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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O lugar do prazer no cotidiano

A vida cotidiana típica dos habitantes da grande metrópole me parece francamente nivelada de forma a se tornar tendencialmente insípida. Naturalmente, falo de um tipo idealizado, que se realiza em diversos graus e formas de aproximação em cada caso. Apesar dessa abstração, creio que seja válida a ideia de que a vida nas grandes cidades, e eu diria até mesmo em outras menores, é caracterizada pela ausência de algo realmente instigante e motivador, que seja fonte de prazer não apenas como distração, amenidade usufruída como descanso, como passatempo etc. Se a atividade profissional não contém um elemento motivacional forte, se não agrega um interesse significativo, dificilmente outra coisa parece capaz de fazê-lo.
É instrutivo notar que quando se pergunta para alguém que tipo de música ela ou ele gosta, a resposta que mais se ouve é: “Gosto de tudo um pouco; sou eclético”. Só que eu diria que “gostar de tudo um pouco” significa “gostar pouco de cada coisa”. Nenhuma música parece conter nada de especial capaz de fazer com que se destaque em relação a todas as outras — e assim com tudo o mais. Exceto por uma viagem a um lugar especial nas férias, todo o ano fica desprovido de alguma coisa que não apenas descanse, mas que nos toque emocionalmente de forma significativa.
A sexualidade, que pode ser tomada como o lugar de um ápice de prazer, pode também sucumbir a isso que chamo de uma pasteurização generalizada da vida, tornando-se também apenas um momento de descarga de tensões, e não de busca por um prazer por si mesmo. Além disso, ela acaba funcionando como um único momento que destoa de tudo mais, de modo que entre o trabalho e a intimidade sexual, nada mais parece ocupar especialmente um lugar de interesse significativo.
Há algum tempo, uma pesquisadora brasileira que ganhou uma bolsa de estudo no MIT por ter se destacado em seu trabalho em Física, deu uma entrevista, e quando questionada sobre qual conselho ela daria para as pessoas alcançarem um resultado tão expressivo, disse algo interessante, mas também estranho à primeira vista: “Tenha um hobby”. Ela não se demorou na explicação, mas, de meu ponto de vista, essa idéia está correta ao dizer que, para termos uma vida satisfatória em vários sentidos, e não apenas profissional, é realmente necessário que tomemos um interesse especial por coisas ao longo do tempo. É sumamente necessário prestar atenção àquilo que ocorre um cada dia da semana, pois são estes que perfazem, ao longo do tempo, a própria vida. Preocupar-se com grandes temas da economia mundial, refletir sobre conceitos grandiosos, como o amor e a ciência, a política etc. é inquestionavelmente importante, mas a lida com o fluxo do tempo nessa dimensão “menor” da vida de todo dia não pode ser menosprezada.
Tendo trabalhado em uma faculdade particular, fui chamado várias vezes a acompanhar a turma para ver palestras de empresários, políticos e personalidades de destaque em várias áreas. Foi fácil notar que o tema da motivação aparecia com muita frequência. É claro que o objetivo mais evidente é o de que ela converge em uma maior produtividade do trabalho de cada um na empresa e, portanto, aumenta os lucros. Por outro lado, essa é uma questão mais abrangente, que toca o nosso próprio gosto por aquilo que somos e fazemos não apenas nesse registro profissional, uma vez que a vida em sua totalidade ganha tendencialmente a aparência de uma continuidade algo como que mecânica. É como se nos transformássemos em uma espécie de funcionário de nossas próprias vidas, realizando diversas coisas que não parecem ter a nossa própria motivação e prazer como seu sentido mais próprio.
Tudo isso não significa fazer a apologia de uma perspectiva hedonista, que considere o prazer acima de todas as coisas, mas sim a defesa da urgência de sempre pensá-lo como um ingrediente que precisa ter seu lugar garantido de forma programática, como um fim em si mesmo, como tendo um valor próprio. Isso, mais uma vez em relação à sexualidade, é especialmente importante, devido ao fato de que esta pode realmente acabar por se consumir como um mero meio para continuar a praticar todas as atividades, ou seja, como uma necessidade que deve ser satisfeita para que não atrapalhe tudo o mais.
Que a vida seja pontuada de prazeres que reluzem devido ao seu brilho especial, permite que tracemos uma linha para nossa existência cujo conteúdo, ao olharmos retrospectivamente para a sequência de anos que vivemos, se aproxima de algo que realmente tem razão de ser.

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