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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entre o presente e o futuro

Um dos pontos de apoio mais interessantes da psicanálise é a idéia de que existe uma mobilidade muito grande entre os objetos de desejo e os afetos que se ligam a eles. No âmbito propriamente patológico, como no caso das fobias, vemos que um medo pânico se conecta de forma bastante rígida e desesperadora a objetos que são muito pouco perigosos ou até mesmo inofensivos. De acordo com a teoria de Freud, os afetos podem se deslocar de um objeto para o outro, como também se concentrar (condensar) em um objeto só, sendo provenientes de dois ou mais. Mesmo no âmbito do que não nos parece claramente patológico, vemos o quanto pode haver de tristeza em relação a situações que muitas vezes a própria pessoa não considera tão significativas, como também haver muito orgulho e engrandecimento relativo algo que, na verdade, contribui muito pouco para a própria vida e desenvolvimento pessoal. Como as possibilidades dessas trocas são infinitas, vários aspectos podem ser objeto de análise específica, percebendo-se em cada caso como esse deslocamento dos afetos ocorre. Hoje, quero falar de algo que sempre me surpreendeu, tanto por possuir uma lógica um tanto estranha, quanto também pela frequência com que a vejo existir.
 Segundo uma perspectiva que parece bastante razoável, é de se supor que as pessoas tivessem sua atenção essencialmente dirigida para o quanto já conseguiram realizar, adquirir e melhorar. Uma vez que cada um desses elementos é um motivo concreto para se ter prazer, sendo uma fonte de satisfação já disponível, a busca de novas realizações, aquisições e aperfeiçoamentos deveria ser vista como apenas uma forma de acréscimo em relação ao que já existe. Entretanto, de um modo bastante curioso, percebe-se que o objeto que ainda não se tem, a realização que ainda não foi consumada, a melhoria que ainda está por se fazer são mais estimulantes, atraentes e sedutores. Em vez da concretude do objeto já existente, vemos um investimento afetivo na abstração do que ainda não existe.
É muito claro que esse deslocamento se conforma perfeitamente à nossa sociedade capitalista contemporânea, e está intimamente associada ao movimento infinito do consumo. Embora seja um assunto que me interessa particularmente, não quero aqui discutir o problema da relação de causalidade e prioridade entre a dimensão psíquica individual e a social (“o que é causa de quê”). Interessa-me considerar essa disposição afetiva tal como ela ocorre atualmente, tomada como a resultante final de complexos e princípios subjetivos moldados por uma dinâmica cultural historicamente sedimentada.
Em termos de motivação, de disposição subjetiva, uma diferença que me parece essencial entre o objeto já conseguido e o ainda não alcançado é a relativa ao preenchimento e incompletude. Estar satisfeito significa, entre várias outras coisas, ter uma determinada demanda preenchida por alguma forma de relacionamento com objetos de desejo, sejam reais ou imaginários. Quando comparada ao estado subjetivo de busca, de esforço, de expectativa perante alguma coisa, a condição de preenchimento se mostra essencialmente estática, enquanto a outra se define precisamente pela dinâmica, pelo movimento. Se a satisfação se liga essencialmente ao prazer, a incompletude se liga ao desejo. Se considerarmos a enorme força que o narcisismo possui como mola propulsora de nossa relação com o mundo, então acabamos por concluir que o desejo é mais “gostoso” do que o prazer, ou seja, a percepção de si mesmo como essencialmente mobilizado em todas as suas forças subjetivas para alcançar um novo objeto é mais significativa do que a satisfação com um objeto externo a nós, cuja existência factual parece nos colocar em dependência em relação algo que nós mesmos não somos. Nesse sentido, a atitude de expectativa, de ansiedade para um novo objeto, o esforço por alcançar novas etapas etc., é um dos inumeráveis exemplos do quanto o prazer consigo mesmo, auto-centrado, narcisista, tem uma força que dificilmente se pode exagerar. O caso de quem compra bilhetes de loteria cujos prêmios são da ordem de milhões de reais, mas cuja chance de acerto é desprezível, parece-me exemplificar esse princípio de forma bastante clara. Considerando a objetividade estatística de acerto, o sentido próprio da loteria é o de se comprar o prazer de se imaginar milionário; compra-se a excitação causada por essa fantasia.
É inegável que o desejo de sempre progredir, de alcançar novos objetos de desejo, de ter melhores condições de vida, é um princípio essencial do progresso da humanidade, tanto considerada em seu conjunto, quanto em cada um de seus representantes. O grande problema é esse deslocamento patológico do real para o que é meramente projetado, de modo que o prazer concreto com o presente fica diminuído perante uma excitabilidade que facilmente se transforma em fonte de angústia e sofrimento. Assim, um outro índice de progresso consiste na capacidade de saber apreciar melhor aquilo que já somos, já temos e já realizamos.



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