Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Por que refletir?


Quem dá aula de Filosofia para outros cursos quase sempre se depara com o questionamento sobre a pertinência de uma reflexão abstrata, ou até mesmo de toda a postura reflexiva que não seja ligada ao aprendizado de como fazer, agir profissionalmente, operar com alguma teoria sobre a realidade etc. Se a resposta se dirige à importância da reflexão para a vida pessoal, e não apenas relativa ao trabalho, de modo a mostrar que sua importância é tão grande que vai além de uma prática específica, a réplica por parte dos alunos muitas vezes se apóia na ideia de que, como se diz popularmente, “Pensar no passado é sofrer duas vezes”, ou seja, a reflexão nos enreda mais ainda em nossos dissabores internos, sem que com ela tenhamos certeza de algo melhor. Outra objeção se baseia na recusa de pontos de vista doutrinários, que procuram estabelecer modos de vida supostamente saudáveis, que trariam maior satisfação, conteúdo e valor em geral para a vida. Hoje quero comentar a primeira dessas objeções.
Por mais óbvio que seja, é preciso ter em mente que o pensamento é fruto do desejo. Ele não apenas é um instrumento para apanhar o real a partir de bons pontos de vista, de modo a entender melhor a sua verdade. Ele reflete as escolhas que fazemos para realizar tais abordagens. Tal como as teorias de fundamentação do conhecimento contemporâneas demonstram já há algum tempo, não faz muito sentido querer um fundamento, uma base, um alicerce seguro e absoluto para teorias, sejam elas científicas em sentido estrito, como na física e na química, ou nas teorias sociais e filosóficas. Em função disso, parece cada vez mais claro que, por mais que o pensamento teórico tenha de se fundamentar o melhor possível, rapidamente se chega, em um debate, a um ponto em que a divergência é resolvida simplesmente com a idéia de que cada um escolhe seu próprio ponto de vista, em virtude de seu desejo de pensar assim.
Se em um âmbito aparentemente tão objetivo como o das teorias mais avançadas nos deparamos com essa dimensão afetiva do pensamento, na medida em que este é movido por um desejo, por uma escolha não fundamentada rigorosamente, tanto mais isso vale para o modo como cada um pensa sobre sua própria vida, decide sobre o que fazer e toma partido por idéias em geral sobre a realidade. Na medida em que nos voltamos para nossas próprias questões, problemas de posicionamento em relação a tudo o que nos cerca, incluindo nossa disposição afetiva, o pensamento acaba servindo de palco para que as idéias exprimam as próprias emoções e vicissitudes do desejo, em vez de ajudarem a encontrar uma perspectiva suficientemente boa para melhorar o que pensamos.
Nesse sentido, que pensar no passado seja uma segunda fonte de sofrimento, por se dirigir em relação àquilo que nos incomoda e que deveria ser melhorado, não causa nenhuma estranheza. Esse tipo de reflexão acaba sendo, realmente, apenas mais uma circunstância para colocar em jogo os mesmos componentes que geraram as situações que devem ser repensadas. Sem alguma forma de perspectiva externa às vicissitudes do próprio desejo, o pensamento acabará sempre atraído pelo redemoinho das emoções, cuja força de atração parece fazer com que andemos sempre em círculo ao redor deles.
Diante de uma circunstância específica, como um problema a ser resolvido, uma questão afetiva mais complexa, uma preocupação que se arrasta durante um tempo excessivo etc., algumas vezes usei uma estratégia bem simples e que já sugeri a algumas pessoas, que consiste em escrever o mais claramente possível sobre a circunstância. Em vez de simplesmente pensar, por assim dizer remoer as idéias, é bom sedimentar todo esse caldo de imagens em uma exposição que ganhe uma objetividade proporcional à fixidez da escrita. É muito interessante notar que, mesmo situações que geravam muita apreensão por vezes não rendem mais do que umas poucas linhas quando tudo é escrito, colocado de forma mais objetiva. É como se o “problema” em si mesmo fosse bastante reduzido e específico, mas com um potencial de reverberação afetiva de tal ordem que nos move e arrasta por horas ou dias de pensamento. O compromisso com a escrita ganha o espaço anteriormente cedido à complacência com que repetimos infindavelmente idéias que apenas exprimem nossos desejos e refletem nossas emoções, em vez de propriamente colocá-las sob um novo prisma, capaz de fazer com que enxerguemos novas cores para elas.
Nesse sentido, a proposta de teorias como as filosóficas — na medida em que se preocupam com questões relacionadas à crítica cultural, à subjetividade e às questões de valor — e as psicanalíticas é a de fornecer pontos de apoio suficientemente consistentes de modo a fazer com que não precisemos simplesmente fechar os olhos ao que nos incomoda internamente (dirigindo o olhar única e exclusivamente para aquilo que precisa ser feito de forma objetiva), mas também não nos percamos nessas infinitas associações de idéias que não nos levam a ver muito além do que o nosso próprio ego é capaz de enxergar.

2 comentários:

Anônimo disse...

"O compromisso com a escrita ganha o espaço anteriormente cedido à complacência com que repetimos infindavelmente idéias que apenas exprimem nossos desejos e refletem nossas emoções, em vez de propriamente colocá-las sob um novo prisma, capaz de fazer com que enxerguemos novas cores para elas."

Mas e quando há dúvida(s) sobre como concebemos algo (um evento incômodo do passado, por exemplo), ou sobre como nos sentimos em relação a algo?
Às vezes conseguimos escrever bem o que se passa em nossa mente, de modo que isto auxilia na compreensão e na 'evolução' do refletir; mas nem sempre é o caso. Refiro-me às ocasiões em que não encontramos palavras que correspondam à reflexão 'amorfa' que se dá no âmbito da mente; que não são capazes de enformar tal reflexão.
Tentar escrever objetivamente a reflexão às vezes me parece uma coisa muito "perigosa", na medida em que envolve o risco de acabarmos por configurar, em palavras, algo que não corresponde exatamente àquilo que concebemos mentalmente ou que sentimos. E, se o que escrevemos não corresponde exatamente ao nosso 'estado' de pensamento ou sentimento, ainda que a reflexão escrita seja bem elaborada, parece-me que estaremos nos enveredando por um caminho que não irá conduzir ao solucionamento da questão, mas sim que nos fará embrenhar cada vez mais no irreal; naquilo que não é; ou seja, nos transviará do que verdadeiramente se encontra na mente. Este pode muito bem ser um problema de linguagem, de dificuldade em dizer (e, nesse caso, o risco ou prejuízo envolvido é pequeno: o de não conseguirmos dizer; de não consumarmos a reflexão escrita). Mas, para além disso, vejo algo de realmente "perigoso" nesta atividade, no caso de o sujeito ter dúvidas quanto ao modo como concebe um evento e mesmo assim decidir escrever sobre - trata-se do risco de o sujeito se apropriar da reflexão escrita que ele mesmo produz COMO SE ela correspondesse ao que se passa na mente. Quando isso ocorre, o sujeito transforma um problema em outro; cristaliza algo duvidoso e amorfo em algo objetivo e enformado. O pensamento/sentimento não-escrito e pouco inteligível é transfigurado, de modo que o sejeito passa a achar que aquilo que ele pensa ou sente É o que está expresso no seu texto, quando na verdade não é; e passa a tratá-lo como tal. E parece que, quando isto ocorre, grande parte do conteúdo se perde (porque quando escrevemos tendemos a priorizar os aspectos que estão mais claros para nós em nossa mente); e, às vezes, chaves importantes do conteúdo, que encontravam-se pouco claras no momento em que o texto é escrito, são definitivamente abandonadas e esquecidas.
Não consigo imaginar boas soluções para isto. Talvez uma solução seja que a reflexão escrita adquira o estatus obrigatório e definitivo de rascunho; que o sujeito comprometa-se a ter o ESFORÇO de ficar voltando ao texto para modificá-lo, retirando, acrescentando e reconfigurando idéias. Outra solução poderia ser o indivíduo esperar por um "insight", esperar que uma idéia genial e perfeitamente configurada surja em sua mente (semelhante aos insights que por vezes acometem o artista), para só então transpor em palavras escritas.
O que você pensa, professor?

Verlaine Freitas disse...

Concordo com a ideia de que a escrita pode ter uma fixidez, uma clareza e coerência que não fazem justiça à multiplicidade e à maleabilidade desse teatro das emoções. Essa estratégia de objetivar as questões emotivas não deve ser tomada como veículo suficientemente válido, mas apenas um índice do quanto nossos pensamentos são reféns inconscientes de nossos desejos. Pode perfeitamente ocorrer q se queira "fugir" às contrdições emocionais apoiando-se no aspecto cristalino do q foi escrito.