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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A verdade subjetiva

Que algo seja dito como subjetivo, principalmente quando falamos de formas mais elaboradas de conhecimento e de expressão de idéias, como na política, nas ciências e na filosofia, parece sempre índice de desvalorização, de menos significado nesse espaço público em que se discutem opiniões e concepções de mundo diferentes. Ser objetivo, por outro lado, já traz a marca de algo que superou as idiossincrasias, os gostos e preferências individuais, de modo a ter as credenciais de válido, verdadeiro e significativo. A própria idéia de subjetividade, nas reflexões filosóficas contemporâneas, desde Nietzsche, que a considerava um preconceito filosófico, passando por toda sua desvalorização radical na ciência positivista, até as investigações atuais de neuro-ciência, que pretendem traduzir todo este âmbito em funções neuronais, vemos que tal categoria sofreu sucessivos ataques.
Embora Freud não faça uso explícito dessa categoria, creio que toda a psicanálise é uma concepção do ser humano fundada em um conceito peculiar de subjetividade. Por mais que a psicanálise tenha que se constituir a partir de conceitos universais, que dizem respeito a toda forma de constituição psíquica (por exemplo: inconsciente, recalque, pulsão), é necessário traduzir este âmbito geral de modo a que o processo clínico nos capacite a perceber uma verdade do próprio indivíduo. Mesmo que Freud insista na necessidade de cada um adaptar-se às exigências de vida em sociedade, isso, segundo penso, não deve querer significar uma conformação, uma aceitação “resignada” de princípios, regras e valores.
Que a verdade, em qualquer âmbito que se estabeleça, desde uma constatação simples na experiência cotidiana, até uma formulação teórica sofisticada, seja dita objetiva, não causa estranheza. Quando dizemos de uma verdade subjetiva, isso soa bastante estranho, quase contraditório, na medida em que queremos falar do modo como as pessoas transitam na realidade e são chamadas a discutir suas posições neste espaço coletivo, mas creio haver vários momentos em que isso deva ser revisto criticamente.
Vejamos dois exemplos de aplicação dessa idéia.
Muitas vezes quando percebemos que uma pessoa está em uma situação ruim, mas cuja causa principal é sua ligação com um objeto, uma idéia ou doutrina, de tal modo que ela se mostra dependente, podendo chegar até certo grau de fanatismo, podemos facilmente ter o ímpeto de “corrigir” seu comportamento, retirá-la dessa condição, tentando apontar as incoerências, fraquezas e pontos falhos em sua atitude. Se assim agimos, temos a boa intenção de substituir essa realidade interna por uma verdade que consideramos objetivamente válida, pelo fato de que não estamos contaminados pelos sentimentos que a conduzem a pessoa a se comportar de certa maneira. Muitas vezes essa estratégia pode ter um resultado terapêutico válido, mas eu digo que é necessário muito cuidado, pois muitas vezes esse investimento afetivo intenso pode demonstrar a única solução viável para manter um equilíbrio emocional, de tal modo que a desilusão pode gerar uma condição de vazio cujo complexo emocional resulte mais difícil de ser digerido. Desse modo, o que digo é que nem sempre uma verdade objetiva deve ser usada para confrontar uma outra, cuja dinâmica, motivação e princípio de validade não admite uma troca sem um ônus que por vezes é muito pesado. Em outras palavras, nem sempre nos cabe o papel de “salvar” alguém de algo falso objetivamente, pois muitas vezes aquilo que o sustenta é precisamente o quanto ele depende de uma verdade que somente ele vivencia por que ela o é, mesmo que não tenha consciência disso.
A outra aplicação é quando, em uma organização, empresa ou instituição com um número de médio a grande de pessoas, é necessário atribuir uma tarefa extra, que fuja, em alguma medida, às atribuições normalmente assumidas por cada um. Nesse momento, o critério objetivo é, como parece realmente sensato, ver quem está com menos atribuições, com menor carga de trabalho habitual, ou que possui menos atribuições extras, não só no momento presente, mas na história recente do desdobramento das funções. Penso que, por mais que este seja o primeiro critério a ser levado em conta, não é único e nem tem valor absoluto. É preciso levar em conta, também, a disposição subjetiva para assumir essa nova tarefa. Se alguém se recusa a assumi-la, e o faz de forma razoavelmente argumentada, não recusando simplesmente por mero capricho, parece-me mais do que razoável que se deva perguntar para os outros membros dessa organização ou instituição quem estaria disposto. Creio que a dimensão subjetiva do complexo afetivo ligado a um determinado trabalho, quando ela se mostra suficientemente clara, demonstra uma verdade que não deve ser simplesmente submergida nos critérios racionais de uma verdade coletiva.
É evidente, por outro lado, que se essa recusa se repete, e por mais de uma vez, demonstrando ao longo do tempo má vontade para colaborar, aí fica claro que mesmo nesse âmbito subjetivo não estamos diante de algo “verdadeiro”. Interessante é notar que se somos condescendentes com essa recusa sistemática, ocorre que várias tarefas acabam, como se diz popularmente, “sobrando” para alguém com uma especial docilidade para aceitar os encargos. Ao longo do tempo, vemos que algumas pessoas passam a ter uma dose de trabalho excessiva, devido precisamente a esse modo com que aceitam sistematicamente tarefas além do que é a média de todos. Por outro lado, é muito instrutivo notar que tanto um chefe que, naquele primeiro caso, não ouve de forma adequada essa verdade subjetiva de uma disposição específica para um determinado trabalho extra, quanto essa outra pessoa que sempre assume encargos de modo a ficar sobrecarregada, ambos têm uma atitude que segue o mesmo princípio: anulação de uma verdade subjetiva em prol de uma objetiva. Em ambos os casos, o espaço da interioridade foi anulado devido a uma concepção “racional” de um bem público, objetivo. Que isso seja imposto de fora ou assumido pela própria pessoa, de meu ponto de vista, não altera substancialmente a qualificação de uma violência exercida pelo âmbito objetivo sobre o subjetivo.
Como, entretanto, o processo de ponderação de verificação dos pesos relativos entre esses dois planos é sempre variável devido às infinitas diferenças em cada circunstância, não há propriamente uma regra geral de como proceder. Toda essa reflexão é dirigida para resgatar, por assim dizer, algo que, nessa relação entre tais medidas, corre sempre o risco de ser depreciado, a saber, o espaço de uma verdade muitas vezes não valorizada por quem mais precisa dela: nós mesmos.


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