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sábado, 21 de janeiro de 2012

BBB: si-mesmo como espetáculo

Os reality-shows tornaram-se um fenômeno de cultura de massa em vários países, e no Brasil não foi diferente. O fato de que a audiência deste programa cresce a cada dia convida a uma reflexão sobre seu significado cultural. 
Nos anos 40 do século passado, Adorno e Horkheimer disseram que o que a cultura de massa vende é, no final das contas, o cotidiano cinzento, engrandecido pelo brilho dos meios técnicos. Por mais que tais obras mostrem voos de fantasia e exercícios da imaginação, seu sentido cultural mais próprio é o de oferecer às pessoas a satisfação da vida que já sempre levam. Buscando uma identificação, seja com a realidade vivida no dia-a-dia, seja com os sonhos e ideais de vários tipos, a cultura de massa glorifica a percepção narcísica que cada um tem de si mesmo. — Transcorridos pouco mais de 50 anos, a invenção desses shows-de-realidade aparece como uma confirmação impressionante dessa análise, realizada quando a indústria cultural ainda se estruturava, sem o poder de manipulação das imagens, sons e poder de difusão como nos dias de hoje.

(Há que se notar, que, através da expressão “oferta cultural”, que uso várias vezes aqui, pretendo dizer de um sentido geral do que é vendido por esse tipo de produto de entretenimento. Tal não significa dizer que toda e qualquer pessoa que o consuma o faça apenas ou eminentemente em função dessa “lógica”. Com base em um princípio geral de interpretação de produtos culturais, creio que não seja possível haver uma teoria suficientemente potente capaz de explicar e de abarcar as infinitas possibilidades de recepção de qualquer item cultural que seja. Cada pessoa tem uma dinâmica psíquica, uma disposição mental própria, um conjunto de valores sui generis etc., de modo que somente uma análise centrada em cada pessoa pode dizer de sua própria recepção a um bem cultural. Análise cultural não tem a validade de um diagnóstico clínico, mas, segundo penso, pode ser suficientemente válida para dizer de linhas de força que transitam pelo tecido social, às quais dificilmente alguém, em princípio, poderia se dizer totalmente imune.)

Já se disse várias vezes que os reality-shows possuem como uma de suas características peculiares a ausência de narrativa, de uma linha de ficção. Se as novelas já procuravam fazer um retrato estilizado dos conflitos, alegrias, sonhos e frustrações da classe média urbana, o Big Brother se apresenta como a oferta das infinitas vicissitudes da vida sem esta capa, este véu da ficção. Por mais que os críticos desse tipo de programa digam da artificialidade do comportamento das pessoas que se esforçam por ganhar o prêmio máximo, como também do trabalho de edição das imagens e da criação de uma linha de eventos que fornece uma coerência de uma narrativa artificial, parece pesar mais para os consumidores a percepção de que, sob a pressão do confinamento a longo prazo, as pessoas acabam revelando aquilo que elas mesmas são, de uma forma mais franca, verdadeira.
Creio que seja isso mesmo que o programa ofereça como satisfação cultural: um modo de digerir, através de uma atitude voyerista, a inquietude de não se saber quem se é. Vende-se um gozo pornográfico de bisbilhotar a intimidade virulenta e arredia que escapa pelos dedos, sob a pressão do olhar de milhões de pessoas.
Já se disse que toda a atitude do consumo, e por extensão da cultura de massa em geral, é a de erotização do cotidiano, com o apelo sensual/sexual de toda mercadoria, seja ela um bem físico, como uma calça, seja uma música ou um filme. O reality-show estimula, de forma escancarada e assumida a polaridade do exibicionismo e do voyeurismo, que são muito facilmente intercambiáveis devido à quantidade infinita de momentos em que o espectador se identifica com o que ocorre na tela.
Embora a idéia de Adorno de que se venda o cotidiano cinzento realmente me pareça válida, eu a modificaria no sentido de que o Big Brother vende todas as cores emocionais, de comportamento e de desejo que a individualidade auto-centrada dos nossos dias acostumou-se a cultivar, seja de forma concreta, seja como uma mera imagem do que se deseja ser. Há algum tempo o diretor do programa havia dito que no Big Brother deveria haver o máximo de ódio e o máximo de amor. De fato, é necessário saturar a percepção de emotividade contraditória que as pessoas gostam de saborear em si mesmas e, ao mesmo tempo, escarnecer de sua mesquinhez ao vê-la projetada naquele que vive sob a pressão de realizar seu desejo exibicionista. Que a cada edição sejam introduzidos novos personagens, com posturas e tipos psicológicos bem diferenciados, e que atitudes, antes tomadas como tabus, como o beijo homossexual, sejam admitidas e ao mesmo tempo censuradas / condenadas, tudo isso é parte dessa oferta cultural de trazer ao palco todas as vicissitudes pelas quais passam as opções por uma individualidade qualquer.
Tal como a relação sexual adquire um ingrediente que pode torná-la mais saborosa, a saber, com um espelho que reflita toda a cena, essa multiplicidade cromática do cotidiano ganha um sabor todo especial pela mediação dessa presença universalizante da televisão. Trata-se de um enorme espelho que tem sua potência erotizante multiplicada pela quantidade de pessoas que se sabe serem também espectadores como nós. Diante disso, não me causa nenhuma uma surpresa a já prosaica situação de pessoas que, em uma festa real em seus apartamentos, param o que estão fazendo a fim de assistir a uma festa do Big Brother. De fato, a encenação espetacularizada da festa do outro já contém algo da transcendência da ficção, pelo fato de receber essa injeção cavalar da dignidade de ser um objeto de observação por milhões de pessoas. Essa lascívia de se transportar para o gozo do outro, sorvê-lo através da segurança do distanciamento dado pela tela, ao mesmo tempo em que se tripudia do quanto as pessoas estão próximas de falir, de perder, e assim sair do jogo, por não suportarem a pressão dos milhões de olhos que se dirigem para eles — isso é um tempero que realmente confere um sabor espetacular para algo que, na realidade, é apenas uma imagem. Poder manipular o gozo e a falência iminente do outro, eis aí um dos princípios desse prazer narcisista de consumir o reflexo universal dos elementos particulares e mesquinhos do próprio cotidiano.

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Um comentário:

Ísis disse...

Excelente o artigo!

Penso que um zoológico humano seja cativante na sua dimensão trágica, na medida em que esta propicia aos telespectadores a empatia (muito embora, um aquário me pareça mais interessante).
A Globo tenta articular e vender essa idéia de "tragédia da vida real", todavia, no caso do BBB, o trágico acaba por assumir um caráter niilista, pois ao invés de enaltecer a própria vida, acaba por depreciá-la, esvaziando a autenticidade do prazer, o valor afetivo das relações e a riqueza das experiências, neste caso, vivenciadas às sombras da sociedade de consumo.
Em contrapartida, o objetivo dos jogadores é ganhar o prêmio, o que, de certo modo, "legitima" o fato de que as relações estabeleçam-se mesmo em torno de uma disputa de poder. Curioso é que isto apenas "valida" algo que, na prática, já ocorre socialmente.
Por conseguinte, re-afirmo minha postura quanto à nocividade do programa, que não faz mais do que reproduzir e, conseqüentemente, alimentar as vicissitudes da contemporaneidade, o empobrecimento das experiências e a depreciação do ser humano.
À parte isto, tenho para mim que o desdobramento deste "si-mesmo como espetáculo" esteja muito próximo ao teatro do absurdo.

Beijos,
Ísis