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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Elogio da escrita

"Não há como escrever bem sem uma boa leitura": essa frase, e suas variações, tal como:  "é preciso ler muito para escrever bem" etc., é ouvida várias vezes pelos estudantes, principalmente no ensino fundamental e médio. De fato, a leitura contribui decisivamente para melhorar a percepção interpretativa da realidade, para formar o pensamento abstrato, para saber dialogar com várias perspectivas sobre o mesmo assunto etc. Por outro lado, com igual insistência deveria ser falado que é necessário muita escrita para se ter uma boa escrita. Tal como várias perspectivas pedagógicas gostam de falar freqüentemente, quanto mais alguém produz, é ativo na construção de um conhecimento, mais e melhor aprende. Costuma-se fazer uma gravação bastante clara entre percentuais de aprendizagem, desde a postura mais passiva, como a de apenas ler até a de construir um objeto a partir daquilo que foi não apenas lido, mas ouvido, escrito, falado e posto em prática. Nesse cenário, a escrita é de crucial importância, pelo fato de tendencialmente arrancar o sujeito do círculo traçado por suas próprias ruminações, de sua complacência com suas próprias idéias, hesitações e formas fragmentárias de concepção de si e da realidade.

Immanuel Kant, filósofo alemão, colocou de forma clara em sua primeira grande obra, a Crítica da razão pura, que o sujeito é apenas um fenômeno para si, de modo que não se pode ter um conhecimento absoluto sobre a própria subjetividade. O pensamento é algo que precisamos esperar acontecer para sabermos o que estamos pensando. É interessante prestar atenção a como não conseguimos nos antecipar a nosso próprio pensamento, de modo que se estamos raciocinando sobre o assunto, precisamos não apenas ser ativos ao pensar, mas também espectadores, observadores, de nossa própria atividade intelectual. Todo pensamento é, então,  um misto de um impulso produtivo e um receptivo, de modo que, ao final, podemos nos aperceber do que somos pelo fato de que sedimentamos a nós mesmos naquilo que não apenas pensamos, mas também praticamos. Se, além disso, o espectador de nosso produzir é uma outra pessoa, cuja receptividade está ancorada em princípios interpretativos e formas de valoração diferentes, então este processo de sedimentar a si mesmo na forma do pensamento adquire uma exigência muito própria. Fazer dialogar as suas próprias leis e princípios de concepção de mundo com as de outras pessoas é um modo especialmente valioso para descobrir, em si mesmo, uma forma de pensar a realidade que não se pensaria apenas a partir de nossa própria demanda de compreensibilidade. Essa experiência está na base de uma velha piadinha contada nas salas de professores em todas as escolas: "Depois de uma aula, se nenhum aluno tiver aprendido nada, pelo menos você aprendeu". Isso é verdade especialmente quando se levantam questões inusitadas, críticas, oriundas de perspectivas muito alheias ao universo que uma determinada temática teórica foi construída.

Esse diálogo com o outro, seja pela fala, seja pela escrita, produz um movimento de exteriorização, de objetivação. Além disso, tal como toda a filosofia de Hegel quis mostrar, pode-se dizer também de um movimento de alienação, mas não no sentido pejorativo de perda de si mesmo, de ceder aquilo que nos é próprio com vistas à idolatria e/ou subjugação ao outro. Trata-se, na verdade, de uma forma de sair de si mesmo de modo a participar da lógica do mundo, fazendo com que uma inércia subjetiva de associações arbitrárias de idéias ceda lugar a um compromisso entre si mesmo e a realidade, que inclui principalmente as formas de compreensão alheias.

O fato de que a escrita permanece no tempo é especialmente relevante. Ela exige uma "prestação de contas" em relação aos dados que serão lançados na mesa do conhecimento,  e cujas faces serão reconhecidas também como parte desta própria realidade. Isto é especialmente significativo na medida em que, ao estudar uma de determinada ciência, não dirigimos o olhar interpretativo diretamente para a realidade, mas tomamos como um objeto de estudo os próprios textos, que são, assim, a realidade a ser estudada em primeira instância.
Tal como um estalactite, que se sedimenta e cresce gradualmente ao longo de séculos, a escrita também pode precisar passar por processo semelhante em vários momentos. Na confecção de um texto teórico de maior extensão, como um projeto de pesquisa, dissertação de mestrado e tese de doutorado, creio que seja altamente relevante escrever mais de uma vez sobre o mesmo assunto, de modo a aprendermos com o que nós mesmos escrevemos. Trata-se não apenas de amadurecer uma idéia, mas também de olhar para ela de fora, assumindo de forma viva essa perspectiva de exteriorização, de saída de si mesmo. Tal como pintores, especialmente antes do movimento de abstração, costumavam pintar várias versões do mesmo quadro até encontrarem aquela que mais se adequava esteticamente na articulação de todos os seus elementos, a escrita também pode exigir camadas de realizações, depósitos de insights, de intuições interpretativas que se somem ao longo do tempo, se sobreponham e possam, em seu entrelaçamento, produzir novas camadas de sentido e contribuir para o enriquecimento de todo o texto. -- Claro está, em relação a este trabalho acumulativo, que quanto mais elementos são somados neste processo "artesanal", mais se exige habilidade de construção de um texto unitário, que não se perca nessa multiplicidade de elementos e que mantenha uma coerência satisfatória.

Mas a escrita não é boa apenas para produzir bons textos. Quando se começa a escrever periodicamente,  com uma frequência pelo menos semanal, é possível sempre notar mudanças na própria forma com que as idéias são articuladas, mesmo quando não estamos escrevendo. De forma análoga a como professores de música sempre recomendam que não se treine com um instrumento horas seguidas durante um único dia, mas sim menos tempo ao longo da semana, o hábito da escrita deveria fazer parte do dia-a-dia de todas as pessoas. Foi com uma surpresa desagradável, embora não muito grande, que ouvi de alguns alunos de uma disciplina de Estética (no sexto período de seu curso de graduação em belas artes), que eles, em três anos de curso, nunca precisaram escrever nem uma única linha para serem aprovados em suas disciplinas. Trata-se de um curso evidentemente prático, em que o fazer artístico é a alma e o princípio do aprendizado. Isso, entretanto, não dispensa em hipótese alguma a dimensão reflexiva sobre o que se faz, a qual deve necessariamente se consubstanciar no processo de escrita freqüente acerca do que se faz. É inegável que o próprio fazer artístico e a relação dialogada entre os alunos e destes com os professores inclui elementos reflexivos, mas a habilidade de expressão escrita sobre o que é feito me parece de tal ordem significativa que não pode ser negligenciada.

Naturalmente, tudo isso pressupõe uma boa intenção por parte de quem escreve, uma vez que, no âmbito das formas, estilos e contextos de escrita, várias são as estratégias possíveis de enganos, em que pseudo-erudição, rebuscamentos, falsa profundidade etc. servem a fins regressivos, falsificadores. Considerando, entretanto, a intenção de progresso em relação a nossas formas de enxergar a realidade, a escrita sempre será um instrumento de valor inigualável.

Diante disso tudo, parece-me que os projetos pedagógicos escolares devem conceder maior espaço para as atividades de redação, de produção de textos, de modo a sistematicamente confrontar os estudantes com as suas próprias idéias. Além disso, tal como muitas pessoas gostam de ler romances, poesias, jornais etc. todos dias, deveríamos cultivar também o gosto por escrever freqüentemente. Se a leitura é uma viagem através das idéias, a escrita é um campo fértil em que florescem nossas próprias e inusitadas concepções de mundo.

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