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sábado, 17 de março de 2012

O significado de uma ilusão

O conceito de indivíduo entrou em crise há algum tempo: já com a idéia de Hume sobre a identidade pessoal, baseada em um feixe de sensações, de tal forma que a unidade de si como pessoa reside na continuidade temporal, propriamente na memória das sucessivas variações perceptivas ao longo do tempo; talvez mais radicalmente com a concepção de sujeito em Kant, em que o ser humano é dito como sendo apenas um fenômeno para si mesmo, sem poder conhecer a si naquilo que possui de mais profundo — mas sem dúvida com o golpe decisivo da concepção psicanalítica de que o indivíduo (tal como se acostumou a definir como uma unidade in-divisa, inteira, separada de todas as forças e seres da realidade, mas idêntica a si ao longo do tempo) é tão-somente uma ilusão. Tal como a famosa metáfora de Freud de que os conteúdos psíquicos passíveis de serem tornados conscientes são apenas uma fração diminuta que chega à superfície — tal como um iceberg, em que mais de 90% de sua massa permanece submersa —, a percepção de si como indivíduo seria tão-somente uma aparência de uma unidade suportada por desejos, fantasias, traumas, censuras, identificações — enfim, por um emaranhado de forças internas que se contradizem, sobrepõem, condensam, deslocam, separam-se uma das outras para se aglutinar novamente, e um sem-número de outras formas de mobilidade que colocam em xeque essa pretensa unificação de superfície.

Claro está que o conceito de subjetividade, qualquer que seja sua especificação, já contém a marca dessa estratégia demolidora da perspectiva unificada da individualidade. Quem usa tal conceito para entender o ser humano — e é preciso lembrar que se trata de uma opção, uma vez que inumeráveis teorias psicológicas e filosóficas, bem como de antropologia etc., ignoram-na completamente — paga um alto preço, pois entre as diversas dificuldades que ele apresenta, não é a menor o fato de que o sujeito, na verdade, parece se sustentar em si mesmo, ser constituído por estratos, níveis de aglutinação, agrupamento, síntese, desvio e articulação de forças que estão na base de sua própria atividade. É como se o sujeito fosse um produto sempre tardio de si mesmo, de forma que, olhando para si, por mais que tente se apoderar do que sustenta uma forma de experiência com a realidade, interna ou externa, ele se apóia naquilo que, na verdade, deveria ser seu objeto de conhecimento. Não é difícil ver que temos delineado uma espécie de redemoinho, em que a cada círculo da espiral que se aprofunda, corre-se o risco de perder toda perspectiva de um fundamento mais seguro.

O conceito de subjetividade, assim, parece dissolver o indivíduo na interioridade sem-fim de movimentos que o suportam, com o agravante de eles mesmos necessitarem de apoios mais enigmáticos ainda. Para aquele que quer, com a teoria, entender “melhor” o ser humano, a aposta em um conceito que se estratifica de forma umbilical, que cedo esbarra em conceitos por demais especulativos, meramente hipotéticos, abstratos, não parece realmente muito promissora. De fato, diversas correntes contemporâneas não apenas ignoram tal conceito, mas como programaticamente o combatem, em favor de concepções voltadas para a interação comportamental do sujeito com seu meio ambiente natural e humano, formas de comunicação, base neuro-biológica etc.

Se, por outro lado, o conceito de subjetividade coloca em xeque o indivíduo, este tampouco pode ser dito como presente em todas as formas culturais. Tal como as reflexões de Hegel e de correntes antropológicas e filosóficas do século XX explicitam várias vezes, as civilizações tribais e míticas anteriores à Grécia demonstram, nos documentos culturais que chegaram até nós, uma concepção do ser humano desprovida do que hoje chamamos de indivíduo, ou em que este estava muito fracamente constituído, pois cada um se dividia, se irmanava, interagia com as forças naturais, cósmicas e com os demais membros de uma tribo. É como se cada um se inserisse num complexo de forças, de seres e de acontecimentos percebidos como em constante interação dramática, sem o delineamento objetivista a que já estamos acostumados. Tal como diversas narrativas mitológicas nos demonstram, tanto as forças naturais e sagradas são entendidas como metáforas e projeções de sentimentos humanos, quanto estes também são entendidos a partir de analogias com tais forças cósmicas, sobrenaturais e coletivas.

Assim, vemos que a individualidade não apenas não existiu desde sempre, como foi colocada em xeque pelas concepções que a entendem a partir da subjetividade. Além disso, considerações sociológicas que dialogam com a psicanálise aprofundam esta estratégia de colocar em dúvida a realidade do indivíduo ao dizerem que na sociedade de massa, típica dos países industrializados, em que vigora um alto índice de atomização social, pois cada indivíduo se descola de valores simbólicos tradicionais, tem-se uma multiplicidade de influências e fatores sócio-culturais que faz com que até mesmo o indivíduo considerado de um ponto de vista psicanalítico, com seu id, ego e superego, ou inconsciente, pré-consciente e consciente, não mais exista. Tanto Marcuse quanto Adorno dizem que essa individualidade, assim estruturada, não existiu antes da época moderna, e no capitalismo tardio não existe mais.

Em que pesem as várias diferenças de concepção das teorias psicanalíticas, parece-me clara uma característica valorativa em comum, de tratar os substratos inconscientes como o que há de mais verdadeiro nos seres humanos, mais substancial, de modo que a superfície, em que vigora uma percepção unificada, sintética, de si mesmo, é não apenas superficial, mas fruto de distorções, falseamentos e auto-enganos a serem desfeitos, destrinchados, analisados em seus fundamentos psíquicos — estes, sim, tomados como o que há de mais essencial em cada um.

É inegável que este processo analítico é de crucial importância. A perspectiva unificada do indivíduo, quando não mediada por este processo analítico, demonstra não apenas um desconhecimento, mas também uma alienação em relação a si próprio, de modo que somos movidos, de forma decisiva e prolongada por forças que agem através de nossa perspectiva consciente, sem que tenhamos, muitas vezes, a menor consciência de sua importância e significado ao longo do tempo.

O outro lado da moeda é que, ao tomar contato com a importância extrema deste processo de escavação arqueológica do indivíduo, pode-se ser ofuscado pelo brilho que este conhecimento traz, de tal forma que o âmbito “ilusório” da individualidade tem sua importância por demais reduzida. É bem verdade que o indivíduo, sem a mediação de um conhecimento analítico sobre si, transforma-se em um fantoche de seus próprios desejos, mas também me parece verdade que o resultado destes processos de síntese, que confluem para a individualidade, possuem uma dinâmica construtiva que deveria receber atenção substancial. É necessário considerar de perto o esforço de objetivação social e cultural mediado pela consciência da multiplicidade profunda das forças que constituem o indivíduo por dentro. Se este é uma ilusão, é preciso considerar que nem todos conseguem formá-la, como é o caso de um surto psicótico, em que o eu se fragmenta, se divide, de modo que nem a continuidade temporal permanece.

Por mais que o indivíduo contemporâneo se fragmente em infinitas influências sociais, econômicas e culturais em geral, por mais que tenha perdido o vínculo com formas simbólicas legadas pela tradição, de forma alguma eu diria, ao contrário de Adorno e Marcuse, que o indivíduo psicanalítico não existe ou está em vias de desaparecer. Essa dissolução social do eu, a que Adorno gosta de se referir como pseudo-individualidade, parece-me apenas uma configuração deste processo construtivo, uma face do movimento de se assenhorar de suas próprias forças internas, de digerir suas contradições, deslizamentos e formas de se atualizarem. É inegável que a sociedade massificada que se estabeleceu a partir de meados do século XX coloca desafios para a reflexão teórica acerca do indivíduo, mas em hipótese alguma significa que este processo individual de aglutinação de fatores psíquicos e sociais perca realidade/relevância como objeto de estudo próprio. Em outras palavras, não é por se sustentar precariamente no torvelinho de forças que se ramificam indefinidamente para dentro de si, nem por se perder no prisma de significações ocas da sociedade de consumo, que o indivíduo deva ser expropriado do sentido que possui o esforço de sua unificação, por mais precária que seja. É neste movimento pendular — ditado pela polaridade de forças íntimas/internas e pelas configurações eternamente cambiáveis do âmbito sócio-cultural —, que os textos deste blog procuram, de alguma forma, trafegar.

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