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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Euro em questão

à Essa postagem é uma reformulação de outra anterior, que comparava a universalidade do Euro com a do Esperanto. Diante de vários comentários críticos ao que eu havia dito sobre esse idioma, e considerando que essa parte do texto era a menos relevante para meus argumentos em todo o texto, mas havia tomado para si uma enorme atenção, achei por bem retirá-la, substituindo-a por mais detalhes sobre o Euro.

Tal como tem sido noticiado nos meios de comunicação nas últimas semanas, a situação econômica na Europa, propriamente na zona do Euro, é bastante problemática. O risco de a Grécia não conseguir saldar os compromissos de sua dívida, apesar das maciças ajudas recebidas do Banco Central Europeu, coloca em risco toda a unidade do sistema. Já há algum tempo vemos a situação financeira de Portugal e Itália também se deteriorar, com a subida dos juros que agências financeiras estão cobrando para refinanciar a dívida desses países. Diversos analistas econômicos dizem que cada vez mais a Europa unificada, que não inclui o Reino Unido e a Suíça, está se colocando perante uma decisão crucial, extrema: ou uma unificação mais profunda, formando uma espécie de economia fiscal global, ou a fragmentação, com a renúncia à unidade implantada com a moeda única. Naturalmente, todos os esforços serão feitos, mesmo que resultem em grandes e bilionárias perdas, no sentido de manter a unidade monetária.
Desde quando o Euro foi anunciado, pareceu-me bastante difícil de ser mantido. Os países que o adotaram são heterogêneos demais em suas dinâmicas sócio-econômicas, culturais, de costumes, de modo que, além das vicissitudes inerentes ao próprio sistema de intercâmbio financeiro, as disparidades culturais sempre me pareceram fortes mais do que o suficiente para mostrar o quanto o Euro unifica de forma artificial, no âmbito financeiro, universos culturais que deveriam se manter separados, sem esse vínculo, que me parece tentar fazê-los passar por um funil por demais estreito.
É mais do que compreensível o desejo de aproximar as diversas culturas Européias. Em que pesem as diferenças de idiomas, a Europa sempre teve uma inclinação a se pensar como uma unidade cultural em sentido amplo. Com a queda da União Socialista Soviética, que propiciava um contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos na economia e na política mundiais, parece-me que a Europa começou a se colocar a tarefa de ocupar este papel. Chamou-me a atenção que um dos motivos que levaram a França a abdicar de sua histórica moeda em favor do Euro foi a necessidade de fazer frente à hegemonia do Dólar estadunidense. Fragmentadas, cada uma das moedas nacionais da Europa não seriam capazes disso. Esse argumento me parece francamente artificial, pois não afirma a necessidade de implantação do Euro a partir da construção de algo válido por si, mas sim como negação da realidade hegemônica do Dólar. Se somarmos isso à imposição de uma totalidade financeira sobre a disparidade cultural das diversas nações, vemos que o Euro, mais cedo ou mais tarde, iria mostrar-se como um gigante com pés e pernas de barro. Não tendo sido constituído em virtude de uma lógica social mediada pelas diferenças, acabaria minado por isso mesmo que ignorou.
O Euro significou uma unificação intermediária, pois não retirou de cada país sua independência política, mas também não manteve instrumentos econômicos tradicionalmente usados pelas nações em momentos de dificuldade, como a possibilidade de desvalorizar sua própria moeda. Desse modo, diante de uma dificuldade extrema, uma moratória parcial da dívida ou o reescalonamento das obrigações contratuais de um país não mais pode ser feita sem arrastar consigo todo o mastodonte de uma organização plurinacional. Ficou-se, assim, no meio do caminho, em uma situação perigosamente intermediária, que não respeita toda a amplitude das diferenças entre os países, mas não os inseriu em uma totalidade federativa.
Essa unificação monetária, de forma instrutiva, caminha na contra-mão dos movimentos separatistas, em que se vê o quanto várias sociedades preferem que a vida política, cultural e econômica se dê em um âmbito em que vigore mais homogeneidade do que diferenças. Por mais que este movimento de fragmentação seja censurável, como uma espécie de índice de imaturidade política de lidar com a diversidade étnica, de valores etc., ele demonstra, por outro lado, uma verdade histórica, situada além de uma análise por assim dizer moral do que consideramos progressista nesse âmbito coletivo, macro. Por mais que a unificação do Euro tenha um propósito nobre e seja índice do quanto se deseja a maturidade suficiente para lidar com planos de diferença que envolvem milhões de pessoas, creio que sua dificuldade de sobrevivência indica uma falta de realismo em relação ao que efetivamente é vivido pelas nações européias. É de se especular o quanto essa empreitada poderia ter maiores chances de se manter de forma menos turbulenta se fosse tentada em condições políticas mais amadurecidas no futuro. Ao mesmo tempo, se o Euro vier a ser abandonado, isso fatalmente significará a inviabilidade de seu retorno por um tempo que abrangerá várias e várias gerações.



Um comentário:

Diego Souza disse...

Esses problemas econômicos poderiam não existir. Muitos nunca pararam pra pensar: Como o dinheiro é criado? E se não existisse banco central?

O movimento Zeitgeist é algo interessante, especialmente p/ aqueles que não se contentam com o poder dos banqueiros. Existem alguns filmes (no Youtube) e muito material gratuito pela internet. Ah, inclusive artigos em Esperanto ;-)

http://eo.wikipedia.org/wiki/Zeitgeist_-_the_Movie