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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pseudo-reflexões

Definir liberdade é uma tarefa especialmente difícil, em virtude do fato de que temos uma quantidade infinita de elementos a considerar, como fatores subjetivos, aspectos sociais, condicionamentos de várias ordens, como o biológico e a dinâmica psíquica etc. Sempre que abordamos o problema sob uma perspectiva, há sempre alguém disposto a abordar a questão sob outro ponto de vista. Uma ideia de senso comum bastante usual focaliza quase sempre aspectos externos à motivação para agir, de modo que ser livre significaria não ter obstáculos a nosso desejo, à nossa determinação de fazer alguma coisa. A liberdade consistiria na negação, na ausência, de constrições, limites, para a realização dos desejos. A partir de uma concepção psicanalítica, podemos dizer que pode haver falta de liberdade no próprio âmbito de nossa determinação, de nossa vontade para agir de certa maneira. Não pretendo agora discutir toda a gama de aspectos teóricos envolvidos nessa questão, mas sim fazer apenas uma aplicação dessa idéia em um campo de nossa vida cotidiana.
Todos nós sempre temos várias tarefas a cumprir ao longo do dia, da semana, do mês e por aí vai. Desde a mais trivial de de restrita a um telefonema para alguém, até a realização de uma obra que demanda um investimento de vários meses, é preciso determinação para investir tempo e energia para cumprir tudo o que é requerido de nós. Algo que me deixa especialmente intrigado, por outro lado, é o quanto adiamos desnecessariamente a realização de tarefas muitas vezes simples, que não demandam muito esforço. É interessante notar que a cada nova realização de uma tarefa interpõe-se a reflexão, ou a reconsideração de se tal tarefa deve ou não ser feita em determinado momento. Na verdade “reflexão” não é uma boa palavra para esse hábito de colocar em questão se devo ou não fazer alguma coisa, se é melhor adiar, esperar outro momento, fazer apenas uma parte etc. Creio que seja mais uma espécie de “ruminação”, em que duas ou mais vozes dialogam nesse teatro interior. Costumo dizer que até mesmo perante a tarefa mais simples realizamos uma espécie de mini-reunião de condomínio para deliberar se vamos agir ou não. Naturalmente, as ações baseadas em reflexão tendem a ser mais consistentes, uma vez que a decisão é fundamentada pelo raciocínio, pela consideração de vários fatores em jogo em cada momento. O grande problema dessa ruminação perante as tarefas reside no fato de que ela apenas coloca em dúvida uma determinação que deveria ser tomada como muito mais bem estabelecida. Eu creio que essas micro-reflexões apenas são formas de ceder a impulsos, sentimentos e desejos que, em vez de exprimirem nossa liberdade perante a realidade, demonstram que nós, na verdade, somos frágeis em relação ao complexo de elementos motivacionais, desiderativos, emocionais, que, somados, nos levam à ação.
É sempre difícil estabelecer princípios gerais de ação, uma vez que cada pessoa tem uma concepção de mundo, um conjunto próprio de valores etc., de modo que se pode facilmente incorrer numa espécie de violência em relação ao modo de vida alheio. Por outro lado, penso que esses princípios podem ter perfeita validade, na medida em que cada um faça uma espécie de leitura própria, de tradução para a sua própria perspectiva de mundo. Nesse sentido, eu costumo dizer que vale muito mais a pena refletir de forma bastante clara e objetiva acerca do que se deve fazer, do que é bom, proveitoso etc., e, com base no que se decide, passa-se a não mais parar e questionar se uma determinada ação deve ou não ser feita. Eu costumo dizer: “Simplesmente faça; não questione se é bom ou não fazer”. Tenho a nítida impressão de que, uma vez se decidindo que realizar uma determinada tarefa, como por exemplo a de fazer exercício físico diariamente, é importante, necessário, bom, saudável etc., não vale a pena gastar energia emocional, mental e psíquica colocando essa decisão em jogo em cada momento em que se deve fazer alguma coisa.
Penso que muito do peso das tarefas do cotidiano, talvez quase 90% dele, provém muito mais da necessidade de lutarmos contra o complexo emocional que gravita ao redor de cada realização de tarefa, do que do esforço de realizá-las. O trabalho de refletir acerca da pertinência ou não de fazer alguma coisa, segundo penso, deve ser totalmente concentrado, ou pelo menos ao máximo, em um momento específico de deliberação para todos os outros dias que virão pela frente. Nesse momento, trata-se propriamente de uma atividade reflexiva, digna do nome, em que se ponderam objetivamente fatores, circunstâncias favoráveis e desfavoráveis. No dia-a-dia, mergulhados nesse torvelinho de elementos emocionais que se sucedem ao longo do tempo, o que ocorre é mais signo de uma “racionalização” de um desejo neurótico de adiar, postergar, procrastinar. Sem a interposição desse processo ruminativo, a produtividade diária tende a ser não apenas mais leve, mas também muito mais prazerosa e eficaz. — Por outro lado, creio que seja desnecessário dizer que existe sempre espaço para que essa decisão tomada inicialmente seja retomada, revista à luz de novas ocorrências, de uma nova situação que demanda uma reconsideração. Não estou dizendo que se deva ser obstinado em seguir uma determinação prévia, mas eu insisto em que 99% dos casos de reconsideração, na realidade, são vazios, não têm razão de ser, consistindo apenas em um pretexto para desviar em relação a uma determinação já mais do que bem estabelecida.
Resumindo, eu diria que a “obediência” ao que já consideramos realmente mais importante na “vida miúda” de cada dia significa, no desdobramento temporal de nossa existência, sermos mais senhores/as de nós mesmos/as do que a “atenção”, a “escuta” às nossas inclinações, desejos e sentimentos circunstanciais, presentes em cada ocasião.

2 comentários:

Flavinha disse...

O que é miúdo consideramos menos importante numa escala dentro de nossa vida. A menor importância nos faz adiar o que torna o cotidiano o que é, mas ele que, afinal, "engrossa", dá forma ao que é nossa vida. Aí vai explicar isso a uma criança de 3 anos e ela te retorna advogando em causa própria com essas "vozes interiores" para simplesmente adiar ou nunca cumprir tais tarefas. rs...
Adorei a postagem. Saudades das aulas, né?
Bj.

Chafir disse...

Super apoiado. Parece que quem se volta com afinco para a questão da liberdade como determinante de sua autenticidade acaba muitas vezes sendo inautêntico por enclausurar-se nesse frenesi de auto-avaliação.