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sábado, 21 de abril de 2012

Ficções enganosas


Quando se faz crítica cultural, tomando como objeto a cultura de massa ou a religião, por exemplo, uma questão que deveria sempre ser considerada, como elemento constituinte do princípio de análise, são as infinitas diferenças possíveis entre o modo como cada pessoa absorve e assimila um padrão de comportamento, mensagem, discurso etc. A cada vez que se qualifica uma determinada obra de cultura de massa como alienante em algum aspecto, ou de qualidade estética ruim, ou ainda como veículo de algum conteúdo ideológico, uma questão que sempre se pode levantar é o quanto tais princípios são válidos universalmente, para todas as pessoas. Esse questionamento tem razão de ser, especialmente quando estamos diante de uma análise que faz uma consideração por demais homogeneizadora em relação a um determinado tipo de obra e, principalmente, de forma extremada, “radical”. Em resposta a tal crítica, um partidário dessa forma de análise pode facilmente recorrer ao conceito de tipo ideal, mais ou menos próximo ao modo como Max Weber o concebeu. Em linhas gerais, essa defesa se baseia na perspectiva de que não se diz que todas as pessoas percebem certo conteúdo da mesma maneira, mas sim que se trata de um modelo idealizado, de tal forma que se abstraem as diferenças do modo como os espectadores assimilam uma obra, formando um quadro geral, cujo delineamento estabelece uma espécie de parâmetro ao qual as pessoas se aproximariam em diversos graus, bem como de diferentes formas, a depender de suas diferenças individuais. Uma visualização típica para isso é a da curva da assíntota, em que uma linha se aproxima de um eixo sem nunca tocá-lo.

Não é o caso de discutirmos aqui a validade do conceito de tipo ideal, nem de esclarecê-lo, mas tão-somente analisar de forma crítica o que significa sua aplicação em determinados casos que comungam uma característica significativa para o propósito da crítica cultural.

Em um texto em que fala sobre a relação entre o âmbito individual e o coletivo, Theodor Adorno diz o seguinte:

“Conformes à época atual são aqueles tipos que nem possuem um ego, nem agem propriamente de modo inconsciente, mas espelham de modo reflexo o movimento objetivo. Eles praticam todos um ritual sem sentido, seguem o ritmo compulsivo da repetição, empobrecem-se afetivamente: com a destruição do ego, eleva-se o narcisismo ou seus derivados coletivos” (Zum Verhältnis von Soziologie und Psychologie. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1997, p.83).

Essa passagem aparece em um momento nuclear do texto em que o autor critica os processos de integração do indivíduo na maquinaria da objetividade social. Embora seja sempre necessário ler passagens dentro de seus contextos argumentativos, esta é suficientemente clara (e na verdade espelha muito do que o autor diz em várias outras obras, tanto na Dialética do esclarecimento, escrita nos anos 40 em parceria com Max Horkheimer, quanto em outros posteriores). Está muito bem delineada a intenção argumentativa: para compreender o quanto os indivíduos parecem se submeter totalmente ao movimento de conformação social, Adorno diz que alguns tipos deixam de possuir um ego e até mesmo um mecanismo inconsciente que os levaria a agir de modo idiossincrático ou neurótico. Em lugar dessas instâncias subjetivas, íntimas/internas, haveria um comportamento como de um arco reflexo, de ação e reação imediata, de tal forma que não só as ações não seriam mediadas por uma reflexão consciente, como nem mesmo por motivações inconscientes (!). A segunda frase acentua esse argumento, na medida em que diz que a ação não possuiria sentido, pois seguiria o ritual compulsivo de repetição, aliando a pobreza afetiva à destruição do ego.

Tal como falei acima, se argumentos como esse são criticados pelo fato de estabelecerem uma posição extrema, desconsiderando das vicissitudes das constituições subjetivas reais, a defesa mais claramente disponível é a de que Adorno não estaria fazendo uma descrição literal de pessoas concretas, mas apenas estabelecendo uma tipificação idealizada em relação à qual se pode pensar que os indivíduos se aproximam em certo grau e de certa forma. No próprio texto não falta apoio para isso, na medida em que se diz, no início,  “aqueles tipos”, embora não creio que isso signifique propriamente o conceito de um tipo ideal, mas sim indivíduos que possuem esta característica em comum descrita no restante da passagem. Mas na medida em que tal argumentação é tomada como uma idealização, então estaria em jogo o delineamento de uma tendência de configuração subjetiva que se consumaria em maior ou menor grau.

Em meus trabalhos iniciais sobre Adorno, tanto na dissertação de mestrado quando na tese de doutorado, tomei esta forma de leitura como sendo uma saída plausível para conceder validade a tais colocações, posto que sempre pensei que não deveriam mesmo ser tomadas de forma literal, mas tão-somente como um ponto de fuga aproximativo. Na medida em que tive contato com a psicanálise de uma forma diferente daquela que o próprio Adorno praticou, vejo que esta forma de leitura não é suficiente para, por assim dizer, “salvar” tais colocações extremadas, principalmente quando dizem da relação entre indivíduo e coletividade.

O grande problema que vejo nessa argumentação de Adorno é que ela estabelece uma tipificação que não apenas não se realiza — o que é perfeitamente compreensível, devido ao fato de ser uma idealização —, mas como também apresenta um hiato, um fosso, um “gap”, uma descontinuidade essencial entre o âmbito real/concreto e o plano idealizado. Por mais que os seres humanos ajam de forma irrefletida, por assim dizer “automática”, identificando-se com tendências e modismos, imitando comportamentos de forma prolongada e reiterada etc., não apenas continuarão a ter um ego e motivações inconscientes, quanto tomarão como objeto de desejo propriamente dito a prática de tais imitações e identificações. Não se ganha uma compreensão melhor acerca do que move as pessoas a querer imitar seu meio ambiente dizendo que elas agem como um arco reflexo, como se fossem animais, um mero espécime biológico, para usar uma expressão usada por Max Horkheimer em seu livro Eclipse da razão ao falar desta mesma temática da relação entre indivíduo e o peso da coletividade.

De um ponto de vista descritivo, de observação do modo de agir de milhões de pessoas, é sedutor empregar uma tipificação como aquela, na medida em que as ações apresentam externamente, de fato, muitas semelhanças com um comportamento isento de mediação, como dos animais. Nesse sentido, algumas pessoas imitariam padrões de forma mais automática e outras menos, de modo que se poderia dizer de um extremo, apenas abstrato, idealizado, em que as pessoas deixariam de ter um ego e de serem movidas por impulsos inconscientes. O grande problema é que os conceitos de ego e de impulsos inconscientes não se prestam a este raciocínio aproximativo, pois querem dizer de uma dinâmica subjacente aos comportamentos verificados e descritos empiricamente. Não faz sentido dizer que as pessoas tenham menos ego e menos impulsos inconscientes na medida em que seus comportamentos demonstrem menos reflexividade e crítica. Excluindo os casos de estruturas psicóticas — em que o ego parece de fato se esfacelar e os impulsos inconscientes estão de tal forma desorganizados que não parece haver nem mesmo um conflito psíquico, mas sim uma oposição não-suavizada de forças —, podemos dizer que a anulação de tais mediações psíquicas não apenas não esclarece a dinâmica subjetiva que leva à integração do indivíduo na coletividade, como se mostra até mesmo certa má-fé, ou melhor, uma ingenuidade teórica grave.

Colocar como ponto de fuga do conformismo individual a anulação de instâncias subjetivas tem, segundo penso, o sentido de retirar de cena, “escotomizar”, a difícil reflexão acerca do quanto as pessoas estão implicadas em seus desejos no processo de assimilação da cultura. Por mais que uma ação se mostre alienada e configure um comportamento automatizado e de pura duplicação de padrões sociais, é sempre necessário, segundo penso, manter em vista a idéia de que a estrutura subjetiva é mobilizada no sentido de que cada um aprende a desejar ser aquilo que é a partir do modo como assimila, individualmente, todos fatores culturais de sua formação. Em vez de estabelecer um parâmetro idealizado que nega as mediações subjetivas, é necessário um olhar face a face com as vicissitudes de um desejo de entrega de si a modelos instituídos socialmente.

Não é difícil concluir, a partir dessas ponderações críticas, que aquela tipificação ideal tende a deslocar toda a responsabilidade da acoplagem violenta entre sociedade e indivíduo para a força e poder de determinação da primeira sobre o último. Nossa perspectiva, diferentemente, quer insistir no quanto existe ainda de gozo e de expressão da própria subjetividade, ou seja, de prazer, nas ações e comportamentos mais radicalmente conformados, de “mera” duplicação de atitudes praticadas em determinado meio. Em suma: para abstrair do desejo, é preciso fingir que não se trata de um ser humano — não me parece uma boa ficção.

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