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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O meio não é a mensagem

Há algum tempo, a MTV fez uma campanha de marketing ousada, em que durante alguns minutos era exposta uma frase, sobre um fundo azul, em que se lia: “Desligue a televisão e vá ler um livro”. A ousadia, naturalmente, está em que a emissora quis angariar para si a percepção de ser suficientemente crítica sobre os conteúdos veiculados não apenas pela televisão em geral, mas como também por ela própria. O quanto este impacto negativo-crítico, na verdade reverte de forma favorável ao desejo de ter mais consumidores para estes mesmos conteúdos criticados nessa mensagem, isso é algo que gostaria de comentar futuramente. Quero hoje falar do que está implicado naquela frase, que indica algo interessante da percepção que se tem do papel do próprio meio das comunicações, sejam elas de massa ou não. Está em jogo, de forma explícita, a percepção de que o suporte, o “meio”, livro é um índice do quanto uma obra já se sobressai como tendo mais valor cultural do que um programa de televisão, por exemplo. Esse contraste fica muito claro nos dizeres da foto abaixo.

Essa perspectiva, que me parece equivocada, possui, entretanto, raízes em pelo menos quatro momentos da história de teorias sobre os meios de comunicação de massa. Um deles está na concepção de Walter Benjamin sobre o cinema, presente em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em que o autor analisa o significado estético-político desse meio através de sua teoria dos choques, em que se diz que a velocidade da projeção e das mudanças nas cenas cinematográficas constituiria um bombardeio visual aos espectadores. Haveria uma analogia entre tais impactos e o significado crítico-estético do movimento dadaísta, com sua afronta às concepções tradicionais do objeto artístico. Tal como já se comentou sobre este famoso texto, Benjamin quer extrair um significado artístico/estético da própria dimensão material do cinema, como se o fato de ser constituído por uma sucessividade de imagens já qualificasse algo de seu teor, sua qualificação e sentido estéticos.

O segundo momento são as reflexões de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural na Dialética do esclarecimento, em que, de forma semelhante a Benjamin, o cinema será criticado já na sua própria materialidade. Para os autores, o cinema transforma todas as imagens em uma forma de escrita a ser decifrada, e não propriamente contemplada. O fluxo das imagens seria análogo a como se pode ler e hieróglifos, em que cada elemento imagético contém um significado a ser traduzido. Tal crítica deixa muito pouco, ou até mesmo nenhum, espaço para a reflexão acerca do modo específico com que tais imagens são articuladas para produzir arte, que exige propriamente contemplação e não apenas tradução estereotipada de imagens sucessivamente jogadas para os espectadores.

O terceiro momento dessa série se dá de forma clara com a idéia de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem”. Tal como a própria expressão diz, está em jogo a consideração de que os meios tecnológicos propiciam uma forma de ler a realidade que condiciona, modela e induz de tal forma a percepção, que, considerando o conjunto de produções em um determinado âmbito, como a televisão, o conteúdo próprio dessas obras seria ensinar a ver televisão. Tal como a seqüência de páginas de um livro moderno induziu certa percepção do conjunto das idéias nele contido diferente do modo como um pergaminho produzia uma leitura como que em um fluxo contínuo, o enquadramento, a luminosidade, a fluidez das imagens televisivas teria como seu conteúdo próprio a insistência com que se vende a adaptação a este modo de ver a realidade.

O quarto momento que me ocorre é a crítica de Jean Baudrillard à sociedade de consumo, em que o autor, explicitamente concordando com a posição de McLuhan, diz de uma “cultura dos mass media”, como se os meios de comunicação de massa possuíssem uma cultura específica, própria, em que reina não propriamente uma lógica de distorção ou de manipulação de uma suposta verdade objetiva dos fatos, da realidade exterior, mas sim a criação de uma neo-realidade, que funciona como uma imagem mítica. Para o autor francês, o que é próprio dos mass media não é a produção de ideologias específicas, mas sim a manipulação de signos, em cujas características ressalta a auto-referência, de modo a que cada meio sempre vende a si mesmo ao público. Nessa perspectiva, toda obra de arte, como um quarteto de Beethoven, quando representada, mesmo que integralmente, em um programa televisivo, tenderá a ser absorvida e homogeneizada aos demais programas como um mero signo, no caso, de status, de erudição.

É evidente que todas essas concepções teóricas possuem uma alta complexidade, contendo diversos fundamentos, hipóteses e conceitos que se entrelaçam de forma a nuançar as linhas gerais que esboçamos. Mesmo dentro e próximo dessa problemática há formulações que em alguns momentos relativizam essas linhas que apontamos. Apesar disso, parece-me suficientemente forte e bem caracterizada essa tendência de considerar o substrato material de um determinado meio de comunicação como já contendo um significado estético/artístico/subjetivo, e é a essa concepção que quero me contrapor.


É preciso deixar claro, por outro lado, que a minha argumentação não visa dizer de forma alguma que a televisão, principalmente a de canais abertos, contenha um nível cultural minimamente satisfatório em suas atrações. É muito evidente que a qualidade média dos programas é bastante ruim, com uma lógica e princípio de estruturação radicalmente alienantes, tal como já comentei em relação aos reality-shows, por exemplo. Importa, nesse aspecto, distinguir a qualidade de cada programa, em vez de fazer uma crítica geral aos meios de comunicação.

Começo respondendo à campanha da MTV com uma pergunta: quais livros eu deveria ler em substituição aos programas de baixo nível cultural? Seria, por exemplo, um manual de auto-ajuda com receitas fáceis para uma vida feliz? Ou contos eróticos de revistas femininas? Quem sabe um romance de Sidney Sheldon? — De forma análoga, quais livros se suicidam quando se vê um programa televisivo de mau gosto? Por acaso seriam esses mesmos livros que citei? — É por demais evidente que há  inumeráveis livros tão ruins ou piores que algum programa de televisão de baixo nível cultural, ao passo que há muita diferença entre a qualidade de programas televisivos, desde os de auditório apelativos e infantilizados, até programas de entrevista com teóricos importantes no panorama intelectual e político. É preciso se contrapor a essa homogeneização fácil, que idealiza de forma positiva o livro e de forma negativa os meios de comunicação em massa, como se a concentração requerida pelo livro já indicasse certa disposição cultural superior, enquanto a suposta posição distraída, descompromissada de quem assiste televisão já indicasse uma passividade da absorção do conteúdo da obra, de tal modo que esta fica sob a suspeita de ser algo ruim por princípio.

Embora a teoria de Benjamin sobre o cinema seja interessante em alguns aspectos, como ao tratar da dimensão política, ela se baseia, entretanto, em fundamentos que me parecem francamente inadequados. No que diz respeito ao tema que tratamos aqui, eu diria que o filósofo não soube avaliar o quanto a dimensão estética consiste no modo como se articulam os diversos elementos materiais em determinado meio expressivo. O impacto que o cinema teve no início do século XX me parece análogo ao vivido na Grécia devido ao progresso da democracia.  A recusa de Platão em relação aos poetas e a todo o âmbito das artes, com a sua mímesis da realidade, encontrou um eco na crítica que Benjamin faz ao cinema. Em vez de perceberam que o prazer da arte consiste na forma como o sujeito se assenhora de toda a dimensão material, natural e historicamente sedimentada nos materiais artísticos, de modo a construir uma significação através do modo como essa orquestração de elementos é realizada, ambos quiseram já perceber na literalidade do fazer artístico um significado cultural por si mesmo. Em nossos dias, quando já assimilamos de longa data o impacto cultural que o cinema produz, podemos ver claramente que, em vez de choques — que Benjamin associou aos traumas psíquicos —, podemos dizer que vários filmes são bem mais sonolentos e entediantes do que muitos livros que apelam para suspenses e incitam a imaginação a operar continuamente com novas imagens. Usando a tradicional diferenciação das artes representativas/miméticas proposta por Aristóteles, a saber, o meio em que a representação é feita, o modo como ela é realizada e o objeto que é representado, podemos dizer que a teoria de Benjamin não concedeu a suficiente autonomia do como em relação ao meio.

Crítica análoga pode ser feita em relação à concepção de Adorno sobre o cinema, uma vez que em várias passagens Adorno parece deduzir, já da concretude do meio cinematográfico, um significado subjetivo, referente à disposição estética do espectador. Para o filosófo, pesou sobremaneira a gigantesca capacidade do cinema de fazer uma representação naturalista da realidade, englobando a imagem em movimento, o som, a narrativa e a música. Esse poder representacional concederia pouco espaço à imaginação do espectador, que ficaria, assim, submetido ao poder de duplicação da realidade engrandecida pelo brilho técnico do próprio meio. — Ora, não é necessário que uma obra de arte ceda espaço à imaginação em virtude de alguma “escassez representativa” em seus meios para que a fantasia seja exercitada em sentido próprio, ao constituir o sentido estético da obra como algo enigmático, que demande a participação ativa do espectador. A comparação entre Platão e Benjamin parece-me também pertinente no caso de Adorno, uma vez que se me afigura claro que ele não concebeu de forma adequada o quanto a construção do sentido estético pode ser suficientemente vigorosa para sobrepujar em muito o poder representacional/mimético que o cinema demonstrou possuir, não apenas na primeira metade do século XX, como também nos dias atuais, com o progresso contínuo da tecnologia digital.

Se concedemos validade a essas considerações críticas, então torna-se clara a inadequação da idéia de McLuhan, pois a suposta “mensagem”, seja de qual meio for, não pode se limitar ao exercício com este. É inegável que há efetivamente influência dos diversos meios no modo como as pessoas se portam em relação a eles, mas eu diria que em hipótese alguma isso seja algo totalizante. Existe uma diferença infinita entre o sentido, o significado e valor estético de filmes como de Pasolini, François Truffaut e Glauber Rocha, por um lado, e os de suspense e de aventuras, como os estrelados por Sylvester Stallone e Chuck Norris. Falsifica enormemente a questão dizer que todo meio, mesmo que nos limitemos aos que envolvem tecnologia em sua produção, como televisão, cinema e rádio, tenha como seu sentido adestrar o público a eles mesmos. Por mais que a intenção seja crítica, no sentido de desmascarar a massificação e o condicionamento perceptivo, o resultado acaba indo contra esse propósito, pois dificulta o suficiente discernimento crítico da enorme diferença de valor entre as diversas produções.

Por fim, mesmo reconhecendo a enorme validade da teoria da sociedade de consumo de Baudrillard, não nos parece adequado dizer de uma “cultura dos mass media”. Mesmo tomando esta idéia como um “tipo ideal”, a que os diversos produtos se aproximam, as formulações do autor tendem a não permitir a construção de um princípio que nos permita identificar, no âmbito dos próprios meios de comunicação, as diferenças qualitativas entre as obras. Não há uma cultura impregnada necessariamente aos meios de comunicação de massa, de modo que assistir à representação de um concerto de Beethoven pela televisão não necessariamente significa tomar essa atividade como propiciando acesso a um mundo de erudição, anulando o prazer estético com a música em sua dimensão artística propriamente dita. É inegável que isso pode efetivamente acontecer, mas o grande problema, tanto na posição de Baudrillard quanto dos outros três autores, é de certa generalização, que tende a traduzir o significado legível em um plano de contato com as obras para o de seu sentido cultural, estético, subjetivo — o que leva a um achatamento das possibilidades de valorização crítica das obras culturais.

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3 comentários:

Ísis disse...

Gostei! Problemáticas como "meios de comunicação", "reprodutibilidade" e "cultura de massa" precisam ser pontuadas pelo elemento subjetivo da experiência estética e pelas análises mais particulares, como o texto bem justificou. De outro modo, todas as diretrizes críticas funcionarão sempre subordinadas a um único argumento, como um disco arranhado impedindo que a música aconteça.
Agora, suponhamos que o meio seja a mensagem. Neste viés, caberia caracterizá-lo como um reprodutor de mensagens que atuam, invariavelmente, no sentido de reproduzi-lo ad infinitum [it "smells like Plato's spirit"...]. Com efeito, não acarretaria o redundante movimento desta engrenagem um congelamento da própria mensagem? Não seria, portanto, sua autossuficiência a constatação da inexistência de si mesmo enquanto tal?

Ricardo Veiga disse...

Texto provocativo e muito bem escrito! Concordo com você que as teses de McLuhan, Baudrillard, Adorno e Benjamin, tomadas literalmente, tendem à adoção de posições extremas, reduzindo-se espectadores à condição de consumidores passivos e manipulados, bem como se desconsiderando a eventual veiculação de obras de alta qualidade artística, ou possibilidade de crítica consciente de toda comunicação. Porém, afirmar que o “meio não é a mensagem” pode também induzir a erro, ao sugerir que o espectador/consumidor dispõe de total liberdade e autonomia, desprezando-se a hegemonia da indústria cultural e a prevalência das leis de mercado. Os meios de comunicação não são neutros nem inócuos. Formam opiniões e hábitos, porque sua operação e controle atendem a interesses econômicos de proprietários e patrocinadores. Ademais, os mecanismos de percepção, atenção e compreensão são psicossociais, logo são culturalmente condicionados. Mesmo assim, talvez a educação (através da filosofia e da arte), tão brilhantemente protagonizada por você em suas aulas, possa ainda contribuir para a formação de consciências críticas que resistam à lavagem cerebral.

Verlaine Freitas disse...

Obrigado pelo comentário, Ricardo, tanto em relação à postagem quanto às minhas aulas. Não nego q os meios tenham, em sua forma atual de serem orquestrados, muita influência no modo como são percebidos. Ocorre q a "literalidade" q vc aponta na possível leitura de tais autores, na verdade, é algo verificável textualmente nas obras deles. Adorno, por exemplo, fala q não é possível uma identificação com um personagem na televisão devido ao tamanho da tela (em contraste com a do cinema). Qdo digo q o meio não é a mensagem, dirijo-me especificamente a contrariar esse tipo de colocação, q deduz da própria materialidade do meio um significado estético/subjetivo. Muita outra coisa se tem para falar sobre os meios e sua força de influência, mas é sempre algo q deve ficar em aberto, devedor do modo como cada obra é composta e articulada às outras em um determinado meio.