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sexta-feira, 2 de março de 2012

Da obscura lógica do desejo

Considere esses três cenários:

1º: Nas primeiras décadas dos jogos olímpicos da era moderna, notava-se com alguma frequência que em competições mais longas os atletas tinham alguma forma de diminuição brusca de suas forças físicas e/ou emocionais perto do fim da prova, tal como a ocorrência de cãibras, fraquezas súbitas nas pernas, e outras perdas de eficiência motora, que faziam com que, mesmo estando em condições propícias para ganhar a competição,  eram derrotados nos momentos finais. Com a crescente profissionalização do esporte, isso foi diminuindo gradativamente. 

2º: Já há muito tempo estabeleceu-se, em leis trabalhistas, um período de férias dentro de um calendário anual, em que a quase totalidade dos trabalhadores tem a opção de um período de descanso a cada doze meses. Em um cenário típicamente neurótico, no décimo primeiro mês, ou seja, nas semanas finais do período de trabalho, algumas pessoas passam por uma crise, seja emocional, de stress ou até mesmo de pânico. Naturalmente, é sempre possível localizar problemas semelhantes a estes ao longo de todo o período, mas o que me interessa aqui é a especificidade desta ocorrência sintomática, em que a proximidade do período das férias provoca uma alteração substantiva na constelação psíquica/emocional suficientemente distinta de todo o cotidiano.

3º: Quando se fala de insônia, o que vem à mente em primeiro lugar é passar a noite em claro, ou demorar bastante a adormecer. Esta forma, entretanto, é apenas uma, entre várias outras, como por exemplo acordar repetidas vezes ao longo da noite, fazendo com que todo o período não somente seja bastante interrompido, como também pouco reparador, uma vez que o sono não se aprofunda. Mas há outro, que também é bastante típico, em que o sono é interrompido com uma ou duas horas de antecedência em relação ao período que a própria pessoa a precisaria para se sentir satisfeita. Nesses casos, não há dificuldade nenhuma em adormecer, nem de ter um sono aprofundado, mas sim de permanecer dormindo nesses momentos finais em que,  ao que parece, o sono começa a ter uma intensidade menor do que a necessária para manter a pessoa adormecida. Caso a pessoa não consiga voltar a dormir, então se configura realmente uma insônia, pois todas as atividades durante o dia ficarão comprometidas.

Está muito claro o que há de comum entre estes três casos. Em todos eles temos não apenas um fracasso subjetivo de finalizar um processo relativamente longo, dentro de sua realidade própria, mas também visivelmente uma atitude de auto-sabotagem,  um atentado contra uma forma de auto-realização.

Não é difícil fazer uma análise com base em uma perspectiva psicanalítica por assim dizer clássica, ortodoxa. Apesar das infinitas diferenças das motivações, censuras, desejos e fantasias inconscientes dos indivíduos (diferenças que devem sempre ser levadas em conta a fim de se respeitar a verdade individual da constituição psíquica), estaria em jogo a associação da vitória esportiva, das férias merecidas e do descanso para um novo dia de trabalho com algum desejo inconsciente submetido a uma censura,  também inconsciente, de tal modo que se tem uma proibição de acesso a um representante atual de objetos de desejo primários,  arcaicos. Ao mesmo tempo em que os objetos atuais atraem com um poder de fascínio suficiente para estimular sua busca, são também repelidos com igual força, fazendo com que sejam recusados nos momentos derradeiros para sua realização.

Apesar da complexidade tanto do problema abordado, quanto dos fundamentos teóricos dessa explicação, quero apontar para um aspecto que me parece frágil, que é o fato de que lhe essa auto-sabotagem é percebida quase que exclusivamente como uma determinação negativa,  ou seja, como recusa, proibição, censura, impedimento em relação a um objeto de desejo. Embora seja verdade que nessa perspectiva a realização do desejo ainda se faça, pelo fato de que a vitória ou a noite de sono completa são fantasiadas como realizando um desejo inconsciente, o fracasso em seu alcance absorve quase que integralmente a dimensão de censura e impedimento. De minha parte, gostaria de propor uma interpretação que, sem abandonar esse aspecto do problema, o aborda a partir de uma determinação positiva, que tal forma que cada uma das formas de auto-anulação é índice de uma afirmação desiderativa, correspondendo a realização não apenas de uma censura, mas também de um desejo.

Usando a atmosfera lúdica do primeiro caso, gostaria de começar falando de uma característica de todo jogo que muitas vezes passa desapercebida. Em qualquer competição, desde a brincadeira infantil até um jogo profissional,  quando existe muita disparidade de forças, o prazer é bastante diminuído, até o ponto de ficar totalmente sem graça participar do jogo. É muito evidente que competir com alguém que não demonstra nenhuma habilidade praticamente torna sem sentido a atividade, pois a vitória sem alguma forma de resistência é inexpressiva (a rigor nem existe "competição"). Obviamente, quando não há nenhuma possibilidade de vitória de nossa parte, o jogo também não é atrativo, embora nesse caso ainda possa ser estimulante pelo fato de podermos de alguma maneira testar nossas habilidades. Desse modo, o prazer do jogo consiste propriamente nessa zona de indefinição entre a vitória e a derrota, de tal forma que a primeira só oferece o prazer do jogo quando é mediada pela possibilidade de derrota, sendo que, quanto mais indefinida ela é, mais a competição tende a se tornar "eletrizante". O comércio com a derrota, a proximidade dela, a exposição aos momentos de fracasso são um ingrediente não apenas necessário, mas constituinte do "verdadeiro" prazer do jogo. Nesse sentido, um dos vários fatores que explicam o sucesso do futebol em todo o mundo seria a grande margem de indefinição da posse de bola, tornando o acaso um elemento constante ao longo de toda a competição. Prova disso é o fato de que em vários jogos se ouve o comentário de que o placar até aquele momento era injusto,  uma vez que não tinha relação aparente com o quanto um dos times jogou melhor.

Nesse arco de possibilidades combinatórias entre a derrota consumada e a vitória por inteiro -- agora não mais especificamente do jogo em sentido literal, mas deste tomado como metáfora das ofertas de satisfação dos objetos de desejo --, podemos dizer que cada pessoa encontrará modos de se posicionar frente às motivações para a persistência de seu investimento nas inúmeras vicissitudes do que determinada realidade demanda. Eu diria que o fundamento mais seguro de análise é o de uma radical indefinição,  por princípio, daquilo que mais atrai, seduz, nesse torvelinho dialético entre o perder-se totalmente em meio à solicitude eletrizante do enfrentamento com os obstáculos, por um lado,  e a saída definitiva dele pela consumação da "vitória". Isso não deve ser interpretado como uma recusa de determinar o que seja forte o suficiente como mobilizador dos investimentos psíquicos, mas sim como uma tomada deliberada de posição que insiste no fato de que o desejo humano é suficientemente móvel para se fixar em quaisquer das infinitas formas de equacionamento entre a necessidade de solucionar o conflito psíquico inconsciente e as possibilidades de satisfação oferecidas na objetividade da constituição histórica dos objetos de desejo.

Trata-se de um princípio não apenas metodológico, algo como uma caricatura do princípio de indeterminação do elétron de Heisenberg transposto para o âmbito desiderativo (= de desejo), mas sim a posição de um princípio teórico/clínico que afirma a dependência do desejo em relação a uma lógica de associações fantasísticas anteriores ao que podemos conceber como da ordem de um prazer positivamente considerado, a saber, do que é agradável, "gostoso", aprazível, feliz, auto-realizador. Deste modo, essa lógica submerge todo o prazer em um complexo de associações inconscientes que o tornam muitas vezes algo paradoxal, incompreensível,  uma vez que se mescla indissoluvelmente a todos os resíduos das etapas de sua constituição.

Voltando aos três casos acima, podemos dizer que eles, na medida em que indicam uma compulsividade, um enrijecimento do desejo, demonstram alguma forma de fixação, em que a derrota, a incompletude, a insuficiência, a tensão da expectativa etc. tornaram-se especialmente sedutoras, fascinantes. Passaram a representar um meio de prazer que assumiu uma densidade tal que este não mais transparece nessas formas concretas em que se realiza. Cada uma configura uma espécie de continuidade do próprio percurso de constituição do desejo, cujo modo de afirmação,  por mais paradoxal que seja, passou a ser mediado pela negação da positividade do prazer com um objeto reconhecido como fonte de satisfação. Em todos os três casos, quanto mais próximo se está de uma saída definitiva, "satisfatória", desse enredamento do desejo nas peripécias conflituosas e contraditórios de sua lógica,  quanto mais "alto" se vai neste processo de acumulação de etapas na consecução de um processo, mais esta "queda" representada pelo fracasso, pela crise emocional e pela insônia parecem atrair com a mesma força com que o abismo seduz aquele que ousa se medir com um vazio que não conhece medidas.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Verlaine, belíssimo texto, embora extremamente angustiante para mim.
Identifiquei-me com inúmeros aspectos...venho tentando analisá-los há algum tempo e, tudo isso, parece-me um grande processo vicioso. Um vício sem um "starte" aparente, ainda que eu tente exaustivamente analisar por "n" formas e meios(deixando a análise fluir, forçando, analisando o todo, situações específicas, situações atuais...enfim)!!! E, por mais que eu tente me organizar psicologicamente (muitas vezes, inclusive, conseguindo!!! - sim, ao menos em termos de divisão de tempo, agenda pessoal com a identificação dos meus auto-atentados), infelizmente, em termos pragmáticos, fáticos, não consigo agir, concentrar-me, produzir e pegar o troféu, não consigo fazer o que me comprometi a fazer. É um processo horrível e exaustivo... Tudo parece ser mais forte, a ansiedade vai às alturas, nessas horas, o desespero bate e, racionalmente, tento conversar comigo mesma, acalmando-me (antes, nem mesmo isso, conseguia fazer! Santa análise!Amém!). Mas, como disse, continuo paralisada...a vontade e a adrenalina duelam mais que nunca e trazem uma sensação de exaustão....é impressionante!

Nunca havia feito realmente análise na minha vida até dois anos atrás, cresci escutando que "eu não tinha necessidade disso" e, hoje, sinto-me privilegiada por ter superado esse conceito alheio, por essa oportunidade em minha vida.

Nesse contexto, pergunto-me: como posso continuar procrastinando e com essa atitude? (ou a falta de atitude?)...especialmente pela análise ter me ajudado tanto ultimamente...!!! Como isso é possível? O que falta eu fazer, superar (ou o que quer que seja) para eu sair dessa situação ridícula paralisante?

É irritante! Algo mais forte que a razão...Uma auto-sabotagem?! Sim, é sim, mas, DE ONDE saiu e COMO permanece em mim??? Não sei!!! Será a não capacidade de identificar o "algo a mais" que me trava uma auto-sabotagem? Mais uma vez, devo dizer, é desesperador: pelo fator pressão TEMPO que consome os dias, lembrando-me o tempo todo de que existem prazos de conclusão para as tarefas; mas realmente desesperador como um todo para mim...por saber que, embora eu esteja amadurecendo em vários aspectos e esteja feliz, muito feliz e realizada com eles (lidando melhor com as situações naturais da vida),continuo paralisada emocionalmente....e em termos PRÁTICOS. Simplesmente transtornador.
O que fazer? Racionalmente e emotivamente, desejo tanto crescer...

Não sei mais o que fazer, o que tentar!!!! A resposta poderia ser: ora, faça/realize as tarefas!!! Mas, isso, eu também me digo o tempo todo...como lidar com isso?

Agradeço-lhe por compartilhar esse texto.

Quando vi o título, pensei, ufa! É hoje que resolvo isso!!! Desejo muito um insight libertador...