Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 31 de março de 2012

O que quer a psicanálise?

Freud disse que a psicanálise é alvo de dois preconceitos fundamentais, um intelectual e outro moral. O primeiro diz respeito ao fato de que a teoria psicanalítica afirma que toda a vida psíquica, em e para si, está fundada em princípios e forças inconscientes, de tal forma que a consciência não passa de uma superfície, sustentada por grande quantidade de fatores que dirigem nossos pensamentos, ações e sentimentos, mas dos quais não podemos ter compreensão definitiva, por mais que reflitamos sobre nós mesmos. O segundo preconceito liga-se à especificidade de tais conteúdos inconscientes, ditos como sexuais em sentido amplo, ou seja, não apenas no âmbito genital, mais particularmente fundados na vivência infantil e em uma sexualização precoce. Haveria, assim, não apenas um deslocamento do centro subjetivo, da consciência para o inconsciente, mas também uma determinação daquela por fenômenos muito pouco aceitáveis pela moral do ocidente.

Tais resistências ligam-se ao que a psicanálise estabelece, afirma, enquanto creio poder diagnosticar um outro tipo de preconceito, fundado no que ela não diz, no que se recusa a fornecer. Por mais que ela critique a moral sexual moderna e contemporânea, por exemplo, entretanto não se propõe a estabelecer parâmetros e princípios valorativos aos desejos em geral. Se, por um lado, ela é criticada por não fornecer provas e confirmações empíricas de seus enunciados e conclusões, por outro, gera facilmente a percepção de um vácuo, de uma hesitação ou indefinição quanto ao que se poderia usar como apoio com vistas à superação do estado de sofrimento, alienação e inércia cultural. Este último aspecto culmina, por exemplo, nas várias críticas que se fazem ao pessimismo de Freud de O mal-estar na civilização.

Creio que este incômodo em relação a tal postura da psicanálise torna-se visível de forma instrutiva ao lermos diversos textos que comparam Nietzsche e Freud. Sempre que a disposição do autor está em mostrar a “superioridade” do primeiro em relação ao psicanalista, a argumentação se apoia de forma bastante clara no fato de que o filósofo não apenas afirma categoricamente a valoração positiva da afirmação da vida, ao criticar o niilismo cristão, por exemplo, mas também coloca visceralmente a perspectiva de uma superação dos valores decadentes através da idéia de uma transvaloração de todos os valores, centrada na idéia do Übermensch (super-homem, além-do-homem). Em contraste a este vigor e entusiasmo com a ultrapassagem de um estado de decadência cultural, a investigação psicanalítica mostra-se, de fato, por demais vazia, indefinida e “modesta”. Em vez de articular seu discurso a partir de um delineamento positivo do desejo, como a vontade de potência, em relação à qual muito do que a contraria será taxado como desorganização dos instintos, decadência e niilismo, o psicanalista insistirá na especificidade com que fantasias, traumas e censuras inconscientes constituem o desejo do indivíduo por dentro, de modo que, seja poder ou submissão, grandeza ou apequenamento, alta cultura ou formas humildes de reprodução da vida, grandes ou pequenos e modestos ideais, etc., podem igualmente ser a expressão tanto de saúde quanto de patologia psíquica.

Toda teoria lida com conceitos universais, e não é diferente em relação à psicanálise, mas, ao mesmo tempo, ela os articula sempre tendo em vista que a verdade do desejo dependerá intrínseca e radicalmente da conformação particular, singular, da história de enfrentamento com a realidade exterior. Por mais que o conceito de recalque, por exemplo, seja tomado como universal para todo ser humano — até mesmo independente das diferenças culturais —, não contém em si um princípio que articule uma valoração específica no modo como o sujeito se relaciona com objetos da realidade. Os critérios para a saúde psíquica fundam-se muito mais no modo como cada sujeito compreende, admite, recusa, desvia e digere seus complexos fantasísticos inconscientes, do que em uma perspectiva macro, geral, universalizada, tal como é típico de diversas formas de fazer filosofia.

Esse mal-estar causado pela psicanálise evidencia-se nas leituras que filósofos e outros cientistas sociais fizeram dela. Theodor Adorno, por exemplo, se queixa, em suas Minima moralia, que a concepção de prazer de Freud é altamente ambígua, pois algumas vezes este se mostra progressista, ao recusar o caráter opressivo da cultura, mas ao mesmo tempo se mostraria até reacionário, ao dizer das neuroses como a incapacidade do sujeito de se adequar às exigências éticas e sociais (como salientamos em nosso texto anterior). Embora o aspecto conclusivo de Adorno seja equivocado, sua crítica é movida por uma percepção “correta”. De fato, nem sequer o conceito de prazer pode ser julgado, avaliado, de forma tão suficientemente inequívoca como quer o filósofo. Tudo dependerá, mais uma vez, de uma perspectiva dinâmica, que leve em conta o campo de forças altamente conflituoso e instável que subjaz ao sentimento consciente a que damos o nome de prazer. Este não se limita, em hipótese alguma, ao que é agradável, “gostoso”, aprazível etc., pois deve incluir sistematicamente o que é mórbido, corrosivo, mortífero, auto-destrutivo.

Diante disso, embora o pessimismo freudiano em O mal-estar da civilização possa ser criticado em larga medida, eu diria que a psicanálise não é nem otimista nem pessimista em relação às potencialidades humanas de construção de uma cultura e de uma forma de vida mais livre, verdadeira e eticamente responsável. Dentre os vários aspectos que constituem suas tarefas e objetivos, um seria fornecer apoio suficientemente crítico para que nos apercebamos do que gera a inércia das formas de subjetivação, tanto no âmbito individual quanto coletivo. Uma vez que esta linha inercial seja tornada maleável, os direcionamentos que surgem como novas possibilidades são deixados em aberto, demasiadamente em aberto.


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sábado, 24 de março de 2012

Entre adaptação e conformismo


No âmbito da filosofia e das ciências humanas, é quase sempre mais fácil dizer do que é falso, alienante, ideológico, injusto etc., do que seu oposto, ou seja, o que é verdadeiro, autêntico, válido, justo. Independente dos critérios que se tenha para estabelecer a validade de determinado fenômeno cultural, os casos que demonstram alguma espécie de falha, insuficiência ou negatividade mostram-se bem mais permeáveis ao olhar crítico do que os casos bem-sucedidos. Na experiência estética, por exemplo, parece-me obviamente muito mais fácil analisar criticamente filmes de cultura de massa do que cinema de arte. Por mais complexa que seja a estruturação da primeira, sua “falsidade” é bem mais facilmente localizável do que a “verdade” de uma obra de arte em sentido estrito.

No esfera psicanalítica isso se torna bastante claro ao se comparar a profusão de escritos de Freud sobre a condição patológica, neurótica, narcísica e psicótica, em contraste com a extrema escassez de referências ao estado de normalidade e de saúde psíquica. Nesse último caso, a estruturação psíquica não demonstra suficiente transparência em relação àquilo que está em seu fundamento, que a nutre internamente, de modo que para falar dela é necessário aplicar-lhe os conhecimentos obtidos na investigação dos sintomas neuróticos, bem como de situações análogas, como os sonhos e os atos falhos, que são compartilhados tanto por aqueles nitidamente neuróticos e os supostamente normais/saudáveis. Um índice dessa dificuldade freudiana para falar do âmbito normal é o quão impreciso é o conceito de sublimação, ligado aos processos psíquicos que demonstram um relativo sucesso no jogo de forças psíquico, em que há uma plasticidade suficiente da energia psíquica, de modo a gerar obras de arte, conhecimento científico e valores culturais significativos.

A normalidade/saúde psíquica compartilha dessa dificuldade de se definir o que é válido em termos de dinâmica cultural, e quando lida a partir de teorias e se dedicam fundamentalmente a denunciar o estado de negatividade social, tal como a filosofia de Michel Foucault e dos autores ligados à Escola de Frankfurt, sofre uma valorização negativa bastante interessante. Tal como se sabe, Foucault e os frankfurtianos dedicam especial importância a conceber a realidade social como fruto de relações de poder. Em que pesem as expressivas diferenças entre o filósofo francês e os alemães, é bastante significativa a concordância na avaliação crítica de que a sociedade representa uma sedimentação histórica de relações de força altamente ideológicas, que caminham na direção de manter hierarquias sociais e formas de dominação que tendem a se tornar invisíveis ao olhar, por mais crítico que ele seja. Uma vez que a normalidade/saúde psíquica diz sempre respeito a uma determinada forma/capacidade do indivíduo de se inserir na sociedade, e como esta é vista eminentemente sob o prisma de mecanismos e relações de poder falsificadoras, coercitivas e alienantes, então uma terapia analítica, na medida em que torna um indivíduo saudável por inseri-lo de forma “adequada” no meio social, trocaria uma patologia individual por outra determinada socialmente.

A formulação freudiana que mais parece alimentar esse o olhar crítico-negativo é a de que o indivíduo saudável/normal psiquicamente deveria ser capaz de se adaptar às demandas sociais, sejam elas éticas, profissionais, afetivas, sexuais etc. Uma vez que, de acordo com aqueles filósofos, a estrutura social é essencialmente “doentia”, então o indivíduo seria levado a absorver, interiorizar, uma situação patológica coletiva como meio de “cura” para uma individual. Além disso, considerando o quanto a violência social é não apenas alienante e falsificadora da existência humana, mas também bastante castradora de possibilidades de manifestação das diferenças individuais, e como a neurose em larga medida demonstra uma espécie de aversão do indivíduo perante determinados padrões de modelos de normalidade, os sintomas neuróticos chegam a ser tomados como índice de uma verdade, como um testemunho de algo no indivíduo que é recalcitrante, refratário, a este processo tentacular e imperialista da sociedade, que tende a disciplinar, reprimir e domesticar impulsos que são alheios a seu desiderato de manutenção da ordem e da hierarquia social. A neurose seria então um testemunho sofrido do quanto a individualidade recusa a se dissolver em planos abstratos de relações de poder instituídas socialmente

Há vários aspectos da teoria psicanalítica envolvidos nessa questão, de modo que deverei voltar a ela em outras oportunidades. Hoje quero focar especificamente esse conceito deadaptação, pois fornece uma primeira chave de leitura. Trata-se da aparente confusão entre adaptar-se e conformar-se. Aquelas críticas parecem supor que quando o indivíduo se adapta à sociedade, ao mesmo tempo se conforma, se resigna ao status quo, às normas, padrões de comportamento etc. Haveria nesse raciocínio uma excessiva identificação entre o fato de ser capazes de lidar com as demandas sociais e a submissão resignada a elas, de modo que passamos de um indivíduo que em sua neurose vive um comportamento avesso à sociedade para um outro conformado, resignado a tais normas. É como se a adaptação significasse a aceitação da validade dos condicionantes sociais. É inegável que isso ocorra em uma grande quantidade de vezes, embora não sejamos capazes de especificar sua frequência. De fato, a necessidade de adaptação a um meio pode fazer com que os indivíduos sejam levados, pela força das circunstâncias, a tomar como válidas as regras que devem ser capazes de seguir para poder sobreviver, manter-se em uma profissão etc.

Apesar desse posicionamento pragmático/resignado existir, de fato, mesmo que o consideremos, por hipótese, o caso preponderante, isso não nos autoriza a igualar os conceitos de adaptação e conformismo/resignação no âmbito de nossa análise psicanalítica/filosófica. São duas disposições subjetivas bem distinguíveis, e a clareza em relação a elas auxilia pensar os casos em que elas se confundem, se mesclam. Segundo penso, a adaptação, tal como concebida por Freud em seus melhores momentos, indica a capacidade de se colocar à altura daquilo que é querido a nós, de tal maneira que sejamos capazes de estabelecer um diálogo de mão dupla entre o que desejamos e recusamos e aquilo que nos é demandado e negado pela sociedade. Por princípio, nem o indivíduo nem a sociedade são lugares-tenente nem da verdade, nem da falsidade. É necessário sempre a cada instante pensar a articulação entre os planos individual e coletivo de forma a construir uma equalização de possibilidades expressivas do que se afirma como legítimo no âmbito individual e no universal, coletivo. Esse diálogo tem, entre inúmeras faces, a tarefa, colocada ao indivíduo, de construir uma atitude politicamente orientada em relação a todas as pessoas com quem entra em contato, de tal forma que aquiescer, respeitar e aceitar um código de conduta e de vínculo afetivo, por exemplo, não necessariamente significa tomar as condicionantes da ação como válidos para si, mas para o próprio meio. Não se trata de ser hipócrita, mas sim de não querer impor padrões de autenticidade e de verdade subjetiva ao olhar e à receptividade alheias. Pode-se viver toda uma vida em um meio social de modo a seguir determinadas regras sem nunca considerá-las válidas para si, ao mesmo tempo sem se sentir “violentado” em sua disposição subjetiva por elas. — Assim, muito da neurose poderia ser entendido como a incapacidade individual de construir uma disposição subjetiva suficientemente maleável para uma inserção política na sociedade que admita como uma de suas cláusulas a consideração da existência, “verdadeira” ou não, de uma sensibilidade e um conjunto de valores diferentes daqueles nutridos individualmente.

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sábado, 17 de março de 2012

O significado de uma ilusão

O conceito de indivíduo entrou em crise há algum tempo: já com a idéia de Hume sobre a identidade pessoal, baseada em um feixe de sensações, de tal forma que a unidade de si como pessoa reside na continuidade temporal, propriamente na memória das sucessivas variações perceptivas ao longo do tempo; talvez mais radicalmente com a concepção de sujeito em Kant, em que o ser humano é dito como sendo apenas um fenômeno para si mesmo, sem poder conhecer a si naquilo que possui de mais profundo — mas sem dúvida com o golpe decisivo da concepção psicanalítica de que o indivíduo (tal como se acostumou a definir como uma unidade in-divisa, inteira, separada de todas as forças e seres da realidade, mas idêntica a si ao longo do tempo) é tão-somente uma ilusão. Tal como a famosa metáfora de Freud de que os conteúdos psíquicos passíveis de serem tornados conscientes são apenas uma fração diminuta que chega à superfície — tal como um iceberg, em que mais de 90% de sua massa permanece submersa —, a percepção de si como indivíduo seria tão-somente uma aparência de uma unidade suportada por desejos, fantasias, traumas, censuras, identificações — enfim, por um emaranhado de forças internas que se contradizem, sobrepõem, condensam, deslocam, separam-se uma das outras para se aglutinar novamente, e um sem-número de outras formas de mobilidade que colocam em xeque essa pretensa unificação de superfície.

Claro está que o conceito de subjetividade, qualquer que seja sua especificação, já contém a marca dessa estratégia demolidora da perspectiva unificada da individualidade. Quem usa tal conceito para entender o ser humano — e é preciso lembrar que se trata de uma opção, uma vez que inumeráveis teorias psicológicas e filosóficas, bem como de antropologia etc., ignoram-na completamente — paga um alto preço, pois entre as diversas dificuldades que ele apresenta, não é a menor o fato de que o sujeito, na verdade, parece se sustentar em si mesmo, ser constituído por estratos, níveis de aglutinação, agrupamento, síntese, desvio e articulação de forças que estão na base de sua própria atividade. É como se o sujeito fosse um produto sempre tardio de si mesmo, de forma que, olhando para si, por mais que tente se apoderar do que sustenta uma forma de experiência com a realidade, interna ou externa, ele se apóia naquilo que, na verdade, deveria ser seu objeto de conhecimento. Não é difícil ver que temos delineado uma espécie de redemoinho, em que a cada círculo da espiral que se aprofunda, corre-se o risco de perder toda perspectiva de um fundamento mais seguro.

O conceito de subjetividade, assim, parece dissolver o indivíduo na interioridade sem-fim de movimentos que o suportam, com o agravante de eles mesmos necessitarem de apoios mais enigmáticos ainda. Para aquele que quer, com a teoria, entender “melhor” o ser humano, a aposta em um conceito que se estratifica de forma umbilical, que cedo esbarra em conceitos por demais especulativos, meramente hipotéticos, abstratos, não parece realmente muito promissora. De fato, diversas correntes contemporâneas não apenas ignoram tal conceito, mas como programaticamente o combatem, em favor de concepções voltadas para a interação comportamental do sujeito com seu meio ambiente natural e humano, formas de comunicação, base neuro-biológica etc.

Se, por outro lado, o conceito de subjetividade coloca em xeque o indivíduo, este tampouco pode ser dito como presente em todas as formas culturais. Tal como as reflexões de Hegel e de correntes antropológicas e filosóficas do século XX explicitam várias vezes, as civilizações tribais e míticas anteriores à Grécia demonstram, nos documentos culturais que chegaram até nós, uma concepção do ser humano desprovida do que hoje chamamos de indivíduo, ou em que este estava muito fracamente constituído, pois cada um se dividia, se irmanava, interagia com as forças naturais, cósmicas e com os demais membros de uma tribo. É como se cada um se inserisse num complexo de forças, de seres e de acontecimentos percebidos como em constante interação dramática, sem o delineamento objetivista a que já estamos acostumados. Tal como diversas narrativas mitológicas nos demonstram, tanto as forças naturais e sagradas são entendidas como metáforas e projeções de sentimentos humanos, quanto estes também são entendidos a partir de analogias com tais forças cósmicas, sobrenaturais e coletivas.

Assim, vemos que a individualidade não apenas não existiu desde sempre, como foi colocada em xeque pelas concepções que a entendem a partir da subjetividade. Além disso, considerações sociológicas que dialogam com a psicanálise aprofundam esta estratégia de colocar em dúvida a realidade do indivíduo ao dizerem que na sociedade de massa, típica dos países industrializados, em que vigora um alto índice de atomização social, pois cada indivíduo se descola de valores simbólicos tradicionais, tem-se uma multiplicidade de influências e fatores sócio-culturais que faz com que até mesmo o indivíduo considerado de um ponto de vista psicanalítico, com seu id, ego e superego, ou inconsciente, pré-consciente e consciente, não mais exista. Tanto Marcuse quanto Adorno dizem que essa individualidade, assim estruturada, não existiu antes da época moderna, e no capitalismo tardio não existe mais.

Em que pesem as várias diferenças de concepção das teorias psicanalíticas, parece-me clara uma característica valorativa em comum, de tratar os substratos inconscientes como o que há de mais verdadeiro nos seres humanos, mais substancial, de modo que a superfície, em que vigora uma percepção unificada, sintética, de si mesmo, é não apenas superficial, mas fruto de distorções, falseamentos e auto-enganos a serem desfeitos, destrinchados, analisados em seus fundamentos psíquicos — estes, sim, tomados como o que há de mais essencial em cada um.

É inegável que este processo analítico é de crucial importância. A perspectiva unificada do indivíduo, quando não mediada por este processo analítico, demonstra não apenas um desconhecimento, mas também uma alienação em relação a si próprio, de modo que somos movidos, de forma decisiva e prolongada por forças que agem através de nossa perspectiva consciente, sem que tenhamos, muitas vezes, a menor consciência de sua importância e significado ao longo do tempo.

O outro lado da moeda é que, ao tomar contato com a importância extrema deste processo de escavação arqueológica do indivíduo, pode-se ser ofuscado pelo brilho que este conhecimento traz, de tal forma que o âmbito “ilusório” da individualidade tem sua importância por demais reduzida. É bem verdade que o indivíduo, sem a mediação de um conhecimento analítico sobre si, transforma-se em um fantoche de seus próprios desejos, mas também me parece verdade que o resultado destes processos de síntese, que confluem para a individualidade, possuem uma dinâmica construtiva que deveria receber atenção substancial. É necessário considerar de perto o esforço de objetivação social e cultural mediado pela consciência da multiplicidade profunda das forças que constituem o indivíduo por dentro. Se este é uma ilusão, é preciso considerar que nem todos conseguem formá-la, como é o caso de um surto psicótico, em que o eu se fragmenta, se divide, de modo que nem a continuidade temporal permanece.

Por mais que o indivíduo contemporâneo se fragmente em infinitas influências sociais, econômicas e culturais em geral, por mais que tenha perdido o vínculo com formas simbólicas legadas pela tradição, de forma alguma eu diria, ao contrário de Adorno e Marcuse, que o indivíduo psicanalítico não existe ou está em vias de desaparecer. Essa dissolução social do eu, a que Adorno gosta de se referir como pseudo-individualidade, parece-me apenas uma configuração deste processo construtivo, uma face do movimento de se assenhorar de suas próprias forças internas, de digerir suas contradições, deslizamentos e formas de se atualizarem. É inegável que a sociedade massificada que se estabeleceu a partir de meados do século XX coloca desafios para a reflexão teórica acerca do indivíduo, mas em hipótese alguma significa que este processo individual de aglutinação de fatores psíquicos e sociais perca realidade/relevância como objeto de estudo próprio. Em outras palavras, não é por se sustentar precariamente no torvelinho de forças que se ramificam indefinidamente para dentro de si, nem por se perder no prisma de significações ocas da sociedade de consumo, que o indivíduo deva ser expropriado do sentido que possui o esforço de sua unificação, por mais precária que seja. É neste movimento pendular — ditado pela polaridade de forças íntimas/internas e pelas configurações eternamente cambiáveis do âmbito sócio-cultural —, que os textos deste blog procuram, de alguma forma, trafegar.

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sábado, 10 de março de 2012

Sublime nonsense

A posição da cúpula da igreja católica quanto às relações sexuais, expressa nas colocações e enunciados oficiais do Vaticano, é de que elas não apenas sejam praticadas somente após o casamento, quanto que sua finalidade, seu sentido próprio, é a procriação. Embora a castidade pré-matrimonial seja bastante instigante como objeto de análise, pois envolve um complexo de valores morais e de idealização do amor, gostaria aqui de focar a segunda parte daquele posicionamento, que restringe drasticamente o sentido da sexualidade ao plano reprodutivo. Interessa-me especialmente o caráter sumamente irrealista desse posicionamento.


Quem estuda filosofia e psicanálise, acostuma-se a ter sua atenção despertada por dois opostos: o óbvio e o absurdo. O primeiro, pelo fato de que sempre esconde alguma problematização, alguma sedimentação social de princípios que são bem mais complexos do que se gostaria de admitir, ou que planos ideológicos de concepção de mundo gostariam que fossem questionados. O absurdo, por sua vez, nos incita a pesquisar um sentido subjetivo latente, não manifesto, cuja explicitação remove a aparência de pura irracionalidade, nonsense. Nesse sentido, a posição oficial da igreja católica é tão absurda, que demanda um investigação específica, isso não apenas por uma consideração acerca da dinâmica e do valor que a sexualidade tem para a vida humana, mas já pela própria imagem que aquela instituição produz na mente de seus seguidores, considerando que a esmagadora maioria dos casais católicos abstrai completamente desse posicionamento em sua vida conjugal, tal como o fazem vários padres, tomando o amor como razão de ser do casamento, e isso não apenas em termos do afeto mais espiritualizado. Dito de forma bem direta: por que o Vaticano insiste em manter um posicionamento tão absurdo, contrariando a experiência afetiva mais do que evidente de que a sexualidade no matrimônio não pode ser reduzida à geração de filhos?

A resposta que me parece mais clara à primeira vista é a de que a igreja católica quer “marcar posição”, estipulando um ideal de comportamento que, embora muito discrepante com a realidade dos afetos, demonstra seu empenho, determinação e perseverança em manter-se para além das vicissitudes com que os seres humanos tergiversam sobre o que é legítimo, válido, nobre etc. De forma análoga a como Deus transcende, ultrapassa, de forma incomensurável todas as limitações e fraquezas humanas, um ideal como aquele também não precisa se medir com as vicissitudes dos afetos. A Igreja, como instituição, se sentiria à vontade para encastelar-se em mundo de valores sublimes, inalcançáveis, cujo distanciamento em relação ao mundo prosaico e mesquinho, em vez de enfraquecer sua legitimidade, reforça sua imagem de proporcional transcendência em relação à esfera da vida profana, não-sagrada. Deste modo, apesar de se distanciar da realidade de forma evidente, ela seria vista, pela população católica em geral, como estando em seu “lugar próprio”, a saber, de guardiã de determinados valores que demarcariam um espaço próprio, não sendo meios através dos quais se poderia avaliar, questionar, a legitimidade da própria instituição como estipuladora de ideais de conduta.
Parece-me inquestionável que este é um dos fatores que contribuem para a continuidade não apenas deste posicionamento da Igreja, mais de outros que sofrem essa mesma característica de falta de observância da dinâmica dos valores ao longo da história dos povos. Por outro lado, isto é apenas um dos aspectos envolvidos, uma vez que o distanciamento sublime de um valor deve ser visto a partir de uma lógica de estruturação ideológica, dentro de um conjunto de práticas e vivências postas em diálogo entre formas culturais, instituições, e a massa de indivíduos que se relacionam com elas.

Por mais que a prescrição de abstinência sexual antes do casamento seja vista como pouco razoável nos dias atuais, ainda possui uma legitimação de princípios capazes de serem discutidos no universo social. Que o envolvimento sexual seja mediado por uma confirmação social de um compromisso afetivo, a bem dizer, ocorre em diversos graus e formas em muitos relacionamentos afetivos. Que tal assunção social seja adiada até o matrimônio é apenas um grau que muitos de nós pode considerar excessivamente rigoroso, mas, diria eu, não pode ser tachado de simplesmente absurdo, irrealista. Essa prescrição abrange todo o complexo de interação íntima entre duas pessoas, e o quanto cada casal está disposto a adiar a intimidade sexual dirá respeito às opções próprias de cada um. (Voltarei a este tema em outra postagem aqui no blog.)

Outro é o caso da restrição do sexo à geração de filhos, pois fica claro que está em jogo aqui não propriamente este complexo total de envolvimento da intimidade afetiva entre as pessoas, mas sim apenas um de seus elementos: o prazer. O alvo da interdição é propriamente a mescla da sexualidade com toda a satisfação que sua prática proporciona. O que a igreja católica precisa sempre manter sob limites bastante estreitos é a assunção de que todo o torvelinho emocional, de prazer, de gozo, de entrega, de violência simbólica, de apropriação do corpo do outro etc., possa fazer parte da lógica de afirmação de si. A sublimidade do amor plenamente espiritualizado, dirigido a Deus, deve ser mantida a uma distância o mais segura possível do amor sexualizado, de modo a apagar a percepção de graus de proximidade e distanciamento entre ambos. As contradições, incertezas, os conflitos e a dialética própria do âmbito sexual, em cuja dinâmica jamais se pode esquecer de incluir as decepções, desgostos e amarguras, deve ser colocada em um polo oposto, diametralmente alheio ao princípio do amor plenamente espiritualizado. 

A posição do Vaticano é coerente. Para alimentar constantemente a soberania do Espírito sobre todas as vicissitudes dos desejos, sentimentos, interesses, fantasias, associando-o ao âmbito inequívoco, absoluto e perfeito de Deus, precisa manter a dialética da sexualidade submersa no plano da mera natureza, ou seja, dos fins naturais de reprodução da espécie. O êxtase sexual e a afirmação de si na aventura da sexualidade devem ser tendencialmente apagados, ter sua significação sistematicamente obscurecida pelo contraste cristalino com a certeza inabalável de se pertencer ao reino da bondade, da beleza e da verdade. Temos dois âmbitos, dois polos, cuja característica em comum é a ausência de ambiguidade presente nas vicissitudes do amor sexual: a natureza, com suas relações e dinâmicas biológicas, determinadas por mecanismos que estão aquém dos processos de subjetivação, e a alma, o espírito, associados ao caráter unívoco da razão, que aproxima os seres humanos daquele que é um puro Espírito, desprovido de toda a ambiguidade emocional própria dos seres humanos.

Deste modo, a irrealidade do afunilamento drástico do sexual à mera reprodução no matrimônio não apenas marca uma posição da igreja católica perante as vicissitudes da vida profana, quanto a exime da difícil tarefa de harmonizar a lógica do prazer conflitivo da sexualidade com a sobriedade de uma doutrina que preza pela elevação incondicional do espírito.

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sexta-feira, 2 de março de 2012

Da obscura lógica do desejo

Considere esses três cenários:

1º: Nas primeiras décadas dos jogos olímpicos da era moderna, notava-se com alguma frequência que em competições mais longas os atletas tinham alguma forma de diminuição brusca de suas forças físicas e/ou emocionais perto do fim da prova, tal como a ocorrência de cãibras, fraquezas súbitas nas pernas, e outras perdas de eficiência motora, que faziam com que, mesmo estando em condições propícias para ganhar a competição,  eram derrotados nos momentos finais. Com a crescente profissionalização do esporte, isso foi diminuindo gradativamente. 

2º: Já há muito tempo estabeleceu-se, em leis trabalhistas, um período de férias dentro de um calendário anual, em que a quase totalidade dos trabalhadores tem a opção de um período de descanso a cada doze meses. Em um cenário típicamente neurótico, no décimo primeiro mês, ou seja, nas semanas finais do período de trabalho, algumas pessoas passam por uma crise, seja emocional, de stress ou até mesmo de pânico. Naturalmente, é sempre possível localizar problemas semelhantes a estes ao longo de todo o período, mas o que me interessa aqui é a especificidade desta ocorrência sintomática, em que a proximidade do período das férias provoca uma alteração substantiva na constelação psíquica/emocional suficientemente distinta de todo o cotidiano.

3º: Quando se fala de insônia, o que vem à mente em primeiro lugar é passar a noite em claro, ou demorar bastante a adormecer. Esta forma, entretanto, é apenas uma, entre várias outras, como por exemplo acordar repetidas vezes ao longo da noite, fazendo com que todo o período não somente seja bastante interrompido, como também pouco reparador, uma vez que o sono não se aprofunda. Mas há outro, que também é bastante típico, em que o sono é interrompido com uma ou duas horas de antecedência em relação ao período que a própria pessoa a precisaria para se sentir satisfeita. Nesses casos, não há dificuldade nenhuma em adormecer, nem de ter um sono aprofundado, mas sim de permanecer dormindo nesses momentos finais em que,  ao que parece, o sono começa a ter uma intensidade menor do que a necessária para manter a pessoa adormecida. Caso a pessoa não consiga voltar a dormir, então se configura realmente uma insônia, pois todas as atividades durante o dia ficarão comprometidas.

Está muito claro o que há de comum entre estes três casos. Em todos eles temos não apenas um fracasso subjetivo de finalizar um processo relativamente longo, dentro de sua realidade própria, mas também visivelmente uma atitude de auto-sabotagem,  um atentado contra uma forma de auto-realização.

Não é difícil fazer uma análise com base em uma perspectiva psicanalítica por assim dizer clássica, ortodoxa. Apesar das infinitas diferenças das motivações, censuras, desejos e fantasias inconscientes dos indivíduos (diferenças que devem sempre ser levadas em conta a fim de se respeitar a verdade individual da constituição psíquica), estaria em jogo a associação da vitória esportiva, das férias merecidas e do descanso para um novo dia de trabalho com algum desejo inconsciente submetido a uma censura,  também inconsciente, de tal modo que se tem uma proibição de acesso a um representante atual de objetos de desejo primários,  arcaicos. Ao mesmo tempo em que os objetos atuais atraem com um poder de fascínio suficiente para estimular sua busca, são também repelidos com igual força, fazendo com que sejam recusados nos momentos derradeiros para sua realização.

Apesar da complexidade tanto do problema abordado, quanto dos fundamentos teóricos dessa explicação, quero apontar para um aspecto que me parece frágil, que é o fato de que lhe essa auto-sabotagem é percebida quase que exclusivamente como uma determinação negativa,  ou seja, como recusa, proibição, censura, impedimento em relação a um objeto de desejo. Embora seja verdade que nessa perspectiva a realização do desejo ainda se faça, pelo fato de que a vitória ou a noite de sono completa são fantasiadas como realizando um desejo inconsciente, o fracasso em seu alcance absorve quase que integralmente a dimensão de censura e impedimento. De minha parte, gostaria de propor uma interpretação que, sem abandonar esse aspecto do problema, o aborda a partir de uma determinação positiva, que tal forma que cada uma das formas de auto-anulação é índice de uma afirmação desiderativa, correspondendo a realização não apenas de uma censura, mas também de um desejo.

Usando a atmosfera lúdica do primeiro caso, gostaria de começar falando de uma característica de todo jogo que muitas vezes passa desapercebida. Em qualquer competição, desde a brincadeira infantil até um jogo profissional,  quando existe muita disparidade de forças, o prazer é bastante diminuído, até o ponto de ficar totalmente sem graça participar do jogo. É muito evidente que competir com alguém que não demonstra nenhuma habilidade praticamente torna sem sentido a atividade, pois a vitória sem alguma forma de resistência é inexpressiva (a rigor nem existe "competição"). Obviamente, quando não há nenhuma possibilidade de vitória de nossa parte, o jogo também não é atrativo, embora nesse caso ainda possa ser estimulante pelo fato de podermos de alguma maneira testar nossas habilidades. Desse modo, o prazer do jogo consiste propriamente nessa zona de indefinição entre a vitória e a derrota, de tal forma que a primeira só oferece o prazer do jogo quando é mediada pela possibilidade de derrota, sendo que, quanto mais indefinida ela é, mais a competição tende a se tornar "eletrizante". O comércio com a derrota, a proximidade dela, a exposição aos momentos de fracasso são um ingrediente não apenas necessário, mas constituinte do "verdadeiro" prazer do jogo. Nesse sentido, um dos vários fatores que explicam o sucesso do futebol em todo o mundo seria a grande margem de indefinição da posse de bola, tornando o acaso um elemento constante ao longo de toda a competição. Prova disso é o fato de que em vários jogos se ouve o comentário de que o placar até aquele momento era injusto,  uma vez que não tinha relação aparente com o quanto um dos times jogou melhor.

Nesse arco de possibilidades combinatórias entre a derrota consumada e a vitória por inteiro -- agora não mais especificamente do jogo em sentido literal, mas deste tomado como metáfora das ofertas de satisfação dos objetos de desejo --, podemos dizer que cada pessoa encontrará modos de se posicionar frente às motivações para a persistência de seu investimento nas inúmeras vicissitudes do que determinada realidade demanda. Eu diria que o fundamento mais seguro de análise é o de uma radical indefinição,  por princípio, daquilo que mais atrai, seduz, nesse torvelinho dialético entre o perder-se totalmente em meio à solicitude eletrizante do enfrentamento com os obstáculos, por um lado,  e a saída definitiva dele pela consumação da "vitória". Isso não deve ser interpretado como uma recusa de determinar o que seja forte o suficiente como mobilizador dos investimentos psíquicos, mas sim como uma tomada deliberada de posição que insiste no fato de que o desejo humano é suficientemente móvel para se fixar em quaisquer das infinitas formas de equacionamento entre a necessidade de solucionar o conflito psíquico inconsciente e as possibilidades de satisfação oferecidas na objetividade da constituição histórica dos objetos de desejo.

Trata-se de um princípio não apenas metodológico, algo como uma caricatura do princípio de indeterminação do elétron de Heisenberg transposto para o âmbito desiderativo (= de desejo), mas sim a posição de um princípio teórico/clínico que afirma a dependência do desejo em relação a uma lógica de associações fantasísticas anteriores ao que podemos conceber como da ordem de um prazer positivamente considerado, a saber, do que é agradável, "gostoso", aprazível, feliz, auto-realizador. Deste modo, essa lógica submerge todo o prazer em um complexo de associações inconscientes que o tornam muitas vezes algo paradoxal, incompreensível,  uma vez que se mescla indissoluvelmente a todos os resíduos das etapas de sua constituição.

Voltando aos três casos acima, podemos dizer que eles, na medida em que indicam uma compulsividade, um enrijecimento do desejo, demonstram alguma forma de fixação, em que a derrota, a incompletude, a insuficiência, a tensão da expectativa etc. tornaram-se especialmente sedutoras, fascinantes. Passaram a representar um meio de prazer que assumiu uma densidade tal que este não mais transparece nessas formas concretas em que se realiza. Cada uma configura uma espécie de continuidade do próprio percurso de constituição do desejo, cujo modo de afirmação,  por mais paradoxal que seja, passou a ser mediado pela negação da positividade do prazer com um objeto reconhecido como fonte de satisfação. Em todos os três casos, quanto mais próximo se está de uma saída definitiva, "satisfatória", desse enredamento do desejo nas peripécias conflituosas e contraditórios de sua lógica,  quanto mais "alto" se vai neste processo de acumulação de etapas na consecução de um processo, mais esta "queda" representada pelo fracasso, pela crise emocional e pela insônia parecem atrair com a mesma força com que o abismo seduz aquele que ousa se medir com um vazio que não conhece medidas.

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