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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ideais, desejos e imagens

Hegel dizia que a tarefa por excelência da filosofia é a construção da liberdade, e isso me parece ainda atual, significativo como uma tarefa do pensamento teórico como um todo, particularmente filosófico e de ciências humanas. Considerando a peculiar situação contemporânea, que convive com um senso acentuado de egocentrismo, de culto da própria personalidade, mas ao mesmo tempo com diversos aspectos de moral e códigos de conduta por assim dizer tradicionais, a questão pelo que perfaz a liberdade do indivíduo torna-se especialmente complexa. Pretendo falar hoje de um modo peculiar de mescla entre motivos tradicionais e por assim dizer libertinos na concepção do que é ser livre no âmbito individual.
A partir de Diógenes Laércio, sabemos que para os estóicos somente o sábio é livre, pois somente ele age de acordo com o que a razão ensina sobre uma ordem cósmica. Podemos traduzir isso no sentido de que somente o emprego da razão nos leva a escolher aquilo que é bom, não apenas em função de uma perspectiva individual, facilmente iludida pelas aparências, mas sim por um valor objetivo. Assim, a liberdade caminha no sentido oposto da quantidade de opções, de alternativas e de possibilidades de escolha, associando-se a uma perspectiva de qualidade da decisão. Noutras palavras, ser livre significaria escolher aquilo que é objetivamente valioso, bom, e não o fato de ter diante de si um leque virtualmente infinito de opções.
Dando um salto de séculos na história das idéias, vemos Kant dizer algo que caminha nesse sentido, quando afirma que somente a ação moral é livre, pois, segundo sua perspectiva, esta é movida apenas por um interesse exclusivamente racional, que ele chama de puro, derivado do respeito pela lei que razão estabelece em nós. Em contraste com essa autonomia racional, temos as ações normalmente praticadas por um interesse ligado aos nossos prazeres, desejos, ambições e tudo o mais que podemos agrupar sob a idéia de felicidade. Paradoxalmente, a obrigação moral seria o índice de liberdade, pois, na medida em que obrigamos a nós mesmos a agir conforme aquilo que a razão determina, livramo-nos daquilo que é, por assim dizer, externo a nossa pura vontade como seres racionais.
Apesar das inúmeras diferenças entre essas duas concepções, há em comum o fato de que ser livre associa-se a uma escolha motivada por algo ligado intimamente a um valor, de modo que, mesmo que se restrinja drasticamente em termos quantitativos, a ação continua sendo livre de um ponto de vista qualitativo.
É inegável o quanto tais formulações contribuem no debate acerca da liberdade. Elas codificam um olhar dirigido para o real em termos de nossa capacidade de discernir os objetos em seus diversos significados para as ações. Podemos realmente concordar com o fato de que não é a mera quantidade de opções que determina o quanto esse é livre em cada caso. O grande problema está no ponto de apoio que se usa para definir o valor das ações. Ambas as perspectivas se coadunam perfeitamente com o espírito religioso, não apenas cristão, de depreciar as ações que têm um significado dispersivo, movido por princípios subjetivos alheios a modos de valorização objetivamente constituídos, partilhados socialmente.
A promiscuidade do bordel é um instrumento privilegiado de auto-legitimação da ascese, pureza espiritual, do convento. A libertinagem francamente assumida no primeiro funciona como uma espécie de vitrine para o que haveria de mais francamente inadequado na liberdade concebida como não apenas dispersão, mas como prazer de transgredir e/ou ignorar leis e princípios de ação. Em oposição direta a isso, a freira no convento pensa a si mesma como substancialmente livre. Ela não apenas se percebe como negando o que a "prende", a saber, os desejos em todas as suas formas de prazeres e perversões, mas como afirmando a si mesma como dirigida àquilo que é um bem supremo, acima de todas as outras coisas. Não é outro o caso, segundo me parece, das mulheres que aderem voluntariamente ao uso da burca e do niqab na religião islâmica. Sua extrema limitação é vivida como índice de algo que efetivamente as realiza como seres espirituais, dirigidas a um bem que as define como livres, mesmo que não possamos fazer uma transposição direta de um modo essencialmente ocidental de conceber a liberdade.
Esse complexo de coisas é extremamente significativo, pois mostra o quanto os valores não apenas funcionam como diretriz para as ações, mas podem, em certa medida, substituí-las, pois cada vez menos coisas são “realmente boas”, “verdadeiramente dignas” etc. O centramento valorativo, ligado a padrões sociais e racionais que convergem em uma objetividade, possui uma força centrípeta, gravitacional, de tamanha magnitude, que coloca na sombra e tende virtualmente a eliminar todo o valor que provém da afirmação idiossincrática, singular, multifacetada, desviante e pervertida em nós mesmos. Esse é, ao que me parece, o princípio comum de todas as religiões, estabelecendo critérios de valorização de ações que tendem facilmente a uma limitação radical do agir, substituindo o prazer da concretude múltipla dos desejos por um plano abstrato de concepção de si e da realidade. (Naturalmente, a atitude religiosa não se resume a essa submissão dos prazeres a um ideal de elevação moral, e cada pessoa assimila a mensagem religiosa de acordo com sua própria índole, mas é inegável que tal ascese idealizante é um ponto central e quase sempre presente nos discursos religiosos.)
O outro lado da moeda é que a sociedade laica, na medida em que não se prende a padrões religiosos, assimilou em alguma medida a força e a legitimidade do que contraria esse plano de ideais coletivos. Nesse sentido, um certo grau de liberalidade começou a fazer parte do cotidiano do indivíduo das várias camadas sócio-econômicas, seja nas pequenas ou nas grandes cidades. Como, entretanto, os ideais valorativos são algo mais profundamente arraigado na cultura do que simplesmente um código escrito e sabido de valores, e também se apóiam em princípios de constituição do próprio eu essenciais para a própria dinâmica psíquica, vemos que a liberalidade pervertida dos prazeres acaba muitas vezes sendo vivida essencialmente no plano das imagens, dos signos e também da mera performance. A perversão e a liberalidade são em grande medida consumidas em imagens ou praticadas sem uma consciência mais aprofundada em termos reflexivos do que isso significa em termos motivacionais. Por mais paradoxal que seja, esse consumo pornográfico e performático da transgressão de valores tende a ser, ao seu modo, também abstrato, desvinculado daquilo que Hegel — de novo ele — chamou de concretude reflexiva. A transgressão pela transgressão acaba substituindo o vínculo subjetivo mais consistente com o objeto de desejo, que parece esconder-se por detrás de sua imagem e de sua consumação em um ato festejado como “conquista”.
Como uma pequena conclusão disso que esboçamos, podemos dizer que a liberdade não reside nem na abstração de um ideal que paira e pesa com todo o brilho de sua objetividade sobre a dispersão individual, nem na clareza sedutora da imagem e da mera performance supostamente libertina. — Mas em que residiria ela, então? — Bom, isso ficará para outras postagens.


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