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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Crítica do humor político

O humor tem várias faces, e creio que, apesar de várias teorias pretenderam falar dele a partir de um princípio geral, seu objeto em cada caso merece uma consideração específica. É inegável que haja, de fato, alguns elementos universalmente verificáveis em todas as formas de humor, mas o modo como nos dispomos perante objetos e circunstâncias específicas podem esclarecer de forma interessante o fenômeno como um todo.

Quero hoje falar do humor que toma a política e os políticos como seu objeto, especialmente quando se trata de uma crítica generalizada a este âmbito da organização social. Em quase todo jornal impresso, mais à esquerda ou à direita no espectro político, temos espaço para alguma charge dirigida a assuntos da atualidade, e são bastante freqüentes aquelas peças que se dirigem, não a determinadas personalidades e eventos específicos, mas à política em geral, tal como a que pode ser vista à direita.

Todo juízo moral, quando é generalizado, sempre corre o risco de exprimir tão-somente um preconceito, constituindo-se em uma renúncia ao esforço da reflexão sobre cada caso. Quando essa generalização se soma ao cômico, então temos um estado de coisas bastante propício a uma dissimulação, à construção de uma aparente inteligência através da atitude de distanciamento sublime perante o objeto criticado. Somos imediatamente transportados para um plano da realidade tipicamente lúdico, ficcional, em que nos permitimos certa liberalidade perante nosso senso de realidade, podendo gozar do escárnio relativo ao objeto, sem que, ao mesmo tempo, tenhamos que pagar o preço da responsabilidade de um juízo sóbrio, objetivo, que se comprometa com argumentos. Defrontados com uma exigência de análise e explicitação de fundamentos, somos resguardados pelo álibi do: “é apenas brincadeira, sei que na realidade as coisas são diferentes”.

É inegável que o humor trafega pela região turva da diferença e da identificação. Aristóteles, em sua Poética, já dizia que a comédia está baseada em tipos naturais, de modo que sempre rimos de algo com que nos identificamos de alguma maneira. Por outro lado, o escárnio e a zombaria também significam o esforço de nos afastarmos disso com que nos identificamos. Essa ambigüidade pode ser vista especialmente no caso das piadas relativas a homossexuais e loucos, quando uma secreta e inconfessável atração se alia à repulsa, formando uma solução de compromisso. Theodor Adorno apontava para a interessante frequência com que os nazistas faziam troça dos judeus, imitando-os incessantemente. Tal como um boneco de vudu, a imagem do escárnio quer apreender e confiscar a dignidade do outro na medida em que eu o aproximo de mim e o enclausuro nessa imagem que posso manipular a meu bel-prazer.

Certa vez, um colega de trabalho me disse que um grande amigo dele, conhecido há vários anos, havia entrado para a política, ocupando um cargo público. Meu colega disse, então, que simplesmente passou a evitá-lo, deixando de ser seu amigo de forma proposital. Claro está que o motivo não é outro que não a perspectiva de que o amigo entrou em uma área da vida sujeita às piores influências, reunidas sob o rótulo geral de corrupção. Tal repugnância se mostra claramente visível em diversas charges que mostram políticos como ratos em esgotos, porcos se regateando na lama, vampiros a sugar o sangue de contribuintes e outras metáforas bastante enfáticas em sua tentativa de expulsão catártica da decrepitude humana na figura do político.

Façamos um “pacto” com nós mesmos. Comprometamo-nos com planos de ação específicos, projetos bem delineados, metas de produtividade, e até mesmo de compromisso com formas de lazer enriquecedoras, como ir a teatros, concertos e cinemas. Não nos surpreendamos, entretanto, o quanto nos “vendemos” facilmente por formas de distração insignificantes, dando atenção a coisas mesquinhas, com desperdício de tempo, energia e dinheiro, não apenas uma, duas ou cinco vezes, mas de forma repetida e freqüente ao longo de anos. Experimentamos, assim, o quanto venal se pode ser em relação a nossos próprios desígnios. Em outra circunstância, vemos, de forma análoga, o quanto é tentador usufruir da posição privilegiada de um amigo em uma fila pedindo para entrar no lugar à sua frente, aumentando mais ainda o tempo de espera de quem está atrás. Essas e infinitas outras formas de corrupção individual, praticadas de forma imperceptível, acima e abaixo da zona ácida de nossa metralhadora moral, demonstram todo o mar de agitação moral contraditória que encontra nessa imagem ambígua que escarnece do, e ao mesmo tempo se identifica com o, político de forma altiva e sublime no humor.

O político é apresentado como aquele que está imerso integralmente nesse lodaçal da perdição ética, de cuja certeza temos as provas em cada escândalo e denúncia de malversação do dinheiro público. Sob o pretexto de manter viva a consciência crítica em relação a tudo isso, somos levados a nos desfazer da tarefa de julgar especificamente os autores de cada escândalo. Trata-se de uma crítica que, através de seu sentido expiatório, catártico, que quer despejar toda a fúria perante nossa própria venalidade, serve muito bem à preguiça de uma crítica reflexiva. Temos aí a já muito conhecida (mas muitas vezes esquecida) idéia de que essa crítica generalizada cai perfeitamente bem ao propósito de políticos acintosamente desonestos para se manterem no poder, uma vez que a generalização de escárnio apenas desobriga a todos da exigência de seriedade com o voto e com o envolvimento com as causas públicas. A acidez radical da zombaria pseudo-crítica tem como resultado concreto a apatia resignada em relação a toda possibilidade de se fazer política, digerindo com uma complacência impressionante a corrupção como um mal tão corriqueiro quanto se mostra repulsivo nas charges. Não tenho a menor dúvida de que a quase totalidade dos eleitores de políticos acusados, processados e condenados repetidas vezes por corrupção professa tal atitude de escárnio e desconfiança apática em relação a toda a esfera política.

Tudo isso, entretanto, não pretende desconsiderar a validade do humor como instrumento de crítica ao âmbito político. Em vários momentos ele pode ser usado de forma criativa para a chamar a atenção para algum aspecto que não despertaria o devido interesse, além de poder contribuir para a disseminação de alguma ideia. Para que esse uso progressista se efetue, todavia, penso que deva sempre se dirigir a um aspecto ou fato determinado, específico, e não a generalizações, que mais fazem perder de vista o que se pretende criticar do que fomentar uma atitude efetivamente combativa.

Para terminar, nada mais a propósito do que o célebre texto de Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

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2 comentários:

Ísis Zisels disse...

Interessante! As pessoas normalmente confundem bom-senso com autoritarismo no que diz respeito à análise de como empregar adequadamente o humor. Jogar com o princípio dionisíaco sem o respaldo do apolíneo pode ser pernicioso. O humor requer inteligência e sensibilidade para que os contextos sejam devidamente distinguidos. Caso o contrário, o "cômico" se transforma em "inconveniente" e o possível viés crítico da sátira se dissipa numa depreciação generalizada que acaba por nutrir uma postura rígida e conformista da sociedade.

André Mansur disse...

Concordo plenamente! E, Ísis, muito pertinente a sua observação. Humor tem que ter bom-senso sim, mas não perder o ludismo. Gostei muito do blog e do post! Gostaria, inclusive, de contribuir, com um dos textos de humor político do meu blog.

MÁRCIO LACERDA REVELA: “EU TENHO TRAUMA DE ÔNIBUS”

http://andremansur.com/blog/marcio-lacerda-revela-eu-tenho-trauma-de-onibus/

Abraços!