Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A ideologia do combate às drogas

A insistência com que várias instâncias governamentais praticam a repressão policial em relação aos dependentes de drogas ilícitas exige uma reflexão para além de considerar tal estratégia como um equívoco. Embora diversas autoridades sempre anunciem programas de tratamento psicológico e de assistência social, ações de intervenção violenta em determinados redutos, como a que ocorreu em 03/01/2012 na área de São Paulo conhecida como cracolândia, segundo me parece, são indícios claros de uma concepção macro de política, fundada em determinados princípios mais profundos, relativos a como a dinâmica social é vista ideologicamente por forças políticas conservadoras e à direita no espectro político.


É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que a dependência de drogas pesadas como cocaína, crack e heroína é bastante difícil de equacionar, já no âmbito individual, e mais ainda como problema de saúde pública. A influência recíproca entre os usuários, na medida em que se socializam ao redor da droga, dificulta sobremaneira a abordagem pelas vias pacíficas (assistência psicológica, hospitalar e social). Mesmo que um tratamento tenha eficácia em relação a um ou alguns indivíduos, sempre haverá espaço para que os demais usuários forcem a permanência de todos neste círculo, que se nutre da partilha das substâncias e de todo o estado de espírito dela decorrente. — Essas e outras dificuldades, entretanto, não justificam em hipótese alguma, segundo penso, o uso da violência e da repressão policial. Elas apenas indicam a necessidade de investir mais recursos humanos e de infra-estrutura hospitalar e de assistência psicológica. Se isto não é feito, não creio que seja apenas mais uma questão de estabelecer prioridades na repartição do orçamento público, mas, como disse, por uma motivação ideológica mais específica. 

Ao analisar as relações entre capital e trabalho, Marx cunhou uma expressão que ficou famosa: “Exército industrial de reserva”, que se refere a uma determinada quantidade de trabalhadores que devem, devido à própria dinâmica capitalista, permanecer desempregados, de modo a exercer uma pressão para baixo sobre os salários, mantendo-os em níveis mais aceitáveis para o empregadores. Variando de acordo com as necessidades de equilíbrio em cada circunstância, a taxa de desemprego não seria apenas uma disfunção inerente ao sistema, mas sim algo essencial a ele, cumprindo a função de “escudo” perante a consciência reivindicativa por parte da massa de trabalhadores.

Penso que as estratégias de violência policial em relação aos usuários de drogas se nutrem de um princípio análogo a este. Trata-se de uma forma de marcar uma heterogeneidade de um grupo, de uma facção, de uma comunidade, perante a maioria “civilizada” da sociedade. Parece-me evidente demais que a repressão policial não apenas não ajuda a resolver o problema, como acirra mais ainda a tensão perante todos os usuários. Só que também me parece claro que isto é evidente para as próprias autoridades, de modo que elas, na verdade, se servem de tal estratégia para manter focos de diferença substantiva perante um núcleo privilegiado da sociedade. A absorção mediada e refletida dos usuários de drogas, construída laboriosamente através de estratégias de assistência social e psicológica, contém um princípio ameaçador às forças conservadoras e de direita política, a saber, a consideração da necessidade de absorver diferenças no âmbito nuclear da sociedade. Tal como a política externa do governo de George W. Bush mostrou com clareza recentemente, o cultivo de inimigos é (ainda) essencial para a manutenção da legitimidade interna de condutas políticas segregacionistas e que tendem à acumulação de riqueza. Tais inimigos, entretanto, não precisam ser vistos apenas fora do país ou da sociedade, mas também como enclaves e nódoas internas.

Não se trata de dizer, portanto, que falte vontade política para reforçar as estratégias de integração dos usuários de drogas, mas sim que persiste uma determinação ideológica de demarcar focos de contradição ao núcleo identitária da sociedade. Trata-se de uma política essencialmente conservadora, devido ao fato de negar, por uma questão de princípio, as mutações organicamente geridas pela sociedade em seu processo de assimilação reflexiva daquele que vive de forma diferente, e gosta de viver assim. A mobilização ostensiva do aparato de repressão violenta mantém a problemática daquele que é diferente na superfície de um espetáculo para uma classe média que se acostuma a saborear os benefícios de toda forma de estabilidade política e econômica. Marcar de forma violenta o quanto pode ser violenta a presença de quem é diferente é uma estratégia para retardar ao máximo o processo de aprofundamento reflexivo acerca das heterogeneidades que constituem uma identidade múltipla da sociedade, que compreende a si mesma contrariando diversas formas de unificação, seja ela de gênero, de poder econômico, político, religioso etc.

É preciso considerar os dois lados da moeda em termos de representatividade de linhas de força presentes no âmbito social que se refletem nas decisões tomadas no topo das políticas. Essa estratégia de repressão violenta corresponde aos anseios e imagens idealizadas presentes em grande parte das classes médias e altas, de modo que essa prática apenas vem confirmar aquilo que certa inércia social já demanda ao ordenamento político institucionalizado. Deste modo, essas práticas se coadunam com certa mentalidade, ao mesmo tempo em que a reforçam a partir de sua encenação espetacularizada.

Especificamente em relação às drogas, manter o problema social do consumo como um “caso de polícia” é uma tática para dificultar o debate sobre sua descriminalização. É evidente que quanto mais usuários puderem contar com formas socialmente boas de estabilidade emocional e, assim, de convívio, mais “perigosa” é a perspectiva de que não se justifica manter a proibição do comércio de drogas hoje ilícitas.

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sábado, 21 de janeiro de 2012

BBB: si-mesmo como espetáculo

Os reality-shows tornaram-se um fenômeno de cultura de massa em vários países, e no Brasil não foi diferente. O fato de que a audiência deste programa cresce a cada dia convida a uma reflexão sobre seu significado cultural. 
Nos anos 40 do século passado, Adorno e Horkheimer disseram que o que a cultura de massa vende é, no final das contas, o cotidiano cinzento, engrandecido pelo brilho dos meios técnicos. Por mais que tais obras mostrem voos de fantasia e exercícios da imaginação, seu sentido cultural mais próprio é o de oferecer às pessoas a satisfação da vida que já sempre levam. Buscando uma identificação, seja com a realidade vivida no dia-a-dia, seja com os sonhos e ideais de vários tipos, a cultura de massa glorifica a percepção narcísica que cada um tem de si mesmo. — Transcorridos pouco mais de 50 anos, a invenção desses shows-de-realidade aparece como uma confirmação impressionante dessa análise, realizada quando a indústria cultural ainda se estruturava, sem o poder de manipulação das imagens, sons e poder de difusão como nos dias de hoje.

(Há que se notar, que, através da expressão “oferta cultural”, que uso várias vezes aqui, pretendo dizer de um sentido geral do que é vendido por esse tipo de produto de entretenimento. Tal não significa dizer que toda e qualquer pessoa que o consuma o faça apenas ou eminentemente em função dessa “lógica”. Com base em um princípio geral de interpretação de produtos culturais, creio que não seja possível haver uma teoria suficientemente potente capaz de explicar e de abarcar as infinitas possibilidades de recepção de qualquer item cultural que seja. Cada pessoa tem uma dinâmica psíquica, uma disposição mental própria, um conjunto de valores sui generis etc., de modo que somente uma análise centrada em cada pessoa pode dizer de sua própria recepção a um bem cultural. Análise cultural não tem a validade de um diagnóstico clínico, mas, segundo penso, pode ser suficientemente válida para dizer de linhas de força que transitam pelo tecido social, às quais dificilmente alguém, em princípio, poderia se dizer totalmente imune.)

Já se disse várias vezes que os reality-shows possuem como uma de suas características peculiares a ausência de narrativa, de uma linha de ficção. Se as novelas já procuravam fazer um retrato estilizado dos conflitos, alegrias, sonhos e frustrações da classe média urbana, o Big Brother se apresenta como a oferta das infinitas vicissitudes da vida sem esta capa, este véu da ficção. Por mais que os críticos desse tipo de programa digam da artificialidade do comportamento das pessoas que se esforçam por ganhar o prêmio máximo, como também do trabalho de edição das imagens e da criação de uma linha de eventos que fornece uma coerência de uma narrativa artificial, parece pesar mais para os consumidores a percepção de que, sob a pressão do confinamento a longo prazo, as pessoas acabam revelando aquilo que elas mesmas são, de uma forma mais franca, verdadeira.
Creio que seja isso mesmo que o programa ofereça como satisfação cultural: um modo de digerir, através de uma atitude voyerista, a inquietude de não se saber quem se é. Vende-se um gozo pornográfico de bisbilhotar a intimidade virulenta e arredia que escapa pelos dedos, sob a pressão do olhar de milhões de pessoas.
Já se disse que toda a atitude do consumo, e por extensão da cultura de massa em geral, é a de erotização do cotidiano, com o apelo sensual/sexual de toda mercadoria, seja ela um bem físico, como uma calça, seja uma música ou um filme. O reality-show estimula, de forma escancarada e assumida a polaridade do exibicionismo e do voyeurismo, que são muito facilmente intercambiáveis devido à quantidade infinita de momentos em que o espectador se identifica com o que ocorre na tela.
Embora a idéia de Adorno de que se venda o cotidiano cinzento realmente me pareça válida, eu a modificaria no sentido de que o Big Brother vende todas as cores emocionais, de comportamento e de desejo que a individualidade auto-centrada dos nossos dias acostumou-se a cultivar, seja de forma concreta, seja como uma mera imagem do que se deseja ser. Há algum tempo o diretor do programa havia dito que no Big Brother deveria haver o máximo de ódio e o máximo de amor. De fato, é necessário saturar a percepção de emotividade contraditória que as pessoas gostam de saborear em si mesmas e, ao mesmo tempo, escarnecer de sua mesquinhez ao vê-la projetada naquele que vive sob a pressão de realizar seu desejo exibicionista. Que a cada edição sejam introduzidos novos personagens, com posturas e tipos psicológicos bem diferenciados, e que atitudes, antes tomadas como tabus, como o beijo homossexual, sejam admitidas e ao mesmo tempo censuradas / condenadas, tudo isso é parte dessa oferta cultural de trazer ao palco todas as vicissitudes pelas quais passam as opções por uma individualidade qualquer.
Tal como a relação sexual adquire um ingrediente que pode torná-la mais saborosa, a saber, com um espelho que reflita toda a cena, essa multiplicidade cromática do cotidiano ganha um sabor todo especial pela mediação dessa presença universalizante da televisão. Trata-se de um enorme espelho que tem sua potência erotizante multiplicada pela quantidade de pessoas que se sabe serem também espectadores como nós. Diante disso, não me causa nenhuma uma surpresa a já prosaica situação de pessoas que, em uma festa real em seus apartamentos, param o que estão fazendo a fim de assistir a uma festa do Big Brother. De fato, a encenação espetacularizada da festa do outro já contém algo da transcendência da ficção, pelo fato de receber essa injeção cavalar da dignidade de ser um objeto de observação por milhões de pessoas. Essa lascívia de se transportar para o gozo do outro, sorvê-lo através da segurança do distanciamento dado pela tela, ao mesmo tempo em que se tripudia do quanto as pessoas estão próximas de falir, de perder, e assim sair do jogo, por não suportarem a pressão dos milhões de olhos que se dirigem para eles — isso é um tempero que realmente confere um sabor espetacular para algo que, na realidade, é apenas uma imagem. Poder manipular o gozo e a falência iminente do outro, eis aí um dos princípios desse prazer narcisista de consumir o reflexo universal dos elementos particulares e mesquinhos do próprio cotidiano.

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sábado, 14 de janeiro de 2012

A permanência do inefável

Hoje quero comentar um conto de Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”, presente no volume Primeiras estórias (caso você não o tenha lido ainda, CLIQUE AQUI). Este livro contém diversas narrativas que tematizam o exótico, o sobrenatural, o inusitado, o insólito. Aquele conto aborda explicitamente o estranhamento radical do desvario, girando ao redor da inquietação provocada pela insistência com que a insanidade se afirma. Já o título aponta para algo que não existe, mas que nos constrange a conferir-lhe uma densidade através da pregnância, ênfase, com que uma alteridade muito próxima se afasta e se aproxima de forma perturbadora: “Aquilo que não havia, acontecia”.
O começo da narrativa contém uma indecisão que auxilia a leitura de todo o texto. Não fica claro se o pai mandara fazer a canoa já com intenção de se isolar no rio, ou se essa atitude foi desencadeada pela fala de sua esposa: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Como o narrador-filho explicita, sua mãe é a que sempre teve autoridade em casa, e essa ordem sobre o marido foi a última, derradeira, cumprida até o mais extremo. No fim do conto reaparece essa questão, quando o narrador especula que quem fez a canoa já teria sabido da motivação do pai. Assim, oscilamos entre uma decisão que já parecia tomada e uma subjugação extrema, visceral.
O pai saiu do meio dos vivos para continuar habitando entre eles como um morto-vivo, um fantasma, uma incógnita, cujo arbítrio a cada tempo parecia mais difícil de entender, pelo extremo de sua insistência. Trata-se de uma atitude sublime, em função da profundidade da anulação de si. Tal aniquilamento, entretanto, somente teve seu peso em função do fato de não coincidir com a simples morte, mas sim com a afirmação continuada do sofrimento indizível — inefável. O narrador, repetidas vezes, diz se impressionar com o fato de o pai suportar uma condição tão miserável, sujeita a doenças, fome, desconforto, imundície, frio, noites mal dormidas etc.: “o severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele aguentava”. A coragem e a força infinitas de afirmar indefinidamente a miséria continuada da anulação de si: essa contradição indizível é o núcleo de toda a narrativa.
O enigma do arbítrio permanece sob diversas formas ao longo das páginas. Em que pesem as primeiras formas de mudar a situação, tal como a presença dos soldados, do padre e dos homens do jornal com sua lancha, o que prevaleceu é a resignação perante a facticidade inamovível da decisão do pai: “a gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade”. Não seria difícil conceber uma atitude mais determinada de, por assim dizer, resgatar o homem, com vários barcos rastreando o rio à sua procura, mas a opção foi a de deixar que ele mesmo decidisse seu destino: “Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa”. O problema consiste no fato de ele ter escolhido uma terceira via, e todos, por sua vez, escolheram tão-somente tentar digerir por sua própria conta o absurdo indigesto que isso representava: “não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos”. O filho o alimentou durante todos os longos anos, e se pode dizer que, assim, alimentava a própria situação, dando-lhe os meios para permanecer como tal. O respeito absoluto ao direito de escolha, por outro lado, soa também como uma indiferença radical, pois: como se tolerou a permanência indefinida de uma situação de extrema penúria?
Tal como a canoa com aquele homem era um corpo estranho, mas afeito ao silêncio demorado do rio, a determinação obstinada do personagem pode ser vista como própria e bizarra para a vida de alguém que “não figurava mais estúrdio [extravagante] nem mais triste do que os outros... Só quieto”. Uma vida cuja planura se reflete na quietude larga do rio, e sulcada de forma sangüínea pela cisão imposta por seu arbítrio. Tal como se qualifica como arbitrário aquele que age sem critério, ao sabor da pura vontade e deliberação próprias — o que denota algo sem legitimidade, inadmissível —, a atitude do personagem foi de uma arbitrariedade paradoxal, que coloca em xeque a própria validade de seu arbítrio, uma vez que sua decisão tornava sua vida exangue.
Pouco depois do meio do conto explicita-se um elemento que de alguma forma já se afigurava desde o início, e que decidirá o desfecho da narrativa: uma relação tensa e ambígua de identificação do narrador-filho com o pai. A começar com a consciência culpada de comer uma comida gostosa e imaginar o sofrimento do pai, temos também a indicação da semelhança física, que, entretanto, é imediatamente colocada em xeque pela realidade atual da degeneração do pai, que “agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos e, com o aspecto de bicho”. A ambigüidade é logo em seguida reforçada com uma questão interessante: “Nem queria saber de nós; não tinha afeto?”. Isso é significativo, em função do fato de que se trata de uma cobrança a uma pessoa que parece desprezar o afeto da família, e, ao mesmo tempo — o que é mais instigante ainda —, voltar-se   unicamente para si mesmo. O narrador questiona que, se se tratasse de um desafeto, seria mais natural que ele simplesmente fosse para longe. O que parecia realmente inassimilável na atitude do pai era o quanto ela marcava de forma categórica um não-lugar, simetricamente alheio ao afeto e o desafeto, como uma espécie de terceira margem para o fluxo dos sentimentos. Essa insistência no não-humano acaba sendo sentida pelo filho como mais desumana.
Depois da passagem decisiva em que vemos a recusa do pai em conhecer a neta (o que pode ser tomado simbolicamente como uma recusa enfática da vida), o complexo identificatório é mais uma vez afirmado quando o narrador insiste em permanecer na casa, ao contrário dos outros membros da família, que resolvem afirmar e procurar novos meios de vida. Ele diz nunca poder querer se casar, pois, afinal de contas, “Nosso pai carecia de mim... sem dar razão de seu feito”. Mesmo já caminhando para a maturidade, simbolizada pelos primeiros cabelos brancos, o narrador-filho ainda insistia em afirmar, ao mesmo tempo, a legitimidade do desejo do pai e sua arbitrariedade, seu não-sentido. É precisamente por essa obstinação na ambigüidade identificatória que podemos explicar a pergunta que ele coloca: “de que era que eu tinha tanta, tanta culpa?”. A resposta seria: do fascínio que a negação sublime de si mesmo causava nele. Uma espécie de atração irresistível por um redemoinho que tragava o sentimento com uma força proporcional ao horror que ela causava. Quando, por fim, a derradeira frase é dita: “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor na canoa!...”, temos a passagem capital da fantasia à realidade. Ora, tanto maior o grau de realidade, tanto maior o horror perante o absurdo daquele fascínio por ocupar o vazio que o pai marcara incessantemente.
Essa tensão radical em torno da ambigüidade identificatória tem seu lance derradeiro quando o narrador questiona: “Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado”. Não se aplicariam essas duas frases ao próprio pai? Não teria ele também falido, calando-se na profundidade abissal de sua desrazão? Depois de se apontar para o abandono da família, da sanidade mental, de toda comunicação, do afeto e até da forma física propriamente humana, seria de se pensar que sim, mas a melhor resposta, na verdade, é não. Não há uma falência propriamente dita para o pai, uma vez que ele ousou concretizar a sublimidade contraditória da anulação de si, afirmando-a de forma enfática e persistente, ao passo que tal contradição no filho permaneceu frouxa, dado o distanciamento entre fantasia e realidade. O falimento, do filho, se caracteriza por uma extrema veleidade, uma vontade hesitante, que oscilou entre a fantasia culpada e a fuga covarde. O silêncio do pai era como que o eco sempiterno de uma sublimidade incompreensível; o do filho, o testemunho da fragilidade radical perante o abismo, que nos atrai na proporção com que ameaça nos aniquilar.


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O idealista e o pragmático




Existe uma diferenciação em termos de postura diante do mundo que já parece clara pela própria designação; trata-se da diferença entre o idealista, o realista e o pragmático. O primeiro seria aquele que avalia a realidade e nela vive em função de ideais, sonhos e desejos bastante diferentes do que a realidade oferece mais concretamente. Nesse sentido, ele se distancia do âmbito da experiência, desconsiderando as vicissitudes de nossa relação com as coisas, com as pessoas e nossa própria realidade interior. O realista, como própria designação já indica, teria, supostamente, uma avaliação sensata de como as coisas efetivamente funcionam, sem, em contraste com o primeiro, sobrestimar os valores, critérios e perspectivas que usa para olhar a realidade. O pragmático, continuando na mesma linha de aproximação com a realidade, seria aquele que procura resultados e meios de alcançar benefícios, desconsiderando de forma enfática toda expectativa fundada em projeções de fantasias que não possam ter uma confirmação mais segura por parte dos fatos. (“Pragmático”, aqui, não se refere à doutrina filosófica do pragmatismo; a significação que temos em mente é próxima de uma das que são fornecidas pelo dicionário, no caso o Houaiss: seria aquele “que sacrifica princípios ideológicos para a consecução de objetivos a curto prazo (diz-se de indivíduo, partido político, política etc.))

Embora seja sempre difícil aplicar essas categorias valorativas nos diversos contextos, pois em muitos casos parece não haver nenhum critério seguro o suficiente para qualificar uma atitude como idealista ou realista, creio que essa tripla diferenciação seja útil para entender, pelo menos em termos de princípio geral, modos de relacionamento com a realidade. Não quero aqui propor uma conceituação nova de cada uma dessas três qualificações, mas sim falar de uma determinada relação entre elas, usando as definições que indiquei.

Quem entra em uma nova realidade, seja por ingressar em uma profissão diferente, casar-se, ter filhos, participar de uma organização política pela primeira vez etc., sempre é levado a relacionar a experiência dessa nova forma de viver com suas expectativas. Nesse momento de confronto, é sempre interessante perceber o quanto os idealistas tendem facilmente a se tornar pragmáticos (embora nem sempre, claro). A medida da desilusão será proporcional ao quanto se dará importância ao fato de se conseguir lidar com as coisas de forma eficaz, sem se sentir magoado, ferido e, claro, decepcionado. Quanto maiores as exigências, as idealizações, perante uma forma de vida que ainda não se conhece, mais o contraste com ela parece ser motivo suficiente para dizer que “o que conta mesmo é o que eu posso tirar de proveito da realidade”.

Se isso é verdade — e eu creio que seja, pelo menos como uma tendência que me parece forte —, então pode ser aplicado em diversos contextos, não apenas em relação a mudanças específicas de realidade, seja profissional ou de estado civil, mas em termos de educação dos filhos. Na medida em que estes são preparados para a ingressar na sociedade, é sempre muito importante ponderar os planos dos valores que se querem, e aquilo que efetivamente se pode esperar tanto deles quanto do que percebemos em nosso contato com as pessoas ao longo de toda vida. Uma ética idealista, assim, pode facilmente gerar pessoas bastante voltadas para resultados imediatos das ações, para evitar sistematicamente fontes de desilusão, engano e desapontamento. Por outro lado, também me parece claro que uma ética por demais pragmática é, de certa forma, pedagogicamente muito pobre, pelo fato de estreitar as vias que levam a valores mais significativos para a consecução de um processo formativo mais forte, consistente.

Um outro lado da questão, menos evidente do que tudo isso até agora, é o de que essa atitude pragmática, que resulta de um idealismo frustrado, convive perfeitamente com estratégias e modos de perceber a realidade ainda bastante idealistas. Quando isso ocorre, costuma aparecer sob a forma de determinados ícones, paradigmas de excelência, de consumação de determinadas qualidades, que, devido precisamente a essa pureza com que encarnam determinados valores, não se misturam ao restante da vida. Assim, de acordo com o que cada um esperava de determinada forma de vida, pode-se eleger uma pessoa, uma entidade espiritual, uma simples imagem, um determinado tipo de vida etc., que apresente, de forma bastante dócil aos desejos, a realização deles.

Os exemplos são muitos, e cada um pode perfeitamente ser assunto de um texto inteiro aqui neste blog. Um que me parece especialmente claro é dado por uma expressão que já se tornou conhecida: “Quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais”. É evidente que nem toda pessoa que devota amor ao seu animal de estimação o faz segundo essa perspectiva. Na verdade, não apenas o respeito, mas o carinho com os bichos é significativo moralmente (assunto, aliás, para outra postagem). Cabe aqui apenas comentar especificamente o que tal frase afirma, pois ela indica com alguma clareza que, nesse caso, o amor para com os animais é reforçado pelas decepções ou desilusões sucessivas com as pessoas.

Das diversas faces dessa realidade — que é bastante complexa, impossível de ser abordada de forma minimamente abrangente aqui nesse espaço —, a que está mais próxima de nossa problemática é a de que os animais não contradizem internamente nossos desejos, nosso afeto em relação a eles. Sempre que o fazem, isso é tributado a fatores biológicos, de natureza, de constituição genética, de diferenças de comportamento entre as raças etc. Em todos os outros momentos, tem-se uma relação afetiva em que o animal absorve e retribui de forma não contraditória nossa demanda em relação a ele, dado que é, em medidas variáveis (de acordo com o animal: gato, cachorro, pássaros), sempre solícito. Tem-se, assim, um equacionamento que se auto-reforça: toda ressonância positiva de nossa demanda a confirma, ao passo que nenhuma negação a enfraquece. Desse modo, a afetuosidade dos animais não apenas não nos decepciona, quanto já se sabe, de antemão, que não irá fazê-lo. 

Assim, seguindo especificamente o que a frase diz, podemos dizer que alguém, sucessivamente decepcionado com as relações sociais, pode facilmente deixar de nutrir expectativas para com as pessoas — evitando desilusões —, passando a ter, nesse caso, um comportamento próximo ao que definimos como pragmático. O outro lado da moeda é que a afetividade com os animais é vivida de forma idealizada, purificada das tensões provenientes do quanto uma outra subjetividade pode negar, questionar, duvidar de, nosso afeto. 

De acordo com minha argumentação, fica claro que considero tanto a atitude idealista quanto a pragmática formas “equivocadas” de se relacionar com a realidade, pois lhes falta um elemento fundamental: a capacidade de dialogar, de forma viva e incessantemente renovada, com as inúmeras faces da realidade, de modo a não inundá-la com nossos ideiais, fantasias e demandas, como também não esvaziar nosso desejo de usufruir e gozar do real devido à aridez com que este se apresenta aos olhos de quem constrói uma miragem com seus valores e expectativas. 

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