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sábado, 14 de janeiro de 2012

A permanência do inefável

Hoje quero comentar um conto de Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”, presente no volume Primeiras estórias (caso você não o tenha lido ainda, CLIQUE AQUI). Este livro contém diversas narrativas que tematizam o exótico, o sobrenatural, o inusitado, o insólito. Aquele conto aborda explicitamente o estranhamento radical do desvario, girando ao redor da inquietação provocada pela insistência com que a insanidade se afirma. Já o título aponta para algo que não existe, mas que nos constrange a conferir-lhe uma densidade através da pregnância, ênfase, com que uma alteridade muito próxima se afasta e se aproxima de forma perturbadora: “Aquilo que não havia, acontecia”.

O começo da narrativa contém uma indecisão que auxilia a leitura de todo o texto. Não fica claro se o pai mandara fazer a canoa já com intenção de se isolar no rio, ou se essa atitude foi desencadeada pela fala de sua esposa: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Como o narrador-filho explicita, sua mãe é a que sempre teve autoridade em casa, e essa ordem sobre o marido foi a última, derradeira, cumprida até o mais extremo. No fim do conto reaparece essa questão, quando o narrador especula que quem fez a canoa já teria sabido da motivação do pai. Assim, oscilamos entre uma decisão que já parecia tomada e uma subjugação extrema, visceral.

O pai saiu do meio dos vivos para continuar habitando entre eles como um morto-vivo, um fantasma, uma incógnita, cujo arbítrio a cada tempo parecia mais difícil de entender, pelo extremo de sua insistência. Trata-se de uma atitude sublime, em função da profundidade da anulação de si. Tal aniquilamento, entretanto, somente teve seu peso em função do fato de não coincidir com a simples morte, mas sim com a afirmação continuada do sofrimento indizível — inefável. O narrador, repetidas vezes, diz se impressionar com o fato de o pai suportar uma condição tão miserável, sujeita a doenças, fome, desconforto, imundície, frio, noites mal dormidas etc.: “o severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele aguentava”. A coragem e a força infinitas de afirmar indefinidamente a miséria continuada da anulação de si: essa contradição indizível é o núcleo de toda a narrativa.

O enigma do arbítrio permanece sob diversas formas ao longo das páginas. Em que pesem as primeiras formas de mudar a situação, tal como a presença dos soldados, do padre e dos homens do jornal com sua lancha, o que prevaleceu é a resignação perante a facticidade inamovível da decisão do pai: “a gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade”. Não seria difícil conceber uma atitude mais determinada de, por assim dizer, resgatar o homem, com vários barcos rastreando o rio à sua procura, mas a opção foi a de deixar que ele mesmo decidisse seu destino: “Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa”. O problema consiste no fato de ele ter escolhido uma terceira via, e todos, por sua vez, escolheram tão-somente tentar digerir por sua própria conta o absurdo indigesto que isso representava: “não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos”. O filho o alimentou durante todos os longos anos, e se pode dizer que, assim, alimentava a própria situação, dando-lhe os meios para permanecer como tal. O respeito absoluto ao direito de escolha, por outro lado, soa também como uma indiferença radical, pois: como se tolerou a permanência indefinida de uma situação de extrema penúria?

Tal como a canoa com aquele homem era um corpo estranho, mas afeito ao silêncio demorado do rio, a determinação obstinada do personagem pode ser vista como própria e bizarra para a vida de alguém que “não figurava mais estúrdio [extravagante] nem mais triste do que os outros... Só quieto”. Uma vida cuja planura se reflete na quietude larga do rio, e sulcada de forma sangüínea pela cisão imposta por seu arbítrio. Tal como se qualifica como arbitrário aquele que age sem critério, ao sabor da pura vontade e deliberação próprias — o que denota algo sem legitimidade, inadmissível —, a atitude do personagem foi de uma arbitrariedade paradoxal, que coloca em xeque a própria validade de seu arbítrio, uma vez que sua decisão tornava sua vida exangue.

Pouco depois do meio do conto explicita-se um elemento que de alguma forma já se afigurava desde o início, e que decidirá o desfecho da narrativa: uma relação tensa e ambígua de identificação do narrador-filho com o pai. A começar com a consciência culpada de comer uma comida gostosa e imaginar o sofrimento do pai, temos também a indicação da semelhança física, que, entretanto, é imediatamente colocada em xeque pela realidade atual da degeneração do pai, que “agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos e, com o aspecto de bicho”. A ambigüidade é logo em seguida reforçada com uma questão interessante: “Nem queria saber de nós; não tinha afeto?”. Isso é significativo, em função do fato de que se trata de uma cobrança a uma pessoa que parece desprezar o afeto da família, e, ao mesmo tempo — o que é mais instigante ainda —, voltar-se   unicamente para si mesmo. O narrador questiona que, se se tratasse de um desafeto, seria mais natural que ele simplesmente fosse para longe. O que parecia realmente inassimilável na atitude do pai era o quanto ela marcava de forma categórica um não-lugar, simetricamente alheio ao afeto e o desafeto, como uma espécie de terceira margem para o fluxo dos sentimentos. Essa insistência no não-humano acaba sendo sentida pelo filho como mais desumana.

Depois da passagem decisiva em que vemos a recusa do pai em conhecer a neta (o que pode ser tomado simbolicamente como uma recusa enfática da vida), o complexo identificatório é mais uma vez afirmado quando o narrador insiste em permanecer na casa, ao contrário dos outros membros da família, que resolvem afirmar e procurar novos meios de vida. Ele diz nunca poder querer se casar, pois, afinal de contas, “Nosso pai carecia de mim... sem dar razão de seu feito”. Mesmo já caminhando para a maturidade, simbolizada pelos primeiros cabelos brancos, o narrador-filho ainda insistia em afirmar, ao mesmo tempo, a legitimidade do desejo do pai e sua arbitrariedade, seu não-sentido. É precisamente por essa obstinação na ambigüidade identificatória que podemos explicar a pergunta que ele coloca: “de que era que eu tinha tanta, tanta culpa?”. A resposta seria: do fascínio que a negação sublime de si mesmo causava nele. Uma espécie de atração irresistível por um redemoinho que tragava o sentimento com uma força proporcional ao horror que ela causava. Quando, por fim, a derradeira frase é dita: “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor na canoa!...”, temos a passagem capital da fantasia à realidade. Ora, tanto maior o grau de realidade, tanto maior o horror perante o absurdo daquele fascínio por ocupar o vazio que o pai marcara incessantemente.

Essa tensão radical em torno da ambigüidade identificatória tem seu lance derradeiro quando o narrador questiona: “Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado”. Não se aplicariam essas duas frases ao próprio pai? Não teria ele também falido, calando-se na profundidade abissal de sua desrazão? Depois de se apontar para o abandono da família, da sanidade mental, de toda comunicação, do afeto e até da forma física propriamente humana, seria de se pensar que sim, mas a melhor resposta, na verdade, é não. Não há uma falência propriamente dita para o pai, uma vez que ele ousou concretizar a sublimidade contraditória da anulação de si, afirmando-a de forma enfática e persistente, ao passo que tal contradição no filho permaneceu frouxa, dado o distanciamento entre fantasia e realidade. O falimento, do filho, se caracteriza por uma extrema veleidade, uma vontade hesitante, que oscilou entre a fantasia culpada e a fuga covarde. O silêncio do pai era como que o eco sempiterno de uma sublimidade incompreensível; o do filho, o testemunho da fragilidade radical perante o abismo, que nos atrai na proporção com que ameaça nos aniquilar.

Um comentário:

Zuk XV disse...

O mais interessante de Guimarães Rosa é ele conseguir cativar as pessoas com temas e histórias contados em nossa própria terra, mas ao mesmo tempo essa terra que só ele descreve , como se só ele conhecesse o suficiente... é o Universo em Minas e quem quiser conhecê-lo que pegue seu facão e embrenhe pelas veredas e sertões sem olhar para trás, não há trilhas nem guias , é você com você mesmo.