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sábado, 31 de março de 2012

O que quer a psicanálise?

Freud disse que a psicanálise é alvo de dois preconceitos fundamentais, um intelectual e outro moral. O primeiro diz respeito ao fato de que a teoria psicanalítica afirma que toda a vida psíquica, em e para si, está fundada em princípios e forças inconscientes, de tal forma que a consciência não passa de uma superfície, sustentada por grande quantidade de fatores que dirigem nossos pensamentos, ações e sentimentos, mas dos quais não podemos ter compreensão definitiva, por mais que reflitamos sobre nós mesmos. O segundo preconceito liga-se à especificidade de tais conteúdos inconscientes, ditos como sexuais em sentido amplo, ou seja, não apenas no âmbito genital, mais particularmente fundados na vivência infantil e em uma sexualização precoce. Haveria, assim, não apenas um deslocamento do centro subjetivo, da consciência para o inconsciente, mas também uma determinação daquela por fenômenos muito pouco aceitáveis pela moral do ocidente.

Tais resistências ligam-se ao que a psicanálise estabelece, afirma, enquanto creio poder diagnosticar um outro tipo de preconceito, fundado no que ela não diz, no que se recusa a fornecer. Por mais que ela critique a moral sexual moderna e contemporânea, por exemplo, entretanto não se propõe a estabelecer parâmetros e princípios valorativos aos desejos em geral. Se, por um lado, ela é criticada por não fornecer provas e confirmações empíricas de seus enunciados e conclusões, por outro, gera facilmente a percepção de um vácuo, de uma hesitação ou indefinição quanto ao que se poderia usar como apoio com vistas à superação do estado de sofrimento, alienação e inércia cultural. Este último aspecto culmina, por exemplo, nas várias críticas que se fazem ao pessimismo de Freud de O mal-estar na civilização.

Creio que este incômodo em relação a tal postura da psicanálise torna-se visível de forma instrutiva ao lermos diversos textos que comparam Nietzsche e Freud. Sempre que a disposição do autor está em mostrar a “superioridade” do primeiro em relação ao psicanalista, a argumentação se apoia de forma bastante clara no fato de que o filósofo não apenas afirma categoricamente a valoração positiva da afirmação da vida, ao criticar o niilismo cristão, por exemplo, mas também coloca visceralmente a perspectiva de uma superação dos valores decadentes através da idéia de uma transvaloração de todos os valores, centrada na idéia do Übermensch (super-homem, além-do-homem). Em contraste a este vigor e entusiasmo com a ultrapassagem de um estado de decadência cultural, a investigação psicanalítica mostra-se, de fato, por demais vazia, indefinida e “modesta”. Em vez de articular seu discurso a partir de um delineamento positivo do desejo, como a vontade de potência, em relação à qual muito do que a contraria será taxado como desorganização dos instintos, decadência e niilismo, o psicanalista insistirá na especificidade com que fantasias, traumas e censuras inconscientes constituem o desejo do indivíduo por dentro, de modo que, seja poder ou submissão, grandeza ou apequenamento, alta cultura ou formas humildes de reprodução da vida, grandes ou pequenos e modestos ideais, etc., podem igualmente ser a expressão tanto de saúde quanto de patologia psíquica.

Toda teoria lida com conceitos universais, e não é diferente em relação à psicanálise, mas, ao mesmo tempo, ela os articula sempre tendo em vista que a verdade do desejo dependerá intrínseca e radicalmente da conformação particular, singular, da história de enfrentamento com a realidade exterior. Por mais que o conceito de recalque, por exemplo, seja tomado como universal para todo ser humano — até mesmo independente das diferenças culturais —, não contém em si um princípio que articule uma valoração específica no modo como o sujeito se relaciona com objetos da realidade. Os critérios para a saúde psíquica fundam-se muito mais no modo como cada sujeito compreende, admite, recusa, desvia e digere seus complexos fantasísticos inconscientes, do que em uma perspectiva macro, geral, universalizada, tal como é típico de diversas formas de fazer filosofia.

Esse mal-estar causado pela psicanálise evidencia-se nas leituras que filósofos e outros cientistas sociais fizeram dela. Theodor Adorno, por exemplo, se queixa, em suas Minima moralia, que a concepção de prazer de Freud é altamente ambígua, pois algumas vezes este se mostra progressista, ao recusar o caráter opressivo da cultura, mas ao mesmo tempo se mostraria até reacionário, ao dizer das neuroses como a incapacidade do sujeito de se adequar às exigências éticas e sociais (como salientamos em nosso texto anterior). Embora o aspecto conclusivo de Adorno seja equivocado, sua crítica é movida por uma percepção “correta”. De fato, nem sequer o conceito de prazer pode ser julgado, avaliado, de forma tão suficientemente inequívoca como quer o filósofo. Tudo dependerá, mais uma vez, de uma perspectiva dinâmica, que leve em conta o campo de forças altamente conflituoso e instável que subjaz ao sentimento consciente a que damos o nome de prazer. Este não se limita, em hipótese alguma, ao que é agradável, “gostoso”, aprazível etc., pois deve incluir sistematicamente o que é mórbido, corrosivo, mortífero, auto-destrutivo.

Diante disso, embora o pessimismo freudiano em O mal-estar da civilização possa ser criticado em larga medida, eu diria que a psicanálise não é nem otimista nem pessimista em relação às potencialidades humanas de construção de uma cultura e de uma forma de vida mais livre, verdadeira e eticamente responsável. Dentre os vários aspectos que constituem suas tarefas e objetivos, um seria fornecer apoio suficientemente crítico para que nos apercebamos do que gera a inércia das formas de subjetivação, tanto no âmbito individual quanto coletivo. Uma vez que esta linha inercial seja tornada maleável, os direcionamentos que surgem como novas possibilidades são deixados em aberto, demasiadamente em aberto.


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5 comentários:

Ísis disse...

Muito bom!
As pessoas normalmente buscam alguma ciência que ofereça um significado pronto para a existência, o que é bastante sedutor. Porém, o interessante da psicanálise é justamente este caminho oposto, onde, embora o desejo seja tomado como objeto de estudo, há um espaço aberto para que o indivíduo olhe para dentro de si e tome consciência do modo como se articula seu gozo.
No entanto, opto por pensar o desejo na mesma dimensão fisiológica de Nietzsche, mas saliento a peculiaridade da manifestação deste princípio, considerando a moral do super-homem, de fato, intolerante.

Glauber Ataide disse...

Costumo ficar com "um pé atrás" quando a crítica se dirige mais ao que determinada teoria ou escola de pensamento deveria ter afirmado ao invés de se concentrar no que ela de fato afirmou. E isso principalmente quando esta suposta falta não é essencial a esta escola ou pensamento, pois admito que algumas omissões podem de fato comprometer. Não sei se seria o caso em questão aqui.

Me parece que um dos motivos da psicanálise ser moderada em diversos aspectos é o seu próprio projeto inicial, que era de ser simplesmente um método de tratamento das neuroses, e nunca uma Weltanschauung. Freud tinha realmente um "insight" de que ele estava desenvolvendo algo genial, mas daí para explicar o mundo inteiro ou levar cada aspecto da psicanálise às últimas consequências - ou mesmo esperar que isso já tenha sido feito pelos freudianos poucas décadas após o surgimento da psicanálise - não me parece justo ou razoável.

A psicanálise parece mesmo maleável e aberta a diversas apropriações ou leituras. No que pese o extremo elitismo com que ela já foi concebida pela classe média pequeno-burguesa, o desenvolvimento que lhe aplicou Wilhelm Reich na Alemanha na década de 1930, quando este era do Partido Comunista Alemão e editor de sua revista de Psicologia, mostra que de fato pode ser muito frutífero considerá-la mais como uma ferramenta do que como um tipo de "filosofia" que traga em si prescrições.

Verlaine Freitas disse...

Caro Glauber,

não entendi como seu primeiro parágrafo se relaciona ao meu texto, pois não estou dizendo que a psicanálise deveria ter dito alguma coisa e não diz, e nem que isso se trata de uma falta dela, mas sim que ela se recusa a estabelecer parâmetros específicos para a valoração de atitudes e fenômenos culturais, como a disposição ética dos seres humanos. Ela não é falha em função de qualquer espécie de omissão, mas pelo contrário, sua proposta inclui precisamente deixar em aberto considerações positivas de valores específicos.

Nenhuma ciência está estabelecida pelos seus passos iniciais, seja ela experimental ou não. Parece-me altamente inadequado estabelecer a propriedade ou impropriedade de qualquer desdobramento de uma ciência em virtude do que ela se propôs em seus momentos iniciais. Por mais que Freud tenha realmente concebido a psicanálise como uma nova ciência, sua obra não é toda a psicanálise, e vários autores depois dele criticaram diversos aspectos em suas teorias, de modo a construir a teoria psicanalítica como um esforço coletivo que se desdobra e se ramifica por várias concepções bastante distintas, como a de Melanie Klein, Winnicott, Lacan e Laplanche. Que essa ciência se restrinja a um instrumento clínico ou que ela almeje realizar uma crítica cultural mais ampla, isso não está de forma alguma predeterminado por aquilo que ela foi antes de 1900.

Todas as ciências, particularmente as que se dirigem ao fenômeno social, incluindo a filosofia, não estão isentas de formas absurdas e bizarras de apropriação. Além disso, nenhum teórico de nenhuma ciência representa o espírito dela como um todo, de modo que não se tem uma a espécie de "família" em que os pais são integralmente responsabilizados pelas atitudes de seus filhos. A filosofia como um todo é tão pouco responsável e qualificável devido à adesão de Heidegger ao nazismo, quanto a psicanálise o é pela relação de Reich com o partido comunista.

Glauber Ataide disse...

Meu primeiro parágrafo não afirma nada sobre sua tese especificamente, mas a uma outra crítica que você enumera ("um outro tipo de preconceito, fundado no que ela não diz, no que se recusa a fornecer").

Estou falando sobre aquele outro preconceito que você identifica em relação à psicanálise.

O que eu quis dizer é que não acho razoável um preconceito ou uma crítica atacar determinada teoria por aquilo que ela não diz.

Isso também acontece em algumas críticas feitas a Marx por ele não ter enfatizado a questão ecológica, por exemplo, sendo que isso não estava na ordem do dia em sua época como está hoje.

Eu também não apontei nenhuma impropriedade de algum desdobramento da psicanálise devido aos seus primeiros passos. Eu só quis dizer que a sua relativa "moderação" em alguns aspectos talvez possa ser explicada por seu projeto inicial, mas é óbvio que ela é hoje muito mais que um método de tratamento das neuroses e que não há impropriedade alguma nisso.

Talvez você tenha entendido o contrário de tudo que quis dizer. Eu fiz uma defesa da psicanálise, não uma crítica a ela (inclusive estudo psicanálise no CPMG, e pretendo me tornar psicanalista).

E também não abordei o Reich de forma negativa ("formas absurdas e bizarras de apropriação"), e não concordo com a simetria que você parece estabelecer no final de seu comentário entre este e Heidegger.

Pelo menos em seu livro sobre Adorno (da Jorge Zahar) me lembro que você sempre cita Hitler em companhia de Mussolini, ao invés de seguir o velho chavão "Hitler e Stalin". Interpretei isso como uma possível superação do canto de sereia da Arendt. Mas a última frase de seu comentário me deixou em dúvida agora.

Verlaine Freitas disse...

Caro Glauber,

como disse em minha primeira resposta, realmente não havia entendido seu primeiro argumento; fiquei com a impressão, realmente, q sua crítica se dirigia à psicanálise, e não ao preconceito q abordo.

Mesmo com sua explicação sobre o segundo ponto, ainda creio q a moderação da psicanálise não seja explicada por seu projeto inicial, e sim pelos princípios de abordagem da subjetividade q lhe são próprios, tanto em 1895 qto hoje.

No caso do último tópico de sua colocação, tomei sua visão sobre Reich como propriamente negativa, de crítica, como q colocando a psicanálise entre dois planos opostos: apenas instrumento clínico ou de prescrição de valores. Creio, entretanto, q a expressão "mais como uma ferramenta" indique q não são apenas esses dois polos q vc tem em mente.