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domingo, 10 de julho de 2011

Um caso de falácia

A Verdade não anda com uma estrela de prata brilhante acima da cabeça pelas ruas, de modo que seja fácil reconhecê-la. Dito de forma não-irônica, o que é verdadeiro ou válido sempre será reconhecido como tal através das formas de argumentação, de sustentação de nossas idéias. Naturalmente, a importância dessa mediação dos argumentos cresce na proporção da complexidade e das várias possibilidades de encarar um determinado objeto. Há que se considerar, também, a forte dose de retórica envolvida nos diálogos. Isso significa, entre outras coisas, a necessidade de levar em conta o impacto afetivo dos argumentos.
Quero aqui comentar uma estratégia de argumentação que já usaram várias vezes comigo, desde uma conversa trivial, como em um bar, até bancas de defesa de dissertações e teses de doutorado. Tenho certeza que você também já deve ter sido alvo dessa forma de persuasão, e até mesmo pode ter usado-a sem se dar conta disso.
 Vejamos dois exemplos que eu realmente vivi.
Estava em uma reunião de condomínio no meu prédio, e o assunto em pauta era a segurança do edifício, e analisávamos a proposta de colocar cerca elétrica, câmeras de segurança em vários pontos de acesso, gravação desse material em vídeo, contratação de porteiro 24h etc. Eu disse que era favorável a fazer esse investimento, pois me parecia que a relação custo-benefício o justificava. Um morador respondeu que não adiantava encher o prédio de mecanismos de segurança, pois os assaltantes, quando querem realmente, assaltam até mesmo os cofres super seguros de agências do Banco Central, chegando ao paroxismo de assaltar uma delegacia de polícia, tomando como reféns e agredindo delegados e detetives.
 Outro caso: eu estava como membro da banca de dissertação de mestrado, e fiz a observação de que achava que o texto, embora bem escrito e argumentado, não levantava nenhum tipo de questão, nenhum problema teórico, por mais simples que fosse. Tratava-se de uma competente apresentação das idéias de um grande filósofo, mas que falhava no processo de dialogar mais livremente com ele. Outro membro da banca discordou de mim, dizendo que na dissertação de mestrado não há exigência ou demanda por originalidade, que o desejo de criticar a obra de um grande autor na maior parte das vezes faz com que o mestrando perca a segurança do que está falando, e, por fim, que muitas pessoas tentam problematizar o assunto comparando dois ou três autores e perdem o foco da pesquisa.
 O que há de comum nessas duas respostas?
 O esquema é bem simples: José afirma que X é algo que deve ser feito, ao passo que Pedro responde que Y (que é três vezes maior do que X) é algo inviável, absurdo, equivocado etc. Em vez de atacar o que foi proposto na dimensão em que foi falado, muitas vezes se usa como objeto de crítica sua forma por assim dizer caricatural, exagerada. Muitas vezes é difícil perceber essa estratégia, porque a intenção que está por trás dela frequentemente aparenta ser bastante razoável, pretendendo mostrar que a base do argumento inicial seria falha porque, se seguido de uma determinada maneira, conduz a um equívoco, a um absurdo.
 No primeiro caso, a minha réplica foi de que a proposta de segurança no condomínio não era o de transformar o edifício em um abrigo para uma guerra nuclear. Embora não exista sistema de segurança absolutamente perfeito, há graus infinitamente variáveis de vulnerabilidade, desde o mais frágil sistema, até prisões de segurança máxima. Quanto mais protegido é um objeto, mais o pretenso assaltante terá que possuir meios, técnica e instrumentos sofisticados, bem como uma grande determinação para realizar o crime, pois o risco de fracasso, obviamente aumenta.
 No segundo caso, eu argumentei que o grau de distanciamento crítico perante um autor clássico pode ir desde um simples questionamento, tal como: “O que será que essa idéia presente no primeiro item do livro significa quando a comparamos com outra formulação no terceiro capítulo?”, até uma apropriação tão original, que já não é nem mais considerada um comentário, mas sim uma concepção própria. Eu concordo que muitas vezes, na ânsia de produzir um texto interessante teoricamente, os pós-graduandos arriscam interpretações sem a necessária vinculação com o objeto de estudo. Concordo também que a originalidade não é uma demanda razoável para uma dissertação de mestrado, e, ainda, que enriquecer o texto com múltiplas referências a autores clássicos tende, na maioria das vezes, mais a prejudicar do que a favorecer a tarefa. – Só que não foi nada disso que eu propus inicialmente, pois indiquei a necessidade de um grau mínimo de problematização na leitura, de levantamento de uma hipótese interpretativa.
 Para fazer frente a essa estratégia de argumentação, que claramente é uma falácia, é preciso estar atento àquilo que realmente propomos inicialmente: no âmbito, na forma e no grau que pretendemos, de modo a que não sejamos refutados em algo que, propriamente, não afirmamos.

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