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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entre fatos e valores

Um dos pontos de apoio mais clássicos em estudos antropológicos, particularmente na Filosofia, é a distinção entre o ideal e o factual. Na busca pela especificidade do modo humano de viver, diz-se que somos a única espécie que vive o plano dos fatos através da mediação de um âmbito ideal, abstrato, apenas pensado, não necessariamente conectado diretamente ao que existe. A construção de novas formas de viver, baseadas em projetos que apontam para realidades que ainda não existem, bem como todo o âmbito da ficção, seja ela artística ou de um mero jogo, somente são possíveis por essa capacidade humana de conceber abstratamente o que pode ser pensado, mesmo que não possa ser vivido.
O registro antropológico, por outro lado, costuma se contentar em explicitar essa divisória entre o mundo humano e o não-humano, sem investigar criticamente algumas conseqüências dessa diferenciação entre o ideal e o real. Freud dizia que encontrava mais pessoas com distúrbios neuróticos na classe média do que em camadas sócio-econômicas menos favorecidas. Sua explicação para isso baseia-se exatamente na diferença do modo de vida daqueles que assimilam de forma mais estrita o âmbito dos ideais e dos valores, em contraste com quem, devido a uma condição de vida menos favorecida, não se mede com tanto afinco em relação a planos de conduta supostamente nobres, ou que se conectam a planos de realizações ambiciosos.
O ponto de apoio da argumentação freudiana não é propriamente o fato de que pessoas mais simples se contentam com menos coisas, “querem menos”, mas sim que elas tendem a viver sua sexualidade, naquilo que ela possui de menos assimilável pela parte mais idealizada da moral vigente em cada época, de forma tendencialmente menos conflitiva. Quanto maior a ênfase na abstração de planos elevados de valores, mais parece difícil convencer alguém da legitimidade, da razão de ser, da força que possuem as fantasias, os desejos desviantes em relação a normas sociais (ou seja, pervertidos), presentes em seu modo de se relacionar consigo mesmo e com as outras pessoas. A raiz mais profunda e, portanto, inconsciente, da sexualidade sempre conterá elementos que colocam em xeque a estabilidade alcançada a partir da rede de valores elevados da cultura, particularmente da que vivemos no ocidente europeu e das Américas. Em uma formulação especialmente feliz, a autora de vários ensaios interessantes, Susan Sontag, diz que sempre a satisfação sexual irá contrariar, em alguma medida, a satisfação pessoal, em função do fato de que a primeira experiência aponta para uma mobilidade de desejos e suas formas que desafiam acidamente o que tomamos como próprio de nós mesmos em função de nossos papéis sociais conscientes.
Nenhum teórico seriamente comprometido com seu trabalho em ciências humanas e na Filosofia irá negar a enorme importância que a identidade pessoal tem para a estabilidade de cada um como indivíduo e para sua inserção no âmbito social. Uma das peculiaridades da Psicanálise reside em considerar que a identidade sexual é o motor mais significativo para a problemática da concepção de si como indivíduo. As contradições, fissuras, inadequações, incapacidades de metabolização de desejos pervertidos — enfim, toda a negatividade no âmbito da sexualidade mais profundamente arraigada em nós, do ponto de vista psicanalítico, tende a transbordar e, como diz Jean Laplanche, “colonizar” outras áreas da existência, para além da prática sexual em sentido mais estrito.
Eu geralmente não gosto de fazer análise teórica, geral, de sintomas neuróticos, para evitar psicanálise selvagem, como disse Freud, em que arriscamos palpites em relação a conteúdos inconscientes, sem passar pela relação concreta entre analista e analisando. Entretanto, se mantivermos um plano bastante geral de análise, ou seja, sem especificar conteúdos motivacionais, creio que ela se justifica, pois um núcleo comum das fantasias inconscientes não anula a verdade individual. Nesse sentido, um exemplo de como a precariedade da resolução do núcleo inconsciente da sexualidade pode afetar âmbitos da vida que parecem não ter conexão com que ela é a ganância, o ímpeto descontrolado de ter cada vez mais, de produzir incessantemente além daquilo que já se tem. Não é difícil associar a posse, a apropriação, o senso de propriedade com o de domínio, de dominação, de poder. (É interessante notar que “os meus domínios” significa aquilo que possuo, o conjunto das minhas propriedades.) Também não é difícil ver o quanto essa atitude de dominação exprime uma concepção de masculinidade a que já estamos acostumados, associada à ideia de força, de exercício de poder. Na medida em que consideramos o masculino e o feminino como princípios de constituição psíquica de todo ser humano, partilhados tanto por homens quanto por mulheres, podemos dizer que o produtivismo capitalista e sua disposição subjetiva de aumento compulsivo de posses e a geração de valores podem ser tomados como índice de uma obsessividade com a dimensão masculina de nossa identidade pessoal.
Dentre as várias conclusões parciais que podemos tirar dessa pequena explanação, temos a de que é necessário um esforço de des-tradução daquilo que se solidifica como valores culturais supostamente elevados, de modo a termos um olhar para camadas e substratos psíquicos bastante difíceis de serem digeridos, mas que se mostram como cruciais para nosso objetivo de ter uma vida mais satisfatória, menos obsessiva, menos limitada e, portanto, mais livre.
— Na próxima semana, voltarei a falar dessa relação entre o real e o factual, enfocando o conceito de liberdade.


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