Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Você tem mau gosto?


Imagine-se fazendo essa pergunta para alguém. É evidente que, por mais que se tenha um gosto extremamente duvidoso para músicas, por exemplo, dificilmente se responderia que sim. Algumas vezes se diz que esse conceito, na verdade, nem sequer é válido, pois a variação com que se apreciam obras artísticas é tão grande, que teríamos de admitir que cada um é dono de sua própria escolha, de sua perspectiva em relação aos objetos. Desse modo, falar de mau gosto sempre seria índice de uma censura dirigida para o outro, de modo a fazer uma apologia ao seu próprio modo de julgar.
É bem verdade que quem é favorável a esse conceito somente parece aplicá-lo a outrem, e não a si mesmo. Mesmo alguém que goste de músicas com ritmos repetidos à exaustão, contendo palavrões sucessivamente colocados de forma escrachada, fazendo uso apelativo de imagens pornográficas abertamente apelativas e debochadas, mesmo assim, caso recorra ao conceito de mau gosto, sempre encontrará outro tipo de música passível de ser criticado, mas não o que ele mesmo aprecia.
Creio, entretanto, que este conceito é, sim, aplicável à própria pessoa; só não o é de forma pública, e nem mesmo de forma tão consciente, assumida com toda a clareza. Perceber-se como tendo mau gosto não é uma contradição lógica, algo impensável. O juízo acerca da qualidade estética de uma música, para ficarmos nesse tipo de objeto de modo a facilitar a argumentação, não comporta apenas um plano de prazer ou desprazer, apenas um nível de apreciação. Tal como interpreto a estética de Kant, isto já está presente em seu conceito de comprazimento, como diferenciável do simples prazer. O primeiro diria respeito ao sentimento, não ao ser percebido de forma imediata, mas sim em virtude de nosso juízo acerca do fundamento, da especificidade, do valor, do prazer que sentimos. Podemos ter um juízo negativo sobre um prazer, ou seja, termos um desprazer com ele. Isso pode ser exemplificado de forma clara quando, em um velório, ouvimos alguma ironia ou brincadeira que, embora realmente engraçada, nos incomoda, pois o prazer imediato do que é cômico, do humor, é sentido de forma negativa em virtude de um outro nível de julgamento, em que entra em jogo a propriedade das circunstâncias para se deixar levar por tal atmosfera lúdica. Outro exemplo é quando, em uma discussão séria sobre  problemas afetivos com alguém, essa pessoa nos faz alguma espécie de carícia ou carinho com a nítida intenção de nos “comprar”, quebrando a atmosfera de sobriedade. Embora o gesto, por si, seja agradável, em um outro plano ele se mostra desprazeroso, desconfortável, de modo que podemos dizer que não nos comprazemos em ter, ou em nos deixar levar por, este prazer, por este agrado.
Esses dois exemplos, embora sejam suficientemente claros para mostrar que possa haver um desprazer (um “descomprazimento”) com um prazer, não deixam claro como poderia ocorrer o inverso, um comprazimento com o desprazer. Não é difícil, entretanto, apontar uma quantidade até maior de casos desse tipo. O próprio conceito de masoquismo, a que Freud se referia como enigmático, liga-se propriamente ao momento em que se compraz com a dor, o sofrimento, o desprazer. A dificuldade de falar sobre esse tipo de relação com a realidade, em que prazer e desprazer parecem residir no mesmo plano da experiência, nos levaria a uma complexidade teórica que não nos é possível tratar aqui. Podemos, entretanto, falar de um outro modo de equacionar o comprazimento no desprazer ao estabelecermos níveis distintos de experiência com o objeto. Um exemplo que me parece especialmente claro são os rituais de purificação religiosa tal como vemos em países orientais, como a Índia. Vários indivíduos se martirizam diversas vezes ao longo de suas vidas, de modo que quanto maior a dor, mais forte é a negação de toda fonte de desejos, volúpia e luxúria, que são vividas como ligadas à infelicidade. A dimensão essencialmente negativa da dor é traduzida em seu oposto, na positividade de uma ascensão a um plano de realidade purificado, sublime, elevado.
Voltando ao tema do mau gosto, eu diria que as pessoas que apreciam músicas de qualidade francamente ruim se comprazem com uma espécie de corrosão dos padrões culturalmente estabelecidos como de bom gosto; experimentam intimamente essa ruptura da suposta normalidade e gozam com essa transgressão, na medida em que a vivenciam em si mesmas. Por mais paradoxal que seja, eu diria que as pessoas gostam de algo que elas mesmas não gostam. Não se trata apenas de um prazer de agressão às normas do bom gosto, ou seja, como algo dirigido apenas ao outro, ao que é externo, pois é como se a pessoa investisse seu próprio ser como elemento de contrariedade do âmbito culturalmente assente em termos sociais.
Assim, quando se pergunta sobre uma música extremamente de mau gosto: “Como alguém pode gostar de uma porcaria dessas?”. Eu diria: o fato de ser ruim faz parte do que gera o prazer de ouvir tal música. É um dos ingredientes essenciais de um desejo de anular concreta- e intimamente um estado de coisas externo vivido como doentio em seu brilho adocicado e cada vez mais distante de um redemoinho absurdamente incompreendido de emoções, desejos e valores muito pouco “nobres”, negados hipocritamente pelo véu que a cultura tece sobre estratos mais sombrios de nossa realidade interior.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Euro em questão

à Essa postagem é uma reformulação de outra anterior, que comparava a universalidade do Euro com a do Esperanto. Diante de vários comentários críticos ao que eu havia dito sobre esse idioma, e considerando que essa parte do texto era a menos relevante para meus argumentos em todo o texto, mas havia tomado para si uma enorme atenção, achei por bem retirá-la, substituindo-a por mais detalhes sobre o Euro.

Tal como tem sido noticiado nos meios de comunicação nas últimas semanas, a situação econômica na Europa, propriamente na zona do Euro, é bastante problemática. O risco de a Grécia não conseguir saldar os compromissos de sua dívida, apesar das maciças ajudas recebidas do Banco Central Europeu, coloca em risco toda a unidade do sistema. Já há algum tempo vemos a situação financeira de Portugal e Itália também se deteriorar, com a subida dos juros que agências financeiras estão cobrando para refinanciar a dívida desses países. Diversos analistas econômicos dizem que cada vez mais a Europa unificada, que não inclui o Reino Unido e a Suíça, está se colocando perante uma decisão crucial, extrema: ou uma unificação mais profunda, formando uma espécie de economia fiscal global, ou a fragmentação, com a renúncia à unidade implantada com a moeda única. Naturalmente, todos os esforços serão feitos, mesmo que resultem em grandes e bilionárias perdas, no sentido de manter a unidade monetária.
Desde quando o Euro foi anunciado, pareceu-me bastante difícil de ser mantido. Os países que o adotaram são heterogêneos demais em suas dinâmicas sócio-econômicas, culturais, de costumes, de modo que, além das vicissitudes inerentes ao próprio sistema de intercâmbio financeiro, as disparidades culturais sempre me pareceram fortes mais do que o suficiente para mostrar o quanto o Euro unifica de forma artificial, no âmbito financeiro, universos culturais que deveriam se manter separados, sem esse vínculo, que me parece tentar fazê-los passar por um funil por demais estreito.
É mais do que compreensível o desejo de aproximar as diversas culturas Européias. Em que pesem as diferenças de idiomas, a Europa sempre teve uma inclinação a se pensar como uma unidade cultural em sentido amplo. Com a queda da União Socialista Soviética, que propiciava um contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos na economia e na política mundiais, parece-me que a Europa começou a se colocar a tarefa de ocupar este papel. Chamou-me a atenção que um dos motivos que levaram a França a abdicar de sua histórica moeda em favor do Euro foi a necessidade de fazer frente à hegemonia do Dólar estadunidense. Fragmentadas, cada uma das moedas nacionais da Europa não seriam capazes disso. Esse argumento me parece francamente artificial, pois não afirma a necessidade de implantação do Euro a partir da construção de algo válido por si, mas sim como negação da realidade hegemônica do Dólar. Se somarmos isso à imposição de uma totalidade financeira sobre a disparidade cultural das diversas nações, vemos que o Euro, mais cedo ou mais tarde, iria mostrar-se como um gigante com pés e pernas de barro. Não tendo sido constituído em virtude de uma lógica social mediada pelas diferenças, acabaria minado por isso mesmo que ignorou.
O Euro significou uma unificação intermediária, pois não retirou de cada país sua independência política, mas também não manteve instrumentos econômicos tradicionalmente usados pelas nações em momentos de dificuldade, como a possibilidade de desvalorizar sua própria moeda. Desse modo, diante de uma dificuldade extrema, uma moratória parcial da dívida ou o reescalonamento das obrigações contratuais de um país não mais pode ser feita sem arrastar consigo todo o mastodonte de uma organização plurinacional. Ficou-se, assim, no meio do caminho, em uma situação perigosamente intermediária, que não respeita toda a amplitude das diferenças entre os países, mas não os inseriu em uma totalidade federativa.
Essa unificação monetária, de forma instrutiva, caminha na contra-mão dos movimentos separatistas, em que se vê o quanto várias sociedades preferem que a vida política, cultural e econômica se dê em um âmbito em que vigore mais homogeneidade do que diferenças. Por mais que este movimento de fragmentação seja censurável, como uma espécie de índice de imaturidade política de lidar com a diversidade étnica, de valores etc., ele demonstra, por outro lado, uma verdade histórica, situada além de uma análise por assim dizer moral do que consideramos progressista nesse âmbito coletivo, macro. Por mais que a unificação do Euro tenha um propósito nobre e seja índice do quanto se deseja a maturidade suficiente para lidar com planos de diferença que envolvem milhões de pessoas, creio que sua dificuldade de sobrevivência indica uma falta de realismo em relação ao que efetivamente é vivido pelas nações européias. É de se especular o quanto essa empreitada poderia ter maiores chances de se manter de forma menos turbulenta se fosse tentada em condições políticas mais amadurecidas no futuro. Ao mesmo tempo, se o Euro vier a ser abandonado, isso fatalmente significará a inviabilidade de seu retorno por um tempo que abrangerá várias e várias gerações.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O lugar do prazer no cotidiano

A vida cotidiana típica dos habitantes da grande metrópole me parece francamente nivelada de forma a se tornar tendencialmente insípida. Naturalmente, falo de um tipo idealizado, que se realiza em diversos graus e formas de aproximação em cada caso. Apesar dessa abstração, creio que seja válida a ideia de que a vida nas grandes cidades, e eu diria até mesmo em outras menores, é caracterizada pela ausência de algo realmente instigante e motivador, que seja fonte de prazer não apenas como distração, amenidade usufruída como descanso, como passatempo etc. Se a atividade profissional não contém um elemento motivacional forte, se não agrega um interesse significativo, dificilmente outra coisa parece capaz de fazê-lo.
É instrutivo notar que quando se pergunta para alguém que tipo de música ela ou ele gosta, a resposta que mais se ouve é: “Gosto de tudo um pouco; sou eclético”. Só que eu diria que “gostar de tudo um pouco” significa “gostar pouco de cada coisa”. Nenhuma música parece conter nada de especial capaz de fazer com que se destaque em relação a todas as outras — e assim com tudo o mais. Exceto por uma viagem a um lugar especial nas férias, todo o ano fica desprovido de alguma coisa que não apenas descanse, mas que nos toque emocionalmente de forma significativa.
A sexualidade, que pode ser tomada como o lugar de um ápice de prazer, pode também sucumbir a isso que chamo de uma pasteurização generalizada da vida, tornando-se também apenas um momento de descarga de tensões, e não de busca por um prazer por si mesmo. Além disso, ela acaba funcionando como um único momento que destoa de tudo mais, de modo que entre o trabalho e a intimidade sexual, nada mais parece ocupar especialmente um lugar de interesse significativo.
Há algum tempo, uma pesquisadora brasileira que ganhou uma bolsa de estudo no MIT por ter se destacado em seu trabalho em Física, deu uma entrevista, e quando questionada sobre qual conselho ela daria para as pessoas alcançarem um resultado tão expressivo, disse algo interessante, mas também estranho à primeira vista: “Tenha um hobby”. Ela não se demorou na explicação, mas, de meu ponto de vista, essa idéia está correta ao dizer que, para termos uma vida satisfatória em vários sentidos, e não apenas profissional, é realmente necessário que tomemos um interesse especial por coisas ao longo do tempo. É sumamente necessário prestar atenção àquilo que ocorre um cada dia da semana, pois são estes que perfazem, ao longo do tempo, a própria vida. Preocupar-se com grandes temas da economia mundial, refletir sobre conceitos grandiosos, como o amor e a ciência, a política etc. é inquestionavelmente importante, mas a lida com o fluxo do tempo nessa dimensão “menor” da vida de todo dia não pode ser menosprezada.
Tendo trabalhado em uma faculdade particular, fui chamado várias vezes a acompanhar a turma para ver palestras de empresários, políticos e personalidades de destaque em várias áreas. Foi fácil notar que o tema da motivação aparecia com muita frequência. É claro que o objetivo mais evidente é o de que ela converge em uma maior produtividade do trabalho de cada um na empresa e, portanto, aumenta os lucros. Por outro lado, essa é uma questão mais abrangente, que toca o nosso próprio gosto por aquilo que somos e fazemos não apenas nesse registro profissional, uma vez que a vida em sua totalidade ganha tendencialmente a aparência de uma continuidade algo como que mecânica. É como se nos transformássemos em uma espécie de funcionário de nossas próprias vidas, realizando diversas coisas que não parecem ter a nossa própria motivação e prazer como seu sentido mais próprio.
Tudo isso não significa fazer a apologia de uma perspectiva hedonista, que considere o prazer acima de todas as coisas, mas sim a defesa da urgência de sempre pensá-lo como um ingrediente que precisa ter seu lugar garantido de forma programática, como um fim em si mesmo, como tendo um valor próprio. Isso, mais uma vez em relação à sexualidade, é especialmente importante, devido ao fato de que esta pode realmente acabar por se consumir como um mero meio para continuar a praticar todas as atividades, ou seja, como uma necessidade que deve ser satisfeita para que não atrapalhe tudo o mais.
Que a vida seja pontuada de prazeres que reluzem devido ao seu brilho especial, permite que tracemos uma linha para nossa existência cujo conteúdo, ao olharmos retrospectivamente para a sequência de anos que vivemos, se aproxima de algo que realmente tem razão de ser.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A verdade subjetiva

Que algo seja dito como subjetivo, principalmente quando falamos de formas mais elaboradas de conhecimento e de expressão de idéias, como na política, nas ciências e na filosofia, parece sempre índice de desvalorização, de menos significado nesse espaço público em que se discutem opiniões e concepções de mundo diferentes. Ser objetivo, por outro lado, já traz a marca de algo que superou as idiossincrasias, os gostos e preferências individuais, de modo a ter as credenciais de válido, verdadeiro e significativo. A própria idéia de subjetividade, nas reflexões filosóficas contemporâneas, desde Nietzsche, que a considerava um preconceito filosófico, passando por toda sua desvalorização radical na ciência positivista, até as investigações atuais de neuro-ciência, que pretendem traduzir todo este âmbito em funções neuronais, vemos que tal categoria sofreu sucessivos ataques.
Embora Freud não faça uso explícito dessa categoria, creio que toda a psicanálise é uma concepção do ser humano fundada em um conceito peculiar de subjetividade. Por mais que a psicanálise tenha que se constituir a partir de conceitos universais, que dizem respeito a toda forma de constituição psíquica (por exemplo: inconsciente, recalque, pulsão), é necessário traduzir este âmbito geral de modo a que o processo clínico nos capacite a perceber uma verdade do próprio indivíduo. Mesmo que Freud insista na necessidade de cada um adaptar-se às exigências de vida em sociedade, isso, segundo penso, não deve querer significar uma conformação, uma aceitação “resignada” de princípios, regras e valores.
Que a verdade, em qualquer âmbito que se estabeleça, desde uma constatação simples na experiência cotidiana, até uma formulação teórica sofisticada, seja dita objetiva, não causa estranheza. Quando dizemos de uma verdade subjetiva, isso soa bastante estranho, quase contraditório, na medida em que queremos falar do modo como as pessoas transitam na realidade e são chamadas a discutir suas posições neste espaço coletivo, mas creio haver vários momentos em que isso deva ser revisto criticamente.
Vejamos dois exemplos de aplicação dessa idéia.
Muitas vezes quando percebemos que uma pessoa está em uma situação ruim, mas cuja causa principal é sua ligação com um objeto, uma idéia ou doutrina, de tal modo que ela se mostra dependente, podendo chegar até certo grau de fanatismo, podemos facilmente ter o ímpeto de “corrigir” seu comportamento, retirá-la dessa condição, tentando apontar as incoerências, fraquezas e pontos falhos em sua atitude. Se assim agimos, temos a boa intenção de substituir essa realidade interna por uma verdade que consideramos objetivamente válida, pelo fato de que não estamos contaminados pelos sentimentos que a conduzem a pessoa a se comportar de certa maneira. Muitas vezes essa estratégia pode ter um resultado terapêutico válido, mas eu digo que é necessário muito cuidado, pois muitas vezes esse investimento afetivo intenso pode demonstrar a única solução viável para manter um equilíbrio emocional, de tal modo que a desilusão pode gerar uma condição de vazio cujo complexo emocional resulte mais difícil de ser digerido. Desse modo, o que digo é que nem sempre uma verdade objetiva deve ser usada para confrontar uma outra, cuja dinâmica, motivação e princípio de validade não admite uma troca sem um ônus que por vezes é muito pesado. Em outras palavras, nem sempre nos cabe o papel de “salvar” alguém de algo falso objetivamente, pois muitas vezes aquilo que o sustenta é precisamente o quanto ele depende de uma verdade que somente ele vivencia por que ela o é, mesmo que não tenha consciência disso.
A outra aplicação é quando, em uma organização, empresa ou instituição com um número de médio a grande de pessoas, é necessário atribuir uma tarefa extra, que fuja, em alguma medida, às atribuições normalmente assumidas por cada um. Nesse momento, o critério objetivo é, como parece realmente sensato, ver quem está com menos atribuições, com menor carga de trabalho habitual, ou que possui menos atribuições extras, não só no momento presente, mas na história recente do desdobramento das funções. Penso que, por mais que este seja o primeiro critério a ser levado em conta, não é único e nem tem valor absoluto. É preciso levar em conta, também, a disposição subjetiva para assumir essa nova tarefa. Se alguém se recusa a assumi-la, e o faz de forma razoavelmente argumentada, não recusando simplesmente por mero capricho, parece-me mais do que razoável que se deva perguntar para os outros membros dessa organização ou instituição quem estaria disposto. Creio que a dimensão subjetiva do complexo afetivo ligado a um determinado trabalho, quando ela se mostra suficientemente clara, demonstra uma verdade que não deve ser simplesmente submergida nos critérios racionais de uma verdade coletiva.
É evidente, por outro lado, que se essa recusa se repete, e por mais de uma vez, demonstrando ao longo do tempo má vontade para colaborar, aí fica claro que mesmo nesse âmbito subjetivo não estamos diante de algo “verdadeiro”. Interessante é notar que se somos condescendentes com essa recusa sistemática, ocorre que várias tarefas acabam, como se diz popularmente, “sobrando” para alguém com uma especial docilidade para aceitar os encargos. Ao longo do tempo, vemos que algumas pessoas passam a ter uma dose de trabalho excessiva, devido precisamente a esse modo com que aceitam sistematicamente tarefas além do que é a média de todos. Por outro lado, é muito instrutivo notar que tanto um chefe que, naquele primeiro caso, não ouve de forma adequada essa verdade subjetiva de uma disposição específica para um determinado trabalho extra, quanto essa outra pessoa que sempre assume encargos de modo a ficar sobrecarregada, ambos têm uma atitude que segue o mesmo princípio: anulação de uma verdade subjetiva em prol de uma objetiva. Em ambos os casos, o espaço da interioridade foi anulado devido a uma concepção “racional” de um bem público, objetivo. Que isso seja imposto de fora ou assumido pela própria pessoa, de meu ponto de vista, não altera substancialmente a qualificação de uma violência exercida pelo âmbito objetivo sobre o subjetivo.
Como, entretanto, o processo de ponderação de verificação dos pesos relativos entre esses dois planos é sempre variável devido às infinitas diferenças em cada circunstância, não há propriamente uma regra geral de como proceder. Toda essa reflexão é dirigida para resgatar, por assim dizer, algo que, nessa relação entre tais medidas, corre sempre o risco de ser depreciado, a saber, o espaço de uma verdade muitas vezes não valorizada por quem mais precisa dela: nós mesmos.