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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Da concretude do prazer

Quem convive comigo durante algum tempo acaba percebendo rapidamente a importância um tanto surpreendente que dou ao prazer de uma comida saborosa. Costumo dizer que quando experimento algo realmente muito gostoso no almoço, por exemplo, meu humor se altera pelo resto do dia. Por vezes dou a impressão de que estou sob um impacto afetivo desproporcional àquilo que uma simples comida, ou um doce, ou um café poderiam fornecer. Creio que pareço exagerar e, assim, corro o risco de ser visto como alguém que quer chamar a atenção, ou tem uma atitude afetada, passional. Por isso, muitas vezes suavizo a demonstração de que um determinado sabor é especialmente sublime para mim. Esse relato, por sua vez, pode soar por demais personalista, em contraste com o tom mais "objetivo" dos textos do blog, mas isso se justifica pela própria temática dessa postagem.
Gostaria, aqui, de refletir um pouco sobre a significação do prazer sensível, do contato corporal com o mundo, especialmente na contemporaneidade, dando continuidade ao que falei em outros textos nesse blog: Uma vida abstrata e O lugar o prazer no cotidiano.
Uma das características dos modos de vida hegemônicos nas sociedades européias e das Américas que se tornaram mais visíveis ao longo do desdobramento do capitalismo é a idéia de meio-termo, de sobriedade, de certa mediania, tal como podemos ver já em Aristóteles. Para este filósofo, tanto o excesso quanto a falta caracterizam uma atitude inadequada, viciosa, afastando-se da virtude, situada em meio-termo entre esses dois extremos. Seu exemplo preferido é o da coragem, que demonstra uma justa medida entre o medo do perigo e a confiança em si mesmo, pois quem teme demais uma adversidade é medroso, ao passo de quem não tem receio algum do perigo é um temerário, arriscando-se de forma desmesurada, inconseqüente.
Theodor Adorno ligava essa idéia a seu conceito de frieza burguesa, que caracteriza a postura típica do indivíduo submetido às exigências de uma sociedade concorrencial, em que a sobriedade nas ações, o controle e domesticação dos afetos, o cálculo adequado da expressão de nossos estados subjetivos etc., contam favoravelmente na tarefa de se adequar às leis que regulam o mercado de trabalho e de geração de riqueza em geral.
Concomitante a este processo de conformação dos excessos ao modelo calculado de adaptação bem-sucedida aos mecanismos de atuação social, temos um empobrecimento do modo como nos relacionamos de forma mais imediata, direta, com os objetos que nos prometem alguma satisfação, prazer e contentamento. Essa crescente racionalização nos processos de intercâmbio social e de leitura de mundo torna cada vez mais difícil perceber a intensidade de vínculos sensíveis mais concretos com as coisas. Estas parecem submergir tendencialmente seu sentido ao nosso senso de utilidade, de modo a serem percebidas apenas como meio, instrumento, para alcançar uma outra coisa. O valor que elas poderiam ter em si mesmas, consumido no instante em que nos relacionamos com elas, tende a se tornar irrelevante.
Por outro lado, assistimos a uma acentuada transposição do âmbito concreto para o de uma elaboração discursiva e imagética na insistência publicitária em experimentar novas sensações, sabores e experiências. A concretude da experiência dá lugar a uma espécie de experimentalismo, de cultivo da imagem de si mesmo como escapando à monotonia das sensações cotidianas. Como nos diz Jean Baudrillard, a realidade como tal fica aprisionada em sua duplicação em imagens e signos, fazendo com que nos distanciemos dela. O prazer sensível é evocado com toda a força na campanha publicitária, mas, de forma surpreendente, é substituído pela satisfação de realizar o que a imagem promete.
Vemos esse mesmo processo de falsificação do real no modo como os turistas tendem a se apropriar da natureza como meio de esquecimento do stress do cotidiano das grandes cidades, ou seja, como relaxamento e processo de revigorização, deixando de lado a dimensão qualitativa de percepção das coisas em sua concretude. Além disso, muito da beleza natural se submete à ânsia de documentação fotográfica com fins de compartilhamento social das experiências.
Enfim, muito se poderia dizer de estratégias de negação, desvio, esquecimento e dissimulação dessa dimensão corporal do nosso contato com a realidade. Difícil é, entretanto, falar de forma direta dela, em virtude do fato de que seu sentido consiste precisamente no instante em que é percebida e na singularidade do contato do corpo com os objetos e pessoas. Resta tão-somente o convite a que prestemos atenção e nos exercitemos em perceber o quanto o universo sensório, perceptivo, é, não apenas fonte de um prazer cuja magnitude tendemos a não avaliar com a devida acuidade, quanto um índice de que não inserimos completamente nossas trocas com a realidade em relações abstratas de fins/meios e de elaboração discursiva e imagética.

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