Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sobre a condição feminina

Eu gosto de mulher que gosta de ser mulher. Essa frase se justifica, não pelo fato de especificar mulheres que sejam heterossexuais, isto é, que gostem de se relacionar com homens; dirige-se àquelas que demonstram um gosto especial, algo como uma alegria por sua condição feminina. Segundo penso, esta assunção prazerosa de sua própria condição como mulher mostra-se especialmente problemática nas sociedades contemporâneas.
Podemos dizer que, de acordo com certos princípios que norteiam a constituição das mentalidades relativas aos gêneros, a cultura ocidental é marcada, em diversos graus e de diversas formas, por uma excessiva masculinização, não apenas no sentido político, econômico e societário de privilégio conferido os homens em termos de acesso a melhores salários, cargos em empresas e em instituições governamentais etc. Trata-se, de forma mais geral e também profunda, de toda uma gama de valores que privilegiam atitudes, posturas, modos de ser e de auto-concepção muito tipicamente masculinos, entre cujas conseqüências está a de depreciar, muitas vezes de forma sarcástica, o gosto e o gozo de se entregar à demanda do outro.
Theodor Adorno disse que o amor consiste em demonstrar fraqueza sem estimular a violência. Naturalmente, não se trata de dizer que o amor seja apenas isso, mas que contenha essa dimensão como um de seus aspectos essenciais. O que está em jogo é um princípio feminino — a ser vivenciado tanto por homens quanto por mulheres — de oferecer-se ao outro como objeto de desejo, de modo que se tenha esse prazer bastante especial de perceber no outro este gozo de apropriação de nós mesmos. Ora, é por demais evidente que as sociedades ocidentais há muito privilegiam uma concepção de si fundada numa afirmação reiterada de nosso próprio ser, de nosso papel na sociedade, tipicamente concorrencial. O centramento narcísico expresso pela necessidade de se auto-afirmar com a devida força perante todas as possibilidades de fracasso, aliado à situação real de privilégio para os homens nas diversas estruturas hierárquicas, contribui de forma decisiva a uma exacerbação do gosto pela condição masculina.
Quantas vezes não se ouviu alguma mulher dizer a seguinte frase: “Na próxima encarnação quero nascer homem, pois aí é tudo mais fácil” (claro que isso não significa acreditar em reencarnação, pois se trata apenas de uma figura de linguagem). A justificativa para essa ideia não se dirige apenas à condição de privilégio social e econômico, mas toca também questões mais imediatas, como a lida com as alterações hormonais da menstruação, o perigo de uma gravidez indesejada, a desvantagem devido à diferença de compleição física, ou seja, de forças, que torna a mulher mais vulnerável à violência típica das cidades, como assaltos, intimidações, sem contar, evidentemente, o perigo dos atentados sexuais etc.
Seria um radical despropósito negar que é realmente difícil para a mulher conciliar todas essas exigências de uma postura masculinizada perante o real à dimensão feminina própria de sua sexualidade e do âmbito afetivo que gravita ao seu redor. Aliando-se essa mentalidade preponderante (que valoriza a auto-afirmação) ao risco sempre presente de uma violência injustificada por parte do outro, na esteira do que citamos de Adorno, é mais do que compreensível uma especial dificuldade de harmonizar esses dois pólos da existência: a intimidade, cujo prazer se liga propriamente à ruptura e transgressão de leis, princípios e valores racionalmente concebidos, e o âmbito social, em que a positividade das exigências de sucesso e de felicidade fomentam de forma decisiva a satisfação consigo mesma pelo fato de se impor perante o outro.
Parece-me relevante, no que concerne à dimensão propriamente sexual da condição feminina, o quanto esta é tomada, no universo das trocas simbólicas na linguagem, como um índice de diminuição, ridicularização, de fraqueza, de vergonha. Há várias expressões bastante pejorativas que conectam o posicionamento sexual tipicamente feminino com situações desvantajosas, humilhantes etc. Esse aspecto essencial da sexualidade feminina de ceder, de entregar-se ao outro é tomado em vários casos como uma metáfora para o esmorecimento perante situações que demandam uma postura firme. No típico enfrentamento de torcidas de time de futebol, o xingamento mais freqüente é o de negação da masculinidade (ao passo que, curiosamente, a loucura se associa a algo propriamente vantajoso, como índice de uma agressividade transbordante, violenta em sua disposição transgressiva etc.). Mesmo correndo o risco de ser tomado como moralista, vejo com surpresa o quanto pessoas com senso crítico, que refletem seriamente sobre problemas sociais, dispõem-se a usar essa conotação pejorativa da condição feminina como moeda de troca nesse âmbito do enfrentamento lúdico. Sei perfeitamente que tudo não passa de brincadeira, de um espaço de irreverências, ironias etc., mas creio que haja um peso simbólico significativo ao se usar o feminino como índice de demérito, de contrapeso para as derrotas no âmbito esportivo.
Toda essa circunstância de dificuldade, entretanto, não é simplesmente insuperável. Na medida em que um homem se relaciona com várias mulheres ao longo de sua vida, ele percebe com nitidez diferenças às vezes gritantes no modo como cada uma delas demonstra uma satisfação com sua condição feminina, essa alegria de se ver como objeto de um desejo especialmente forte, invasivo, robusto, consistente. É exatamente devido a isso que valorizo o quanto foi possível a uma mulher manter de forma saudável e viva este núcleo de sua sexualidade e afetividade feminina, apesar de tudo aquilo que, no âmbito da objetividade social, o contraria.
O outro lado da moeda (sendo que ainda há outro), é o de um destempero no sentido oposto, a saber, de “esquecimento” do quanto o papel feminino no relacionamento, desde a situação de maior intimidade sexual até os momentos mais sóbrios no dia-a-dia, demandam uma mescla com princípios e formas masculinas de atitudes, pensamentos e afetos. Em virtude, entre várias coisas, desse desejo de demarcar claramente o espaço da feminilidade, esta tende a negar de forma um tanto obsessiva a presença da sobriedade masculina, o que pode resultar em uma perda de sua força de sedução. Esse problema, entretanto, é por demais complexo, merecendo uma investigação à parte.
Outra questão que merece ser mencionada é uma possível resposta das mulheres em relação ao comportamento masculino, no sentido de se dizer que elas também apreciam o homem que consegue conciliar a dimensão feminina da afetividade com a sua condição masculina. Uma relação afetiva em que este exclui toda a atitude de entrega ao desejo da mulher, situando-se de forma por demais enrijecida em sua atitude masculinizada nas diversas faces do relacionamento, tende a ser estéril, árida. De fato, essa tarefa de conciliação dos princípios masculino e feminino não é uma exclusividade das mulheres. Muito da condição neurótica consiste precisamente numa incapacidade de se situar em relação a esses dois princípios, que, de um ponto de vista psicanalítico, constituem a subjetividade humana em geral, independente do gênero e da posição e preferência sexuais. Essa problemática, entretanto, também extrapola os limites desse texto, devendo ficar para novas postagens.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Da diferença entre fragilidade e sensibilidade


Sentimentos são facilmente confundidos. Eles expressam necessidades de dar vazão a nossos desejos, em que nos percebemos como respondendo a nossas fantasias, valores, ideais etc., diante das infinitas possibilidades que a realidade nos oferece para satisfazer, de alguma forma e em alguma medida, nossas vontades. Dentre as diversas formas de confusões no modo como qualificar os sentimentos, gostaria de comentar uma delas, que me parece especialmente interessante. Trata-se da diferença entre ser sensível e ser frágil. Não é nenhuma novidade apontar para essa diferença, de modo que quero apenas aqui dizer como percebo alguns de seus aspectos.

Em ambos os casos, temos o ser afetado por outra coisa, a suscetibilidade a impressões, sentimentos, forças, provenientes de algo externo à própria consciência. Assim, entende-se o quanto a sensibilidade pode se mesclar à condição de se abater com algo, uma vez que em ambos os casos percebe-se essa vivência em si mesmo de um efeito do contato com as outras coisas, pessoas etc. Por outro lado, compreende-se também por que pode ser tão difícil demonstrar ou assumir sensibilidade, uma vez que isso pode ser tomado como índice de fragilidade, tanto por si mesmo, quando pelos outros.

As diferenças entre esses dois aspectos, entretanto, são muito mais relevantes do que essa primeira aproximação. Ser sensível significa, entre outros aspectos no âmbito emocional, uma capacidade de discernimento de diferenças qualitativas, de conferir o devido valor ao modo como as coisas se distinguem em nuances que poderiam, à primeira vista, passar como insignificantes. Não se trata apenas de uma habilidade da ordem cognitiva de captar variações no âmbito auditivo, visual, tátil etc., mas sim de um processo ativo de estima do quanto as diferenças entre as coisas são suficientemente significativas para que lhe prestemos atenção, para que tenhamos envolvimento emocional com elas. Nesse sentido, ser sensível envolve um investimento afetivo nessas gradações.

A fragilidade, no caso propriamente a emocional, caminha no sentido de ser passível de afetação por algum movimento subjetivo, de tal forma que podemos sofrer gravemente o impacto na relação com algo, sem que, nesse momento, sejamos capazes de perceber ativamente nuances de diferenças qualitativas nas coisas. Na verdade, podemos dizer que a fragilidade envolve uma espécie de dessensibilização, de incapacidade de interagir de modo a fazer uma leitura refinada, nuançada, daquilo com que nos relacionamos. Um exemplo claro de como isso acontece, embora não no registro propriamente emocional, é o caso da hiperestesia, que é a condição dos órgãos dos sentidos quando deixam de suavizar os impulsos sensíveis ocasionados pela luz, pelo som, pelo cheiro, de modo a que qualquer aumento mínimo de uma sensação já ocasiona dor, irritação e outras complicações no âmbito neurológico. Nesse momento, vemos que o excesso da capacidade de ser afetado por alguma coisa diminui nosso envolvimento ativo de atenção para as diferenças.

É interessante notar, ainda, que mostrar-se frágil, a própria condição de abater-se com alguma coisa, pode substituir a sensibilidade. Em vez do esforço de atenção, de investimento afetivo naquilo que é objeto de empenho por si mesmo, temos essa descarga emocional na auto-percepção de que se é suficientemente aberto a ponto de abater-se com a força de uma determinada realidade. Em outras palavras, a fragilidade pode simular a sensibilidade, substituindo a dimensão reflexiva e de atenção qualitativa pelo impacto subjetivo em sua dimensão quantitativa.

Assim, é necessário um grau suficiente de força, estabilidade e a atenção, para haver sensibilidade. Esta é propriamente uma capacidade, enquanto ser frágil indica mais uma condição, cuja característica fundamental, nesse aspecto, é de uma passividade essencial em relação às coisas. “De pouco adianta” afetar-se profundamente com alguma coisa, se não há sobriedade suficiente para se aperceber do quanto a realidade contém elementos, muitas vezes, que não são suficientes para gerar esse abalo emocional. Radicalizando um pouco isso que estou dizendo, a fragilidade acaba por dar-nos o prazer da dispensa de investirmos nossa atenção nas infinitas sutilezas, diferenças e nuances da realidade que nos cerca, cujo efeito em nós, em alguns casos, pode ser tudo, menos de um sofrimento, e mais uma ocasião para tomar a realidade como objeto de reflexão e motivo para uma atitude.

Esse último aspecto é significativo, uma vez que a fragilidade aponta para certa paralisia, inatividade ou renúncia ao real, pois, por assim dizer, “resolve” no âmbito emocional, interno, questões no vínculo com a realidade. A sensibilidade, ao contrário, na medida em que se alia a uma condição estável emocionalmente, indica a capacidade de enriquecer nossa percepção, fazendo com que tenhamos mais pontos de apoio para a nossa reação perante o que nos cerca.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Por que refletir?


Quem dá aula de Filosofia para outros cursos quase sempre se depara com o questionamento sobre a pertinência de uma reflexão abstrata, ou até mesmo de toda a postura reflexiva que não seja ligada ao aprendizado de como fazer, agir profissionalmente, operar com alguma teoria sobre a realidade etc. Se a resposta se dirige à importância da reflexão para a vida pessoal, e não apenas relativa ao trabalho, de modo a mostrar que sua importância é tão grande que vai além de uma prática específica, a réplica por parte dos alunos muitas vezes se apóia na ideia de que, como se diz popularmente, “Pensar no passado é sofrer duas vezes”, ou seja, a reflexão nos enreda mais ainda em nossos dissabores internos, sem que com ela tenhamos certeza de algo melhor. Outra objeção se baseia na recusa de pontos de vista doutrinários, que procuram estabelecer modos de vida supostamente saudáveis, que trariam maior satisfação, conteúdo e valor em geral para a vida. Hoje quero comentar a primeira dessas objeções.
Por mais óbvio que seja, é preciso ter em mente que o pensamento é fruto do desejo. Ele não apenas é um instrumento para apanhar o real a partir de bons pontos de vista, de modo a entender melhor a sua verdade. Ele reflete as escolhas que fazemos para realizar tais abordagens. Tal como as teorias de fundamentação do conhecimento contemporâneas demonstram já há algum tempo, não faz muito sentido querer um fundamento, uma base, um alicerce seguro e absoluto para teorias, sejam elas científicas em sentido estrito, como na física e na química, ou nas teorias sociais e filosóficas. Em função disso, parece cada vez mais claro que, por mais que o pensamento teórico tenha de se fundamentar o melhor possível, rapidamente se chega, em um debate, a um ponto em que a divergência é resolvida simplesmente com a idéia de que cada um escolhe seu próprio ponto de vista, em virtude de seu desejo de pensar assim.
Se em um âmbito aparentemente tão objetivo como o das teorias mais avançadas nos deparamos com essa dimensão afetiva do pensamento, na medida em que este é movido por um desejo, por uma escolha não fundamentada rigorosamente, tanto mais isso vale para o modo como cada um pensa sobre sua própria vida, decide sobre o que fazer e toma partido por idéias em geral sobre a realidade. Na medida em que nos voltamos para nossas próprias questões, problemas de posicionamento em relação a tudo o que nos cerca, incluindo nossa disposição afetiva, o pensamento acaba servindo de palco para que as idéias exprimam as próprias emoções e vicissitudes do desejo, em vez de ajudarem a encontrar uma perspectiva suficientemente boa para melhorar o que pensamos.
Nesse sentido, que pensar no passado seja uma segunda fonte de sofrimento, por se dirigir em relação àquilo que nos incomoda e que deveria ser melhorado, não causa nenhuma estranheza. Esse tipo de reflexão acaba sendo, realmente, apenas mais uma circunstância para colocar em jogo os mesmos componentes que geraram as situações que devem ser repensadas. Sem alguma forma de perspectiva externa às vicissitudes do próprio desejo, o pensamento acabará sempre atraído pelo redemoinho das emoções, cuja força de atração parece fazer com que andemos sempre em círculo ao redor deles.
Diante de uma circunstância específica, como um problema a ser resolvido, uma questão afetiva mais complexa, uma preocupação que se arrasta durante um tempo excessivo etc., algumas vezes usei uma estratégia bem simples e que já sugeri a algumas pessoas, que consiste em escrever o mais claramente possível sobre a circunstância. Em vez de simplesmente pensar, por assim dizer remoer as idéias, é bom sedimentar todo esse caldo de imagens em uma exposição que ganhe uma objetividade proporcional à fixidez da escrita. É muito interessante notar que, mesmo situações que geravam muita apreensão por vezes não rendem mais do que umas poucas linhas quando tudo é escrito, colocado de forma mais objetiva. É como se o “problema” em si mesmo fosse bastante reduzido e específico, mas com um potencial de reverberação afetiva de tal ordem que nos move e arrasta por horas ou dias de pensamento. O compromisso com a escrita ganha o espaço anteriormente cedido à complacência com que repetimos infindavelmente idéias que apenas exprimem nossos desejos e refletem nossas emoções, em vez de propriamente colocá-las sob um novo prisma, capaz de fazer com que enxerguemos novas cores para elas.
Nesse sentido, a proposta de teorias como as filosóficas — na medida em que se preocupam com questões relacionadas à crítica cultural, à subjetividade e às questões de valor — e as psicanalíticas é a de fornecer pontos de apoio suficientemente consistentes de modo a fazer com que não precisemos simplesmente fechar os olhos ao que nos incomoda internamente (dirigindo o olhar única e exclusivamente para aquilo que precisa ser feito de forma objetiva), mas também não nos percamos nessas infinitas associações de idéias que não nos levam a ver muito além do que o nosso próprio ego é capaz de enxergar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A voz da experiência na sala de aula


Aprender com experiência não é fácil. Há muitos fatores que dificultam bastante a ação subjetiva de agregar os fatos como algo que contribua para uma melhor concepção da realidade, de modo a fazer progredir nossa perspectiva das coisas em geral, seja de nós mesmos, seja das outras pessoas ou dos objetos e circunstâncias no mundo. Penso que muitas vezes, em vez de um aprendizado na acepção própria do termo, temos mais uma adaptação às circunstâncias que são vividas repetidamente. Em outros momentos, o preconceito é o impedimento mais claro para o progresso do conhecimento através da experiência. Ele produz um julgamento antecipado em relação às coisas de modo a fazer com que tudo que está de acordo com ele é somado como uma confirmação sua, ao passo que qualquer fato contrário pode ser simplesmente desconsiderado, tomado como uma mera exceção, como algo pouco significativo, como uma anomalia etc. Caracterizo essa perspectiva como sendo de uma percepção seletiva viciada, em que selecionamos aquilo que está de acordo com uma disposição subjetiva prévia, de tal forma que o resultado final apenas tende a confirmar o que pensávamos antes.
Essa atitude pode ser entendida a partir da própria etimologia (origem histórica) da palavra experiência, que é formada prefixo ex, que significa para fora, externo, exterior, e o radical peri, que se liga a limite, como em perímetro, ou aquilo que circunscreve alguma coisa, tendo a ver também com a idéia de poro, ou seja, de passagem para o exterior. Tomando essa derivação histórica, experiência é definida como essa transitividade em relação àquilo que extrapola nossos limites já estabelecidos. É como se nós saíssemos de nós mesmos de modo a tomar contato com algo que nos é estranho, diferente, outro, de modo a retornar para o nosso mundo interno de forma diferente. No caso do preconceito, nossas idéias, princípios e valores se tornam bastante impermeáveis, sem poros, sem vias de trânsito entre nós e a realidade externa à nossa consciência, mas com uma surpreendente faculdade, capacidade, de “fagocitaro que é estranho. Como se sabe, fagocitose é uma ação de defesa do organismo realizada pelos glóbulos brancos do sangue, que absorvem corpos estranhos ao organismo de modo a neutralizá-los. No caso do nosso sistema imunológico, isso é de crucial importância, mas nesse âmbito da experiência, em que o estranho deve ser assimilado em sua dimensão de alteridade, de um ser-outro em relação a nós, temos a idéia de que se trata de uma espécie de defesa patológica em relação àquilo que, na verdade, deveríamos nos apropriar de modo a enriquecer o âmbito de nossa concepção de mundo já estabelecida.

Ao longo de 13 anos como professor universitário, pude notar, desde os primeiros semestres em que lecionei para alunos de uma faculdade particular em Belo Horizonte, que a experiência didático-pedagógica pode ter uma voz bastante fraca para o professor. É muito claro que sempre se aprende muito em relação aos conteúdos e habilidades que são trazidos aos/às alunos/as, pois a exigência de traduzir o que se sabe para favorecer a compreensão de outrem sempre leva a uma nova formulação dos conceitos, principalmente diante de questões levantadas na sala de aula. Quero me referir, entretanto, à experiência em termos de práticas didático-pedagógicas, de relacionamento com os/as alunos/as e das propostas e princípios que norteiam a atitude como facilitador/a do aprendizado. Nesse plano, creio que o professor, no início de sua carreira, tende a aprender, por si mesmo, a adequar a carga de conteúdos ao tempo disponível, levando em conta as capacidades e limitações de aprendizado dos alunos. Passado um certo tempo de adaptação -- que nem sempre é índice de algo bem sucedido --, creio que sempre se corre o risco de um estagnação deveras prejudicial, em que a experiência em sala de aula pode se tornar bem pouco significativa. Vejamos por quê.
O primeiro fator, mais evidente, é a recusa do/a aluno/a em fazer críticas devido ao medo de retaliação, ou de simplesmente ofender o/a professor/a, o que tende a inibir sistematicamente a expressão de questionamentos sobre o trabalho docente. A depender do tipo de instituição em que se trabalha, podem se passar vários e vários anos sem que nenhum/a aluno/a tenha a suficiente coragem/disposição para exprimir uma crítica que tenha sido pensada por vários/as outros/as.
Quando o questionamento sobre a mensagem didática é trazido à tona, a posição hierárquica típica da relação professor/a-aluno/a tende a induzir a interpretação da crítica como situada no mesmo plano da disparidade de grau de conhecimento, que está em jogo no esforço de ensino-aprendizagem. Uma vez que os/as alunos/as estão em uma posição de busca por um saber que o/a professor/a já possui, e considerando as exigências institucionais de aprovação, é muito fácil para quem conduz o processo de aprendizado ceder à tentação de desqualificar uma crítica com a idéia de que se trata de um deslocamento indevido de seu objeto. Em vez de questionar sua própria falta de determinação para o aprendizado, o/a aluno/a tenderia a criticar a proposta de ensino. Eu não nego que isso ocorra de fato, e até freqüentemente. O grande problema me parece residir numa tendência a sempre e somente pensar que se trata desse tipo de estratégia defensiva por parte dos/as alunos/as. Um de seus complicadores é o fato de que muitas vezes o/a aluno/a não possui o suficiente discernimento e meio de expressão adequado para traduzir, em uma formulação adequada, sua percepção de que algo está ruim. Muitas vezes só lhe é possível dizer “Essa aula é chata”. Diante de um posicionamento como esse, é muito fácil ao/à educador/a pensar que se trata apenas de uma indisposição por parte de quem “já não gosta de estudar”. O raciocínio é simples: “Se o problema foi expresso em termos emocionais, seu fundamento também o é”.
Eu creio que, mesmo diante de uma crítica infundada, inadequada como avaliação objetiva do processo de ensino, é necessário o/a docente se perguntar: “Em que medida meu trabalho contribuiu para que essa percepção equivocada surgisse”. Não que todos os problemas que surjam em uma sala de aula tenham como origem a especificidade da proposta didático-pedagógica, mas sim que se deve aproveitar estes momentos como indicadores de algo que se poderia fazer para melhorar a proposta educativa ou contornar/minimizar problemas e deficiências oriundas de fatores extraclasse.
Outro fator que dificulta bastante aprender com experiência didática é o fato de um resultado muito ruim em termos de aprendizado por parte de uma turma, digamos, de 50 alunos, não significar, necessariamente, um problema com o material didático, nem com o trabalho de exposição do conteúdo.  Já se sabe claramente que cada turma tem uma unidade própria, constitui uma espécie de personalidade coletiva, de modo que, embora tenha havido, por exemplo, 40 resultados muito decepcionantes em uma classe, em um cenário maior, de 3, 4, 5 ou mais turmas, pode-se averiguar melhor a validade dessa proposta didático-pedagógica. Minha própria experiência me mostra claramente que, em relação ao mesmo conteúdo programático e forma de exposição, turmas podem ter resultados muito distintos, mesmo sendo do mesmo curso e do mesmo período da grade curricular.
Por fim, mas não menos importante, está a própria auto-imagem do/a professor/a, que se percebe como aquele/a que detém saberes e habilidades que qualificam sua própria atividade como tal. O questionamento acerca da validade de sua proposta didático-pedagógica tende facilmente a ser traduzida como uma relativização de seu lugar de quem possui o conhecimento e tem como tarefa transmiti-lo.
Diante disso tudo, eu digo que para o/a professor/a realmente aprender com a experiência, ele/a precisa ser bastante ativo/a em relação a ela, ou seja, não apenas dar ouvidos às críticas que aparecem e interpretar de forma progressista as formulações inadequadas delas, mas perguntar acerca da adequação de seu trabalho, procurar saber como é sua recepção, mostrando-se disposto/a a acolher as críticas, de modo a programaticamente suspender todo o processo de inibição que normalmente já se instaura nesse ambiente de sala de aula.



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sábado, 1 de outubro de 2011

Ironias e curtos-circuitos da sedução.


Hoje publico uma postagem extra, além das que escrevo sempre às quartas-feiras, para abordar um assunto que obteve grande repercussão nos meios de comunicação e nas redes sociais durante essa semana. Trata-se dos comerciais de roupas íntimas da marca Hope, protagonizados pela modelo Gisele Bündchen. No link abaixo você pode ver uma das peças da campanha publicitária:



Todo o debate surgiu, ao que me parece, não de discussões acerca da pertinência ou não dessas peças por parte da opinião pública, seja através de formadores de opinião, como colunistas de jornais, seja por comentários na Internet, mas sim em virtude da decisão da Secretaria de Políticas para Mulheres do governo federal de pedir ao Conar a suspensão de todos vídeos dessa campanha. O debate orientou-se, devido a isso, pela questão da legitimidade dessa censura, que pareceu aos olhos de muitos uma intolerância para com o âmbito imaginário e lúdico associado às relações de gênero, passando pelo teor propriamente sexual das mensagens trocadas nesse âmbito da intimidade dos casais.
De saída, digo que sou contra suspender a veiculação desses comerciais, apesar de todas as críticas que farei. Ao mesmo tempo, porém, quero inserir essa problemática da interdição e suas críticas na análise do significado sócio-cultural da publicidade desse tipo. Quero me abster, por outro lado, de me referir à coerência da atuação da Secretaria, que se mostra comprometida ao se considerar que, a partir dos princípios elencados para a propor a censura, o mesmo deveria ser feito em relação a outras peças publicitárias, tão ou mais criticáveis. — Por fim, em relação à pertinência da proposta da Secretaria, embora seu conteúdo me pareça equivocado, seu objeto é suficientemente relevante para que lhe prestemos atenção. A dimensão simbólica das relações de gênero é sumamente significativa, e um comercial que toca de forma direta nesse ponto, sendo visto várias vezes por milhões de pessoas, é um objeto de reflexão mais do que significativo.

Essas peças não apenas são irônicas, como “se esforçam” para serem reconhecidas como tal. O anúncio de que algo vai ser ensinado, e ainda através de duas alternativas como questões de múltipla escolha, do tipo verdadeiro ou falso, já demonstra claramente que se trata de uma espécie de brincadeira, de um jogo, que se pode ou não aceitar jogar. A posição irônica, não-literal, é colocada de tal forma que já se sabe que a mensagem não deve ser tomada em seu valor de face, de modo que qualquer consideração que “descure” desse aspecto, já será tomada como “careta”, demonstrando uma seriedade pueril/senil, ou seja, débil, sem substância. “Maduro” é aquele que mostra que “captou” a intenção de se tratar de uma brincadeira, de algo “inofensivo”. Uma vez “garantido” que esse teor da mensagem foi captado, o/a consumidor/a pode ser capturado/a pelo prazer de se entregar a um complexo imagético/imaginário em que desejos se satisfazem e se dissimulam, com a chancela da suficiente sobriedade de que não se trata de algo literal. Parodiando Dostoievsky, eu diria: “se a realidade está morta, então tudo é permitido”. Freud dizia que o poeta nos suborna com o prazer puramente formal, estético, para nos levar a prazeres mais profundos, ligados a desejos inconscientes censurados, e, mutatis mutandis, eu diria: o ironista nos suborna com a desobrigação perante a sobriedade da vida para nos entregar ao prazer das “meras” imagens e sua ressonância com alguma mensagem impressa na mobilidade lúdica de seus significados. Compra-se, nesse aspecto, o prazer de se perceber como suficientemente amadurecido culturalmente para assumir a dimensão lúdica de um “ensino” que, na verdade, se traduzirá na apropriação desse complexo de significações no ato da compra. Temos uma apropriação metonímica (uma parte em função do todo) de uma percepção de si um tanto sublime, elevada, distanciada do modo “comezinho” do senso de realidade empobrecido pela rigidez dos valores ligados ao politicamente correto nas relações de gênero.
A publicidade não vende apenas imagens legíveis em sua significação direta. Ela pode vender também uma espécie de meta-imagem, que inclua um gosto de se perceber como suficientemente crítico de modo a se distanciar da realidade. Nesse sentido, fica claro, palpável, o quanto muitíssimas peças publicitárias contêm uma dose substantiva de insanidade, de irracionalidade, que não precisa ser descoberta por uma análise perspicaz, fundada em alguma teoria. A visão de senso comum do consumidor médio já é mais do que suficiente para captar essa postura olímpica, de distanciamento sublime perante o peso do que é verdadeiro/sério/real/sensato. Assim, a publicidade inocula em si mesma um anticorpo que a faz refratária às críticas conscientes, pois ela já assume como um de seus ingredientes aquilo que será usado contra ela, a saber, que se trata de algo absurdo. A publicidade não vende produtos, e sim o prazer de cada um se aperceber como prazerosamente imerso em um jogo de imagens cujas significações são manipuladas ao bel-prazer de quem participa deste plano lúdico/ficcional. A compra do produto será apenas uma das etapas nesse processo de apropriação de valores e de estados subjetivos.
Em função desse complexo de fatores, não só a proposta de censura, mas também sua ridicularização, já fazem parte, como ingredientes, dessa unidade imagética de significados que transitam entre a seriedade do politicamente correto das relações de gênero e o caráter excessivo e transbordante da sexualidade. Os gêneros dizem respeito a papéis sociais, familiares e culturais em sentido amplo a serem assumidos pelas pessoas sem vinculação estrita com suas opções sexuais. A mãe, por exemplo, no processo de formação psíquica da criança, pode tomar para si muito do papel atribuído normalmente ao pai, assumindo funções simbólicas como a de interdição, censura, punição etc., sem contarmos o fato claro e evidente de que muitas pessoas assumem opções sexuais bastante avessas àquilo que seu gênero poderia inspirar em um determinado código de valores. Desse modo, muito da crítica à tal propaganda passa pelo quanto a dimensão sexual, com sua potência sedutora, atraente e enganosa, contamina a sobriedade das relações entre gênero, mais legíveis a partir de um código público de formas de tratamento recíproco.
Ao mesmo tempo em que se opera com o distanciamento irônico, de forma igualmente escancarada produz-se um curto-circuito entre o caráter indomável, contraditório e espinhoso da sexualidade e as faces econômicas, familiares e sociais dos gêneros. O que mais parece doer aos críticos dessa publicidade é a forma acintosa com que uma dimensão da feminilidade é trazida ao primeiro plano da relação entre os gêneros. A irresistibilidade da mulher como objeto de desejo sexual é a moeda de troca tratada com tanta evidência quanto exclusividade. Desse modo, diversos dos fatores ligados à sensatez de uma argumentação racional, que supostamente deveriam nivelar os dois gêneros, são deixados de lado cinicamente. De forma análoga a como a compra do produto produz a participação metonímica no universo dos valores que transitam nas imagens (compra-se uma parte tendo em vista participar do todo), haveria uma ligação metonímica entre a atratividade do feminino, no plano sexual, para a mulher tomada como gênero.
Esse trânsito entre o sexual e a totalidade da vida é algo que a psicanálise toma como elemento de suma importância. Em uma expressiva fase de sua teoria, Freud formulou a idéia de que os sintomas neuróticos seriam expressão de uma colonização da vida consciente pela sexualidade inconsciente. Sem querer elucidar essa hipótese, que é bastante complexa, demandando várias páginas para sua sustentação minimamente persuasiva, gostaria de fazer um paralelo dessa expansão metonímica da feminilidade, sexualmente considerada, para o âmbito social dos gêneros, com uma idéia que ouvi certa vez em uma discussão sobre o feminismo. Em relação a uma notória feminista, foi dito que ela radicalizou sua postura de modo a ter relações sexuais somente com mulheres. Embora eu tenha lido pouca coisa de autoras feministas, eu imagino que a maioria delas não concordaria que o homoerotismo feminino seja uma radicalização, ou seja, um aprofundamento, do ideário feminista. Ao mesmo tempo, porém, tomo como certo que uma parte delas (não arriscarei dizer se expressiva numericamente) pense assim — e é esta postura que me parece pertinente para analisar essa relação tensa entre sexual e o gênero.
Mantendo a discussão em um plano de generalidade maior possível, para evitar uma psicanálise selvagem, que desconsidera a verdade do desejo individual, parece claro que a recusa da relação sexual com o homem por algumas feministas se ligaria precisamente a uma espécie de receio que algo bastante próprio à postura sexual feminina — a saber: o gozo da entrega, de dar-se, de submeter-se a uma invasão de si, ou seja, de seu próprio corpo, que ressoa de forma enfática uma violência simbólica — contamine, incendeie, a vida não-sexual em suas diversas formas, minando por dentro as possibilidades de equalizar os direitos da mulher com os do homem no âmbito do econômico, político, cultural etc.
Deste modo, essa campanha publicitária usa uma licença tipicamente irônica para situar os consumidores em um plano de associação lúdica de limites tensos entre o plano da sexualidade e da socialidade. Ela “brinca com fogo” e, diante da crítica inerente à própria mensagem, não se retrai, jogando na mesa a carta que já havia usado desde o início do jogo, ou seja, de que se trata apenas de um jogo. Do “é assim mesmo que acontece” na assunção “madura” e maliciosa de quem conhece os segredos adocicados da sedução na intimidade do quarto, à ponderação politicamente correta da necessidade de manter todo esse jogo apenas na arena da permissividade dos nexos sexuais, temos o espaço suficientemente móvel e lubrificado para que cada um consuma, seja comprando o produto, seja apreciando a cenografia das artimanhas do desejo, o sabor de participar em uma transgressividade espinhosa e ao mesmo tempo estimulante em sua lascívia, ironicamente obscena.