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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sobre a condição feminina

Eu gosto de mulher que gosta de ser mulher. Essa frase se justifica, não pelo fato de especificar mulheres que sejam heterossexuais, isto é, que gostem de se relacionar com homens; dirige-se àquelas que demonstram um gosto especial, algo como uma alegria por sua condição feminina. Segundo penso, esta assunção prazerosa de sua própria condição como mulher mostra-se especialmente problemática nas sociedades contemporâneas.
Podemos dizer que, de acordo com certos princípios que norteiam a constituição das mentalidades relativas aos gêneros, a cultura ocidental é marcada, em diversos graus e de diversas formas, por uma excessiva masculinização, não apenas no sentido político, econômico e societário de privilégio conferido os homens em termos de acesso a melhores salários, cargos em empresas e em instituições governamentais etc. Trata-se, de forma mais geral e também profunda, de toda uma gama de valores que privilegiam atitudes, posturas, modos de ser e de auto-concepção muito tipicamente masculinos, entre cujas conseqüências está a de depreciar, muitas vezes de forma sarcástica, o gosto e o gozo de se entregar à demanda do outro.
Theodor Adorno disse que o amor consiste em demonstrar fraqueza sem estimular a violência. Naturalmente, não se trata de dizer que o amor seja apenas isso, mas que contenha essa dimensão como um de seus aspectos essenciais. O que está em jogo é um princípio feminino — a ser vivenciado tanto por homens quanto por mulheres — de oferecer-se ao outro como objeto de desejo, de modo que se tenha esse prazer bastante especial de perceber no outro este gozo de apropriação de nós mesmos. Ora, é por demais evidente que as sociedades ocidentais há muito privilegiam uma concepção de si fundada numa afirmação reiterada de nosso próprio ser, de nosso papel na sociedade, tipicamente concorrencial. O centramento narcísico expresso pela necessidade de se auto-afirmar com a devida força perante todas as possibilidades de fracasso, aliado à situação real de privilégio para os homens nas diversas estruturas hierárquicas, contribui de forma decisiva a uma exacerbação do gosto pela condição masculina.
Quantas vezes não se ouviu alguma mulher dizer a seguinte frase: “Na próxima encarnação quero nascer homem, pois aí é tudo mais fácil” (claro que isso não significa acreditar em reencarnação, pois se trata apenas de uma figura de linguagem). A justificativa para essa ideia não se dirige apenas à condição de privilégio social e econômico, mas toca também questões mais imediatas, como a lida com as alterações hormonais da menstruação, o perigo de uma gravidez indesejada, a desvantagem devido à diferença de compleição física, ou seja, de forças, que torna a mulher mais vulnerável à violência típica das cidades, como assaltos, intimidações, sem contar, evidentemente, o perigo dos atentados sexuais etc.
Seria um radical despropósito negar que é realmente difícil para a mulher conciliar todas essas exigências de uma postura masculinizada perante o real à dimensão feminina própria de sua sexualidade e do âmbito afetivo que gravita ao seu redor. Aliando-se essa mentalidade preponderante (que valoriza a auto-afirmação) ao risco sempre presente de uma violência injustificada por parte do outro, na esteira do que citamos de Adorno, é mais do que compreensível uma especial dificuldade de harmonizar esses dois pólos da existência: a intimidade, cujo prazer se liga propriamente à ruptura e transgressão de leis, princípios e valores racionalmente concebidos, e o âmbito social, em que a positividade das exigências de sucesso e de felicidade fomentam de forma decisiva a satisfação consigo mesma pelo fato de se impor perante o outro.
Parece-me relevante, no que concerne à dimensão propriamente sexual da condição feminina, o quanto esta é tomada, no universo das trocas simbólicas na linguagem, como um índice de diminuição, ridicularização, de fraqueza, de vergonha. Há várias expressões bastante pejorativas que conectam o posicionamento sexual tipicamente feminino com situações desvantajosas, humilhantes etc. Esse aspecto essencial da sexualidade feminina de ceder, de entregar-se ao outro é tomado em vários casos como uma metáfora para o esmorecimento perante situações que demandam uma postura firme. No típico enfrentamento de torcidas de time de futebol, o xingamento mais freqüente é o de negação da masculinidade (ao passo que, curiosamente, a loucura se associa a algo propriamente vantajoso, como índice de uma agressividade transbordante, violenta em sua disposição transgressiva etc.). Mesmo correndo o risco de ser tomado como moralista, vejo com surpresa o quanto pessoas com senso crítico, que refletem seriamente sobre problemas sociais, dispõem-se a usar essa conotação pejorativa da condição feminina como moeda de troca nesse âmbito do enfrentamento lúdico. Sei perfeitamente que tudo não passa de brincadeira, de um espaço de irreverências, ironias etc., mas creio que haja um peso simbólico significativo ao se usar o feminino como índice de demérito, de contrapeso para as derrotas no âmbito esportivo.
Toda essa circunstância de dificuldade, entretanto, não é simplesmente insuperável. Na medida em que um homem se relaciona com várias mulheres ao longo de sua vida, ele percebe com nitidez diferenças às vezes gritantes no modo como cada uma delas demonstra uma satisfação com sua condição feminina, essa alegria de se ver como objeto de um desejo especialmente forte, invasivo, robusto, consistente. É exatamente devido a isso que valorizo o quanto foi possível a uma mulher manter de forma saudável e viva este núcleo de sua sexualidade e afetividade feminina, apesar de tudo aquilo que, no âmbito da objetividade social, o contraria.
O outro lado da moeda (sendo que ainda há outro), é o de um destempero no sentido oposto, a saber, de “esquecimento” do quanto o papel feminino no relacionamento, desde a situação de maior intimidade sexual até os momentos mais sóbrios no dia-a-dia, demandam uma mescla com princípios e formas masculinas de atitudes, pensamentos e afetos. Em virtude, entre várias coisas, desse desejo de demarcar claramente o espaço da feminilidade, esta tende a negar de forma um tanto obsessiva a presença da sobriedade masculina, o que pode resultar em uma perda de sua força de sedução. Esse problema, entretanto, é por demais complexo, merecendo uma investigação à parte.
Outra questão que merece ser mencionada é uma possível resposta das mulheres em relação ao comportamento masculino, no sentido de se dizer que elas também apreciam o homem que consegue conciliar a dimensão feminina da afetividade com a sua condição masculina. Uma relação afetiva em que este exclui toda a atitude de entrega ao desejo da mulher, situando-se de forma por demais enrijecida em sua atitude masculinizada nas diversas faces do relacionamento, tende a ser estéril, árida. De fato, essa tarefa de conciliação dos princípios masculino e feminino não é uma exclusividade das mulheres. Muito da condição neurótica consiste precisamente numa incapacidade de se situar em relação a esses dois princípios, que, de um ponto de vista psicanalítico, constituem a subjetividade humana em geral, independente do gênero e da posição e preferência sexuais. Essa problemática, entretanto, também extrapola os limites desse texto, devendo ficar para novas postagens.

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3 comentários:

Anônimo disse...

opinião de uma mulher :)

Acho que gostar de ser mulher e, mais propriamente, demonstrar meu gosto em ser mulher é algo que está intimamente ligado à gostar de ser e de fazer aquilo que é peculiar à essência do gênero feminino, que só as mulheres podem fazer, que só encontra sentido quando realizado pela mulher. Mas isto, creio, depende fundamentalmente de saber o limiar entre os gêneros, o limiar entre isto que estou chamando de 'essência' de cada gênero. Depende de que eu saiba (ainda que isto não seja um saber propriamente intelectivo) o que é essencialmente feminino e o que não é. Esta é uma dificuldade, pois no mundo contemporâneo [odeio a expressão "no mundo contemporâneo", acho-a totalmente sem sal e vazia de significado, mas, na falta de uma melhor...] o limiar entre a dimensão feminina e a masculina parece estar se perdendo de nossas vistas, se dissolvendo; pelo menos num nível mais superficial ao qual nossos olhos têm maior acesso: é cada vez maior a procura masculina por salões de beleza e o número de homens que realizam tarefas domésticas (atitudes historicamente ligadas à figura feminina) e cada vez mais mulheres ocupam cadeiras de patrão em grandes empresas e convidam homens para sair, ao invés de esperar que eles as convidem (coisas historiacamente ligadas à figura masculina). São exemplos banais e superficiais, mas eles me causam a impressão de que, num nível mais profundo das relações humanas, também estamos perdendo a noção do que é essencialmente feminino - por exemplo, de que a mulher é capaz de seduzir através da "promessa" subjetiva de uma entrega que satisfará a demanda do outro. E, pedendo-se esta noção, perde-se também a capacidade de ter e de demonstrar prazer em assumir tal papel. Não estou me posicionando contra homens vaidosos ou domésticos e nem contra mulheres que ocupam cargos administrativos e que têm "atitude" ou "ousadia" para "chegar" nos homens;, o que digo é que diante dessa realidade e dessa tendência à homogeneização dos gêneros é preciso resgatar aquilo que é primordial a cada um, pois o gostar ser mulher e o fazer com que os homens percebam-no depende disso.

Anônimo disse...

A masculinização da mulher dá-se pela incapacidade de rompimento das barreiras machistas da sociedade. Visando a ascensão, a mulher acaba vestindo-se e tomando atitudes tidas como masculinas, como uma forma de obter respeito no campo profissional e social, reprimindo e ajudando a esconder os preconceitos que mantiveram-nas afastadas das posições de poder.

Anônimo disse...

De fato, amigo Verlaine, a “tarefa de conciliação dos princípios masculino e feminino não é uma exclusividade das mulheres.” Pois bem, fazendo um trocadilho de ideias (se me permite) na medida em que uma mulher se relaciona com vários homens, ao longo de sua vida, percebe-se com nitidez diferenças no modo como cada um deles demonstra uma (in)satisfação com sua condição masculino-feminina, quimera do homem dito pós-moderno. Identidade... sepultada na caixa de Pandora? A alegria de se ver como objeto de desejo é privilégio das mulheres? Ou desejo dos homens? (Por: ACF)