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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma vida abstrata

Há alguns anos, eu conversava com dois amigos sobre o papel do esporte na sociedade, e um deles disse que gostava de futebol, mas não propriamente de jogar, mas também não de ir aos estádios, nem de assistir aos jogos pela televisão. Na verdade, nem mesmo de ver os replays dos gols. Ora, você deve estar se perguntando: mas se ele gostava de futebol, porque não fazia nenhuma dessas coisas? Ou, em outros termos, se não é por nenhuma dessas formas, por qual outra esse gosto se manifestava? Resposta: acompanhar, durante todo o campeonato, a tabela com a pontuação de cada time, semana após semana — sendo que havia especial interesse no cálculo de quantos pontos cada equipe precisava para ganhar a competição, e as várias combinações de resultados dos adversários. Finda uma temporada, iniciava-se a outra, e uma nova tabela com números será conferida periodicamente até o fim do semestre.
Naturalmente, não causa estranheza o fato de se gostar de acompanhar os resultados dos jogos e fazer os cálculos do que é necessário pontuar em relação aos adversários, pois isso é bastante compreensível em virtude da dimensão competitiva desse esporte. O que impressiona é o fato de que seja somente isso que se possa gostar em relação ao futebol. Essa simples atitude parece emblemática de todo o movimento cultural no ocidente, como também em vários países orientais, a saber, o alto grau de abstração com que se lida com os objetos de prazer. A atratividade parece se deslocar tendencialmente da concretude do objeto para a abstração lúdica de manipular imagens, signos, símbolos, números, fantasias etc. Não se trata apenas da transformação da realidade em um espetáculo, mas também de seu desmembramento em objetos passíveis de serem alocados numa constelação que define a personalidade de cada um, seu espaço, seu estilo e modo de vida.
A interatividade da Internet é uma verdade acerca de todo o espetáculo que havia antes dela: o gosto em situar todos os elementos da realidade, tanto emocional, íntima, quanto do mundo, em um enorme tabuleiro, um gigantesco quadro de avisos, em que se sobrepõem e se justapõem uma quantidade indefinida de peças. Cada novo acontecimento, objeto, gíria, atitude etc., vale fundamentalmente pelo modo como fornece esse prazer de nos situarmos como uma espécie de gerenciadores de nossa própria maneira de gostar das coisas.
A pornografia é um índice expressivo desse estado de coisas. Facilmente se esquece de ter em mente que em um vídeo pornográfico não há sexo, mas apenas a imagem dele. Quem vende sexo propriamente é a garota ou o garoto de programa. Nesse último caso, o âmbito das tensões emocionais ao lidar com a corporeidade alheia ainda permanece (apesar de o dinheiro anular um vasto leque de mediações, até mesmo a da gratuidade do sexo dito “casual”, fortuito, em que o encontro é mediado pela decisão de desconsiderar qualquer envolvimento emocional prévio). O distanciamento da imagem sexual, por sua vez, abstrai diretamente todas as contradições possíveis entre desejar e não desejar, ser desejado e ser rejeitado, gostar e não gostar etc.
 Tudo isso, entretanto, não deve ser lido como uma crítica moralista, que rotula como superficial e alienada a postura contemporânea, mas sim como um índice daquilo a que cada um de nós está sempre sujeito em alguma medida. Ela tem o sentido de fazer com que tomemos consciência do quanto nossa vida na sociedade contemporânea nos encaminha para graus de abstração cada vez maiores e mais frequentes. Na medida em que nos apercebemos disso, é interessante refletir e perguntar: não é melhor, em determinadas circunstâncias, ter um vínculo mais concreto com os objetos, as pessoas, as emoções etc?

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