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sábado, 10 de dezembro de 2011

Dialética da masculinidade

As várias manifestações a favor da diversidade sexual, com a presença de milhares e até milhões de pessoas nas paradas do orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), indicam não apenas a necessidade de respeito àqueles que têm opções sexuais diferentes da relação heterossexual, como também a exigência de conceber tais atitudes como uma forma de sexualidade por si mesma, e não apenas como desvios, aberrações e divergências em relação à ligação entre homem e mulher. Por outro lado, já do ponto de vista das primeiras formulações freudianas acerca da sexualidade humana, esta foi considerada como essencialmente pervertida, em virtude do fato de que é praticada tendo em vista a obtenção do prazer, e não segundo uma orientação instintiva ligada à reprodução. De forma concisa: no ser humano, a reprodução é sexuada, mas a sexualidade não é reprodutiva. Considerando o papel que a multiplicidade de fantasias cumpre na obtenção de prazer, conclui-se que mesmo a relação heterossexual é movida por princípios e formas de estruturação in- e conscientemente pervertidas.
Por outro lado, os princípios masculino e feminino, tal como percebo a partir dos desdobramentos da leitura de Jean Laplanche da obra de Freud, são pólos estruturantes de toda opção sexual, mesmo daquelas que parecem distantes do equacionamento homem-mulher, como é o caso de uma opção homossexual feminina em que não haja um papel nítido de masculinidade por parte de nenhuma das parceiras. Pretendo desenvolver essa idéia em outras postagens, dada sua complexidade. Quero hoje falar da masculinidade tal como ela se consubstancia na posição heterossexual do homem. Creio que, ao falar dessa posição específica, abordo ao mesmo tempo elementos mais gerais da masculinidade que perpassam todas as formas de subjetivação, fundadas em ímpetos sexuais inconscientes.

Para o homem, gostar de mulher e gostar de transar com mulher são coisas que não necessariamente se recobrem. No primeiro caso, está em jogo um modo de prazer com a feminilidade que envolve certa forma de participação no universo feminino, que não é imediatamente homogênea à perspectiva tipicamente masculina tal como as sociedades ocidentais cultivam. Trata-se de formas de identificação mediadas pela consciência da diferença, que demandam elaboração subjetiva de modo a constituir uma identidade pessoal fundada na mobilidade do sexual. Esta última, por outro lado, é percebida facilmente como escapando a determinadas estratégias mais solidificadas de compreensão de si.
Em contraste com isso, gostar de sexo com mulher é algo que pode conviver com misoginia (ódio, aversão, à mulher), em diferentes graus e formas. O prazer na prática sexual, em sua face mais visível, transparente a um processo de reflexividade elementar, pode ser obtido (sem que aqui questionemos o quanto sua satisfação é consistente) ao perseguir a linha da descarga de tensão, do alívio gerado pelo quanto a pressão proveniente do desejo, com suas diversas formas de estímulo, é reduzida, aplacada. Nesse momento, a ligação íntima com o objeto de desejo pode ser esvaziada, fazendo com que um grau considerável de misoginia fique submerso, e portanto irreconhecível, na urgência transbordante de satisfação. Uma vez que a pressão do desejo é diminuída, então a dimensão qualitativa de seu objeto pode se fazer ouvir de forma clara.
Embora as leituras filosóficas, econômicas e sociológicas do ser humano a partir do conceito de necessidade sejam altamente problemáticas, se a tomamos como um aspecto superficial do desejo em termos de demanda por sua satisfação, então podemos entender o argumento do parágrafo anterior a partir da clássica relação entre necessidade e liberdade. Segundo esse princípio, quanto maior a necessidade, menor a liberdade. Isso recebe diversas aplicações, como no Direito, em que um crime cometido sob a urgência da obtenção de alimento terá sua punição bastante reduzida ou até anulada, como vemos na figura jurídica do furto famélico, praticado em condições de fome e privação radicais. No âmbito do prazer, quanto maior é a necessidade, menos “liberdade” se tem para apreciar o que o objeto nos oferece como uma forma de satisfação própria, sui generis, peculiar à sua determinação qualitativa. Todos sabem que quanto maior é a fome, menos se percebe o quanto determinado alimento é realmente saboroso.
Voltando ao prazer sexual, essa relação entre necessidade e liberdade para com a especificidade do objeto pode ser vista em diversas formas de piadas, anedotas e ironias, em que o homem sente um forte desejo de “se livrar” da mulher após o orgasmo. A partir do que falamos acima, é mais do que evidente que esse sentimento de verdadeira repulsa em alguns casos só não se manifestava em virtude da pressão do desejo. É preciso investigar em que consiste esta ambigüidade do desejo masculino pela mulher. — Como é um assunto por demais complexo, é evidente que somente poderemos falar de alguns de seus aspectos.

A posição masculina não apenas se define por oposição à feminina, como também tem muito de seu sentido em produzir a realidade da própria condição feminina. A penetração sexual contém uma carga simbólica de ruptura, de anulação da inteireza da superfície do corpo do outro, de tal modo a colocar em jogo a questão da violência como constituinte fundamental da sexualidade. Desde a percepção do quanto o próprio desejo é violento, posto que arrebata e constrange a níveis de insatisfação por vezes difíceis de manter em equilíbrio, até a prática de violência física contra a mulher no estupro, temos diversas formas em que a transgressão de limites, de interdições e de planos de diferenças é compreendida a partir de uma força que sobrepuja e tende a negar alguma alteridade (note-se que “violência” deriva de vis, força). Considerando a cena em que o homem e mulher são ingredientes necessários para a constituição do sentido da totalidade fantasística da ação, dizemos que o ser-feminino é um modo de transgressão nuclear, íntimo, para a identidade masculina, que virtualmente se auto-anula no modo como afirma sua polaridade feminina como existente pelo fato de ser produzida por um ato de violência simbólica.
A virilidade masculina consistente é uma conquista, produto do modo como o homem goza com a posição feminina distanciado dela, mas ao mesmo tempo se definindo por sua participação nesse mesmo universo. Nas transposições entre identidade e diferença que isso requer, impera a tensão entre o parcial, o fragmento, o localizado, e o total, abrangente, completo. Não é por participar da constelação desiderativa do universo feminino, que se deva assimilar um complexo de determinação pessoal mais abrangente. É preciso deixar que a mescla do que é outro, feminino, em relação à identidade masculina, se faça sem que isso comprometa a própria identidade como fundada na negação da diferença.
Parece-me que é isso que está em jogo em uma frase altamente paradoxal de Freud: “O homem deve superar o respeito pela mulher”. Interpreto essa afirmação no sentido de que é necessário saber negar a face de integridade pessoal feminina em um movimento de articulação de fantasias em que imperam elementos de violência simbólica significativos. Trata-se de um distanciamento perante um complexo de identificação com a totalidade da pessoa da mulher, sem, entretanto, que isso comprometa o sentido de toda a interação sexual, fundado em modos de compartilhamento de um mesmo espaço fantasístico. Essa distância é fundamental para que o processo de integração identificatória seja realizado a contento. O gozo da distância para com a mulher é condição imprescindível ao sucesso em deixá-la fazer-se em sua diferença.
Não é difícil ver que delineamos aqui uma exigência de equilíbrio entre identidade e diferença, aproximação e distanciamento, afirmação e negação. É preciso ver, entretanto, que se trata de um equilíbrio altamente instável. De acordo com a Física, um equilíbrio é estável quando sua ruptura coloca em jogo forças que tendem a restabelecê-lo, como é o caso de uma pedra amarrada em um barbante que está em repouso na parte mais baixa, pois quando ela é deslocada, a gravidade tende a trazê-la de volta para o estado de repouso. Outro é o caso de um esfera pequena situada no topo de uma esfera maior, pois embora aquela esteja em equilíbrio, qualquer movimento faz com que a gravidade a impulsione cada vez mais distante de sua posição inicial. Para restaurar o equilíbrio, nesse caso, é necessário exercer uma força contrária, que não apenas pode aproximar do estado inicial, como também fazer com que ele seja ultrapassado e caminhe no sentido oposto. Assim, de forma análoga, o equilíbrio entre as posições masculina e feminina no complexo geral do desejo é marcado por uma instabilidade dinâmica, em virtude do fato de mobilizar investimentos afetivos que, ao se esforçarem por um equilíbrio, podem facilmente produzir um desequilíbrio no sentido oposto.
Naturalmente, não é viável estabelecer critérios universais de equilíbrio, uma vez que isso depende não apenas de uma dinâmica de constituição histórico-social das identidade masculina e feminina, quanto também das opções individuais no modo como cada pessoa absorve e rejeita tais parâmetros. Importa, como sempre é o caso nos processos de subjetivação, refletir criticamente acerca do modo como cada um de nós pode encontrar seu próprio ponto de equilíbrio, impulsionados por forças, fantasias e princípios que dificilmente, ou nunca, teremos total transparência.

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4 comentários:

Vitor Medrado disse...

Muito bom!

alcione Vasconcellos de Andrade disse...

Verlane, é um modo interessante ver a questão...Mas, quando Freud fala que o homem necessita superar o respeito pela muher, ele está se referindo à identificação da mulher enquanto objeto amado com o primeiro objeto de desejo do sujeito: a mãe. É por isso que alguns homens só conseguem se aproximar de uma mulher se a degradarem moralmente, ou seja, distanciarem sua imagem da imagem idealizada e santificada da mãe. É por isso também, que para alguns homens é tão difícil quando suas companheiras engravidam ou têm bebês, pois se aproxima muito da imagem materna proibida. O desejo desaparece, muitas vezes há dificuldade de manter relações com ela e é frequente, diante desta angústia, que procurem casos fora da relação com esta companheira.

Verlaine Freitas disse...

Alcione, essa perspectiva ortodoxa freudiana, seguindo a linha de leitura psicanalítica q aponto no post, é um conceito mítico criado por Freud a partir de outro mito, da lenda grega de Édipo. Ela é uma construção hipotética trans-histórica q deveria ser revista em favor de uma concepção q leve em conta as vicissitudes de constituição do psiquismo ao longo das etapas de enfrentamento da criança com os adultos q a circundam. A partir dessa outra perspectiva, baseada em autores como Jacques André e Paulo Carvalho Ribeiro, as vicissitudes identificatórias na constituição da sexualidade e seus reflexos no complexo psíquico como um todo mostram-se mais afins ao q a experiência clínica atual demonstra. Paulo C. Ribeiro chega até mesmo a dizer q aquela ideia de a mãe ser objeto de amor pelo filho, a ser interdito pelo pai etc. é, atualmente, apenas uma figura teórica usada por quem é leigo em psicanálise!

Alcione Vasconcellos de Andrade disse...

Verlaine, com todo respeito por seu ponto de vista, não posso concordar...Sou psicanalista há 19 anos e em minha prática clínica a teoria freudiana, confirmada e renovada por Lacan, se mostra atual e válida. Claro que com a banalização dos conceitos psicanalíticos pelo senso comum, o inconsciente de cada um vai utilizando novas formas de se manifestar, outras roupagens, mas no decorrer de um percurso analítico encontramos o mesmo complexo de édipo. As novas configurações familiares tornam mais complexa sua configuração, mas sob formas variadas trata-se da mesma lógica. Abraços.