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sábado, 24 de março de 2012

Entre adaptação e conformismo


No âmbito da filosofia e das ciências humanas, é quase sempre mais fácil dizer do que é falso, alienante, ideológico, injusto etc., do que seu oposto, ou seja, o que é verdadeiro, autêntico, válido, justo. Independente dos critérios que se tenha para estabelecer a validade de determinado fenômeno cultural, os casos que demonstram alguma espécie de falha, insuficiência ou negatividade mostram-se bem mais permeáveis ao olhar crítico do que os casos bem-sucedidos. Na experiência estética, por exemplo, parece-me obviamente muito mais fácil analisar criticamente filmes de cultura de massa do que cinema de arte. Por mais complexa que seja a estruturação da primeira, sua “falsidade” é bem mais facilmente localizável do que a “verdade” de uma obra de arte em sentido estrito.

No esfera psicanalítica isso se torna bastante claro ao se comparar a profusão de escritos de Freud sobre a condição patológica, neurótica, narcísica e psicótica, em contraste com a extrema escassez de referências ao estado de normalidade e de saúde psíquica. Nesse último caso, a estruturação psíquica não demonstra suficiente transparência em relação àquilo que está em seu fundamento, que a nutre internamente, de modo que para falar dela é necessário aplicar-lhe os conhecimentos obtidos na investigação dos sintomas neuróticos, bem como de situações análogas, como os sonhos e os atos falhos, que são compartilhados tanto por aqueles nitidamente neuróticos e os supostamente normais/saudáveis. Um índice dessa dificuldade freudiana para falar do âmbito normal é o quão impreciso é o conceito de sublimação, ligado aos processos psíquicos que demonstram um relativo sucesso no jogo de forças psíquico, em que há uma plasticidade suficiente da energia psíquica, de modo a gerar obras de arte, conhecimento científico e valores culturais significativos.

A normalidade/saúde psíquica compartilha dessa dificuldade de se definir o que é válido em termos de dinâmica cultural, e quando lida a partir de teorias e se dedicam fundamentalmente a denunciar o estado de negatividade social, tal como a filosofia de Michel Foucault e dos autores ligados à Escola de Frankfurt, sofre uma valorização negativa bastante interessante. Tal como se sabe, Foucault e os frankfurtianos dedicam especial importância a conceber a realidade social como fruto de relações de poder. Em que pesem as expressivas diferenças entre o filósofo francês e os alemães, é bastante significativa a concordância na avaliação crítica de que a sociedade representa uma sedimentação histórica de relações de força altamente ideológicas, que caminham na direção de manter hierarquias sociais e formas de dominação que tendem a se tornar invisíveis ao olhar, por mais crítico que ele seja. Uma vez que a normalidade/saúde psíquica diz sempre respeito a uma determinada forma/capacidade do indivíduo de se inserir na sociedade, e como esta é vista eminentemente sob o prisma de mecanismos e relações de poder falsificadoras, coercitivas e alienantes, então uma terapia analítica, na medida em que torna um indivíduo saudável por inseri-lo de forma “adequada” no meio social, trocaria uma patologia individual por outra determinada socialmente.

A formulação freudiana que mais parece alimentar esse o olhar crítico-negativo é a de que o indivíduo saudável/normal psiquicamente deveria ser capaz de se adaptar às demandas sociais, sejam elas éticas, profissionais, afetivas, sexuais etc. Uma vez que, de acordo com aqueles filósofos, a estrutura social é essencialmente “doentia”, então o indivíduo seria levado a absorver, interiorizar, uma situação patológica coletiva como meio de “cura” para uma individual. Além disso, considerando o quanto a violência social é não apenas alienante e falsificadora da existência humana, mas também bastante castradora de possibilidades de manifestação das diferenças individuais, e como a neurose em larga medida demonstra uma espécie de aversão do indivíduo perante determinados padrões de modelos de normalidade, os sintomas neuróticos chegam a ser tomados como índice de uma verdade, como um testemunho de algo no indivíduo que é recalcitrante, refratário, a este processo tentacular e imperialista da sociedade, que tende a disciplinar, reprimir e domesticar impulsos que são alheios a seu desiderato de manutenção da ordem e da hierarquia social. A neurose seria então um testemunho sofrido do quanto a individualidade recusa a se dissolver em planos abstratos de relações de poder instituídas socialmente

Há vários aspectos da teoria psicanalítica envolvidos nessa questão, de modo que deverei voltar a ela em outras oportunidades. Hoje quero focar especificamente esse conceito deadaptação, pois fornece uma primeira chave de leitura. Trata-se da aparente confusão entre adaptar-se e conformar-se. Aquelas críticas parecem supor que quando o indivíduo se adapta à sociedade, ao mesmo tempo se conforma, se resigna ao status quo, às normas, padrões de comportamento etc. Haveria nesse raciocínio uma excessiva identificação entre o fato de ser capazes de lidar com as demandas sociais e a submissão resignada a elas, de modo que passamos de um indivíduo que em sua neurose vive um comportamento avesso à sociedade para um outro conformado, resignado a tais normas. É como se a adaptação significasse a aceitação da validade dos condicionantes sociais. É inegável que isso ocorra em uma grande quantidade de vezes, embora não sejamos capazes de especificar sua frequência. De fato, a necessidade de adaptação a um meio pode fazer com que os indivíduos sejam levados, pela força das circunstâncias, a tomar como válidas as regras que devem ser capazes de seguir para poder sobreviver, manter-se em uma profissão etc.

Apesar desse posicionamento pragmático/resignado existir, de fato, mesmo que o consideremos, por hipótese, o caso preponderante, isso não nos autoriza a igualar os conceitos de adaptação e conformismo/resignação no âmbito de nossa análise psicanalítica/filosófica. São duas disposições subjetivas bem distinguíveis, e a clareza em relação a elas auxilia pensar os casos em que elas se confundem, se mesclam. Segundo penso, a adaptação, tal como concebida por Freud em seus melhores momentos, indica a capacidade de se colocar à altura daquilo que é querido a nós, de tal maneira que sejamos capazes de estabelecer um diálogo de mão dupla entre o que desejamos e recusamos e aquilo que nos é demandado e negado pela sociedade. Por princípio, nem o indivíduo nem a sociedade são lugares-tenente nem da verdade, nem da falsidade. É necessário sempre a cada instante pensar a articulação entre os planos individual e coletivo de forma a construir uma equalização de possibilidades expressivas do que se afirma como legítimo no âmbito individual e no universal, coletivo. Esse diálogo tem, entre inúmeras faces, a tarefa, colocada ao indivíduo, de construir uma atitude politicamente orientada em relação a todas as pessoas com quem entra em contato, de tal forma que aquiescer, respeitar e aceitar um código de conduta e de vínculo afetivo, por exemplo, não necessariamente significa tomar as condicionantes da ação como válidos para si, mas para o próprio meio. Não se trata de ser hipócrita, mas sim de não querer impor padrões de autenticidade e de verdade subjetiva ao olhar e à receptividade alheias. Pode-se viver toda uma vida em um meio social de modo a seguir determinadas regras sem nunca considerá-las válidas para si, ao mesmo tempo sem se sentir “violentado” em sua disposição subjetiva por elas. — Assim, muito da neurose poderia ser entendido como a incapacidade individual de construir uma disposição subjetiva suficientemente maleável para uma inserção política na sociedade que admita como uma de suas cláusulas a consideração da existência, “verdadeira” ou não, de uma sensibilidade e um conjunto de valores diferentes daqueles nutridos individualmente.

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Um comentário:

Moisés Prado disse...

"Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente." (J. Krishnamurti)