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sábado, 17 de dezembro de 2011

A intimidade sádica do cotidiano


Causa uma profunda indignação assistir a um vídeo postado na Internet em que uma garota espanca covardemente em seu apartamento um cachorro da raça yorkshire. Clique na imagem abaixo, caso queira ver as cenas. 


A violência injustificada, o desrespeito, a agressão à integridade do outro, a imposição do sofrimento e a crueldade sempre acompanharam a história da humanidade, mas, na medida em que assistimos à trajetória de propagação de valores centrados ao redor da idéia de respeito às diferenças, ao direito à vida e à dignidade, cenas como essas causam profunda consternação. Nesse caso, é especialmente tocante a insistência de um sadismo exercido de forma fria, continuada, contra uma criatura indefesa, acuada de forma torpe e radicalmente injustificada. Além disso, o fato de a agressão ter sido praticada na presença de uma criança de poucos anos acentua mais ainda a percepção de que a autora, de forma altamente incompreensível, toma suas atitudes como algo “normal”, provavelmente até praticadas em outras circunstâncias, às quais seu filho ou filha já estaria acostumado/a.
Que tenha havido horrores absurdos praticados contra os judeus na época do nazismo, que milhares de pessoas tenham sido torturadas até a morte nos porões das ditaduras latino-americanas e que guerras fratricidas resultem em mutilações hediondas entre os adversários é algo que causou e sempre causará a impressão de que o processo civilizatório é bastante frágil, sujeito a surtos de barbárie inacreditáveis. Todos esses casos colocam em jogo o conceito de mal radical, da maldade sem limite, que parece afrontar todo senso mínimo de uma moralidade civilizada. Tendo em vista a complexidade do tema, não posso aqui abordá-lo de forma abrangente. Quero me limitar a algumas características específicas da atitude mostrada no vídeo acima. – Além disso, vou deixar para outro momento a discussão da pertinência moral de se ter feito a gravação do vídeo, em vez de tentar evitar que a agressão continuasse. 
Na medida em que o “típico” habitante de classe média das regiões urbanas se defronta com a negatividade da vida em suas diversas formas: guerras, tráfico de drogas, terremotos, tsunames, acidentes, desastres ecológicos etc., uma questão pertinente para a análise é o quanto tais eventos podem ou não ser circunscritos como uma realidade longínqua, “que nunca vai acontecer comigo”. A transformação de alguma negatividade em espetáculo é bastante favorecida pela segurança do distanciamento perante ela. Acidentes de carro, por exemplo, são instrutivos a esse respeito, em virtude do fato de que, mesmo ocorrendo em locais distantes, são suficientemente incômodos devido ao fato de cada um se poder imaginar em uma situação dessa. Outro aspecto importante é o quanto uma forma de violência, por exemplo, já faz parte de uma espécie de “contrato” socialmente vivido por partes em conflito ao longo do tempo, como nas regiões em que o tráfico de drogas é marcado pela rivalidade brutal entre facções criminosas. 
A cena do vídeo acima contém uma crueldade que está próxima demais da realidade cotidiana para ser tomada “apenas” como um espetáculo de violência em relação ao qual se pode pensar como distante. Não se liga a um problema político-social de ordem macro, que envolvesse, por exemplo, condições de pobreza, falta de instrução, costumes e modos de socialidade arcaicos ou oriundos de tradições muito distintas etc. Em todos esses casos existe uma espécie de fundo cultural/civilizatório que, embora aos nossos olhos não legitime, não justifique, pelo menos confere um grau de compreensibilidade à violência, de modo que possamos situá-la em um projeto político-social de construção de níveis de convivência suficientemente pautadas pelo respeito à dignidade, ao direito e a integridade do outro. Por mais que nos cause horror saber que mulheres em alguns países do oriente médio são punidas com o apedrejamento até a morte devido ao fato de que, ao serem estupradas, tenham praticado sexo fora de seu casamento, isso é sempre passível de relativização em termos de uma escolha de valores em termos da sociedade como um todo, dado que tais leis vigoram há séculos, talvez milênios. Por mais que seja indigna, abjeta e medonha a racionalidade moral que compele a essa crueldade, ela se insere em uma inércia de constituição societária que faz com que cada condenação, especificamente, seja esvaziada, em alguma medida, de uma culpabilidade pessoal, centrada nos princípios ocidentais do livre-arbítrio.
Considerando que, segundo as primeiras informações, a autora desses atos é formada em enfermagem, fica sem lugar a costumeira inserção das atitudes violentas em um contexto de pobreza e desinformação, como modo de explicá-las. Some-se a isto o fato de que criar um cão é fruto de uma escolha pessoal, sem o constrangimento social de uma família já formada. Não somente se pode optar por ter um animal de estimação, como também é possível procurar alguém que queira adotá-lo, caso não se queira mais conviver com ele.
Em suma: quanto mais se examina essa atitude mostrada no vídeo, mais chegamos perto de considerá-la radicalmente gratuita. Seu sadismo parece brotar como que “em estado puro”, sem nenhuma forma de diluição ou ancoragem em princípios culturais e formas de vida e costumes em que a violência por assim dizer se institucionalizou. 
“Gratuidade”, entretanto, é fraco para caracterizar o sadismo dessa cena. 
Já se disse que o dono é um verdadeiro deus para seu cachorro. Isso pode ser visto em ambas as direções: tanto pelo fato de que a pessoa é uma provedora de tudo aquilo que o animal precisa – alimento, companhia, abrigo, espaço para viver etc. –, quanto este último, particularmente em algumas raças, como poodle e yorkshire, demanda afetividade de forma pujante quase o tempo todo. Provimento infinito por um lado e demanda afetiva igualmente interminável por outro: esse é o contexto em que um sadismo covarde é exercido repetida e demoradamente. Em vez de uma violência gratuita, o que se tem é, na verdade, uma traição a um contrato deliberado e íntimo de uma afetividade vivenciada através de uma convivência não apenas livremente instituída, como também conservada. Ela não apenas é desprovida de uma ancoragem em um contexto social em que a violência é um ingrediente de sua ordenação moral, quanto institui, no espaço do arbítrio do cotidiano, um movimento de negação radical da afirmação da cultura como único meio de superação da barbárie.
A relação com quem é visivelmente mais fraco que nós deixa transparecer muito do que subjaz à nossa relação com quem é tão ou mais forte. Não me parece por acaso que a palavra “covardia” designa ao mesmo tempo a atitude de agridir quem não pode se defender, quanto a de ter medo de enfrentar quem tem mais força. Nesse sentido, o desrespeito em relação às crianças e aos animais, bem como à mulher por parte do homem, é um testemunho de tensões emocionais/psíquicas mal resolvidas, em desequilíbrio, mas que encontram formas dissimuladas de estabilidade nesse enfrentamento recíproco em várias formas de socialidade.



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7 comentários:

Caio disse...

Excelente!

Leonardo Oliveira de Vasconcelos disse...

Verlaine,

muito interessante o seu post.
Esses casos nos revelam duas atitudes presentes no mundo contemporâneo de nihilismo e hedonismo.

Um abraço

Glaucio Caldeira disse...

Imagine uma pessoa perversa como essa em seu dia-a-dia de enfermeira. Precisamos sempre manifestar de algum modo diante de fatos como este. A sociedade capitalista com sua concorrência desenfreada é o verdadeiro "lar" das pessoas de estrutura perversa. Basta! Neuróticos uni-vos!

Rodrigo Cássio disse...

Verlaine, muito boa a análise. Porém, vejo pelas redes sociais que a indignação diante dessa crueldade deu origem a vozes de comando que dizem o seguinte: "Temos que espancar essa enfermeira até a morte, para vingar o pobre animal". Recebi vários comentários desse tipo pelo Facebook e Twitter. E não eram reações irrefletidas. As pessoas tiveram tempo para pensar no que dizem, e continuaram defendendo o linchamento. Como entender essa violência latente? Seu texto poderia abordar também este lado! Abraço do Rodrigo.

Verlaine Freitas disse...

Obrigado pela sugestão, Rodrigo. Vou segui-la. Na próxima semana falarei sobre essa reação a esse caso. Abraço.

Adriane disse...

Verlaine, parabéns pela análise e pela desenvoltura do texto. Além da questão da "vingança", do "olho por olho e dente por dente" gostaria também de saber qual tipo de análise você faz das críticas e da condenação à pessoa que filmou. Abraços.

Verlaine Freitas disse...

Fico contente q vc tenha gostado do texto, Adriane, e obrigado pela sugestão do tema; é tbm uma questão importante. Abraços.