Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O idealista e o pragmático




Existe uma diferenciação em termos de postura diante do mundo que já parece clara pela própria designação; trata-se da diferença entre o idealista, o realista e o pragmático. O primeiro seria aquele que avalia a realidade e nela vive em função de ideais, sonhos e desejos bastante diferentes do que a realidade oferece mais concretamente. Nesse sentido, ele se distancia do âmbito da experiência, desconsiderando as vicissitudes de nossa relação com as coisas, com as pessoas e nossa própria realidade interior. O realista, como própria designação já indica, teria, supostamente, uma avaliação sensata de como as coisas efetivamente funcionam, sem, em contraste com o primeiro, sobrestimar os valores, critérios e perspectivas que usa para olhar a realidade. O pragmático, continuando na mesma linha de aproximação com a realidade, seria aquele que procura resultados e meios de alcançar benefícios, desconsiderando de forma enfática toda expectativa fundada em projeções de fantasias que não possam ter uma confirmação mais segura por parte dos fatos. (“Pragmático”, aqui, não se refere à doutrina filosófica do pragmatismo; a significação que temos em mente é próxima de uma das que são fornecidas pelo dicionário, no caso o Houaiss: seria aquele “que sacrifica princípios ideológicos para a consecução de objetivos a curto prazo (diz-se de indivíduo, partido político, política etc.))

Embora seja sempre difícil aplicar essas categorias valorativas nos diversos contextos, pois em muitos casos parece não haver nenhum critério seguro o suficiente para qualificar uma atitude como idealista ou realista, creio que essa tripla diferenciação seja útil para entender, pelo menos em termos de princípio geral, modos de relacionamento com a realidade. Não quero aqui propor uma conceituação nova de cada uma dessas três qualificações, mas sim falar de uma determinada relação entre elas, usando as definições que indiquei.

Quem entra em uma nova realidade, seja por ingressar em uma profissão diferente, casar-se, ter filhos, participar de uma organização política pela primeira vez etc., sempre é levado a relacionar a experiência dessa nova forma de viver com suas expectativas. Nesse momento de confronto, é sempre interessante perceber o quanto os idealistas tendem facilmente a se tornar pragmáticos (embora nem sempre, claro). A medida da desilusão será proporcional ao quanto se dará importância ao fato de se conseguir lidar com as coisas de forma eficaz, sem se sentir magoado, ferido e, claro, decepcionado. Quanto maiores as exigências, as idealizações, perante uma forma de vida que ainda não se conhece, mais o contraste com ela parece ser motivo suficiente para dizer que “o que conta mesmo é o que eu posso tirar de proveito da realidade”.

Se isso é verdade — e eu creio que seja, pelo menos como uma tendência que me parece forte —, então pode ser aplicado em diversos contextos, não apenas em relação a mudanças específicas de realidade, seja profissional ou de estado civil, mas em termos de educação dos filhos. Na medida em que estes são preparados para a ingressar na sociedade, é sempre muito importante ponderar os planos dos valores que se querem, e aquilo que efetivamente se pode esperar tanto deles quanto do que percebemos em nosso contato com as pessoas ao longo de toda vida. Uma ética idealista, assim, pode facilmente gerar pessoas bastante voltadas para resultados imediatos das ações, para evitar sistematicamente fontes de desilusão, engano e desapontamento. Por outro lado, também me parece claro que uma ética por demais pragmática é, de certa forma, pedagogicamente muito pobre, pelo fato de estreitar as vias que levam a valores mais significativos para a consecução de um processo formativo mais forte, consistente.

Um outro lado da questão, menos evidente do que tudo isso até agora, é o de que essa atitude pragmática, que resulta de um idealismo frustrado, convive perfeitamente com estratégias e modos de perceber a realidade ainda bastante idealistas. Quando isso ocorre, costuma aparecer sob a forma de determinados ícones, paradigmas de excelência, de consumação de determinadas qualidades, que, devido precisamente a essa pureza com que encarnam determinados valores, não se misturam ao restante da vida. Assim, de acordo com o que cada um esperava de determinada forma de vida, pode-se eleger uma pessoa, uma entidade espiritual, uma simples imagem, um determinado tipo de vida etc., que apresente, de forma bastante dócil aos desejos, a realização deles.

Os exemplos são muitos, e cada um pode perfeitamente ser assunto de um texto inteiro aqui neste blog. Um que me parece especialmente claro é dado por uma expressão que já se tornou conhecida: “Quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais”. É evidente que nem toda pessoa que devota amor ao seu animal de estimação o faz segundo essa perspectiva. Na verdade, não apenas o respeito, mas o carinho com os bichos é significativo moralmente (assunto, aliás, para outra postagem). Cabe aqui apenas comentar especificamente o que tal frase afirma, pois ela indica com alguma clareza que, nesse caso, o amor para com os animais é reforçado pelas decepções ou desilusões sucessivas com as pessoas.

Das diversas faces dessa realidade — que é bastante complexa, impossível de ser abordada de forma minimamente abrangente aqui nesse espaço —, a que está mais próxima de nossa problemática é a de que os animais não contradizem internamente nossos desejos, nosso afeto em relação a eles. Sempre que o fazem, isso é tributado a fatores biológicos, de natureza, de constituição genética, de diferenças de comportamento entre as raças etc. Em todos os outros momentos, tem-se uma relação afetiva em que o animal absorve e retribui de forma não contraditória nossa demanda em relação a ele, dado que é, em medidas variáveis (de acordo com o animal: gato, cachorro, pássaros), sempre solícito. Tem-se, assim, um equacionamento que se auto-reforça: toda ressonância positiva de nossa demanda a confirma, ao passo que nenhuma negação a enfraquece. Desse modo, a afetuosidade dos animais não apenas não nos decepciona, quanto já se sabe, de antemão, que não irá fazê-lo. 

Assim, seguindo especificamente o que a frase diz, podemos dizer que alguém, sucessivamente decepcionado com as relações sociais, pode facilmente deixar de nutrir expectativas para com as pessoas — evitando desilusões —, passando a ter, nesse caso, um comportamento próximo ao que definimos como pragmático. O outro lado da moeda é que a afetividade com os animais é vivida de forma idealizada, purificada das tensões provenientes do quanto uma outra subjetividade pode negar, questionar, duvidar de, nosso afeto. 

De acordo com minha argumentação, fica claro que considero tanto a atitude idealista quanto a pragmática formas “equivocadas” de se relacionar com a realidade, pois lhes falta um elemento fundamental: a capacidade de dialogar, de forma viva e incessantemente renovada, com as inúmeras faces da realidade, de modo a não inundá-la com nossos ideiais, fantasias e demandas, como também não esvaziar nosso desejo de usufruir e gozar do real devido à aridez com que este se apresenta aos olhos de quem constrói uma miragem com seus valores e expectativas. 

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.


Nenhum comentário: