Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 26 de novembro de 2011

Cultura e perversão

Quero hoje comentar uma reportagem de um canal de televisão, da qual se fez um vídeo que mostra duas partes da matéria, em que um rapaz é entrevistado por uma repórter enquanto bebia cerveja em um bar. Caso não tenha visto, clique na imagem abaixo.


A atitude deste rapaz pode ser analisada em diversos aspectos, considerando planos diferentes em termos de sua significação, dos quais me parecem mais evidentes o âmbito jurídico, relacionado à pertinência da lei contra algum teor alcoólico no sangue em motoristas, bem como a capacidade do Estado em fazê-la operante e eficaz; o âmbito moral, que por sua vez se divide na consideração sobre a coragem e a frieza de assumir o que se faz e pensa, e sobre o desprezo pelo valor da vida do outro; e o plano psicanalítico, em que se questionam os fundamentos psíquicos, inconscientes, de tal atitude. Quero aqui tratar apenas desses dois últimos aspectos, pois a questão da pertinência da lei é um assunto que demanda considerações específicas, que pretendo abordar em outra oportunidade.
“Não existem fenômenos morais, mas sim interpretação moral de fenômenos”, disse Nietzsche. De fato, o teor moral das ações se fundamenta nos planos que usamos para valorizar positiva- ou negativamente as escolhas que subjazem a cada atitude. Considero a moralidade essencialmente ligada a um processo construtivo da cultura, de tal forma que a recaída na barbárie, na violência e no desrespeito ao outro não somente é sua sombra inalienável, como também se nutre da mesma energia desiderativa (= de desejo). Somente existem valores consagrados como sublimes, nobres e progressistas devido ao fato de que a eles se contrapõem fantasias, desejos e impulsos radicalmente contrários, não apenas relegados a um passado distante, que se supõe superado nas sociedades ocidentais ditas democráticas, mas sim existentes em cada momento da construção social. Na medida em que a rede de valores éticos que une os diversos planos de interação social sempre envolve a pessoa do outro, com seu desejo, sua integridade física, emocional, de posses etc., diversos tipos de demanda podem ser colocados para que a convivência seja não apenas possível, mas minimamente satisfatória. O grande problema reside no modo como estamos dispostos a negociar o que tomamos como um dever do outro perante nós e o que consideramos sua realidade emocional, que compele à escolha de determinados valores em relação aos quais, creio eu, devemos não ter uma avaliação moral por demais apressada.
Embora eu discorde de vários fundamentos das colocações nietzscheanas acerca da moral, considero bastante significativa sua crítica a uma leitura moral da realidade. Em relação especificamente ao que estamos tratando aqui, tomo essa ideia como nos capacitando a pensar que, no plano propriamente moral, as pessoas têm o direito de serem más, ao mesmo tempo em que nos damos também ao direito de querer saber dessas suas escolhas. Há vários tipos de comprometimento possível entre os indivíduos, que não se resumem em hipótese alguma apenas ao compartilhamento de determinado tipo de valor, como o de atenção à vida, respeito ao sentimento do outro etc. Nesse sentido, a atitude do rapaz no vídeo se conforma, em certa medida, a uma expectativa social de franqueza, de assunção de determinados valores. Ele deu às pessoas que não compartilham de seus critérios de moralidade a oportunidade de rejeitá-lo com mais conhecimento de causa do que normalmente se pode fazê-lo. Obviamente, pode-se pensar a sua contraparte, no sentido de que ele faz propaganda de si como bad boy, como aquele que seduz pelo mau caráter, mas é precisamente este jogo de sedução e a possibilidade de rejeição que está em jogo no processo de constituição da cultura como fundado nas escolhas dos seres humanos.
O que é realmente “precioso” em nossa espécie não é o fato de sermos bons, mas sim de, em cada momento, nos vermos engajados no processo de construirmos não só a nós mesmos, mas também o horizonte mais amplo da família, da comunidade, da cidade, do país e do planeta, como fruto de nossas escolhas. O gozo com o mal não é simplesmente um tumor canceroso da civilização que deva ser extirpado de modo a assegurar a saúde da humanidade. Tal como disse Freud em mais de uma oportunidade, as mais sublimes realizações da cultura e seus feitos mais abjetos, vis e repugnantes provêm do mesmo núcleo da subjetividade humana.
Na literatura sociológica contemporânea, usa-se bastante o conceito de papéis sociais. Theodor Adorno interpreta de forma crítica e, do meu ponto de vista, pejorativa essa idéia, de modo a dizer que, em uma sociedade egocêntrica e capitalista como a da Europa e das Américas, papel social significa que as pessoas nunca são elas mesmas, que devem sempre se adequar a um determinado padrão de comportamento imposto socialmente. Penso que os papéis sociais que desempenhamos são expressão de que, afinal, não nos situamos, por nós mesmos, em um plano de representação que garanta nossa identidade. Assim, a pergunta que lançamos aos outros: “Quem é você? O que você quer?”, ou, dito de forma popular: “Qual é a sua?”, estabelece um compromisso em que damos ao outro o direito de coexistir em um determinado plano de agrupamento social, mesmo que seus valores sejam radicalmente distintos dos nossos. Que haja pessoas, como este rapaz, que desprezam a vida do outro, é algo que sempre existirá em nosso meio. Um dos grandes problemas em relação a isso consiste no fato de que normalmente não sabemos quem adere esse tipo de opção em diversos contextos, pois não o faz com esse grau de transparência.
Ilustro essa perspectiva com um caso. Estava eu sentado em uma lanchonete, quando comecei a prestar atenção à conversa de quatro garotas que estavam em uma mesa próxima à minha. Falavam sobre relacionamentos afetivos, e em certo momento uma delas defendeu o rapaz com quem estava se encontrando, dizendo que ele não escondia que suas intenções eram tão-somente de cunho sexual, que não dissimulava uma intenção afetiva ou de compromisso para além desses encontros. A fala dela continuou no sentido de que ele não enganava ninguém que se relacionava com ele, de modo que quem estivesse disposta a esse tipo de relacionamento, que o procurasse, que ficasse com ele, ou, caso contrário, não insistisse, ou ainda, se tivesse o propósito de conquistar seu afeto, corresse o risco por conta própria.
Não estou querendo dizer que se deva olhar com uma neutralidade objetiva a manifestação de sarcasmo, cinismo e desprezo perante a vida do outro, tal como no vídeo, mas sim que seria realmente muito bom se soubéssemos com mais transparência qual é o nível de civilização que alcançamos, de progresso em termos de construção cultural que nos distancia da barbárie. Além disso, manifestações extremas costumam ser bastante úteis para pôr a nu os diversos níveis de hipocrisia que temos em relação a algumas de nossas atitudes, que se pautam em certa medida por princípios bastante semelhantes.
Mas não nos deixemos enganar. A observação periférica que fiz acima de que a fala desse rapaz poderia incluir a propaganda de si mesmo como bad boy me parece importante como análise do significado de toda sua atitude. Podemos percorrer a seguinte linha: sinceridade, franqueza, falta de vergonha, cinismo, frieza, sarcasmo, perversão, perversidade. Como ingredientes para cada um desses aspectos, que me parecem presentes em alguma medida ao longo de todo vídeo, temos doses de ironia e narcisismo, com a relativa produção do olhar do outro e de afirmação da própria imagem perante si mesmo. Apesar da dissimulação irônica e de produção da imagem de bad boy, é evidente o conteúdo de perversão, no sentido psicanalítico de regressão a formas de desejo em relação ao outro que parecem desconsiderar, afrontar e deslegitimar leis e valores sociais.
O conceito de perversão é muito complexo, envolvendo diversos temas e hipóteses teóricas que não temos minimamente condição de abordar em profundidade nesse pequemo espaço. Gostaria apenas de falar de um de seus aspectos que sempre me chamaram a atenção quando me deparo com alguns comentários sobre perversões, particularmente quando envolvem ações más. (Há que se considerar que perversão não deve ser confundida com perversidade, uma vez que, por exemplo, comportamentos masoquistas de auto-flagelo também configuram formas de perversão.) Tenho em mente a idéia bastante usual de que este rapaz (como o perverso em geral) não se coloca no lugar do outro, que ele desconsidera totalmente a possibilidade de ele mesmo ou um membro de sua família ser alvo de um acidente ocasionado por um motorista embriagado. É como se o outro fosse totalmente anulado por uma posição absolutamente egoísta. — Da perspectiva psicanalítica que adoto, isto é um equívoco.
A frieza com que o valor da vida alheia é reduzido tão-somente à necessidade de pagamento de uma fiança apenas dissimula um plano de dramaticidade mais profundo, em que o desejo e a posição do outro estão implicados neste palco, nesta cena, em que diversas pessoas, personagens e espectadores convergem segundo uma lógica movida por um desejo inconsciente. A indiferença e o sangue-frio são apenas a superfície, como que o resultado de um processo conflitivo, em que se tenta digerir, metabolizar, o quanto a posição de aviltamento do outro é vivida como ingrediente necessário para a expressão desse desejo pervertido. Quanto maior a frieza, digo eu, mais ela pode ser tomada como índice de precariedade no modo como processos de identificação com a posição do outro estão nuclearmente situados na motivação da atitude perversa.
Em um outro vídeo, que mostra a segunda parte da matéria jornalística em mais detalhes, vemos que esse mesmo rapaz amarrou-se, junto com um colega, ao teto de um carro usando fita crepe. Está claro que esta situação não configura uma exposição acentuada a um perigo de morte, mas ela é bastante interessante como um indicativo do quanto a proximidade com o perigo é estimulante para este rapaz.
Minha intenção não é a de dizer que “o que o perverso quer”, ao desprezar a vida do outro, é ter sua vida desprezada, como se o desejo de morte do outro significasse o desejo de sua própria morte. O que digo é que essa posição de morte, de ser agredido, ser violentado, do outro é um ingrediente necessariamente implicado na lógica do desejo perverso. Colocações como essa: “O que ele quer é...”, não podem ser respondidas nesse regime de uma frase com um objeto direto. O que se deseja está sempre mesclado ao não-desejar, de modo que o “o que” envolve formas e meios de negação, tal como desvios, dissimulação, inversões etc., de forma que o que deveria dar lugar ao como do desejo. Só que esse como somente é passível de leitura através da escuta psicanalítica na relação entre analisando e analista, de modo a se descortinar uma lógica individual, singular, de tessitura das linhas de força que fazem convergir tanto o desejo quanto suas infinitas formas de negação.
No plano teórico, geral, o que podemos dizer é que a idéia de que o ser humano é um ser social significa mais do que o fato de que ele se forma na relação com o outro; indica o quanto as raízes mais profundas de todos os nossos desejos contêm o desejo e a posição do outro como um de seus ingredientes, cuja heterogeneidade e densidade impedem sua dissolução em um âmbito puramente egoísta. Toda a encenação possível de momentos em que realiza um desejo sempre precisará do caráter estrangeiro do desejo e da posição do outro, de tal modo a culminar no paroxismo de que o que enceno como realização do meu desejo tem seu sentido como realização do desejo do outro, que passo a tomar como se fosse o meu. É nessa cumplicidade entre um egoísmo cego em relação à dependência perante o desejo e a posição do outro, que se pode tomar a frieza, às vezes cadavérica, na lida com a vida alheia como a face visível da incapacidade de se reconhecer no e como outro em nosso desejo.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Da concretude do prazer

Quem convive comigo durante algum tempo acaba percebendo rapidamente a importância um tanto surpreendente que dou ao prazer de uma comida saborosa. Costumo dizer que quando experimento algo realmente muito gostoso no almoço, por exemplo, meu humor se altera pelo resto do dia. Por vezes dou a impressão de que estou sob um impacto afetivo desproporcional àquilo que uma simples comida, ou um doce, ou um café poderiam fornecer. Creio que pareço exagerar e, assim, corro o risco de ser visto como alguém que quer chamar a atenção, ou tem uma atitude afetada, passional. Por isso, muitas vezes suavizo a demonstração de que um determinado sabor é especialmente sublime para mim. Esse relato, por sua vez, pode soar por demais personalista, em contraste com o tom mais "objetivo" dos textos do blog, mas isso se justifica pela própria temática dessa postagem.
Gostaria, aqui, de refletir um pouco sobre a significação do prazer sensível, do contato corporal com o mundo, especialmente na contemporaneidade, dando continuidade ao que falei em outros textos nesse blog: Uma vida abstrata e O lugar o prazer no cotidiano.
Uma das características dos modos de vida hegemônicos nas sociedades européias e das Américas que se tornaram mais visíveis ao longo do desdobramento do capitalismo é a idéia de meio-termo, de sobriedade, de certa mediania, tal como podemos ver já em Aristóteles. Para este filósofo, tanto o excesso quanto a falta caracterizam uma atitude inadequada, viciosa, afastando-se da virtude, situada em meio-termo entre esses dois extremos. Seu exemplo preferido é o da coragem, que demonstra uma justa medida entre o medo do perigo e a confiança em si mesmo, pois quem teme demais uma adversidade é medroso, ao passo de quem não tem receio algum do perigo é um temerário, arriscando-se de forma desmesurada, inconseqüente.
Theodor Adorno ligava essa idéia a seu conceito de frieza burguesa, que caracteriza a postura típica do indivíduo submetido às exigências de uma sociedade concorrencial, em que a sobriedade nas ações, o controle e domesticação dos afetos, o cálculo adequado da expressão de nossos estados subjetivos etc., contam favoravelmente na tarefa de se adequar às leis que regulam o mercado de trabalho e de geração de riqueza em geral.
Concomitante a este processo de conformação dos excessos ao modelo calculado de adaptação bem-sucedida aos mecanismos de atuação social, temos um empobrecimento do modo como nos relacionamos de forma mais imediata, direta, com os objetos que nos prometem alguma satisfação, prazer e contentamento. Essa crescente racionalização nos processos de intercâmbio social e de leitura de mundo torna cada vez mais difícil perceber a intensidade de vínculos sensíveis mais concretos com as coisas. Estas parecem submergir tendencialmente seu sentido ao nosso senso de utilidade, de modo a serem percebidas apenas como meio, instrumento, para alcançar uma outra coisa. O valor que elas poderiam ter em si mesmas, consumido no instante em que nos relacionamos com elas, tende a se tornar irrelevante.
Por outro lado, assistimos a uma acentuada transposição do âmbito concreto para o de uma elaboração discursiva e imagética na insistência publicitária em experimentar novas sensações, sabores e experiências. A concretude da experiência dá lugar a uma espécie de experimentalismo, de cultivo da imagem de si mesmo como escapando à monotonia das sensações cotidianas. Como nos diz Jean Baudrillard, a realidade como tal fica aprisionada em sua duplicação em imagens e signos, fazendo com que nos distanciemos dela. O prazer sensível é evocado com toda a força na campanha publicitária, mas, de forma surpreendente, é substituído pela satisfação de realizar o que a imagem promete.
Vemos esse mesmo processo de falsificação do real no modo como os turistas tendem a se apropriar da natureza como meio de esquecimento do stress do cotidiano das grandes cidades, ou seja, como relaxamento e processo de revigorização, deixando de lado a dimensão qualitativa de percepção das coisas em sua concretude. Além disso, muito da beleza natural se submete à ânsia de documentação fotográfica com fins de compartilhamento social das experiências.
Enfim, muito se poderia dizer de estratégias de negação, desvio, esquecimento e dissimulação dessa dimensão corporal do nosso contato com a realidade. Difícil é, entretanto, falar de forma direta dela, em virtude do fato de que seu sentido consiste precisamente no instante em que é percebida e na singularidade do contato do corpo com os objetos e pessoas. Resta tão-somente o convite a que prestemos atenção e nos exercitemos em perceber o quanto o universo sensório, perceptivo, é, não apenas fonte de um prazer cuja magnitude tendemos a não avaliar com a devida acuidade, quanto um índice de que não inserimos completamente nossas trocas com a realidade em relações abstratas de fins/meios e de elaboração discursiva e imagética.

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sábado, 12 de novembro de 2011

De ilusões e de fantasias

Durante quatro anos lecionei introdução à filosofia para cursos de graduação, como jornalismo, comércio exterior, direito e outros. Na medida em que procurava explicar aos alunos a justificativa dessa disciplina na grade curricular de seu curso (não havia o curso de filosofia naquela faculdade), eu dizia, entre várias outras coisas, que um dos sentidos da atividade filosófica, de nosso esforço de ler e produzir textos filosoficamente relevantes, consistia em tomar consciência do quanto nosso olhar para as diversas faces da realidade está sob o efeito de ilusões de várias ordens. Seja através da fabricação de ideais de beleza incessantemente veiculados pelos meios de comunicação de massa, seja pela educação que privilegia o exercício e o cultivo de habilidades intelectuais em detrimento de uma formação mais ampla como cidadão, incluindo reflexões críticas acerca de nossos prazeres com a arte, com a sexualidade e com nosso engajamento nas causas sociais, seja também pelo fanatismo religioso que leva multidões de pessoas a desconsiderar a validade das dúvidas e crenças alheias, tudo isso e várias outras coisas, como a crença na superioridade de uma raça em relação à outra, dizia eu, são exemplos de formas culturalmente sedimentadas ao longo da história que nos levam a ter uma concepção da realidade que joga com a nossa percepção, nossos desejos e sentimentos, de modo a não termos o suficiente apoio, dentro daquilo que é fornecido por essas visões de mundo, para questioná-las. Levando em conta a etimologia da palavra “iludir”, que remete ao lúdico, ao fato de que, na medida em que somos iludidos, temos nosso olhar inserido em uma série de movimentos, princípios e regras cuja lógica desconhecemos. Nesse sentido, uma ilusão de ótica, tal como a que acontece quando vemos uma colher quebrada ao ser colocada em diagonal em um copo com água, mostra que nossa visão não consegue sair das leis de refração da luz, sendo sistematicamente enganada quanto àquilo que sabemos ser a realidade, a saber, que a colher não se quebra quando está posta na água.
É preciso considerar, entretanto que o conceito de ilusão é altamente relativo, em virtude do fato de que algo pode ser considerado ilusório na perspectiva de alguém, mas não o ser de outro ponto de vista. Além disso, existem ilusões inofensivas e até mesmo divertidas, como essa da refração da luz e a realizada profissionalmente pelos mágicos, quando empregam jogos de espelho, fios invisíveis e outras coisas, mas também ilusões que podem levar uma pessoa a investir muito de sua vida em projetos que não trarão um retorno que justifica tudo o que foi empenhado em sua construção, ou aquelas que alimentam o narcisismo das pessoas ao figurar a inferioridade de quem é diferente sob algum aspecto, como sua preferência sexual, condição econômica etc.
Apesar dessa relatividade do conceito de ilusão, sempre mantive a idéia de que a filosofia se dedica a desfazer ilusões em nossa relação com a realidade. Para não levar a discussão para o âmbito da problemática do relativismo desse conceito, eu gostava de dizer que uma das ilusões que a filosofia combate de forma programática é a da própria idéia de que podemos ter um conhecimento 100% verdadeiro, isento de questionamentos. Nesse sentido, eu procurava demonstrar que o conceito de que a realidade é construída socialmente, que ela é fruto de uma história do modo como as sociedades concebem o real a partir de seus conceitos, princípios, modelos e imagens, é algo necessário para romper a ilusão de que o mundo possui uma verdade única, existente para além dessa dinâmica de apropriação do real na história.
Ao longo dos vários semestres em que apresentei essa perspectiva no início das disciplinas, uma colocação aparecia em sala de aula com alguma frequência. Depois de ouvirem longamente essa crítica em relação às ilusões criadas no âmbito social, algumas alunas e alunos colocavam a seguinte observação crítica: “Mas professor! Você não acha que uma vida sem ilusões não é algo sem graça? Você não acha que as pessoas precisam de ilusão para viver a sua vida com alguma alegria? Será que uma vida totalmente sem ilusão ainda é suficientemente motivadora?!”
Seguindo a velha e boa estratégia de mostrar inicialmente a concordância com uma crítica, de modo a convidar à continuidade da discussão, eu respondia que, de fato, um modo de vida limitado às perspectivas de uma atitude absolutamente realista, que se limita a um trânsito sempre guiado apenas por um posicionamento sóbrio e equilibrado em relação ao que a vida tem de verdadeiro e importante é por demais árido, seco, inóspito. A questão reside, entretanto, em considerar o que pode ser considerado uma boa fonte de motivações para nossa existência no sentido pretendido pelas alunas e pelos alunos. Eu digo que não é propriamente a ilusão, mas sim as fantasias que cumprem este papel de forma saudável, progressista e construtiva. Embora possamos dizer que toda ilusão socialmente construída seja uma forma de fantasia, nem toda fantasia é uma ilusão, quando vivida de forma crítica, deliberada, sem que paguemos o preço de termos nossa percepção sistematicamente enganada, conduzida e manipulada, seja pelo nosso próprio raciocínio, seja por agências de instituições sociais, seja pelo nosso próprio desejo!
Exemplos de fantasias que não caiam no âmbito ilusório são difíceis de fornecer, precisamente pelo fato de que elas dependem do modo como cada pessoa se posiciona em relação a elas. Um exemplo simples de fantasia pode ser o de um jogo, em não apenas a brincadeira infantil, em que a criança finge representar certo papel, mas também o do adulto, que se coloca em um âmbito destacado da realidade em que vigoram leis, regras e recompensas arbitrárias, fictícias. Mas, como disse, tal atividade pode ser considerada ilusória quando deixa de ser apenas uma fonte de prazer que vale por si mesmo, circunscrito ao momento de diversão e de descarga de tensões emocionais durante e em função do próprio jogo, para se constituir em um objeto de uma paixão avassaladora, próximo de um fanatismo, tal como vemos na violência das torcidas organizadas no futebol, ou no vício com os jogos de azar, de um cassino, por exemplo. Como é também ilusória a fantasia que começa a substituir a realidade, de modo a valer como uma fuga, sendo índice de uma incapacidade de dialogar de forma consistente com o real.
Concordo plenamente com a idéia de que o âmbito da imaginação e de suas produções fantasísticas são algo extremamente relevante, tanto no cotidiano, com suas ironias, piadas e toques de senso de humor em geral, passando pelas fantasias sexuais, até os grandes ideais que colocamos para nós, mesmo que não se concretizem em projetos de vida específicos. Entretanto, penso que esse âmbito é tanto mais bem aproveitado, quanto melhor refletimos sobre seus limites, sua validade e mesmo sua necessidade. É uma ilusão pensar que podemos viver sem fantasias, como também o é pensar que conseguimos suportar o peso de uma verdade tão radical que fosse isenta de todo e qualquer grau de ilusão. Em vários momentos, relativos a diversos objetos ao longo da vida é impossível nos livrarmos de véus que encubram algumas verdades que não conseguimos suportar. Pensar que somos suficientemente fortes para extirpar todas as fontes de ilusão é por si uma ilusão, que a filosofia pretende desfazer também.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lula e o SUS, ou: Os (des)caminhos da virtude política

Conta-se que em uma guerra, particularmente em uma revolução, como a francesa, de 1789, quem não toma partido por um dos lados é tratado com maior ódio do que o próprio inimigo. Independente de isso ser verdade ou não para todas as situações de conflito polarizado, a idéia exprime uma ética da necessidade de mostrar seu pertencimento ao mundo conflituoso dos seres humanos, e não apenas das coisas. Em uma situação em que alternativas cruciais são colocadas para o espaço humano, a indiferença parece merecer maior punição do que o engajamento na causa contrária à nossa.
Nos últimos dias vivemos no Brasil uma situação em que, muito longe do caráter agudo de uma guerra civil ou revolução, vemos um diálogo inflamado entre pessoas recomendando ironicamente que o presidente Lula trate seu tumor na laringe pelo Serviço Único de Saúde, e outras defendendo ardorosamente a dignidade do ex-presidente, apelando para seu histórico político de um metalúrgico que chegou à presidência e que fez um governo que beneficiou milhões de brasileiros das classes sócio-econômicas menos favorecidas, como também chamando a atenção para as qualidades do próprio SUS.
A pergunta que eu gostaria de analisar a seguinte: qual a melhor maneira de ler esse movimento de “agressão simbólica” à figura de Lula?
Quero dividir essa problemática em três planos, nos quais a reação a essa campanha agressiva pode ser dividida até agora, segundo sua motivação principal (embora, claro, eles se misturem): a) ético, b) simbólico e c) cognitivo (nesse último caso, de veracidade, adequação à realidade factual do SUS).

a) A primeira e mais evidente característica do impacto que essa campanha teve em quem discorda dela é a de indignação. Mesmo quem fez e faz críticas ao governo Lula tomou-a como desrespeito a um ser humano que sofre, como índice de um destempero emocional, como uma violência típica de grandes massas enfurecidas, que deságuam seu ódio pelo sistema em uma única pessoa.
Não faltam exemplos dessa recepção em postagens nas redes sociais, blogs e colunas de jornal, como a de Gilberto Dimenstein, em que o autor diz ter sentido “um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula”, os quais ele qualifica, em grande parte, como “...o esgoto do ressentimento e da ignorância”. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, considerou tal movimento como fruto de recalque, de desequilíbrio psíquico. Hélio Gaspari iniciou sua coluna da edição de 02/11/11 de forma bastante crítica: “As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre”.
O primeiro aspecto a considerar é a da realidade sócio-cultural desse protesto. Ele é acéfalo, ou seja, sem um direcionamento dado por algum autor ou grupo específico; manifesta-se de forma pulverizada por diversos canais na Internet; não possui o menor compromisso de coesão; agrupa diversos tipos de postura, desde a mais raivosa manifestação de hostilidade, até considerações mais sensatas, que acentuam sua dimensão simbólica, retirando de cena a literalidade com que é lido, a saber, como um ataque pessoal ao “doente Lula”. Diante de uma heterogeneidade tão grande, qualquer qualificação “em bloco”, como essas três que citei, parece-me francamente inadequada. Por outro lado, eu não me proponho o exato oposto disso, isto é, uma análise descritiva dos diversos tipos de manifestação. Eu também faço uma leitura geral, mas que leva em conta a existência dessas multiplicidades, na medida em que as insiro em uma abordagem de um princípio concebido teoricamente.
Tomado em sua manifestação mais direta e também emblemática, como uma frase estampada nas redes sociais: “Eu acho que o Lula deveria se tratar no SUS”, tal protesto é inegavelmente antiético, imoral. Sem levar em conta ainda a questão da adequação factual — de se o SUS “merece” uma qualificação tão pejorativa —, eu digo, entretanto, que não se pode considerar essa dimensão ética desvinculada do significado político. Tal como diversos escritos de filosofia política exprimem, não existe recobrimento total entre esses dois planos, o que significa que o valor político de uma ação não pode ser deduzido de seu valor moral. Sem querer aprofundar nessa questão — ligada à difícil problemática de se os fins, nobres politicamente, justificam os meios, reprováveis em termos éticos —, parece claro que essa relação entre meios e fins deve ser sempre analisada caso a caso, pois em alguns deles as ações são justificadas, e em outros, não.
Diante de injustiças historicamente consolidadas, como é o caso do gritante desequilíbrio na distribuição das propriedades rurais, em que o poderio econômico e político de grandes latifundiários incrementa e perpetua uma realidade de exclusão social e econômica gravíssima, as manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra pode ser entendido como uma tentativa desesperada por ter uma voz nesse cenário. Não se trata, em última instância, de “ter razão” no valor moral conferido em cada ato de invasão de terra, nem mesmo de coerência política em termos de certo complexo de ações, mas sim da necessidade de impactar a opinião pública, mesmo que seja de forma a gerar uma opinião contrária, de modo a produzir alguma espécie de movimento nas consciências das classes médias urbanas. Seu valor político, nessa perspectiva, deve ser considerado em termos macro, a médio e longo prazo, como uma espécie “choque moral” para quem jamais pensou sobre o quão sofrida é a situação do desequilíbrio agrário.
Nesse sentido, é bastante instrutiva a colocação inicial de outra coluna de Gilberto Dimenstein, posterior às que citamos, em que ele começa dizendo: “As bobagens raivosas contra Lula, pedindo que ele se trate no SUS, conseguem até provocar um debate sério: involuntariamente ajudaram a trazer atenção a quem trata um tumor na rede pública”. As palavras “até” e “involuntariamente” mostram de forma clara a intenção do autor de desconectar o impacto político do protesto — como fomento de uma discussão sobre um problema gravíssimo — do que perfaz o sentido das formas concretas com que ele se manifesta. É como se tais manifestações pudessem ainda ser avaliadas como infantis e irracionais, tendo tão-somente uma espécie de “efeito colateral” bom. O que eu digo é que as próprias características de destempero, desequilíbrio e incorreção moral já são embebidas daquilo que aponta para o seu sentido político: mover o pensamento político, tocar a emotividade, mesmo que de forma torta, oblíqua, enviesada.
Essas considerações, entretanto, não abordam a especificidade do conteúdo desses protestos. Para fazê-lo, quero tratá-los no âmbito em que são exercidos, a saber, de uma mobilização no plano simbólico.

b) Em que pese o nítido oportunismo que algumas pessoas manifestam nesse momento para descarregar todo seu ódio contra um político historicamente situado à esquerda no espectro político (e até mesmo contra toda a classe política em geral), parece-me claro que nos momentos de maior lucidez fica clara a dimensão irônica do protesto. Nesse sentido, exprimiria, não um ataque pessoal a alguém que sofre de uma doença terrível, mas sim um descontentamento social, generalizado, com que a situação da saúde pública é tratada. Assim, não se trata de pensar que faria sentido alguém que tem muitos recursos financeiros — seja ele quem for — entrar na fila de atendimento de um posto de saúde pública para demonstrar alguma espécie de coerência política máxima — mesmo porque isso somente acrescentaria mais uma pessoa a ser tratada, tirando a vez de alguém muito necessitado. Embora eu creia haver certa quantidade de pessoas que, de dentro dessas manifestações, não se apercebam dessa dimensão estritamente irônica, não literal, do protesto, penso ser ele legível com alguma facilidade, desde que se tenha alguma sobriedade para falar sobre esse assunto.
Deste modo, tais manifestações operam um deslocamento simbólico e irônico, tomando a figura de Lula como emblemática daquilo que se quer combater. A pergunta é: por que especificamente Lula, e por que especificamente com essa forma de agressividade?
Boa parte do capital político de Lula vem, não de propostas políticas concebidas de forma original e implementadas segundo uma lógica própria (o que não significa dizer que elas não tenham existido), mas sim do poder de seu discurso, do modo como foi capaz de seduzir a sua audiência, desde os metalúrgicos do ABC paulista até os eleitores do Brasil inteiro em sua eleição à presidência (o que também não significa afirmar que isso se deu como mera retórica). Porém, no seio do brilho da oratória, tal como ele mesmo assumiu depois de eleito presidente pela primeira vez, o PT falou muita bravata nas críticas aos governos anteriores, ou seja, usou de argumentos retóricos sem consistência, sem fundamento na realidade política.
Pode-se contabilizar como uma delas o que ele disse quando era candidato à eleição presidencial de 1998: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar”. Muito tempo depois, tal como relata Hélio Gaspari na coluna que referimos acima, em 2006, disse que “o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde” e “em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que ‘ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido’. Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado”.
Por outro lado, não lhe falta demonstração de senso de realidade, pois em 2009 disse ter vivido os dois lados da situação do tratamento de saúde: o das longas filas de espera dos hospitais públicos e o do tratamento VIP como presidente da república. Nesse mesmo discurso, ao dizer que até mesmo nos EUA havia um problema sério de saúde pública com o qual Barack Obama se debatia, disse que esse sistema de atendimento universalizado brasileiro poderia ser usado como modelo por aquele país.
Nesse âmbito da articulação do discurso, em que se mesclam frases de efeito, apelos à realidade em seu aspecto mais doloroso, imagens ao mesmo tempo verídicas e por vezes enganosas quanto a seu significado etc., a corrupção tem um peso bastante acentuado, uma vez que, no imaginário popular, vigora a ideia de que “muito dinheiro que tinha que ir para a saúde e a educação acaba enriquecendo políticos corruptos”. Pode-se ler com facilidade em várias matérias jornalísticas afirmações no sentido de que o governo da presidente Dilma é menos conivente com a corrupção do que o de Lula. Independente de isso ser verdade ou não, para mim pesa bastante o fato de que um filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, dono de uma empresa de informática, Gamecorp, recebeu comprovadamente milhões de reais como investimento em seu empreendimento por parte da empresa de telecomunicação Oi/Telemar. Depois de várias semanas em silêncio sobre o caso, Lula respondeu com mais uma de suas metáforas ligadas ao futebol, dizendo que esse investimento milionário conseguido por seu filho vem de seu talento, como se ele fosse um Ronaldo em sua área de atuação (embora sua formação acadêmica não tenha nada a ver com informática). Extrema coincidência ou não, algum tempo depois uma das leis relativas ao âmbito empresarial das telecomunicações teve um de seus itens deliberadamente alterado para viabilizar os planos da Oi/Telemar em adquirir uma outra companhia, a Brasil Telecom.
Esse episódio me parece suficientemente carregado simbolicamente, devido ao fato de que não atinge apenas um “companheiro de partido”, mas alguém dentro do próprio seio familiar. Considerando que o problema da saúde tem um forte vínculo com este núcleo, haja vista a imagem do médico de família, como também o drama de um filho para tratar seus pais idosos, e às vezes simultaneamente de seus filhos pequenos, temos aí algo explosivamente forte em termos de ressonância no imaginário de milhões de pessoas.

c) Por fim, temos a questão do teor de verdade dessas manifestações que usam o SUS como exemplo de descaso, de ineficiência e de má administração. Temos relatos comoventes, como o de Nina Crintz, que testemunha aspectos altamente significativos e louváveis nesse sistema de saúde que tem um programa deveras modelar de distribuição de medicamentos caros e extremamente necessários para o tratamento de doenças gravíssimas. Nesse quesito, temos o reluzente caso da assistência aos portadores do vírus HIV, em que o Brasil tornou-se uma referência mundial.
De fato, a familiaridade com esses aspectos do SUS joga por terra uma análise simplista, homogênea, do sistema como um todo como sendo fraco, ruim, inoperante. Por outro lado, creio que o que está em jogo é a outra parte da atuação desse sistema, expresso em um dos discursos do próprio Lula que citamos acima, que são as longas filas de espera para atendimento médico, diagnóstico clínico e intervenções cirúrgicas. Todo mundo sabe muito bem que até mesmo em alguns planos de saúde mais baratos esse quesito pode deixar muita despejar. Eu próprio adquiri um deles, e depois de pagar duas mensalidades, liguei para a central de marcação de consultas e requisitei um exame com um dermatologista, sem especificar nomes. A resposta que obtive é que a data disponível mais próxima era para depois de dois meses e meio. A primeira coisa que fiz foi cancelar esse plano e comprar um outro, de que já havia usufruído quando trabalhei em uma empresa, e cujo atendimento nunca havia sido deficiente nesse aspecto.
Mais uma vez focando na dimensão familiar, é muito evidente que pais com filhos pequenos, cuja propensão a doenças é grande, como também é o caso de idosos, podem chegar a uma situação desesperadora se somente podem contar com o atendimento no SUS. Para além da necessidade de invocar o realismo político de uma avaliação justa do quanto o governo Lula melhorou ou não essa face do serviço público de saúde, o fato é que a população enxerga, vive e sofre com, a situação tal como ela existe de fato. Voltando ao primeiro item de nossa argumentação, igualmente para além da correção moral desses protestos — que também são criticados por serem feitos apenas “atrás de computador”, com o mero compartilhamento de uma imagem ou postagem de frases soltas —, temos uma forma errática, confusa e atabalhoada de colocar um problema crucial na pauta do dia. Em relação ao segundo aspecto, digo que o mesmo movimento de densidade simbólica que elegeu Lula tornou-o alvo da insatisfação com a saúde pública. De forma análoga a como se diz no futebol: “jogar com o coração na ponta da chuteira”, pode-se dizer que milhões de brasileiros votaram em Lula com o coração na ponta do dedo, e agora algo desse investimento afetivo parece nutrir muito de ambas as partes nesse embate político.
No que tange ao protesto, essa emotividade é um dos lados de seu teor irracional, de ruptura dos padrões de correção moral e política. Usando uma expressão afim ao pensamento de Theodor Adorno, eu diria que tal irracionalidade é um reflexo distorcido da irracionalidade do próprio sistema econômico, social e político. Sua impotência e efemeridade, todavia, provavelmente serão proporcionais ao infantilismo que seus críticos apontam com veemência. — Para saber disso, entretanto, precisamos de um pouco mais de História, a qual, entretanto, não anda de mãos dadas com a Razão. Assim, retomando o contexto bélico do início do texto: "War doesn't show you who is right; only who is left". 

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