Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Elogio da escrita

"Não há como escrever bem sem uma boa leitura": essa frase, e suas variações, tal como:  "é preciso ler muito para escrever bem" etc., é ouvida várias vezes pelos estudantes, principalmente no ensino fundamental e médio. De fato, a leitura contribui decisivamente para melhorar a percepção interpretativa da realidade, para formar o pensamento abstrato, para saber dialogar com várias perspectivas sobre o mesmo assunto etc. Por outro lado, com igual insistência deveria ser falado que é necessário muita escrita para se ter uma boa escrita. Tal como várias perspectivas pedagógicas gostam de falar freqüentemente, quanto mais alguém produz, é ativo na construção de um conhecimento, mais e melhor aprende. Costuma-se fazer uma gravação bastante clara entre percentuais de aprendizagem, desde a postura mais passiva, como a de apenas ler até a de construir um objeto a partir daquilo que foi não apenas lido, mas ouvido, escrito, falado e posto em prática. Nesse cenário, a escrita é de crucial importância, pelo fato de tendencialmente arrancar o sujeito do círculo traçado por suas próprias ruminações, de sua complacência com suas próprias idéias, hesitações e formas fragmentárias de concepção de si e da realidade.

Immanuel Kant, filósofo alemão, colocou de forma clara em sua primeira grande obra, a Crítica da razão pura, que o sujeito é apenas um fenômeno para si, de modo que não se pode ter um conhecimento absoluto sobre a própria subjetividade. O pensamento é algo que precisamos esperar acontecer para sabermos o que estamos pensando. É interessante prestar atenção a como não conseguimos nos antecipar a nosso próprio pensamento, de modo que se estamos raciocinando sobre o assunto, precisamos não apenas ser ativos ao pensar, mas também espectadores, observadores, de nossa própria atividade intelectual. Todo pensamento é, então,  um misto de um impulso produtivo e um receptivo, de modo que, ao final, podemos nos aperceber do que somos pelo fato de que sedimentamos a nós mesmos naquilo que não apenas pensamos, mas também praticamos. Se, além disso, o espectador de nosso produzir é uma outra pessoa, cuja receptividade está ancorada em princípios interpretativos e formas de valoração diferentes, então este processo de sedimentar a si mesmo na forma do pensamento adquire uma exigência muito própria. Fazer dialogar as suas próprias leis e princípios de concepção de mundo com as de outras pessoas é um modo especialmente valioso para descobrir, em si mesmo, uma forma de pensar a realidade que não se pensaria apenas a partir de nossa própria demanda de compreensibilidade. Essa experiência está na base de uma velha piadinha contada nas salas de professores em todas as escolas: "Depois de uma aula, se nenhum aluno tiver aprendido nada, pelo menos você aprendeu". Isso é verdade especialmente quando se levantam questões inusitadas, críticas, oriundas de perspectivas muito alheias ao universo que uma determinada temática teórica foi construída.

Esse diálogo com o outro, seja pela fala, seja pela escrita, produz um movimento de exteriorização, de objetivação. Além disso, tal como toda a filosofia de Hegel quis mostrar, pode-se dizer também de um movimento de alienação, mas não no sentido pejorativo de perda de si mesmo, de ceder aquilo que nos é próprio com vistas à idolatria e/ou subjugação ao outro. Trata-se, na verdade, de uma forma de sair de si mesmo de modo a participar da lógica do mundo, fazendo com que uma inércia subjetiva de associações arbitrárias de idéias ceda lugar a um compromisso entre si mesmo e a realidade, que inclui principalmente as formas de compreensão alheias.

O fato de que a escrita permanece no tempo é especialmente relevante. Ela exige uma "prestação de contas" em relação aos dados que serão lançados na mesa do conhecimento,  e cujas faces serão reconhecidas também como parte desta própria realidade. Isto é especialmente significativo na medida em que, ao estudar uma de determinada ciência, não dirigimos o olhar interpretativo diretamente para a realidade, mas tomamos como um objeto de estudo os próprios textos, que são, assim, a realidade a ser estudada em primeira instância.
Tal como um estalactite, que se sedimenta e cresce gradualmente ao longo de séculos, a escrita também pode precisar passar por processo semelhante em vários momentos. Na confecção de um texto teórico de maior extensão, como um projeto de pesquisa, dissertação de mestrado e tese de doutorado, creio que seja altamente relevante escrever mais de uma vez sobre o mesmo assunto, de modo a aprendermos com o que nós mesmos escrevemos. Trata-se não apenas de amadurecer uma idéia, mas também de olhar para ela de fora, assumindo de forma viva essa perspectiva de exteriorização, de saída de si mesmo. Tal como pintores, especialmente antes do movimento de abstração, costumavam pintar várias versões do mesmo quadro até encontrarem aquela que mais se adequava esteticamente na articulação de todos os seus elementos, a escrita também pode exigir camadas de realizações, depósitos de insights, de intuições interpretativas que se somem ao longo do tempo, se sobreponham e possam, em seu entrelaçamento, produzir novas camadas de sentido e contribuir para o enriquecimento de todo o texto. -- Claro está, em relação a este trabalho acumulativo, que quanto mais elementos são somados neste processo "artesanal", mais se exige habilidade de construção de um texto unitário, que não se perca nessa multiplicidade de elementos e que mantenha uma coerência satisfatória.

Mas a escrita não é boa apenas para produzir bons textos. Quando se começa a escrever periodicamente,  com uma frequência pelo menos semanal, é possível sempre notar mudanças na própria forma com que as idéias são articuladas, mesmo quando não estamos escrevendo. De forma análoga a como professores de música sempre recomendam que não se treine com um instrumento horas seguidas durante um único dia, mas sim menos tempo ao longo da semana, o hábito da escrita deveria fazer parte do dia-a-dia de todas as pessoas. Foi com uma surpresa desagradável, embora não muito grande, que ouvi de alguns alunos de uma disciplina de Estética (no sexto período de seu curso de graduação em belas artes), que eles, em três anos de curso, nunca precisaram escrever nem uma única linha para serem aprovados em suas disciplinas. Trata-se de um curso evidentemente prático, em que o fazer artístico é a alma e o princípio do aprendizado. Isso, entretanto, não dispensa em hipótese alguma a dimensão reflexiva sobre o que se faz, a qual deve necessariamente se consubstanciar no processo de escrita freqüente acerca do que se faz. É inegável que o próprio fazer artístico e a relação dialogada entre os alunos e destes com os professores inclui elementos reflexivos, mas a habilidade de expressão escrita sobre o que é feito me parece de tal ordem significativa que não pode ser negligenciada.

Naturalmente, tudo isso pressupõe uma boa intenção por parte de quem escreve, uma vez que, no âmbito das formas, estilos e contextos de escrita, várias são as estratégias possíveis de enganos, em que pseudo-erudição, rebuscamentos, falsa profundidade etc. servem a fins regressivos, falsificadores. Considerando, entretanto, a intenção de progresso em relação a nossas formas de enxergar a realidade, a escrita sempre será um instrumento de valor inigualável.

Diante disso tudo, parece-me que os projetos pedagógicos escolares devem conceder maior espaço para as atividades de redação, de produção de textos, de modo a sistematicamente confrontar os estudantes com as suas próprias idéias. Além disso, tal como muitas pessoas gostam de ler romances, poesias, jornais etc. todos dias, deveríamos cultivar também o gosto por escrever freqüentemente. Se a leitura é uma viagem através das idéias, a escrita é um campo fértil em que florescem nossas próprias e inusitadas concepções de mundo.

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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O meio não é a mensagem

Há algum tempo, a MTV fez uma campanha de marketing ousada, em que durante alguns minutos era exposta uma frase, sobre um fundo azul, em que se lia: “Desligue a televisão e vá ler um livro”. A ousadia, naturalmente, está em que a emissora quis angariar para si a percepção de ser suficientemente crítica sobre os conteúdos veiculados não apenas pela televisão em geral, mas como também por ela própria. O quanto este impacto negativo-crítico, na verdade reverte de forma favorável ao desejo de ter mais consumidores para estes mesmos conteúdos criticados nessa mensagem, isso é algo que gostaria de comentar futuramente. Quero hoje falar do que está implicado naquela frase, que indica algo interessante da percepção que se tem do papel do próprio meio das comunicações, sejam elas de massa ou não. Está em jogo, de forma explícita, a percepção de que o suporte, o “meio”, livro é um índice do quanto uma obra já se sobressai como tendo mais valor cultural do que um programa de televisão, por exemplo. Esse contraste fica muito claro nos dizeres da foto abaixo.

Essa perspectiva, que me parece equivocada, possui, entretanto, raízes em pelo menos quatro momentos da história de teorias sobre os meios de comunicação de massa. Um deles está na concepção de Walter Benjamin sobre o cinema, presente em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em que o autor analisa o significado estético-político desse meio através de sua teoria dos choques, em que se diz que a velocidade da projeção e das mudanças nas cenas cinematográficas constituiria um bombardeio visual aos espectadores. Haveria uma analogia entre tais impactos e o significado crítico-estético do movimento dadaísta, com sua afronta às concepções tradicionais do objeto artístico. Tal como já se comentou sobre este famoso texto, Benjamin quer extrair um significado artístico/estético da própria dimensão material do cinema, como se o fato de ser constituído por uma sucessividade de imagens já qualificasse algo de seu teor, sua qualificação e sentido estéticos.

O segundo momento são as reflexões de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural na Dialética do esclarecimento, em que, de forma semelhante a Benjamin, o cinema será criticado já na sua própria materialidade. Para os autores, o cinema transforma todas as imagens em uma forma de escrita a ser decifrada, e não propriamente contemplada. O fluxo das imagens seria análogo a como se pode ler e hieróglifos, em que cada elemento imagético contém um significado a ser traduzido. Tal crítica deixa muito pouco, ou até mesmo nenhum, espaço para a reflexão acerca do modo específico com que tais imagens são articuladas para produzir arte, que exige propriamente contemplação e não apenas tradução estereotipada de imagens sucessivamente jogadas para os espectadores.

O terceiro momento dessa série se dá de forma clara com a idéia de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem”. Tal como a própria expressão diz, está em jogo a consideração de que os meios tecnológicos propiciam uma forma de ler a realidade que condiciona, modela e induz de tal forma a percepção, que, considerando o conjunto de produções em um determinado âmbito, como a televisão, o conteúdo próprio dessas obras seria ensinar a ver televisão. Tal como a seqüência de páginas de um livro moderno induziu certa percepção do conjunto das idéias nele contido diferente do modo como um pergaminho produzia uma leitura como que em um fluxo contínuo, o enquadramento, a luminosidade, a fluidez das imagens televisivas teria como seu conteúdo próprio a insistência com que se vende a adaptação a este modo de ver a realidade.

O quarto momento que me ocorre é a crítica de Jean Baudrillard à sociedade de consumo, em que o autor, explicitamente concordando com a posição de McLuhan, diz de uma “cultura dos mass media”, como se os meios de comunicação de massa possuíssem uma cultura específica, própria, em que reina não propriamente uma lógica de distorção ou de manipulação de uma suposta verdade objetiva dos fatos, da realidade exterior, mas sim a criação de uma neo-realidade, que funciona como uma imagem mítica. Para o autor francês, o que é próprio dos mass media não é a produção de ideologias específicas, mas sim a manipulação de signos, em cujas características ressalta a auto-referência, de modo a que cada meio sempre vende a si mesmo ao público. Nessa perspectiva, toda obra de arte, como um quarteto de Beethoven, quando representada, mesmo que integralmente, em um programa televisivo, tenderá a ser absorvida e homogeneizada aos demais programas como um mero signo, no caso, de status, de erudição.

É evidente que todas essas concepções teóricas possuem uma alta complexidade, contendo diversos fundamentos, hipóteses e conceitos que se entrelaçam de forma a nuançar as linhas gerais que esboçamos. Mesmo dentro e próximo dessa problemática há formulações que em alguns momentos relativizam essas linhas que apontamos. Apesar disso, parece-me suficientemente forte e bem caracterizada essa tendência de considerar o substrato material de um determinado meio de comunicação como já contendo um significado estético/artístico/subjetivo, e é a essa concepção que quero me contrapor.


É preciso deixar claro, por outro lado, que a minha argumentação não visa dizer de forma alguma que a televisão, principalmente a de canais abertos, contenha um nível cultural minimamente satisfatório em suas atrações. É muito evidente que a qualidade média dos programas é bastante ruim, com uma lógica e princípio de estruturação radicalmente alienantes, tal como já comentei em relação aos reality-shows, por exemplo. Importa, nesse aspecto, distinguir a qualidade de cada programa, em vez de fazer uma crítica geral aos meios de comunicação.

Começo respondendo à campanha da MTV com uma pergunta: quais livros eu deveria ler em substituição aos programas de baixo nível cultural? Seria, por exemplo, um manual de auto-ajuda com receitas fáceis para uma vida feliz? Ou contos eróticos de revistas femininas? Quem sabe um romance de Sidney Sheldon? — De forma análoga, quais livros se suicidam quando se vê um programa televisivo de mau gosto? Por acaso seriam esses mesmos livros que citei? — É por demais evidente que há  inumeráveis livros tão ruins ou piores que algum programa de televisão de baixo nível cultural, ao passo que há muita diferença entre a qualidade de programas televisivos, desde os de auditório apelativos e infantilizados, até programas de entrevista com teóricos importantes no panorama intelectual e político. É preciso se contrapor a essa homogeneização fácil, que idealiza de forma positiva o livro e de forma negativa os meios de comunicação em massa, como se a concentração requerida pelo livro já indicasse certa disposição cultural superior, enquanto a suposta posição distraída, descompromissada de quem assiste televisão já indicasse uma passividade da absorção do conteúdo da obra, de tal modo que esta fica sob a suspeita de ser algo ruim por princípio.

Embora a teoria de Benjamin sobre o cinema seja interessante em alguns aspectos, como ao tratar da dimensão política, ela se baseia, entretanto, em fundamentos que me parecem francamente inadequados. No que diz respeito ao tema que tratamos aqui, eu diria que o filósofo não soube avaliar o quanto a dimensão estética consiste no modo como se articulam os diversos elementos materiais em determinado meio expressivo. O impacto que o cinema teve no início do século XX me parece análogo ao vivido na Grécia devido ao progresso da democracia.  A recusa de Platão em relação aos poetas e a todo o âmbito das artes, com a sua mímesis da realidade, encontrou um eco na crítica que Benjamin faz ao cinema. Em vez de perceberam que o prazer da arte consiste na forma como o sujeito se assenhora de toda a dimensão material, natural e historicamente sedimentada nos materiais artísticos, de modo a construir uma significação através do modo como essa orquestração de elementos é realizada, ambos quiseram já perceber na literalidade do fazer artístico um significado cultural por si mesmo. Em nossos dias, quando já assimilamos de longa data o impacto cultural que o cinema produz, podemos ver claramente que, em vez de choques — que Benjamin associou aos traumas psíquicos —, podemos dizer que vários filmes são bem mais sonolentos e entediantes do que muitos livros que apelam para suspenses e incitam a imaginação a operar continuamente com novas imagens. Usando a tradicional diferenciação das artes representativas/miméticas proposta por Aristóteles, a saber, o meio em que a representação é feita, o modo como ela é realizada e o objeto que é representado, podemos dizer que a teoria de Benjamin não concedeu a suficiente autonomia do como em relação ao meio.

Crítica análoga pode ser feita em relação à concepção de Adorno sobre o cinema, uma vez que em várias passagens Adorno parece deduzir, já da concretude do meio cinematográfico, um significado subjetivo, referente à disposição estética do espectador. Para o filosófo, pesou sobremaneira a gigantesca capacidade do cinema de fazer uma representação naturalista da realidade, englobando a imagem em movimento, o som, a narrativa e a música. Esse poder representacional concederia pouco espaço à imaginação do espectador, que ficaria, assim, submetido ao poder de duplicação da realidade engrandecida pelo brilho técnico do próprio meio. — Ora, não é necessário que uma obra de arte ceda espaço à imaginação em virtude de alguma “escassez representativa” em seus meios para que a fantasia seja exercitada em sentido próprio, ao constituir o sentido estético da obra como algo enigmático, que demande a participação ativa do espectador. A comparação entre Platão e Benjamin parece-me também pertinente no caso de Adorno, uma vez que se me afigura claro que ele não concebeu de forma adequada o quanto a construção do sentido estético pode ser suficientemente vigorosa para sobrepujar em muito o poder representacional/mimético que o cinema demonstrou possuir, não apenas na primeira metade do século XX, como também nos dias atuais, com o progresso contínuo da tecnologia digital.

Se concedemos validade a essas considerações críticas, então torna-se clara a inadequação da idéia de McLuhan, pois a suposta “mensagem”, seja de qual meio for, não pode se limitar ao exercício com este. É inegável que há efetivamente influência dos diversos meios no modo como as pessoas se portam em relação a eles, mas eu diria que em hipótese alguma isso seja algo totalizante. Existe uma diferença infinita entre o sentido, o significado e valor estético de filmes como de Pasolini, François Truffaut e Glauber Rocha, por um lado, e os de suspense e de aventuras, como os estrelados por Sylvester Stallone e Chuck Norris. Falsifica enormemente a questão dizer que todo meio, mesmo que nos limitemos aos que envolvem tecnologia em sua produção, como televisão, cinema e rádio, tenha como seu sentido adestrar o público a eles mesmos. Por mais que a intenção seja crítica, no sentido de desmascarar a massificação e o condicionamento perceptivo, o resultado acaba indo contra esse propósito, pois dificulta o suficiente discernimento crítico da enorme diferença de valor entre as diversas produções.

Por fim, mesmo reconhecendo a enorme validade da teoria da sociedade de consumo de Baudrillard, não nos parece adequado dizer de uma “cultura dos mass media”. Mesmo tomando esta idéia como um “tipo ideal”, a que os diversos produtos se aproximam, as formulações do autor tendem a não permitir a construção de um princípio que nos permita identificar, no âmbito dos próprios meios de comunicação, as diferenças qualitativas entre as obras. Não há uma cultura impregnada necessariamente aos meios de comunicação de massa, de modo que assistir à representação de um concerto de Beethoven pela televisão não necessariamente significa tomar essa atividade como propiciando acesso a um mundo de erudição, anulando o prazer estético com a música em sua dimensão artística propriamente dita. É inegável que isso pode efetivamente acontecer, mas o grande problema, tanto na posição de Baudrillard quanto dos outros três autores, é de certa generalização, que tende a traduzir o significado legível em um plano de contato com as obras para o de seu sentido cultural, estético, subjetivo — o que leva a um achatamento das possibilidades de valorização crítica das obras culturais.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Crônica de uma vida provisória

Dividir o mundo entre aparência e a essência, entre as contingências, o efêmero e, portanto, não essencial, e o que há de mais profundo, significativo e, assim, mais verdadeiro, sempre nos foi ensinado pela filosofia e por todas as ciências. A metafísica — que já nos primórdios do pensamento ocidental separava de forma radical um mundo transcendente que concernia à verdade mais profunda de todas as coisas e o mundo das sombras em que nada tem sua própria verdade como seu modo de ser próprio no âmbito das aparências — vê-se refletida de forma bastante clara nas religiões ocidentais, em que a vivência mundana e afeita ao fluxo do tempo é contraposta a um mundo transcendente lastreado pelos desígnios divinos.

No âmbito psíquico, de constituição da subjetividade, podemos ver algo análogo a isso com a idéia psicanalítica de que por detrás de nossos atos conscientes, de um conteúdo manifesto em nossas ações, nossos esquecimentos, sintomas neuróticos e sonhos, há motivações, fantasias e desejos conectados intimamente àquilo que nos define como sujeitos. Não se trata apenas de algo mais profundo, mas que está submetido a uma lógica de aglutinação e de relação entre elementos subjetivos, emocionais e psíquicos que é bastante avesso àquilo que podemos entender e interpretar a partir dessa superfície perceptível de nossa vida.
R. Rauschenberg - Estate

Como está muito claro a partir de considerações de uma sociologia ligada ao modo de vida do homem contemporâneo, essa bipartição da realidade, seja ela subjetiva ou objetiva, não é algo situado apenas no âmbito teórico, em termos de desenvolvimento da história das idéias, mas se dissemina pela percepção cotidiana de todo habitante que compartilhe do processo de individualização radical operada no ocidente. Inumeráveis são os caminhos possíveis a serem traçados entre as especulações metafísicas, teóricas e científicas até a vivência de senso comum dos cidadãos de uma grande metrópole. Meu objetivo aqui é falar de um modo com que esses dois planos da existência se traduzem em certa expectativa de vida, correlata de modos de valoração da própria existência.

Ideais, fantasias e devaneios circunscrevem um plano de assimilação interpretativa da realidade a partir de um complexo de imagens e valores que fazem com que tenhamos um "sistema" de leitura da realidade, de modo a pautar nossa existência, fazendo com que avaliemos todas as coisas, seja em sua presença, seja pelo peso de sua ausência. Creio que o indivíduo que se define ao redor do culto da própria personalidade, orgulhoso pela diferença de si em relação a todos os outros, pode facilmente nutrir com afinco e obstinadamente a fantasia de que o que faz agora, o modo como é no presente, aquilo que é capaz de realizar atualmente, bem como tudo o que gostaria de fazer, mas se vê incapaz, etc., que tudo isso, enfim, é apenas provisório, são elementos de uma fase da vida, algo que deverá ser superado quando... "Eu me casar", "Acabar meu curso superior", "Passar a ter um modo diferente de encarar a realidade", "Ter a profissão que me realize intelectual, financeira e pessoalmente", e um sem-número de ideais, modos de ser e condições de vida suficientemente diferentes da realidade atual para proporcionar uma mudança tão candente que revele uma substância oculta, não perceptível através das contingências, efemeridades e desvios do agora.

Essa fantasia é auto-alimentada pela percepção de induzir a uma  mudança, aliada à virtude da espera, do bom senso de olhar "bem" para as coisas, julgando-as em seu valor atual. Trata-se de uma fantasia que se reveste da aura do realismo bem dosado, que, ao mesmo tempo, recusa se limitar a um mero conformismo, dado que pode incluir, também, algum esforço em direção a esses planos mais substanciais da existência, que supostamente realizam como que por dentro aquilo que alimenta a expectativa de realização mais essencial de si. Além disso, está em jogo toda uma possibilidade de se avaliar por mais de um ponto de vista, que também legitima a fantasia como não sendo míope, não centrada em um modo por assim dizer calcificado de ser.

Ocorre que, ao longo do tempo, esse substrato mais essencial da existência acaba se revelando como uma promessa eterna, que apenas se consubstancia como uma promissória a ser paga em um tempo que, independente das condições reais em que ela poderia ser saldada, insiste obstinadamente em não se realizar. Passam-se os anos, e a pretendida alteração de postura perante a realidade, por exemplo, não ocorre de forma satisfatória, de modo que sempre subjaz como uma raiz cuja seiva apenas gera os frutos provisórios que sempre amadurecem em sua forma original. Descobre-se, a contragosto, com o amargo paladar de um realismo resignado, que tudo aquilo que sempre se praticou era o que há de mais próprio, ou seja, essencial, o que efetivamente se pode produzir em virtude do que somos, a despeito de nossa "profundidade" idealizada.

Tal como a crítica da ideologia nos acostumou a pensar, chama-se de ideológico aquele modo de concepção da realidade que se situa por demais acima das vicissitudes, contradições e conflitos da realidade, do modo como ela se faz pela superação e embate das diferenças. De forma análoga, essa fantasia de um núcleo mais substancial de nós mesmos e da vida das circunstâncias constitui-se como um mito, uma camada ideológica imune às vicissitudes da realização concreta e das nossas possibilidades de existência. Uma "ideologia pessoal", uma "ideologia subjetiva", que consubstancia uma camada de existência não afetada pelas contingências das quais nós nos lamentamos diariamente. A ideia que está por detrás dessa fantasia, tal como me parece, é a de que podemos escapar prolongadamente do fato de que não somos mais do que aquilo que podemos realizar. Como tarefa "política" e de orquestração de nossas possibilidades, podemos falar também de uma "utopia subjetiva", no sentido etimológico da palavra, ou seja, de um lugar (tópos) que nos ocupa mais substancialmente do que a nossa capacidade de ocupá-lo.

Desnecessário é dizer, por outro lado, que mudanças substanciais não só podem, como efetivamente ocorrem ao longo da vida. A experiência de uma terapia psicanalítica bem realizada conflui para a uma despersonalização, uma perda de certezas relativas, principalmente, a nossa própria identidade. Este é um caso, entretanto, paradigmático do que uma mudança substancial contém: algo inesperado, não preestabelecido através de alguma fantasia cultivada conscientemente. O que se sucede após este momento de ruptura está muito mais ligado a uma negação do que sempre fomos, do que à instauração bem-sucedida de um plano ideal que já se delineava em nossas fantasias.

Essa circunstância de uma alteração inesperada, que no mais das vezes é mediada por um processo de negação às vezes difícil de suportar, tem uma analogia com a obra de arte. Um dos grandes pintores do século XX, Robert Rauschenberg, dizia que não pintava um quadro quando era capaz de imaginá-lo completamente. Se sua imaginação foi capaz de circunscrever toda a obra, isso seria um indício de que esta não conteria elementos suficientemente significativos em termos estéticos, dado que ele mesmo não foi capaz de ser surpreendido pela configuração material do artefato, da "coisa-pintura".

Se dermos suficiente crédito a essa relação entre a experiência psicanalítica e a da criatividade estética, podemos generalizá-la no sentido de que rupturas essenciais ocorrem, mas no mais das vezes estão associadas a um processo de negação da inércia de nossa auto-percepção, de ruptura do véu que tecemos ao redor de nós mesmos com nossas fantasias idealizadas. — Sem a suficiente determinação para tal negatividade perante o que somos, essa vida provisória se torna "crônica", uma distensão indefinida do que sempre deveria passar, mas cuja essência se mostra no modo como usurpa a dignidade do ideal.

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Crítica do humor político

O humor tem várias faces, e creio que, apesar de várias teorias pretenderam falar dele a partir de um princípio geral, seu objeto em cada caso merece uma consideração específica. É inegável que haja, de fato, alguns elementos universalmente verificáveis em todas as formas de humor, mas o modo como nos dispomos perante objetos e circunstâncias específicas podem esclarecer de forma interessante o fenômeno como um todo.

Quero hoje falar do humor que toma a política e os políticos como seu objeto, especialmente quando se trata de uma crítica generalizada a este âmbito da organização social. Em quase todo jornal impresso, mais à esquerda ou à direita no espectro político, temos espaço para alguma charge dirigida a assuntos da atualidade, e são bastante freqüentes aquelas peças que se dirigem, não a determinadas personalidades e eventos específicos, mas à política em geral, tal como a que pode ser vista à direita.

Todo juízo moral, quando é generalizado, sempre corre o risco de exprimir tão-somente um preconceito, constituindo-se em uma renúncia ao esforço da reflexão sobre cada caso. Quando essa generalização se soma ao cômico, então temos um estado de coisas bastante propício a uma dissimulação, à construção de uma aparente inteligência através da atitude de distanciamento sublime perante o objeto criticado. Somos imediatamente transportados para um plano da realidade tipicamente lúdico, ficcional, em que nos permitimos certa liberalidade perante nosso senso de realidade, podendo gozar do escárnio relativo ao objeto, sem que, ao mesmo tempo, tenhamos que pagar o preço da responsabilidade de um juízo sóbrio, objetivo, que se comprometa com argumentos. Defrontados com uma exigência de análise e explicitação de fundamentos, somos resguardados pelo álibi do: “é apenas brincadeira, sei que na realidade as coisas são diferentes”.

É inegável que o humor trafega pela região turva da diferença e da identificação. Aristóteles, em sua Poética, já dizia que a comédia está baseada em tipos naturais, de modo que sempre rimos de algo com que nos identificamos de alguma maneira. Por outro lado, o escárnio e a zombaria também significam o esforço de nos afastarmos disso com que nos identificamos. Essa ambigüidade pode ser vista especialmente no caso das piadas relativas a homossexuais e loucos, quando uma secreta e inconfessável atração se alia à repulsa, formando uma solução de compromisso. Theodor Adorno apontava para a interessante frequência com que os nazistas faziam troça dos judeus, imitando-os incessantemente. Tal como um boneco de vudu, a imagem do escárnio quer apreender e confiscar a dignidade do outro na medida em que eu o aproximo de mim e o enclausuro nessa imagem que posso manipular a meu bel-prazer.

Certa vez, um colega de trabalho me disse que um grande amigo dele, conhecido há vários anos, havia entrado para a política, ocupando um cargo público. Meu colega disse, então, que simplesmente passou a evitá-lo, deixando de ser seu amigo de forma proposital. Claro está que o motivo não é outro que não a perspectiva de que o amigo entrou em uma área da vida sujeita às piores influências, reunidas sob o rótulo geral de corrupção. Tal repugnância se mostra claramente visível em diversas charges que mostram políticos como ratos em esgotos, porcos se regateando na lama, vampiros a sugar o sangue de contribuintes e outras metáforas bastante enfáticas em sua tentativa de expulsão catártica da decrepitude humana na figura do político.

Façamos um “pacto” com nós mesmos. Comprometamo-nos com planos de ação específicos, projetos bem delineados, metas de produtividade, e até mesmo de compromisso com formas de lazer enriquecedoras, como ir a teatros, concertos e cinemas. Não nos surpreendamos, entretanto, o quanto nos “vendemos” facilmente por formas de distração insignificantes, dando atenção a coisas mesquinhas, com desperdício de tempo, energia e dinheiro, não apenas uma, duas ou cinco vezes, mas de forma repetida e freqüente ao longo de anos. Experimentamos, assim, o quanto venal se pode ser em relação a nossos próprios desígnios. Em outra circunstância, vemos, de forma análoga, o quanto é tentador usufruir da posição privilegiada de um amigo em uma fila pedindo para entrar no lugar à sua frente, aumentando mais ainda o tempo de espera de quem está atrás. Essas e infinitas outras formas de corrupção individual, praticadas de forma imperceptível, acima e abaixo da zona ácida de nossa metralhadora moral, demonstram todo o mar de agitação moral contraditória que encontra nessa imagem ambígua que escarnece do, e ao mesmo tempo se identifica com o, político de forma altiva e sublime no humor.

O político é apresentado como aquele que está imerso integralmente nesse lodaçal da perdição ética, de cuja certeza temos as provas em cada escândalo e denúncia de malversação do dinheiro público. Sob o pretexto de manter viva a consciência crítica em relação a tudo isso, somos levados a nos desfazer da tarefa de julgar especificamente os autores de cada escândalo. Trata-se de uma crítica que, através de seu sentido expiatório, catártico, que quer despejar toda a fúria perante nossa própria venalidade, serve muito bem à preguiça de uma crítica reflexiva. Temos aí a já muito conhecida (mas muitas vezes esquecida) idéia de que essa crítica generalizada cai perfeitamente bem ao propósito de políticos acintosamente desonestos para se manterem no poder, uma vez que a generalização de escárnio apenas desobriga a todos da exigência de seriedade com o voto e com o envolvimento com as causas públicas. A acidez radical da zombaria pseudo-crítica tem como resultado concreto a apatia resignada em relação a toda possibilidade de se fazer política, digerindo com uma complacência impressionante a corrupção como um mal tão corriqueiro quanto se mostra repulsivo nas charges. Não tenho a menor dúvida de que a quase totalidade dos eleitores de políticos acusados, processados e condenados repetidas vezes por corrupção professa tal atitude de escárnio e desconfiança apática em relação a toda a esfera política.

Tudo isso, entretanto, não pretende desconsiderar a validade do humor como instrumento de crítica ao âmbito político. Em vários momentos ele pode ser usado de forma criativa para a chamar a atenção para algum aspecto que não despertaria o devido interesse, além de poder contribuir para a disseminação de alguma ideia. Para que esse uso progressista se efetue, todavia, penso que deva sempre se dirigir a um aspecto ou fato determinado, específico, e não a generalizações, que mais fazem perder de vista o que se pretende criticar do que fomentar uma atitude efetivamente combativa.

Para terminar, nada mais a propósito do que o célebre texto de Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

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