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terça-feira, 2 de agosto de 2011

A face inaudita do trabalho

Filósofos e sociólogos de inspiração marxista costumam ter uma visão bastante negativa do trabalho. Pautando-se na crítica contundente de Marx ao sistema de exploração capitalista da mão-de-obra, o trabalho é visto como fonte de alienação, de expropriação das forças vitais, de perda de dignidade e uma série de outros aspectos francamente negativos. A idéia, também presente em Marx, de que o trabalho é um modo privilegiado de o ser humano produzir a si mesmo ao produzir os meios de sua subsistência transformando a natureza, é deixada para segundo, terceiro ou quarto planos, cedendo lugar à consideração puramente centrada nas condições médias do trabalho do operário.
Recentemente li uma publicação de um diálogo entre Theodor Adorno e Max Horkheimer cujo assunto era exatamente o trabalho. É impressionante como esse conceito é tomado de forma bastante abstrata, geral, desconsiderando os infinitos graus de satisfação que as pessoas podem obter com sua atividade remunerada. Tem-se a impressão que só cabe nesse conceito aquilo que se aproxima da escravidão, como é o caso dos trabalhadores chineses que passam jornadas extenuantes de trabalho, em condições bastante precárias, com pouquíssimos direitos trabalhistas e com remuneração aviltante. Fazendo eco a algumas formulações de Marcuse, Adorno chega a dizer explicitamente que o sentido do trabalho consistiria em sua supressão, em sua diminuição a um tempo mínimo. 
Ora, é mais do que evidente que não se pode transpor para o conceito abstrato de trabalho todas as mazelas das condições reais a que muitas ou a maioria das pessoas estão sujeitas. Tal como é evidente que no mundo todo há bilhões de pessoas que se sentem forçadas a realizar uma atividade, há outro tanto que gosta do que faz, sente-se bem ao cumprir suas tarefas, produzir valores de diversas ordens. No primeiro caso, muitos que se sentem infelizes em sua atividade o são em virtude das condições materiais de seu emprego, e não devido ao que fazem para cumprir suas tarefas. Tomemos como exemplo a classe dos professores. Todas as pessoas que passaram pela escola sabem muito bem que se não todos, pelo menos uma grande parte dos docentes tem prazer com sua atividade, com sua tarefa de transmissão de conhecimento, de fomentar o interesse científico e teórico os alunos, de dialogar com o que cada aluno tem a trazer, de se superar em sua capacidade de produção de conhecimento etc.
Conversando com uma professora sobre esse diálogo entre Adorno e Horkheimer, eu insisti no fato de que nem todo o trabalho é penoso, sofrido, e dei como exemplo o meu trabalho e o dela, que mostram claramente que temos enorme prazer em realizá-lo, como também o do próprio Adorno, e a resposta que recebi foi a de que Adorno não considerava sua atividade como trabalho. Ora, é exatamente o que eu já pensava que os teóricos marxistas fazem quando analisam o conceito geral de trabalho, a saber: retiram dele tudo o que, em inumeráveis casos, ele tem de progressista, interessante, realizador, culturalmente significativo, individualmente recompensador etc. No fim das contas, depois de subtrair tudo o que é válido, resta ao conceito somente aquilo que o transforma em algo próximo da escravidão, e aí, realmente, nada sobra para contar a história.
Em termos de significado pessoal — que é a perspectiva que eu mais gosto de investigar —, é interessante prestar atenção a algo que se diz de muitas pessoas que se aposentam e, não encontrando outra atividade que demande um investimento próximo ao que havia antes, passam a ter uma vida emocionalmente pobre, bastante esvaziada. Ao falar sobre isso, qualquer teórico marxista se apressaria a dizer que tais pessoas se acostumaram a suas algemas, passando a desejá-las ardentemente depois de perdê-las, ou seja, foram condicionadas a desejar para si esse ritual de degradação como pessoas. — Não nego que isso aconteça e seja um fator que influencia em inumeráveis casos, mas eu creio que a percepção de si como tendo seus esforços dirigidos a produzir um valor, a contribuir para a coletividade, em outros termos, a sentir-se útil, é algo que não pode ser simplesmente anulado em favor da redução do sujeito a um mero ser que se adaptou forçosamente a uma condição e passou a desejá-la patologicamente.
De meu ponto de vista, se podemos falar do trabalho de forma tão abstrata e genérica como vários autores marxistas pretendem, eu diria que ele envolve o investimento humano em produzir diversos tipos de valores, desde o mais imediatamente braçal, como varrer as ruas, até os mais elevados culturalmente, como a própria criação de teorias filosóficas sofisticadas. Não creio que seja uma tarefa filosófica deduzir o valor e significado de satisfação com o trabalho a partir das condições concretas em que as atividades são realizadas. Penso que é uma tarefa propriamente política a de alterar tais condições, de modo a que o prazer com a produção continuada e progressista de valores na construção da cultura seja percebido de forma bem mais clara, democrática e, assim, suficientemente humana.

2 comentários:

Ygor de Moura Melo disse...

Hum... a maioria dos trabalhos que realizo me agradam e me aperfeiçoam. De fato é extremista a posição de que todo trabalho é deteriorante. Talvez a maioria, mas não todos. Arte, música, cultura, ciência, planejamento, literatura, educação... consigo ver algumas atividades que trazem realização e agregação ao indivíduo.

Flavinha disse...

Meu marido, nascido e criado em meio a "peões" de grandes obras industriais e hoje vivenciando um patamar maior no qual tem todo esse imenso prazer com sua atividade laborativa (ele diz que segunda é o melhor dia para trabalhar) e planejando tais obras, analisa a questão na imensidão dos benefícios que acabam por cultivar esse senso de escravidão e trabalho penoso.
Normalmente a grande massa pensa nos váriso benefícios e não enxerga para além desse limite: quer cesta básica, ajuda de custo, hora extra só porque é remunerada em dobro. Não pensma no trabalho que fazem e no que representa que colocar os 100 parafusos na meta do dia é uma contribuição inimaginável para o progresso, seja pessoal (porque cumpriu a meta do planejamento inicial), seja coletivo. O prazer para eles, no caso, vem no dia do pagamento e no recebimento do holerite, computando e enxergando somente os tais. Os outros 29 dias do mês são pensandos e falados apenas como dias de exploração.