particular em jogo. De qualquer forma, foi uma colocação genérica o bastante para não ser acusada de psicanálise selvagem, como dizia Freud, em que se pronuncia algum juízo sem a mediação do contato entre o analista e o analisando. Interessa-me, sobretudo, a idéia bastante valiosa da necessidade de pensarmos nossa existência como pautada essencialmente por nossas escolhas.
No âmbito do senso comum, e eu diria que em diversas correntes sociológicas e psicológicas, confere-se um peso muito grande aos condicionamentos materiais e culturais — e também biológicos — da existência individual, retirando de cena — ou diminuindo bastante — a importância da subjetividade e do desejo como fundamento de determinação do que somos e fazemos. Não se trata de negar o fato de que todo ser humano é formado a partir de uma série de elementos culturais, inserindo-se em um horizonte social que não pode simplesmente ser anulado. É evidente que as culturas oferecem aos indivíduos uma base para sua formação a partir da qual muita coisa será pensada, até mesmo as próprias críticas a elas. Entretanto, quero insistir na idéia de que a cultura produz uma formação, e não um adestramento. No caso dos animais, seu condicionamento dirigido por um ser humano não permite uma reapropriação crítica. No âmbito cultural, o processo formativo possibilita, em diversos graus de abertura, modos de tomada de consciência reflexiva sobre o que nos forma como sujeitos.
Apesar das infinitas conseqüências negativas do processo de individualização contemporânea no ocidente, com seu culto da personalidade, consumo em massa, etc., o senso de individualidade sedimentou-se a um ponto em que tornou possível uma inédita reflexão crítica sobre nossas escolhas. Eu creio que a psicanálise surge com uma consciência forte do papel primordial da subjetividade no processo de determinação do que o indivíduo é. Por mais que as condições materiais e culturais da existência sejam uma base inalienável, a radicalidade da crítica que a psicanálise propõe consiste em tentar se aperceber reflexivamente do quanto nós absorvemos intimamente o que nos forma, de modo a desejá-lo, a tomá-lo como fruto de nossa escolha. Nesse sentido, vejo como especialmente importante prestar atenção às ideias de que “as circunstâncias da vida” nos levaram a ser o que somos, a estar onde estamos etc. Muitas vezes ouço alguém dizer que, na circunstância atual de vida, não tem opções, e eu normalmente pergunto: o quanto foi fruto de escolhas suas chegar ao ponto em que você chegou, em que parece não haver alternativas? Ou ainda: em que medida ainda é uma opção permanecer nesse lugar e não trocá-lo por outro, em que haja um novo leque de possibilidades?
A radicalidade de um trabalho psicanalítico, dentre várias outras coisas, consistirá em se perguntar por motivos e fundamentos de escolhas que, embora existentes em nós mesmos, são inconscientes. Escolhemos — mas nos recusamos a assumir alguns sentidos inadmissíveis para nossa escolha. Por outro lado, é bastante interessante notar que pessoas que começam uma análise ou se interessam pela teoria psicanalítica podem ter uma atitude de retirar de si a responsabilidade por aquilo que desejam, dizendo, por exemplo, “Foi meu inconsciente que me levou agir assim”. É como se este inconsciente fosse algo totalmente diferente do que o indivíduo é como núcleo de suas escolhas. — É bem verdade que os desejos inconscientes assumem um caráter de estranheza, de algo que parece agir em nós à revelia de nós mesmos. Entretanto, um sentido precípuo da psicanálise consiste em perceber o quanto isso que nos move é parte de nós mesmos. Tanto a ideia de que não possuímos um inconsciente, ou seja, de que toda a vida psíquica consiste em elaborações conscientes do que o meio social nos proporciona, quanto a ideia de que o inconsciente é algo totalmente outro e diferente do que podemos pensar de nós mesmos — ambas as idéias se afastam da tentativa da psicanálise em captar este nó trágico da existência, em que devemos tentar nos assenhorar daquilo que é implantado em nós pela família, pela sociedade, pela religião, pela cultura em geral, e que começa — inevitavelmente — a fazer parte de nós como um corpo estranho interno, como dizia Freud. Na medida em que nos apercebemos do quanto escolhemos ser aquilo que a cultura propõe que nós sejamos e façamos, somente aí é que começamos a vislumbrar o quanto nosso mundo, tanto interno quanto externo, são fruto, em alguma medida, de nossas escolhas, e, nessa mesma medida, podem ser diferentes.

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