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sábado, 10 de março de 2012

Sublime nonsense

A posição da cúpula da igreja católica quanto às relações sexuais, expressa nas colocações e enunciados oficiais do Vaticano, é de que elas não apenas sejam praticadas somente após o casamento, quanto que sua finalidade, seu sentido próprio, é a procriação. Embora a castidade pré-matrimonial seja bastante instigante como objeto de análise, pois envolve um complexo de valores morais e de idealização do amor, gostaria aqui de focar a segunda parte daquele posicionamento, que restringe drasticamente o sentido da sexualidade ao plano reprodutivo. Interessa-me especialmente o caráter sumamente irrealista desse posicionamento.


Quem estuda filosofia e psicanálise, acostuma-se a ter sua atenção despertada por dois opostos: o óbvio e o absurdo. O primeiro, pelo fato de que sempre esconde alguma problematização, alguma sedimentação social de princípios que são bem mais complexos do que se gostaria de admitir, ou que planos ideológicos de concepção de mundo gostariam que fossem questionados. O absurdo, por sua vez, nos incita a pesquisar um sentido subjetivo latente, não manifesto, cuja explicitação remove a aparência de pura irracionalidade, nonsense. Nesse sentido, a posição oficial da igreja católica é tão absurda, que demanda um investigação específica, isso não apenas por uma consideração acerca da dinâmica e do valor que a sexualidade tem para a vida humana, mas já pela própria imagem que aquela instituição produz na mente de seus seguidores, considerando que a esmagadora maioria dos casais católicos abstrai completamente desse posicionamento em sua vida conjugal, tal como o fazem vários padres, tomando o amor como razão de ser do casamento, e isso não apenas em termos do afeto mais espiritualizado. Dito de forma bem direta: por que o Vaticano insiste em manter um posicionamento tão absurdo, contrariando a experiência afetiva mais do que evidente de que a sexualidade no matrimônio não pode ser reduzida à geração de filhos?

A resposta que me parece mais clara à primeira vista é a de que a igreja católica quer “marcar posição”, estipulando um ideal de comportamento que, embora muito discrepante com a realidade dos afetos, demonstra seu empenho, determinação e perseverança em manter-se para além das vicissitudes com que os seres humanos tergiversam sobre o que é legítimo, válido, nobre etc. De forma análoga a como Deus transcende, ultrapassa, de forma incomensurável todas as limitações e fraquezas humanas, um ideal como aquele também não precisa se medir com as vicissitudes dos afetos. A Igreja, como instituição, se sentiria à vontade para encastelar-se em mundo de valores sublimes, inalcançáveis, cujo distanciamento em relação ao mundo prosaico e mesquinho, em vez de enfraquecer sua legitimidade, reforça sua imagem de proporcional transcendência em relação à esfera da vida profana, não-sagrada. Deste modo, apesar de se distanciar da realidade de forma evidente, ela seria vista, pela população católica em geral, como estando em seu “lugar próprio”, a saber, de guardiã de determinados valores que demarcariam um espaço próprio, não sendo meios através dos quais se poderia avaliar, questionar, a legitimidade da própria instituição como estipuladora de ideais de conduta.
Parece-me inquestionável que este é um dos fatores que contribuem para a continuidade não apenas deste posicionamento da Igreja, mais de outros que sofrem essa mesma característica de falta de observância da dinâmica dos valores ao longo da história dos povos. Por outro lado, isto é apenas um dos aspectos envolvidos, uma vez que o distanciamento sublime de um valor deve ser visto a partir de uma lógica de estruturação ideológica, dentro de um conjunto de práticas e vivências postas em diálogo entre formas culturais, instituições, e a massa de indivíduos que se relacionam com elas.

Por mais que a prescrição de abstinência sexual antes do casamento seja vista como pouco razoável nos dias atuais, ainda possui uma legitimação de princípios capazes de serem discutidos no universo social. Que o envolvimento sexual seja mediado por uma confirmação social de um compromisso afetivo, a bem dizer, ocorre em diversos graus e formas em muitos relacionamentos afetivos. Que tal assunção social seja adiada até o matrimônio é apenas um grau que muitos de nós pode considerar excessivamente rigoroso, mas, diria eu, não pode ser tachado de simplesmente absurdo, irrealista. Essa prescrição abrange todo o complexo de interação íntima entre duas pessoas, e o quanto cada casal está disposto a adiar a intimidade sexual dirá respeito às opções próprias de cada um. (Voltarei a este tema em outra postagem aqui no blog.)

Outro é o caso da restrição do sexo à geração de filhos, pois fica claro que está em jogo aqui não propriamente este complexo total de envolvimento da intimidade afetiva entre as pessoas, mas sim apenas um de seus elementos: o prazer. O alvo da interdição é propriamente a mescla da sexualidade com toda a satisfação que sua prática proporciona. O que a igreja católica precisa sempre manter sob limites bastante estreitos é a assunção de que todo o torvelinho emocional, de prazer, de gozo, de entrega, de violência simbólica, de apropriação do corpo do outro etc., possa fazer parte da lógica de afirmação de si. A sublimidade do amor plenamente espiritualizado, dirigido a Deus, deve ser mantida a uma distância o mais segura possível do amor sexualizado, de modo a apagar a percepção de graus de proximidade e distanciamento entre ambos. As contradições, incertezas, os conflitos e a dialética própria do âmbito sexual, em cuja dinâmica jamais se pode esquecer de incluir as decepções, desgostos e amarguras, deve ser colocada em um polo oposto, diametralmente alheio ao princípio do amor plenamente espiritualizado. 

A posição do Vaticano é coerente. Para alimentar constantemente a soberania do Espírito sobre todas as vicissitudes dos desejos, sentimentos, interesses, fantasias, associando-o ao âmbito inequívoco, absoluto e perfeito de Deus, precisa manter a dialética da sexualidade submersa no plano da mera natureza, ou seja, dos fins naturais de reprodução da espécie. O êxtase sexual e a afirmação de si na aventura da sexualidade devem ser tendencialmente apagados, ter sua significação sistematicamente obscurecida pelo contraste cristalino com a certeza inabalável de se pertencer ao reino da bondade, da beleza e da verdade. Temos dois âmbitos, dois polos, cuja característica em comum é a ausência de ambiguidade presente nas vicissitudes do amor sexual: a natureza, com suas relações e dinâmicas biológicas, determinadas por mecanismos que estão aquém dos processos de subjetivação, e a alma, o espírito, associados ao caráter unívoco da razão, que aproxima os seres humanos daquele que é um puro Espírito, desprovido de toda a ambiguidade emocional própria dos seres humanos.

Deste modo, a irrealidade do afunilamento drástico do sexual à mera reprodução no matrimônio não apenas marca uma posição da igreja católica perante as vicissitudes da vida profana, quanto a exime da difícil tarefa de harmonizar a lógica do prazer conflitivo da sexualidade com a sobriedade de uma doutrina que preza pela elevação incondicional do espírito.

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Um comentário:

Ísis disse...

A Igreja, estruturada a partir de um sistema metafísico da moral, afirma-se enquanto "super-ego", jogando com o sentimento de culpa de seus adeptos. No estabelecimento do vínculo religioso, a culpa parece mais importante do que a crença em Deus, pois esta relação se garante na ideia de "pecado" e fraqueza. Assim, a resignação, mediada pelo enfraquecimento da vontade humana, aponta uma invasão da moral no âmbito do prazer, onde o gozo pode caracterizar um processo criativo fundamental à constituição dos indivíduos.
Gostei muito do seu indicativo no texto; que a posição do Vaticano, absurda e irrealista, denuncia o modo fácil de resolver a tarefa árdua que seria harmonizar duas esferas conflitantes: o prazer sexual e a elevação do espírito.
O que é sempre curioso é o fato de que muitos optam pelo deslocamento da libido à esfera dogmática, como se o prazer estivesse justamente na auto-anulação.