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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Crônica de uma vida provisória

Dividir o mundo entre aparência e a essência, entre as contingências, o efêmero e, portanto, não essencial, e o que há de mais profundo, significativo e, assim, mais verdadeiro, sempre nos foi ensinado pela filosofia e por todas as ciências. A metafísica — que já nos primórdios do pensamento ocidental separava de forma radical um mundo transcendente que concernia à verdade mais profunda de todas as coisas e o mundo das sombras em que nada tem sua própria verdade como seu modo de ser próprio no âmbito das aparências — vê-se refletida de forma bastante clara nas religiões ocidentais, em que a vivência mundana e afeita ao fluxo do tempo é contraposta a um mundo transcendente lastreado pelos desígnios divinos.

No âmbito psíquico, de constituição da subjetividade, podemos ver algo análogo a isso com a idéia psicanalítica de que por detrás de nossos atos conscientes, de um conteúdo manifesto em nossas ações, nossos esquecimentos, sintomas neuróticos e sonhos, há motivações, fantasias e desejos conectados intimamente àquilo que nos define como sujeitos. Não se trata apenas de algo mais profundo, mas que está submetido a uma lógica de aglutinação e de relação entre elementos subjetivos, emocionais e psíquicos que é bastante avesso àquilo que podemos entender e interpretar a partir dessa superfície perceptível de nossa vida.
R. Rauschenberg - Estate

Como está muito claro a partir de considerações de uma sociologia ligada ao modo de vida do homem contemporâneo, essa bipartição da realidade, seja ela subjetiva ou objetiva, não é algo situado apenas no âmbito teórico, em termos de desenvolvimento da história das idéias, mas se dissemina pela percepção cotidiana de todo habitante que compartilhe do processo de individualização radical operada no ocidente. Inumeráveis são os caminhos possíveis a serem traçados entre as especulações metafísicas, teóricas e científicas até a vivência de senso comum dos cidadãos de uma grande metrópole. Meu objetivo aqui é falar de um modo com que esses dois planos da existência se traduzem em certa expectativa de vida, correlata de modos de valoração da própria existência.

Ideais, fantasias e devaneios circunscrevem um plano de assimilação interpretativa da realidade a partir de um complexo de imagens e valores que fazem com que tenhamos um "sistema" de leitura da realidade, de modo a pautar nossa existência, fazendo com que avaliemos todas as coisas, seja em sua presença, seja pelo peso de sua ausência. Creio que o indivíduo que se define ao redor do culto da própria personalidade, orgulhoso pela diferença de si em relação a todos os outros, pode facilmente nutrir com afinco e obstinadamente a fantasia de que o que faz agora, o modo como é no presente, aquilo que é capaz de realizar atualmente, bem como tudo o que gostaria de fazer, mas se vê incapaz, etc., que tudo isso, enfim, é apenas provisório, são elementos de uma fase da vida, algo que deverá ser superado quando... "Eu me casar", "Acabar meu curso superior", "Passar a ter um modo diferente de encarar a realidade", "Ter a profissão que me realize intelectual, financeira e pessoalmente", e um sem-número de ideais, modos de ser e condições de vida suficientemente diferentes da realidade atual para proporcionar uma mudança tão candente que revele uma substância oculta, não perceptível através das contingências, efemeridades e desvios do agora.

Essa fantasia é auto-alimentada pela percepção de induzir a uma  mudança, aliada à virtude da espera, do bom senso de olhar "bem" para as coisas, julgando-as em seu valor atual. Trata-se de uma fantasia que se reveste da aura do realismo bem dosado, que, ao mesmo tempo, recusa se limitar a um mero conformismo, dado que pode incluir, também, algum esforço em direção a esses planos mais substanciais da existência, que supostamente realizam como que por dentro aquilo que alimenta a expectativa de realização mais essencial de si. Além disso, está em jogo toda uma possibilidade de se avaliar por mais de um ponto de vista, que também legitima a fantasia como não sendo míope, não centrada em um modo por assim dizer calcificado de ser.

Ocorre que, ao longo do tempo, esse substrato mais essencial da existência acaba se revelando como uma promessa eterna, que apenas se consubstancia como uma promissória a ser paga em um tempo que, independente das condições reais em que ela poderia ser saldada, insiste obstinadamente em não se realizar. Passam-se os anos, e a pretendida alteração de postura perante a realidade, por exemplo, não ocorre de forma satisfatória, de modo que sempre subjaz como uma raiz cuja seiva apenas gera os frutos provisórios que sempre amadurecem em sua forma original. Descobre-se, a contragosto, com o amargo paladar de um realismo resignado, que tudo aquilo que sempre se praticou era o que há de mais próprio, ou seja, essencial, o que efetivamente se pode produzir em virtude do que somos, a despeito de nossa "profundidade" idealizada.

Tal como a crítica da ideologia nos acostumou a pensar, chama-se de ideológico aquele modo de concepção da realidade que se situa por demais acima das vicissitudes, contradições e conflitos da realidade, do modo como ela se faz pela superação e embate das diferenças. De forma análoga, essa fantasia de um núcleo mais substancial de nós mesmos e da vida das circunstâncias constitui-se como um mito, uma camada ideológica imune às vicissitudes da realização concreta e das nossas possibilidades de existência. Uma "ideologia pessoal", uma "ideologia subjetiva", que consubstancia uma camada de existência não afetada pelas contingências das quais nós nos lamentamos diariamente. A ideia que está por detrás dessa fantasia, tal como me parece, é a de que podemos escapar prolongadamente do fato de que não somos mais do que aquilo que podemos realizar. Como tarefa "política" e de orquestração de nossas possibilidades, podemos falar também de uma "utopia subjetiva", no sentido etimológico da palavra, ou seja, de um lugar (tópos) que nos ocupa mais substancialmente do que a nossa capacidade de ocupá-lo.

Desnecessário é dizer, por outro lado, que mudanças substanciais não só podem, como efetivamente ocorrem ao longo da vida. A experiência de uma terapia psicanalítica bem realizada conflui para a uma despersonalização, uma perda de certezas relativas, principalmente, a nossa própria identidade. Este é um caso, entretanto, paradigmático do que uma mudança substancial contém: algo inesperado, não preestabelecido através de alguma fantasia cultivada conscientemente. O que se sucede após este momento de ruptura está muito mais ligado a uma negação do que sempre fomos, do que à instauração bem-sucedida de um plano ideal que já se delineava em nossas fantasias.

Essa circunstância de uma alteração inesperada, que no mais das vezes é mediada por um processo de negação às vezes difícil de suportar, tem uma analogia com a obra de arte. Um dos grandes pintores do século XX, Robert Rauschenberg, dizia que não pintava um quadro quando era capaz de imaginá-lo completamente. Se sua imaginação foi capaz de circunscrever toda a obra, isso seria um indício de que esta não conteria elementos suficientemente significativos em termos estéticos, dado que ele mesmo não foi capaz de ser surpreendido pela configuração material do artefato, da "coisa-pintura".

Se dermos suficiente crédito a essa relação entre a experiência psicanalítica e a da criatividade estética, podemos generalizá-la no sentido de que rupturas essenciais ocorrem, mas no mais das vezes estão associadas a um processo de negação da inércia de nossa auto-percepção, de ruptura do véu que tecemos ao redor de nós mesmos com nossas fantasias idealizadas. — Sem a suficiente determinação para tal negatividade perante o que somos, essa vida provisória se torna "crônica", uma distensão indefinida do que sempre deveria passar, mas cuja essência se mostra no modo como usurpa a dignidade do ideal.

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