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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esse velho objeto de desejo

"Hoje em dia eu já sei o que quero. Não fico experimentando mil e uma coisas, nem entro em situações em que não sei onde vou chegar". Essa é uma fala bastante freqüente, vinda, é claro, de pessoas quase sempre com mais de trinta anos. Não se deve cobrar dela, parece-me claro, o princípio psicanalítico de descoberta das raízes inconscientes mais profundas do desejo. Esse tipo de cobrança aplica exigências teóricas e clínicas em um âmbito que não deve ser avaliado segundo tais critérios. Entretanto, mesmo tomada em seu plano de validade — a saber: o da auto-reflexão a partir da experiência de vida, iluminada pelas diversas formas de conhecimento obtidas ao longo do tempo —, creio que ela esconda, dissimule, algo que deve ser criticado, sob o véu de algo que parece válido.
 Kant dizia que, ao se ensinar um conceito abstrato, o uso de exemplos é útil para guiar a nossa capacidade de interpretação da realidade, de emprego das noções gerais em casos concretos. Por outro lado, esse é um procedimento a ser usado com cautela, pois nenhum exemplo é capaz de fazer justiça às infinitas possibilidades de aplicação de um conceito universal. Usados em excesso, os exemplos tendem a afunilar a percepção do que está implicado nos conceitos. — Creio que algo dessa idéia pode ser aplicado à percepção de já saber o que se quer.
A experiência é realmente uma fonte indispensável para o conhecimento de si e da realidade. Não se aprende apenas a partir do que se ouve de outras pessoas e se lê nos livros. O grande problema está em que cada experiência é algo único, concreto, específico, e é necessária uma boa capacidade de fazer generalizações para que não se construam preconceitos a partir delas. É inegável que décadas de experiência de vida produzem amadurecimento, mas, junto com essa maturidade, temos um enrijecimento do desejo e da percepção de mundo. É fácil interpretar para si mesmo, de forma narcisista, como índice de maturidade, aquilo que, na realidade, se mostra como recusa das diferenças, do gosto pelo novo, do prazer de novas descobertas, da assimilação de possibilidades contrárias ao que já estamos acostumados, da ruptura de hábitos calcificados etc. Nesse sentido, o amadurecimento pode facilmente ser apenas uma tradução narcisista do que se mostra como uma atitude de defesa perante a infinidade de modos de ser e de experimentar a vida. A segurança com o tradicional tende a suplantar em muito o gosto pelo novo, diferente, inusitado. Quanto mais aprendemos com experiência, parece que desaprendemos a gostar de ver nas coisas o que poderia nos fazer mudar, inverter, redirecionar nosso gosto e nossa visão. A travessia pelos fatos, coisas e pessoas deveria ser análoga à do colecionador, que a cada objeto que encontra, se sente impulsionado a buscar outro diferente, e não ao do assoreamento de um rio, em que vão se depositando camadas e camadas de minério, fazendo com que flua cada vez menos água. A experiência passada acaba nos ensinando a nos defender, prevenir e precaver contra o que a experiência futura pode vir a negar.
 Parece-me bastante instrutiva a comparação com o aprendizado de línguas estrangeiras. É muito claro que as crianças têm muito mais facilidade nisso do que os adultos. Naturalmente, muito já se falou sobre processos cognitivos em vários âmbitos e correntes de psicologia e neurociência, mas, de um ponto de vista por assim dizer filosófico, eu diria que essa facilidade de absorção de um novo idioma pelas crianças é um índice de uma maleabilidade assimilativa que vai se perdendo. Junto com o aumento da capacidade de aprender e da melhora do raciocínio, fundado no exercício com todo o arsenal de conceitos e idéias, temos o influxo desiderativo, ou seja, de desejo, na direção de podar a absorção de novos elementos que estão na base de toda a experiência, que é o caso das palavras. Assim, quando ouço alguém dizer que já sabe o que quer, eu a pergunto, em pensamento: "Que tal aprender outras linguagens, para ouvir o que vários outros objetos de desejo têm a nos dizer?".



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