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sábado, 14 de abril de 2012

Mediações indigestas


Certos equívocos são bastante didáticos, pois ajudam a esclarecer algum aspecto da realidade muito significativo. Isso se dá, muitas vezes, pelo fato de serem menos fruto de uma incompreensão do que de uma perspectiva ilusória, ou seja, por exprimirem um forte desejo de que realidade seja de uma determinada forma, exercendo certa violência sobre ela. Deleuze e Guattari, em seu livro conjunto O Anti-Édipo, fazem uma dura crítica à ideia de complexo de Édipo, empregada não apenas por Freud, mas também por Melanie Klein, Lacan e outros. Esta noção, de fato, é muitas vezes empregada de forma artificial, pois é imposta ao analisando como uma solução previamente “sabida”, desconsiderando diversos aspectos da constituição psíquica que a colocam em xeque. A especificidade da constelação de fantasias, traumas, recalques e censuras individuais cede lugar a uma aplicação esquemática, em que o analisando é “instruído” a ler em si mesmo tudo o que pode corresponder ao triângulo amoroso filho-mãe-pai. Creio que isso seja especialmente válido em diversas passagens da obra de Melanie Klein.

Embora a crítica ao complexo de Édipo me pareça realmente adequada em diversos contextos da literatura psicanalítica (bem como de certas práticas), a perspectiva dos autores franceses peca por jogar fora o bebê junto com água do banho, pois nem tudo contido no princípio geral da idéia de complexo de Édipo deve ser descartado. Que a teia fantasística que nutre as forças psíquicas não deva ser circunscrita a um princípio esquemático triangular não significa, em hipótese alguma, que não haja a mediação de fantasias determinadas historicamente como princípio motor dos desejos. A idéia de um desejo produtivo em sua raiz exprime, segundo penso, uma ilusão talvez mais grave do que a ligada ao complexo edipiano. Ela me parece claramente fruto do desejo de não sermos determinados por eventos arcaicos, primordiais, pelos quais passamos em nossa primeira infância. Quer-se conceber o ser humano como fruto de renovações constantes, capaz de se redirecionar para infinitas possibilidades, sem que seus atos, sentimentos e demandas tenham em si a sombra daquilo que outrora lhe foi significativo, para o bem e/ou para mal.

Uma produção de produção infinita contraria frontalmente um princípio consagrado pela prática psicanalítica, extraído da escuta sistemática da fala do outro sobre os nós, as encruzilhadas e os descaminhos de seu desejo: apenas o que foi perdido é que pode ser desejado. Somente se deseja aquilo que exprime um modo atual de responder a uma contradição inscrita nos subterrâneos de nossa subjetividade, como um enigma eternamente à espera de uma solução, sempre precária. Não se nega, com isso, que o inconsciente não seja produtivo, mas sim que esse ímpeto de produção é mediado radicalmente pela insuficiência com que nosso eu atravessou as primeiras figuras que cristalizavam modos contraditórios de realização de desejo. Todo produzir, que se consubstancia de forma enfática na arte, demonstra, na verdade, o caráter altamente secundário de tudo o que nos dá prazer, ao mesmo tempo do que nos angustia e nos limita. Contra o otimismo do princípio de análise de Deleuze, que pensa o ímpeto desiderativo como progressivo em sua raiz mais profunda, eu diria, usando uma frase de Theodor Adorno, que ao progresso sempre se alia a sombra da mais terrível regressão. À diferença deste, entretanto, eu digo que a regressividade do desejo não é índice simplesmente de barbárie, de retrocesso na progressividade da cultura, mas se liga intimamente a toda expressão de gozo, que tanto mais demonstra a vitalidade do desejo, quanto mais se assenhora dos planos de clivagem que atravessam nossos desejos em sua fibra mais íntima.

Que devamos recusar a imposição de um complexo familiar como um cabresto ao entrelaçamento nervoso e contraditório de nossos desejos não significa que nossas fantasias pretéritas não se imponham a nós com o peso gravitacional do que sempre continuará a pulsar em nós como a seiva que alimenta nossos sonhos, sustenta nossos ideais, bem como nos aprisiona na neurose e nos esfacela na psicose. Todo o olhar para o futuro leva a marca de uma cicatriz pretérita, cuja demanda de resolução constrange a nos vermos sempre como palco para uma nova peça que obedece a um roteiro sempre e de novo reescrito, mas nunca inventado do zero.

A concepção de Deleuze e Guattari parece francamente marcada por uma concepção expansionista do desejo, que o concebe como se afirmando indefinidamente pelo ímpeto de ter mais, de poder mais, de se assenhorar de si e das coisas como uma via para um aumento constante de uma força vital. É inegável a enorme influência do vitalismo de Nietzsche, com a idéia de uma vontade de poder e de sua moral fundamentada na afirmação da vida. Essa perspectiva considera sempre a atualidade imperiosa do desejo no momento em que se afirma, enquanto a visão psicanalítica insiste em que todo gozo exprime o quanto somos devedores de um passado que insiste em se fazer presente em todas as suas contradições.

Claro está que não podemos “provar” a validade de nossas afirmações. Elas são fruto de uma forma de ler o desejo humano através da mediação das falas do outro, em que a regressividade imanente a todo desejo é demonstrada pela trajetória “elíptica” das fantasias, que testemunha o quanto a vida psíquica gravita ao redor de um núcleo de atração extremamente forte. Em contraste com tal mediação, a perspectiva de Deleuze e Guattari parece claramente fundamentada em uma estratégia por assim dizer especulativa, derivada de uma disposição de articular e conceber princípios não necessariamente conectados com uma problemática que somente surge a partir deste olhar “objetivo” sobre o desejo, ou seja, como visto “do lado de fora”, tal como na escuta psicanalítica. Por outro lado, a prática clínica não garante, por si, que não se ceda a essa tentação especulativa, pois a todo momento temos a oportunidade de dissolver os nós e as contradições do desejo em planos por demais abstratos, sejam eles filosóficos, poéticos e até cosmológicos.

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