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sábado, 12 de novembro de 2011

De ilusões e de fantasias

Durante quatro anos lecionei introdução à filosofia para cursos de graduação, como jornalismo, comércio exterior, direito e outros. Na medida em que procurava explicar aos alunos a justificativa dessa disciplina na grade curricular de seu curso (não havia o curso de filosofia naquela faculdade), eu dizia, entre várias outras coisas, que um dos sentidos da atividade filosófica, de nosso esforço de ler e produzir textos filosoficamente relevantes, consistia em tomar consciência do quanto nosso olhar para as diversas faces da realidade está sob o efeito de ilusões de várias ordens. Seja através da fabricação de ideais de beleza incessantemente veiculados pelos meios de comunicação de massa, seja pela educação que privilegia o exercício e o cultivo de habilidades intelectuais em detrimento de uma formação mais ampla como cidadão, incluindo reflexões críticas acerca de nossos prazeres com a arte, com a sexualidade e com nosso engajamento nas causas sociais, seja também pelo fanatismo religioso que leva multidões de pessoas a desconsiderar a validade das dúvidas e crenças alheias, tudo isso e várias outras coisas, como a crença na superioridade de uma raça em relação à outra, dizia eu, são exemplos de formas culturalmente sedimentadas ao longo da história que nos levam a ter uma concepção da realidade que joga com a nossa percepção, nossos desejos e sentimentos, de modo a não termos o suficiente apoio, dentro daquilo que é fornecido por essas visões de mundo, para questioná-las. Levando em conta a etimologia da palavra “iludir”, que remete ao lúdico, ao fato de que, na medida em que somos iludidos, temos nosso olhar inserido em uma série de movimentos, princípios e regras cuja lógica desconhecemos. Nesse sentido, uma ilusão de ótica, tal como a que acontece quando vemos uma colher quebrada ao ser colocada em diagonal em um copo com água, mostra que nossa visão não consegue sair das leis de refração da luz, sendo sistematicamente enganada quanto àquilo que sabemos ser a realidade, a saber, que a colher não se quebra quando está posta na água.
É preciso considerar, entretanto que o conceito de ilusão é altamente relativo, em virtude do fato de que algo pode ser considerado ilusório na perspectiva de alguém, mas não o ser de outro ponto de vista. Além disso, existem ilusões inofensivas e até mesmo divertidas, como essa da refração da luz e a realizada profissionalmente pelos mágicos, quando empregam jogos de espelho, fios invisíveis e outras coisas, mas também ilusões que podem levar uma pessoa a investir muito de sua vida em projetos que não trarão um retorno que justifica tudo o que foi empenhado em sua construção, ou aquelas que alimentam o narcisismo das pessoas ao figurar a inferioridade de quem é diferente sob algum aspecto, como sua preferência sexual, condição econômica etc.
Apesar dessa relatividade do conceito de ilusão, sempre mantive a idéia de que a filosofia se dedica a desfazer ilusões em nossa relação com a realidade. Para não levar a discussão para o âmbito da problemática do relativismo desse conceito, eu gostava de dizer que uma das ilusões que a filosofia combate de forma programática é a da própria idéia de que podemos ter um conhecimento 100% verdadeiro, isento de questionamentos. Nesse sentido, eu procurava demonstrar que o conceito de que a realidade é construída socialmente, que ela é fruto de uma história do modo como as sociedades concebem o real a partir de seus conceitos, princípios, modelos e imagens, é algo necessário para romper a ilusão de que o mundo possui uma verdade única, existente para além dessa dinâmica de apropriação do real na história.
Ao longo dos vários semestres em que apresentei essa perspectiva no início das disciplinas, uma colocação aparecia em sala de aula com alguma frequência. Depois de ouvirem longamente essa crítica em relação às ilusões criadas no âmbito social, algumas alunas e alunos colocavam a seguinte observação crítica: “Mas professor! Você não acha que uma vida sem ilusões não é algo sem graça? Você não acha que as pessoas precisam de ilusão para viver a sua vida com alguma alegria? Será que uma vida totalmente sem ilusão ainda é suficientemente motivadora?!”
Seguindo a velha e boa estratégia de mostrar inicialmente a concordância com uma crítica, de modo a convidar à continuidade da discussão, eu respondia que, de fato, um modo de vida limitado às perspectivas de uma atitude absolutamente realista, que se limita a um trânsito sempre guiado apenas por um posicionamento sóbrio e equilibrado em relação ao que a vida tem de verdadeiro e importante é por demais árido, seco, inóspito. A questão reside, entretanto, em considerar o que pode ser considerado uma boa fonte de motivações para nossa existência no sentido pretendido pelas alunas e pelos alunos. Eu digo que não é propriamente a ilusão, mas sim as fantasias que cumprem este papel de forma saudável, progressista e construtiva. Embora possamos dizer que toda ilusão socialmente construída seja uma forma de fantasia, nem toda fantasia é uma ilusão, quando vivida de forma crítica, deliberada, sem que paguemos o preço de termos nossa percepção sistematicamente enganada, conduzida e manipulada, seja pelo nosso próprio raciocínio, seja por agências de instituições sociais, seja pelo nosso próprio desejo!
Exemplos de fantasias que não caiam no âmbito ilusório são difíceis de fornecer, precisamente pelo fato de que elas dependem do modo como cada pessoa se posiciona em relação a elas. Um exemplo simples de fantasia pode ser o de um jogo, em não apenas a brincadeira infantil, em que a criança finge representar certo papel, mas também o do adulto, que se coloca em um âmbito destacado da realidade em que vigoram leis, regras e recompensas arbitrárias, fictícias. Mas, como disse, tal atividade pode ser considerada ilusória quando deixa de ser apenas uma fonte de prazer que vale por si mesmo, circunscrito ao momento de diversão e de descarga de tensões emocionais durante e em função do próprio jogo, para se constituir em um objeto de uma paixão avassaladora, próximo de um fanatismo, tal como vemos na violência das torcidas organizadas no futebol, ou no vício com os jogos de azar, de um cassino, por exemplo. Como é também ilusória a fantasia que começa a substituir a realidade, de modo a valer como uma fuga, sendo índice de uma incapacidade de dialogar de forma consistente com o real.
Concordo plenamente com a idéia de que o âmbito da imaginação e de suas produções fantasísticas são algo extremamente relevante, tanto no cotidiano, com suas ironias, piadas e toques de senso de humor em geral, passando pelas fantasias sexuais, até os grandes ideais que colocamos para nós, mesmo que não se concretizem em projetos de vida específicos. Entretanto, penso que esse âmbito é tanto mais bem aproveitado, quanto melhor refletimos sobre seus limites, sua validade e mesmo sua necessidade. É uma ilusão pensar que podemos viver sem fantasias, como também o é pensar que conseguimos suportar o peso de uma verdade tão radical que fosse isenta de todo e qualquer grau de ilusão. Em vários momentos, relativos a diversos objetos ao longo da vida é impossível nos livrarmos de véus que encubram algumas verdades que não conseguimos suportar. Pensar que somos suficientemente fortes para extirpar todas as fontes de ilusão é por si uma ilusão, que a filosofia pretende desfazer também.

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