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sábado, 26 de novembro de 2011

Cultura e perversão

Quero hoje comentar uma reportagem de um canal de televisão, da qual se fez um vídeo que mostra duas partes da matéria, em que um rapaz é entrevistado por uma repórter enquanto bebia cerveja em um bar. Caso não tenha visto, clique na imagem abaixo.


A atitude deste rapaz pode ser analisada em diversos aspectos, considerando planos diferentes em termos de sua significação, dos quais me parecem mais evidentes o âmbito jurídico, relacionado à pertinência da lei contra algum teor alcoólico no sangue em motoristas, bem como a capacidade do Estado em fazê-la operante e eficaz; o âmbito moral, que por sua vez se divide na consideração sobre a coragem e a frieza de assumir o que se faz e pensa, e sobre o desprezo pelo valor da vida do outro; e o plano psicanalítico, em que se questionam os fundamentos psíquicos, inconscientes, de tal atitude. Quero aqui tratar apenas desses dois últimos aspectos, pois a questão da pertinência da lei é um assunto que demanda considerações específicas, que pretendo abordar em outra oportunidade.
“Não existem fenômenos morais, mas sim interpretação moral de fenômenos”, disse Nietzsche. De fato, o teor moral das ações se fundamenta nos planos que usamos para valorizar positiva- ou negativamente as escolhas que subjazem a cada atitude. Considero a moralidade essencialmente ligada a um processo construtivo da cultura, de tal forma que a recaída na barbárie, na violência e no desrespeito ao outro não somente é sua sombra inalienável, como também se nutre da mesma energia desiderativa (= de desejo). Somente existem valores consagrados como sublimes, nobres e progressistas devido ao fato de que a eles se contrapõem fantasias, desejos e impulsos radicalmente contrários, não apenas relegados a um passado distante, que se supõe superado nas sociedades ocidentais ditas democráticas, mas sim existentes em cada momento da construção social. Na medida em que a rede de valores éticos que une os diversos planos de interação social sempre envolve a pessoa do outro, com seu desejo, sua integridade física, emocional, de posses etc., diversos tipos de demanda podem ser colocados para que a convivência seja não apenas possível, mas minimamente satisfatória. O grande problema reside no modo como estamos dispostos a negociar o que tomamos como um dever do outro perante nós e o que consideramos sua realidade emocional, que compele à escolha de determinados valores em relação aos quais, creio eu, devemos não ter uma avaliação moral por demais apressada.
Embora eu discorde de vários fundamentos das colocações nietzscheanas acerca da moral, considero bastante significativa sua crítica a uma leitura moral da realidade. Em relação especificamente ao que estamos tratando aqui, tomo essa ideia como nos capacitando a pensar que, no plano propriamente moral, as pessoas têm o direito de serem más, ao mesmo tempo em que nos damos também ao direito de querer saber dessas suas escolhas. Há vários tipos de comprometimento possível entre os indivíduos, que não se resumem em hipótese alguma apenas ao compartilhamento de determinado tipo de valor, como o de atenção à vida, respeito ao sentimento do outro etc. Nesse sentido, a atitude do rapaz no vídeo se conforma, em certa medida, a uma expectativa social de franqueza, de assunção de determinados valores. Ele deu às pessoas que não compartilham de seus critérios de moralidade a oportunidade de rejeitá-lo com mais conhecimento de causa do que normalmente se pode fazê-lo. Obviamente, pode-se pensar a sua contraparte, no sentido de que ele faz propaganda de si como bad boy, como aquele que seduz pelo mau caráter, mas é precisamente este jogo de sedução e a possibilidade de rejeição que está em jogo no processo de constituição da cultura como fundado nas escolhas dos seres humanos.
O que é realmente “precioso” em nossa espécie não é o fato de sermos bons, mas sim de, em cada momento, nos vermos engajados no processo de construirmos não só a nós mesmos, mas também o horizonte mais amplo da família, da comunidade, da cidade, do país e do planeta, como fruto de nossas escolhas. O gozo com o mal não é simplesmente um tumor canceroso da civilização que deva ser extirpado de modo a assegurar a saúde da humanidade. Tal como disse Freud em mais de uma oportunidade, as mais sublimes realizações da cultura e seus feitos mais abjetos, vis e repugnantes provêm do mesmo núcleo da subjetividade humana.
Na literatura sociológica contemporânea, usa-se bastante o conceito de papéis sociais. Theodor Adorno interpreta de forma crítica e, do meu ponto de vista, pejorativa essa idéia, de modo a dizer que, em uma sociedade egocêntrica e capitalista como a da Europa e das Américas, papel social significa que as pessoas nunca são elas mesmas, que devem sempre se adequar a um determinado padrão de comportamento imposto socialmente. Penso que os papéis sociais que desempenhamos são expressão de que, afinal, não nos situamos, por nós mesmos, em um plano de representação que garanta nossa identidade. Assim, a pergunta que lançamos aos outros: “Quem é você? O que você quer?”, ou, dito de forma popular: “Qual é a sua?”, estabelece um compromisso em que damos ao outro o direito de coexistir em um determinado plano de agrupamento social, mesmo que seus valores sejam radicalmente distintos dos nossos. Que haja pessoas, como este rapaz, que desprezam a vida do outro, é algo que sempre existirá em nosso meio. Um dos grandes problemas em relação a isso consiste no fato de que normalmente não sabemos quem adere esse tipo de opção em diversos contextos, pois não o faz com esse grau de transparência.
Ilustro essa perspectiva com um caso. Estava eu sentado em uma lanchonete, quando comecei a prestar atenção à conversa de quatro garotas que estavam em uma mesa próxima à minha. Falavam sobre relacionamentos afetivos, e em certo momento uma delas defendeu o rapaz com quem estava se encontrando, dizendo que ele não escondia que suas intenções eram tão-somente de cunho sexual, que não dissimulava uma intenção afetiva ou de compromisso para além desses encontros. A fala dela continuou no sentido de que ele não enganava ninguém que se relacionava com ele, de modo que quem estivesse disposta a esse tipo de relacionamento, que o procurasse, que ficasse com ele, ou, caso contrário, não insistisse, ou ainda, se tivesse o propósito de conquistar seu afeto, corresse o risco por conta própria.
Não estou querendo dizer que se deva olhar com uma neutralidade objetiva a manifestação de sarcasmo, cinismo e desprezo perante a vida do outro, tal como no vídeo, mas sim que seria realmente muito bom se soubéssemos com mais transparência qual é o nível de civilização que alcançamos, de progresso em termos de construção cultural que nos distancia da barbárie. Além disso, manifestações extremas costumam ser bastante úteis para pôr a nu os diversos níveis de hipocrisia que temos em relação a algumas de nossas atitudes, que se pautam em certa medida por princípios bastante semelhantes.
Mas não nos deixemos enganar. A observação periférica que fiz acima de que a fala desse rapaz poderia incluir a propaganda de si mesmo como bad boy me parece importante como análise do significado de toda sua atitude. Podemos percorrer a seguinte linha: sinceridade, franqueza, falta de vergonha, cinismo, frieza, sarcasmo, perversão, perversidade. Como ingredientes para cada um desses aspectos, que me parecem presentes em alguma medida ao longo de todo vídeo, temos doses de ironia e narcisismo, com a relativa produção do olhar do outro e de afirmação da própria imagem perante si mesmo. Apesar da dissimulação irônica e de produção da imagem de bad boy, é evidente o conteúdo de perversão, no sentido psicanalítico de regressão a formas de desejo em relação ao outro que parecem desconsiderar, afrontar e deslegitimar leis e valores sociais.
O conceito de perversão é muito complexo, envolvendo diversos temas e hipóteses teóricas que não temos minimamente condição de abordar em profundidade nesse pequemo espaço. Gostaria apenas de falar de um de seus aspectos que sempre me chamaram a atenção quando me deparo com alguns comentários sobre perversões, particularmente quando envolvem ações más. (Há que se considerar que perversão não deve ser confundida com perversidade, uma vez que, por exemplo, comportamentos masoquistas de auto-flagelo também configuram formas de perversão.) Tenho em mente a idéia bastante usual de que este rapaz (como o perverso em geral) não se coloca no lugar do outro, que ele desconsidera totalmente a possibilidade de ele mesmo ou um membro de sua família ser alvo de um acidente ocasionado por um motorista embriagado. É como se o outro fosse totalmente anulado por uma posição absolutamente egoísta. — Da perspectiva psicanalítica que adoto, isto é um equívoco.
A frieza com que o valor da vida alheia é reduzido tão-somente à necessidade de pagamento de uma fiança apenas dissimula um plano de dramaticidade mais profundo, em que o desejo e a posição do outro estão implicados neste palco, nesta cena, em que diversas pessoas, personagens e espectadores convergem segundo uma lógica movida por um desejo inconsciente. A indiferença e o sangue-frio são apenas a superfície, como que o resultado de um processo conflitivo, em que se tenta digerir, metabolizar, o quanto a posição de aviltamento do outro é vivida como ingrediente necessário para a expressão desse desejo pervertido. Quanto maior a frieza, digo eu, mais ela pode ser tomada como índice de precariedade no modo como processos de identificação com a posição do outro estão nuclearmente situados na motivação da atitude perversa.
Em um outro vídeo, que mostra a segunda parte da matéria jornalística em mais detalhes, vemos que esse mesmo rapaz amarrou-se, junto com um colega, ao teto de um carro usando fita crepe. Está claro que esta situação não configura uma exposição acentuada a um perigo de morte, mas ela é bastante interessante como um indicativo do quanto a proximidade com o perigo é estimulante para este rapaz.
Minha intenção não é a de dizer que “o que o perverso quer”, ao desprezar a vida do outro, é ter sua vida desprezada, como se o desejo de morte do outro significasse o desejo de sua própria morte. O que digo é que essa posição de morte, de ser agredido, ser violentado, do outro é um ingrediente necessariamente implicado na lógica do desejo perverso. Colocações como essa: “O que ele quer é...”, não podem ser respondidas nesse regime de uma frase com um objeto direto. O que se deseja está sempre mesclado ao não-desejar, de modo que o “o que” envolve formas e meios de negação, tal como desvios, dissimulação, inversões etc., de forma que o que deveria dar lugar ao como do desejo. Só que esse como somente é passível de leitura através da escuta psicanalítica na relação entre analisando e analista, de modo a se descortinar uma lógica individual, singular, de tessitura das linhas de força que fazem convergir tanto o desejo quanto suas infinitas formas de negação.
No plano teórico, geral, o que podemos dizer é que a idéia de que o ser humano é um ser social significa mais do que o fato de que ele se forma na relação com o outro; indica o quanto as raízes mais profundas de todos os nossos desejos contêm o desejo e a posição do outro como um de seus ingredientes, cuja heterogeneidade e densidade impedem sua dissolução em um âmbito puramente egoísta. Toda a encenação possível de momentos em que realiza um desejo sempre precisará do caráter estrangeiro do desejo e da posição do outro, de tal modo a culminar no paroxismo de que o que enceno como realização do meu desejo tem seu sentido como realização do desejo do outro, que passo a tomar como se fosse o meu. É nessa cumplicidade entre um egoísmo cego em relação à dependência perante o desejo e a posição do outro, que se pode tomar a frieza, às vezes cadavérica, na lida com a vida alheia como a face visível da incapacidade de se reconhecer no e como outro em nosso desejo.


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